sexta-feira, junho 04, 2010

Rosa Coutinho


Na noite decisiva de 24 para 25 de de Abril de 1974 o então capitão de fragata Rosa Coutinho cumpria o seu serviço de rotina na sede do Comiberland. Nessa madrugada, o movimento dos capitães desencadeava as acções militares que, horas depois, poriam fim ao mais longo regime fascista deste século na Europa. Na noite de 25 para 26 de Abril, reunia-se no quartel da Pontinha a Junta de Salvação Nacional, de que Rosa Coutinho fazia parte, nomeado pelos oficiais do MFA da Marinha. As contingências atribuladas do processo fizeram com que fosse um dos oficiais da Junta isentos de funções de chefia militar, situação não prevista no protocolo anexo ao Programa do MFA. Ele e o general Galvão de Melo foram então afogados, no vazio de Governo, pelos problemas de um País que expunha as suas chagas, os seus sonhos e anseios, e tinha finalmente quem o ouvisse. Nomeado mais tarde presidente da Junta Governativa de Angola, a Rosa Coutinho, promovido a almirante por força dos regulamentos militares aplicados às altas funções que a Revolução lhe atribuiu, coube o papel mais duro e controverso do processo de descolonização.

A breve entrevista que se segue, concedida, 25 anos depois, ao jornalista Armando Pereira da Silva, não trará novidades absolutas. Mas é uma reflexão serena que ajudará a compreender o episódio mais marcante da nossa história contemporânea.

A constituição da Junta de Salvação Nacional continua a ser um processo pouco claro, e aparentemente dos mais contraditórios, aos olhos da opinião pública. Que se passou?

Deve ter-se em conta que, para os militares, o respeito pelas hierarquias é um valor fundamental. E os capitães, que organizaram e concretizaram o golpe militar, estavam atentos à natureza da sua instituição. Não seria fácil fazer passar a ideia de um país governado por capitães. Por isso decidiram escolher sete oficiais generais de 4 estrelas para constituírem a Junta de Salvação Nacional. Todos com funções militares: um presidente da Junta e da República, um chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, dois vice-chefes, três chefes de Estado-Maior dos ramos. As regras estavam definidas num documento pouco conhecido, o Protocolo anexo ao Programa do MFA, julgo que só publicitado num livro do Dinis de Almeida.

Mas como foi feita essa escolha?

Havia dois nomes óbvios e inevitáveis: Costa Gomes e António de Spínola. Aceitaram, embora não se tivessem comprometido directamente no levantamento. Os outros seriam escolhidos nos próprios ramos pelos oficiais do MFA. O Exército nomeou Silvério Marques. Da Força Aérea, foram nomeados Diogo Neto, que nada tinha a ver com o Movimento: era um operacional sem formação política, que ainda pilotava aviões a jacto, um dado importante para a mentalidade militar; e Galvão de Melo, já na reserva, que havia tomado atitudes de rebeldia profissional contra o anterior regime. Na Marinha procuraram oficiais generais ou próximos dessa patente. Pinheiro de Azevedo aceitou logo. Eu fui o quarto convidado: era capitão de fragata, comandante de um navio. Nenhum dos membros da Junta teve papel activo no golpe. Só Spínola ganhara uma certa projecção mediática imediata: o capitão Salgueiro Maia não quis assumir a responsabilidade pessoal pela rendição de Marcelo Caetano e chamou-o ao quartel do Carmo para o efeito.

Anunciava-se uma gestão difícil...

Era um autêntico saco de gatos. Os oficiais da Junta, na sua maioria, foram promovidos para poderem exercer as funções. Nem se conheciam. Reuniram-se pela primeira vez na Pontinha, à noite. Menos o Diogo Neto que estava em Moçambique, não sabendo o que se passava. Alguns nem sequer conheciam o Programa do MFA, casos de Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Nessa mesma noite, por iniciativa do Costa Gomes, foi convidado Spínola para Presidente da República. Costa Gomes seria CEMGFA. Aceitaram. Primeira discussão, difícil, do Programa, que sofreu algumas alterações “suavizadoras”, sobretudo no capítulo da descolonização. Spínola até já tinha escolhido um novo director para a Pide/DGS que, entretanto foi decidido que após expurgada, continuaria em funções no Ultramar com a designação de Polícia de Informação Militar. As negociações arrastaram-se e atrasaram, o que não era conveniente, a proclamação pública da Junta. Mas a Comissão Coordenadora não abdicou do seu direito de manter ou não a confiança nos membros empossados. Essa reserva acabou por ter efeitos práticos no 28 de Setembro, quando foi retirada a confiança a três deles: Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Como Spínola renunciou, a Junta ficou então reduzida a três.

Em síntese: o Protocolo não foi cumprido, porque Diogo Neto e Pinheiro de Azevedo não quiseram ser vice-chefes do Estado Maior General das Forças Armadas, antes chefes dos respectivos ramos. Em consequência, eu próprio e Galvão de Melo ficámos sem funções militares definidas. Foi tudo feito sobre o joelho, com consequências graves sobre o funcionamento do sistema resultante da Revolução. A administração pública caiu em cima de dois membros da Junta até à formação do 1º Governo. Eram sobretudo problemas laborais. A Junta tomou decisões que por vezes contrariavam as orientações da Comissão Coordenadora. Uma delas: mandar Marcelo Caetano e Américo Tomaz para a Madeira, e depois para o Brasil, decisões estas combatidas pelas estruturas do MFA. A Junta inicial durou até ao 28 de Setembro. Reconstituída, o seu papel passou a ser essencialmente militar.

Fale-nos agora da intervenção dos militares de Abril na vida política, depois da Revolução. Havia uma noção clara do seu papel?

Os capitães derrubaram o regime anterior e, por isso, tiveram o apoio de uma imensa maioria do nosso povo. Elaboraram e aprovaram um Programa de regeneração da vida portuguesa, se quiser assente nos três DDD: democracia, descolonização, desenvolvimento. Criaram as estruturas de arranque do novo regime democrático, e definiram como seu papel essencial o da vigilância quanto ao cumprimento do Programa do MFA, ponto fulcral da Revolução. Papel esse que se revelou decisivo face às tentativas continuadas de o subverter, a partir do próprio Presidente Spínola. Foi este que quis esvaziar o MFA, diluindo-o precocemente no conjunto das FA, retirando-lhe a capacidade de intervenção nas questões mais relevantes, incluindo a descolonização. Era ele próprio que escolhia não só o Primeiro-Ministro, como os próprios ministros... Foi assim até ao 28 de Setembro. Não se tratava de devolver o poder aos civis, mas de eliminar o MFA e suas estruturas. Quis chamar a si a descolonização, mas o MFA não consentiu. Está aí a raiz da crise Palma Carlos: a solução, que se impunha com premência, do problema da Guiné e a transformação das eleições para a Constituinte num plebiscito nacional, subvertendo o Programa do MFA. Os mecanismos de precaução voltaram a funcionar: o Conselho de Estado alterou a Constituição, como era de sua competência, e Spínola teve de anunciar a independência da Guiné. E eu, que já estava em funções em Angola, não sabendo tudo o que se passava, até o felicitei pelo discurso pronunciado...

Descolonização. O almirante Rosa Coutinho acabou por ter um papel fulcral na concretização do processo, quanto mais não seja porque exercia funções da maior responsabilidade na “joia da coroa” entre as antigas colónias: Angola. A esta distância, como definiria o processo? Fez-se a descolonização necessária, a possível, como foi?

Situemo-nos na época: tanto o 25 de Abril como o apoio popular esmagador que lhe foi dado revelaram que a grande preocupação da população portuguesa era a esperança de que finalmente iam terminar as guerras coloniais. Ao fim de 13 anos de esforço continuado em três frentes, todos estavam fartos: militares e população. Não havia saída com os descendentes de Salazar no poder. As guerras até eram relativamente baratas, mas o esforço nacional foi tremendo. Cerca de um milhão de jovens portugueses passaram pela guerra, com números importantes de mortos, feridos e traumatizados psicológicos.

O sentimento da população reflectiu-se na maneira como foi feita a descolonização. Iniciada a democratização interna (com o fim da censura e da Pide), a descolonização era um imperativo de execução rápida. A permanência das Forças Armadas nas antigas colónias não podia ser prolongada. Nem os militares nem a população aceitavam a substituição dos soldados presentes. Não havia possibilidade de negociar em situação de força real. Na prática, o prazo estava fixado. Puxemos pela memória: em Portugal gritava-se: «nem mais um soldado para as colónias». E em finais de 1974, em Angola, gritava-se: «Portugal para o Natal». A operacionalidade caiu a pique, exceptuando as forças especiais. As restantes o que queriam era o regresso à família. A pressão em Portugal era idêntica. Daí que se tivessem de fazer negociações rapidamente com movimentos independentistas reconhecidos pela Organização dos Estados Africanos. O problema estendeu-se a todas as colónias, mesmo aquelas onde não havia luta armada.

E na prática, como foi?

A descolonização em si não foi exemplar nem perfeita. Foi a possível. Evitou-se um descalabro, que seria trágico para o País e para as Forças Armadas, como aconteceu à França na Argélia e no Vietnam. A descolonização pecou por ser tardia. Devia ter sido iniciada 10 anos antes, quando havia condições reais de protecção das pessoas e bens portugueses. Tal como foi, representou uma espécie de intervenção cirúrgica em desespero. Os que tiveram de a fazer fizeram o papel de cirurgiões de último recurso. Não podia ser exemplar. O prazo foi determinado pela impossibilidade de rendição das tropas.

A descolonização teve efeitos concretos no desenvolvimento do processo revolucionário de Abril?

Claro que sim. A forma como teve de ser executada deu motivo às sucessivas crises do MFA. As crises Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outras que não foram reveladas, todas têm como pano de fundo o problema da descolonização. “Maioria silenciosa”? Fantasias: a crise teve a ver com o problema colonial, começou com o 7 de Setembro em Moçambique. Curiosamente, a descolonização acabou por abalar o ímpeto da Revolução: o 25 de Novembro só foi possível porque a 11 de Novembro acabara o processo de descolonização com a independência de Angola.

Para terminar: 25 anos depois, que balanço faz do 25 de Abril?

Todos sabemos que muitos sonhos não se realizaram. Mas outros, positivos, já podem ser correctamente avaliados. Portugal, hoje, é um País completamente diferente. Verificou-se uma revolução de mentalidades, ainda em curso. Evitaram-se traumas maiores da descolonização e da guerra. Não sofremos nenhum Dien Bien Phu nem tivemos uma OAS. O País reintegrou- -se num espaço europeu a que sempre pertenceu. Conquistaram-se e solidificaram-se as liberdades fundamentais, integrámo-nos com segurança na vida em democracia. Um dos efeitos mais marcantes é o poder local democrático, só possível com o 25 de Abril. O movimento sindical teve finalmente condições para florescer. A explosão educacional, embora com defeitos, embora com problemas, com incompreensões, não tem paralelo na nossa história.

Não esqueçamos o impacte internacional do 25 de Abril: ele foi enorme, apesar de nem sempre reconhecido. A Espanha, aqui ao lado, foi obrigada a uma reconversão política rápida; o processo de libertação da África Austral (Zimbabué, Namíbia, África do Sul) foi acelerado pela Revolução Portuguesa. Tudo isto deve ser para nós um motivo de orgulho.

É evidente que as coordenadas políticas e sociais vividas no País se modificaram, e outros medos se instalaram na sociedade portuguesa. O maior inimigo da liberdade é o medo. E os medos, 25 anos depois, não são os mesmos dessa época. Já não há medo da Pide, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em compensação criaram-se outros também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conseguiu com o 25 de Abril. --------------------------------------------------------------------
«O Militante» Nº 238 - Janeiro / Fevereiro - 1999

quinta-feira, junho 03, 2010

terça-feira, junho 01, 2010

quinta-feira, maio 27, 2010

terça-feira, maio 18, 2010

Amassando

O presidente do banco BPI alertou hoje que o valor em que o Estado se quer endividar até 2013 "é impossível" e "completamente impensável, considerando que um dos problemas da economia portuguesa é que o país "não se consegue financiar".

Fernando Ulrich, que falava durante a conferência promovida pela revista Exame, sob o tema Portugal em Exame, sublinhou que "o problema é que Portugal não se consegue financiar" considerando ainda que "a restrição financeira tem sido completamente esquecida" pelos responsáveis.

O conselho do presidente do BPI ao Governo começou por ser para que não se publiquem mais cenários macroeconómicos sem explicar como se financiam, entendendo ainda que a dívida de Portugal (onde inclui Estado, empresas e particulares) é "de tal maneira grande" que acredita que "não é financiável".

Para Fernando Ulrich, a discussão dos grandes projetos de investimento "está completamente ultrapassada" por não existirem condições para financiar esses projetos, ou, a acontecerem, colocarem uma pressão "gigantesca" sobre a população.

Ainda quanto ao financiamento da dívida portuguesa, o banqueiro considera que só quando o Banco Central Europeu terminar a compra de títulos de divida pública será possível observar se a economia portuguesa é ou não financiável.

O banqueiro concluiu, sublinhando que no "PEC 2", onde estão incluídas as novas medidas, está previsto que o Estado vá buscar 45 mil milhões de euros em divida aos mercados.

Para Fernando Ulrich, com a informação de que dispõe, tal será "impossível" e "completamente impensável".

segunda-feira, maio 03, 2010


... só uma última questão: Do cristo-rei, nem só o cimento da sua estructura guarda semelhança com um muro... de gerações.


Actualização de 06-05-10

Como se pode observar:
1.000 crianças.. 1.000 crianças??


Actualização de 08-05-10

Porém, parece ser que, entretanto, a voz daqueles que escutam a "chamada" humanista do cristianismo -essa variante que alguns insistem considerar Marxista- começa a escutar-se. Neste exemplo, que encontrei no resistir, podemos constatá-lo, ainda que, esta afirmação: "porventura ainda pior que o da pedofilia", não deixe de resultar leviana ou, seguramente para muitos, tendenciosa.

domingo, maio 02, 2010

Einstein in "Porquê Socialismo"

"A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis:
“como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante?
Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”

Ter claras as metas e problemas do socialismo é de grande importância nesta época de transição."



Albert Einstein
1879 – 1955

sábado, maio 01, 2010

sexta-feira, abril 30, 2010

As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo

A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra actitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.

Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação directa e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.

A doutrina de Marx é omnipotente porque é exacta. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reacção, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.


I

A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia consequente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à superstição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.

Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram, repetidas vezes, quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Duhring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.

Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - a rádio, os eletrões, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquista formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em consequência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.

Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) refletem o regime económico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base económica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.

A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operária sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.


II

Depois de ter verificado que o regime económico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime económico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime económico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.

A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime económico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma consequente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.

Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida económica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.

A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria económica de Marx.

O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exército de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenómeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um facto indiscutível.

Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo económico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.

Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.

Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.

E, de ano para ano, a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um número cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.

O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.


III

Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialistas, mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.

Porém, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento ou encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.

Entretanto, as tempestuosas revoluções que aconteciam por toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.

Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.

O génio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado consequentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.

Os homens sempre foram, em política, vítimas ingénuas do engano dos outros e do próprio e, continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. Para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam -e, pela sua situação social, devam- formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.

Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria económica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.

No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se, travando a sua luta de classe liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, tempera as suas forças e cresce irremediavelmente.


V. I. Lénine
Março de 1913

quinta-feira, abril 29, 2010

quarta-feira, abril 28, 2010

As Seis Características Fundamentais de um Partido Comunista

3ª - Ser um partido com uma vida democrática interna e uma única direcção central.

A democracia interna é particularmente rica em virtualidades nomeadamente: trabalho colectivo, direcção colectiva, congressos, assembleias, debates em todo o partido de questões fundamentais da orientação e acção política, descentralização de responsabilidades e eleição dos órgãos de direcção central e de todas as organizações.

A aplicação destes princípios tem de corresponder à situação política e histórica em que o partido actua.

Nas condições de ilegalidade e repressão, a democracia é limitada por imperativo de defesa. Numa democracia burguesa, as apontadas virtualidades podem conhecer, e é desejável que conheçam, uma muito vasta e profunda aplicação.

4ª - Ser um partido simultaneamente internacionalista e defensor dos interesses do país respectivo.

Ao contrário do que em certa época foi defendido no movimento comunista, não existe contradição entre estes dois elementos da orientação e acção dos partidos comunistas.

Cada partido é solidário com os partidos, os trabalhadores e os povos de outros países. Mas é um defensor convicto dos interesses e direitos do seu próprio povo e país. A expressão “partido patriótico e internacionalista” tem plena actualidade neste findar do século XX. Pode, na atitude internacionalista, incluir-se, como valor, a luta no próprio país e, como valor para a luta no próprio país, a relação de solidariedade para com os trabalhadores e os povos de outros países.

5ª - Ser um partido que define, como seu objectivo, a construção de uma sociedade sem explorados nem exploradores, uma sociedade socialista.

Este objectivo tem também plena actualidade. Mas as experiências positivas e negativas da construção do socialismo numa série de países e as profundas mudanças na situação mundial, obrigam a uma análise crítica do passado e a uma redefinição da sociedade socialista como objectivo dos partidos comunistas.

6ª - Ser um partido portador de uma teoria revolucionária, o marxismo-leninismo, que não só torna possível explicar o mundo, como indica o caminho para transformá-lo.


Álvaro Cunhal
15 de Setembro de 2001

terça-feira, abril 27, 2010

sábado, abril 24, 2010

Duplicam os casos de trabalhadores Portugueses escravizados em Espanha

Constatado que está que a igualdade entre os estados membros da UE não passou de mera propaganda, em Espanha continuamos a verificar como os trabalhadores Portugueses, na sua maioria itinerantes, precários, constituem cada vez mais a mão-de-obra barata que necessita este País para atenuar as devastadoras consequências da conivência com os desígnios do imperialismo.
Fomentado o retorno de muitos emigrantes oriundos de países geográfica e culturalmente mais distantes que o nosso, recorrendo em alguns casos à mentira, mas, fundamentalmente, destinando medidas e verbas para incentivar economicamente esse regresso, ao mesmo tempo que tergiversavam através da mais demagógica manipulação informativa a realidade desses que serviram a estratégia da direita, que, quando no governo, apostou fortemente nos emigrantes como factor de contenção salarial, o actual ministro do trabalho e imigração do governo “Socialista” espanhol, Celestino Corbacho, veio há dias reforçar o discurso xenófobo no qual apostam os partidos nacionalistas, particularmente depois do aprofundar das dificuldades económicas que padece Espanha, proferindo em meios de comunicação como “Rádio Punto” afirmações como: “-Todos os emigrantes que queiram vir trabalhar a Espanha, que eliminem essa questão da sua agenda imediatamente.”
Assim, partidos como Convergencia i unió, que governou durante muitos anos a Catalunya, criticam agora os emigrantes portugueses que semanalmente viajam a Barcelona para trabalhar na construção do hospital de Reus, subcontratados para o “Ayuntamiento”, ou Município dessa localidade (como informa a agência EFE), aproveitando-se este da situação para a qual atiraram o país os sucessivos governos lusos da pseudo-alternância. Nessa linha, não sendo este um caso excepcional, também na Galiza, e por motivos diversos, a “CIG”, confederação intersindical galega, aponta o dedo às Câmaras, acusando-as de não contemplar outro aspecto que não a margem de benefício das empresas empreiteiras, enquanto estas integram nos seus quadros mais de 90% de mão-de-obra vinda de Portugal, tirando vantagem do baixo nível de exigência desses trabalhadores.
Em suma, mais que indícios que apontem no sentido da clivagem socioeconómica entre os 7 países europeus com poder decisão e os restantes que gradualmente parecem assumir a imposição da sua dependência, no caso específico de Portugal deparamo-nos de novo com situações que nos transportam ao obscurantismo de outros momentos da vida nacional, reflectindo o cariz neoliberal do governo de Sócrates e de outros, como o PSD ou o CDS, que, desaproveitados que foram os fundos de coesão para reestruturação da nossa infra-estrutura, sobretudo durante a governação de Cavaco Silva, permitem que nos encontremos, hoje, com noticias que provam a dimensão da tragédia pela qual atravessa actualmente o Povo português e que o obriga a abandonar o seu país. Como exemplo poderemos ler no “Noticias de Burgos”:
“Exploravam portugueses por 20€ ao mês e mantinham-nos enclausurados.
Seis cidadãos portugueses foram detidos na sequência de uma operação da “Guardia Civil”, nas comarcas de “Ribera del Duero” e “Esgueva”, contra a contratação de mão-de-obra irregular estrangeira para tarefas agrícolas. Em dois quartos de duas residências diferentes, propriedades desta banda, as autoridades concluíram que dormiam dezoito trabalhadores aos quais se lhes pagava com alimentação, vestuário, cama e, 20€ mensais, encontrando-se os mesmos desprovidos de documentação devido ao facto desta lhes ter sido retirada pelos agora detidos.”

Não sendo a única noticia que podemos ler sobre a dimensão das perversas políticas adoptadas em Portugal, ainda em Novembro também o DN publicava:
Rede de sequestradores foi identificada pela PJ, mas estão todos em Espanha e ainda ninguém foi detido.
Nove portugueses foram vítimas:
Aliciados por salários atractivos, são levados para Espanha para trabalharem nos campos agrícolas. Do lado de lá da fronteira começa o tormento. Os angariadores ficam com o dinheiro pago pelos empregadores, prendem as vítimas, retiram-lhes a documentação e impedem-nos de fugir. Uma destas redes acabou desmantelada pela PJ da Guarda, mas nenhum dos sete sequestrados será, a breve prazo, presente à justiça portuguesa. O líder da rede está preso em Espanha, à ordem de outro processo, e os outros elementos da rede estão apenas identificados. “No conjunto são nove vítimas que foram aliciadas a trabalhar em Espanha. Quando começaram a trabalhar, em jornadas de mais de 15 horas, ficaram sem documentos, dinheiro e no final do dia eram fechados e alguns acorrentados”, disse a fonte da PJ.

Um destes trabalhadores conseguiu fugir das “agressões permanentes e contou o sucedido, que deu origem à investigação”. Este homem queixou-se de ter sido transportado por outro português para Espanha, onde “era obrigado a fazer trabalhos agrícolas numa quinta da região de Castilla y Leon”, adiantou a PJ em comunicado. Em Espanha, o homem “trabalhou de sol a sol, em condições degradantes, sem qualquer remuneração e chegou a estar acorrentado”. Do relato deste trabalhador constam ainda agressões de que terão sido vítimas “nove trabalhadores, todos de origem portuguesa e angariados para trabalhar em Espanha”.

Concluindo, a juntar a estas aberrações do capitalismo, o desinvestimento na área consular, a desresponsabilização, o abandono e, a privatização dos serviços de apoio aos emigrantes que este governo tem exibido, não só permitem a falta de acompanhamento de situações deste tipo como potenciam a percepção de desamparo daqueles que são vítimas de tais situações.


Mário Pinto
Madrid

(Publicado no Jornal «Em Movimento» nº7 de Abril de 2010)

quinta-feira, abril 15, 2010

Privatizações

De acordo com a totalidade de mais uma denúncia do PCP, àparte dos aspectos negativos mencionados nesta ocasião, outros são, assim mesmo, de importancia fundamental para o nosso país.
Assim, a juntar a outras contradições a promulgar por este governo com a inestimável colaboração do PSD/CDS, se atendermos à imperiosa necessidade de definir um plano estratégico de desenvolvimento para Portugal, estas empresas, que hoje poderiam constituir um pólo de investigação contribuindo dessa forma para a reestructuração do tecido productivo nacional, mesmo rentáveis, serão entregues aos mesmos dos quais a vida dos trabalhadores dependerá cada dia mais.

Por outra parte, sem contudo abandonarmos a área da criação, não devemos esquecer que as verbas para o I+D, ainda que mínimas, serão assim entregues ao privado, o mesmo que obterá benefícios enquanto usufrui dos nossos impostos.

Foi com a tecnologia que Portugal experimentou um maior relevância no contexto global, foi com a investigação que demos mundos ao mundo,e, ainda provada a desgraça de uma política colonizadora, no que à soberania e independência concerne deve ser esse o campo a estimular, só pode ser esse o âmbito no qual investir públicamente. A privatização é um espólio que deve ser travado.

As Seis Características Fundamentais de um Partido Comunista

2ª - Ser um partido da classe operária, dos trabalhadores em geral, dos explorados e oprimidos.

Segundo a estrutura social da sociedade em cada país, a composição social dos membros do partido e da sua base de apoio pode ser muito diversificada. Em qualquer caso, é essencial que o partido não esteja fechado em si, não esteja voltado para dentro, mas, sim voltado para fora, para a sociedade, o que significa, não só mas antes de mais, que esteja estreitamente ligado à classe operária e às massas trabalhadoras.

Não tendo isto em conta, a perda da natureza de classe do partido tem levado à queda vertical da força de alguns e, em certos casos, à sua autodestruição e desaparecimento.

A substituição da natureza de classe do partido pela concepção de um “partido dos cidadãos” significa ocultar que há cidadãos exploradores e cidadãos explorados e conduzir o partido a uma posição neutral na luta de classes – o que na prática desarma o partido e as classes exploradas e faz do partido um instrumento apendicular da política das classes exploradoras dominantes.


Álvaro Cunhal
15 de Setembro de 2001

sexta-feira, abril 09, 2010

As Seis Características Fundamentais de um Partido Comunista

1ª - Ser um partido completamente independente dos interesses, da ideologia, das pressões e ameaças das forças do capital.

Trata-se de uma independência do partido e da classe, elemento constitutivo da identidade de um partido comunista. Afirma-se na própria acção, nos próprios objectivos, na própria ideologia.

A ruptura com essas características essenciais em nenhum caso é uma manifestação de independência mas, pelo contrário, é, em si mesma, a renúncia a ela.

Álvaro Cunhal
15 de Setembro de 2001

terça-feira, abril 06, 2010

Oi!

Gostava de possuir a capacidade dos poetas que sintetizam num verso um compêndio de elementos suficientes para denunciar a mentira à qual muitos chamam vida e que não passa de uma mentira aceite devido ao medo de nos conhecermos.
A mentira à qual me refiro é essa que advém da frustração de vegetar num cercado alugado pelo preço da existência, nossa e de quem espelha os nossos passos, de quem deslegitima o medo daqueles que não se negam.
Somos, ao afirmar-mo-nos impúberes perenes, irascíveis no pátio desta corporação que decide se caminharemos solitários, amados, encarcerados, dobrados? “Cada um sabe de si e deus sabe de todos”? “Aproveitemos o que pudermos que a vida são dois dias”? “Somos um número”?
Estás aí?

sábado, abril 03, 2010

A reforma da Saúde nos EUA

Obama cede às seguradoras contra o povo

Dez milhões de pessoas nos EUA esperavam libertar-se das garras dos implacáveis exploradores que controlam o sistema de saúde. Mas aconteceu justamente o contrário.

A recente chamada reforma da saúde, promulgada pelo presidente Barack Obama a 23 de Março, consolidou e legalizou a posição dos especuladores dos cuidados de saúde como força central do sistema de assistência médica, sob um mínimo de supervisão e regulação do Estado capitalista.
Para além disso, esta reforma passou à custa dos direitos reprodutivos das mulheres – tornando impossível o recurso ao aborto com dinheiros públicos – e dos direitos dos imigrantes. O resultado é a destruição da solidariedade enquanto se vira as costas a milhões de mulheres e imigrantes mais pobres.
Os que lutavam corajosamente por um sistema universal de cuidados de saúde foram afastados pela direcção do Partido Democrático e pela administração Obama. Planos de contribuintes individuais, como o Medicare para todos, saíram da agenda. Na verdade, a administração Obama cedo chegou a acordo com a indústria da saúde para garantir que não haveria um seguro governamental directo, ainda que todos tenham de ter um seguro ou serão multados.
Deste modo os cuidados de saúde foram subrepticiamente vendidos como uma mercadoria no mercado capitalista do lucro, em vez de serem, como deviam, consagrados como um direito. Isto contrasta profundamente com o sistema socializado de saúde vigente em Cuba, por exemplo, onde apesar do bloqueio norte-americano que há décadas empobrece o país, o sistema de saúde é livre e acessível a todos.
A actual reforma reflecte o facto de o movimento da classe operária, incluindo o movimento das pessoas afro-americanas e de origem latina reprimidas, ter estado na defensiva durante muito tempo e não ter ainda começado a contra-atacar. Consequentemente, o resultado da reforma do sistema de saúde acabou por ser o fruto da luta entre as diferentes facções existentes no seio da classe dirigente e dos seus dois partidos políticos sem qualquer intervenção significativa das massas populares.
Eis alguns dos principais aspectos da reforma finalmente anunciada após meses de secretismo:
- Para começar, mesmo as estimativas mais optimistas reconhecem que 23 milhões de pessoas vão continuar sem seguro de saúde em 2014.
- É obrigatório ter um seguro. Isto assegura biliões de lucros no futuro graças ao aumento dos segurados nas companhias, que se ressentiram com a crise económica quando milhões de pessoas perderam os seus empregos e os seus seguros.
- Em 2014, os trabalhadores e a classe média estarão a ser pressionados por uma das 50 corridas eleitorais. Isto implementará a divisão da classe operária deixando a cada um o fardo de encontrar na Internet um seguro «à medida» das suas possibilidades.
- O seguro estatal conhecido como Medicaid Advantage, pagamento da assistência domiciliária e hospitalização, vai sofrer um corte de 200 mil milhões de dólares. Esta medida representa uma ameaça para os idosos e inválidos, apesar do pagamento dos seguros que ninguém reduzirá. Adultos com problemas especiais vão ter de esperar até 2014, quando já não lhes podem negar o direito à cobertura. Famílias pobres, num total de 16 milhões de pessoas, vão ter de esperar cinco anos para terem direito à Medicaid. Entretanto, terão morrido 45 000 pessoas por ano com doenças curáveis devido ao período de carência e metade das falências individuais terão sido provocadas pelos custos da assistência médica.

A luta continua

A reforma tem alguns aspectos positivos que cobrem as práticas das companhias de seguros mais ofensivas e odiadas por todos. Qualquer aspecto positivo deve ser analisado cuidadosamente pelos trabalhadores para que possam tirar pleno proveito dele. Muitas das práticas a ser eliminadas foram denunciadas pelo realizador Michael Moore no seu popular filme «Sicko». Em breve, as companhias de seguros deixarão de poder recusar cobertura a quem estiver doente. Deixarão de poder impor um limite de idade para a cobertura do seguro de assistência médica. E não poderão recusar o seguro a crianças com problemas. Os jovens maiores de 26 anos poderão ficar nos seguros de saúde dos pais desde que estes paguem um prémio adicional.
Mas milhões de trabalhadores, se ficarem desempregados, continuarão a perder o seu sistema de saúde. Nesta era do lay-off, dos despedimentos em massa e do subemprego, é uma verdadeira epidemia a quantidade de pessoas que perdem a cobertura proporcionada pelo empregador ou que não têm condições para garantir a sua contribuição individual para ficarem a coberto do seguro de saúde. E o mais importante é que serão as próprias companhias de seguros a conduzir o processo para implementar a reforma.
A luta para garantir o acesso universal aos cuidados de saúde continua. Juntamente com a luta pelo direito ao trabalho, contra os cortes orçamentais e execuções de hipotecas, e pela defesa da educação pública.

Fred Goldstein

Avante!

quinta-feira, abril 01, 2010

The health care bill: What it means for workers

By Fred Goldstein
Mar 24, 2010


Tens of millions of people in this country were hoping to be delivered from the clutches of the ruthless profiteers who control the health care system and were hoping for universal health care. But the very opposite has happened.

The latest so-called health care reform bill, signed into law by President Barack Obama on March 23, has consolidated and legalized the position of the health care profiteers as the central force in the system of health care — under minimal supervision and regulation by the capitalist state.

Furthermore, this bill has been passed by bargaining away women’s reproductive rights and the rights of undocumented and documented immigrants. Its effect is to destroy solidarity while it turns its back on millions of mostly poor women and immigrants.

A statement by Terry O’Neill, president of the National Organization for Women, explained that one of the bill’s effects is to make public funding of abortion impossible and private funding almost impossible. She wrote that the bill “imposes a bizarre requirement on insurance plan enrollees who buy coverage through the health insurance exchanges to write two monthly checks (one for an abortion care rider and one for all other health care). Even employers will have to write two separate checks for each of their employees requesting the abortion rider.”

O’Neill also wrote that the “bill imposes harsh restrictions on the ability of immigrants to access health care, imposing a five-year waiting period on permanent, legal residents before they are eligible for assistance such as Medicaid, and prohibiting undocumented workers even to use their own money to purchase health insurance through an exchange. These provisions ... are there because of ugly anti-immigrant sentiment, and must be eliminated.”

Those who stubbornly and valiantly fought for some form of universal national health care were shunted aside by the Democratic Party leadership and the Obama administration. Single payer was pushed off the agenda and substituted with the miniscule provision for a “public option.” This was mainly a sop in order to change the subject. The Obama administration had early on negotiated with the health care industry and agreed that there would not be a public option.

Thus health care is still to be sold as a commodity on the capitalist market for profit, instead of being the right that it should be. It is in stark contrast to the socialized health care in Cuba, for example, where despite a U.S. blockade that has impoverished the country for decades, health care is free and accessible to everyone. This is because Cuba’s socialist system means people’s needs are a priority, not profits like under capitalism.

One of the features of this bill is that the masses have been kept in the dark about the process and the bill itself from the beginning to the end. Only the politicians and the lobbyists from the various health care industries and medical professions were able to follow the inner course of the negotiations. Now that it is over, various bourgeois experts have surfaced to “explain” the bill.

Workers to wait until 2014 while 45,000 a year die

The details that are buried in the bill will only come out over time, if ever. Here are some of the major features of the bill that have come out.

To begin with, even the most optimistic estimates project that 23 million people will still be uninsured in 2014.

The bill imposes onerous conditions on millions of uninsured who, starting in 2014, would be forced to buy health insurance from an insurance company or face a fine. This is the bill’s version of giving wider coverage. It was the result of a deal cut with the insurance companies to widen their diminishing customer base, which has suffered during the economic crisis as millions lost their jobs and their insurance, and to ensure future billions in profit.

In 2014 workers and the middle class are to be thrust into one of 50 state-run exchanges. This further atomizes the working class by leaving the burden on the individual to find “affordable” insurance on the Internet. Even when insurance premiums are affordable, the co-payments and deductibles can be in the thousands of dollars and make it unaffordable to actually use the insurance.

Medicare Advantage, home care and hospital payments are to be cut by $200 billion. This is a threat to seniors and the disabled, despite assurances that nothing will be cut. Cuts will be made in the reimbursement to the private insurance companies that work through Medicare Advantage; they will surely reduce services.

Adults with pre-existing conditions will have to wait until 2014, when they can no longer be denied coverage. Poor families of four earning less than $29,327 — 16 million people — will have to wait five years to be covered by Medicaid. Meanwhile 45,000 preventable deaths take place every year because of lack of insurance, according to Harvard Medical School. Half of all bankruptcies are due to medical costs.

The bill, of course, has some positive elements that cover the most outrageous and universally hated practices of the insurance companies. Any positive elements should be closely studied by the workers and taken full advantage of. Many of the practices to be eliminated were exposed in Michael Moore’s popular and widely viewed film, “Sicko.”

In the short run, the insurance companies will no longer be able to deny coverage if you are sick. They will not be able to put a lifetime cap on coverage. And they cannot deny children access because of a pre-existing condition. Youth up to 26 years old can stay on their parents’ insurance plan, although there may be an additional premium.

But millions of workers will still have to rely on their bosses to get their health care. If you lose your job, you still lose your health care. In this era of layoffs, mass unemployment and underemployment, there is an epidemic of people losing their employer-based coverage. And if you are allowed to keep your health care after you are laid off, few can afford to pay a group rate, let alone an individual rate.

Most important is that the insurance companies will be in charge of the immediate review process. The Department of Health and Human Services will eventually have a higher level of review. But the companies are expert at lying, manipulating and, in the long run, suffering fines in order to avoid giving coverage that is more expensive than the fines. It is a case of the fox retaining the right to guard the chicken coop.

Social Security and Medicare

The conventional wisdom being touted by the Democratic Party leadership is that this health care bill is in the tradition of the establishment of Social Security and Medicare.

In fact, the opposite is true. Marxists must try to understand the difference, not just in terms of personalities or parties, but in seeing the objective circumstances in which these different pieces of legislation were passed and what the class differences are. The most important factor is to view the relationship of class forces that existed then and that exist now.

The Social Security bill was passed in 1935 as part of the Franklin Roosevelt “New Deal.” But it was passed only after a period of mass struggle against unemployment, the famous veterans’ Bonus March in Washington, D.C., and the break up of the veterans’ encampment by federal troops in a pitched battle. It followed the general strikes in San Francisco, Minneapolis, Minn., and Toledo, Ohio, in 1934.

Even at that, it was a compromise in which the bosses wound up having to pay only half of Social Security, with workers paying the other half. But it became a working-class right. The money was held by the government for the workers and paid out every month by the government.

The Medicaid bill was passed in 1984 and the Medicare legislation was passed in 1965 as part of President Lyndon Johnson’s “Great Society” program. These bills were not passed because the capitalist government suddenly became socially conscious. They came after 10 years of the Civil Rights movement, massive rebellions in the streets of Harlem, N.Y., and Los Angeles, and a growing national liberation movement right here in the U.S.

Just like Social Security, Medicare and Medicaid became a legal and political right of the working class and the poor. They were not turned over to private companies and put on the capitalist market as commodities.

The present health care bill reflects the fact that the working class movement, including the movement of the oppressed, has been on the defensive for a long time and has not yet begun to fight back.

Consequently, the fate of the health care bill was really fought out by different factions within the ruling class and their two political parties without any significant intervention by the masses. Secret deals were made with the pharmaceutical and hospital lobbies as well as with elements in the health insurance industry. When these deals became known, there was no mass response. The bosses had their way, relatively unobstructed by any threat from below. The labor movement leadership restricted itself to minuscule protests and lobbying. And the communities and the political movement were unable to mobilize, despite militant attempts by various single-payer groups.

Fight racist, right-wing counterattacks

But this should lead into the next phase of the struggle. The great problem for the workers’ movement is that the health care bill, as minimal as it is, has been fought tooth-and-nail by the Republicans and the extreme right-wing Tea Party movement, which encompasses outright fascists. The Republicans and the corporations have in fact worked with the Tea Party movement to fan the flames of racism and anti-gay and anti-immigrant sentiment.

There was a fascist-like display at the Capitol building in Washington, D.C., the day the bill was passed, when a mob shouted racist epithets at African-American representative and former civil rights leader John Lewis of Georgia and spat on another Black legislator. The mob then accosted Rep. Barney Frank of Massachusetts, who is gay, and hurled anti-gay slurs at him. It is notable that this mob was allowed by the Capitol police to get right up in the faces of the lawmakers.

The right wing tried to bring down the Obama presidency over the health care bill. There is already talk among the Republicans of trying to overturn the bill and start up a new town-hall-style, ultra-rightist mobilization.

This fact does not make the bill any better. But it does mean that the workers’ movement, the progressive and revolutionary movement, must work together to assertively combat any reactionary and racist counterattack by the right while at the same time demanding real universal health care.

It is not known at this time if right-wing elements will succeed. But the progressive movement was taken aback during the town hall campaign last fall, when the first right-wing assaults were launched against the health care bill while whipping up a racist campaign against Obama.

Forewarned is forearmed. The fight for health care can be carried into the struggle against the right without having to abandon a working-class, progressive position. Fighting the racists and getting in their face while demanding universal quality health care and Medicare for all can and must be done. “Health care is a right!” should become the battle cry of the movement, along with pro-immigrant, pro-abortion rights, anti-racist slogans and so on. This is the way to resist any right-wing, racist mobilization based on opposition to the health care bill.

The Democratic Party leadership has given in all along the line. The workers, oppressed communities, students and youth all have a stake in this struggle. It can be united with the struggle for jobs, against the budget cuts and foreclosures, and to save public education. All these fronts in the class struggle form the basis to come together in People’s Assemblies or other organs of popular power to unite to launch a powerful, anti-capitalist movement.

quarta-feira, março 31, 2010

terça-feira, março 30, 2010

domingo, março 28, 2010

Nascido há 100 anos, ferido há 68

EL HERIDO

Para el muro de un hospital de sangre.


I

Por los campos luchados se extienden los heridos.
Y de aquella extensión de cuerpos luchadores
salta un trigal de chorros calientes, extendidos
en roncos surtidores.

La sangre llueve siempre boca arriba, hacia el cielo.
Y las heridas suenan, igual que caracolas,
cuando hay en las heridas celeridad de vuelo,
esencia de las olas.

La sangre huele a mar, sabe a mar y a bodega.
La bodega del mar, del vino bravo, estalla
allí donde el herido palpitante se anega,
y florece, y se halla.

Herido estoy, miradme: necesito más vidas.
La que contengo es poca para el gran cometido
de sangre que quisiera perder por las heridas.
Decid quién no fue herido.

Mi vida es una herida de juventud dichosa.
¡Ay de quien no esté herido, de quien jamás se siente
herido por la vida, ni en la vida reposa
herido alegremente!

Si hasta a los hospitales se va con alegría,
se convierten en huertos de heridas entreabiertas,
de adelfos florecidos ante la cirugía.
de ensangrentadas puertas.

II

Para la libertad sangro, lucho, pervivo.
Para la libertad, mis ojos y mis manos,
como un árbol carnal, generoso y cautivo,
doy a los cirujanos.

Para la libertad siento más corazones
que arenas en mi pecho: dan espumas mis venas,
y entro en los hospitales, y entro en los algodones
como en las azucenas.

Para la libertad me desprendo a balazos
de los que han revolcado su estatua por el lodo.
Y me desprendo a golpes de mis pies, de mis brazos,
de mi casa, de todo.

Porque donde unas cuencas vacías amanezcan,
ella pondrá dos piedras de futura mirada
y hará que nuevos brazos y nuevas piernas crezcan
en la carne talada.

Retoñarán aladas de savia sin otoño
reliquias de mi cuerpo que pierdo en cada herida.
Porque soy como el árbol talado, que retoño:
porque aún tengo la vida.



Miguel Hernández

quarta-feira, março 24, 2010



“A revolução comunista vem romper, da maneira mais radical, com o regime tradicional de propriedade; nada tem, pois, de estranho, que se veja obrigada a romper no seu desenvolvimento, da forma também mais radical, com as ideias tradicionais”

segunda-feira, março 22, 2010


"(...)A religião deve ser declarada um assunto privado — com estas palavras exprime-se habitualmente a atitude dos socialistas em relação à religião. Mas é preciso definir com precisão o significado destas palavras para que elas não possam causar nenhum mal-entendido. Exigimos que a religião seja um assunto privado em relação ao Estado, mas não podemos de modo nenhum considerar a religião um assunto privado em relação ao nosso próprio partido. O Estado não deve ter nada a ver com a religião, as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder de Estado. Cada um deve ser absolutamente livre de professar qualquer religião que queira ou de não aceitar nenhuma religião, isto é, de ser ateu, coisa que todo o socialista geralmente é. São absolutamente inadmissíveis quaisquer diferenças entre os cidadãos quanto aos seus direitos de acordo com as crenças religiosas. (...)"

Lenine - 1905

quarta-feira, março 17, 2010



Enviado por "Zé Povinho"

quinta-feira, março 11, 2010

Costa Martins: 25 de Novembro e outras mentiras


“Não sou democrata de 26 de Abril, fui sempre democrata, no antigamente sofri as consequências e curiosamente vim a sofrer consequências ainda mais dolorosas depois do 25 de Abril, mais particularmente a partir do 25 de Novembro.

Até ao 25 de Novembro não tive razões de queixa, viveram-se momentos importantes de liberdade, houve vários excessos com alguns símbolos negativos com os quais eu não estava de acordo, e parece-me que foram alguns desses excessos que ajudaram a desembocar no 25 de Novembro, onde, estou convencido, que a esmagadora maioria dos próprios intervenientes de Novembro e ganhadores a seguir, entraram nele sem terem consciência daquilo em que estavam a participar. Foram enganados, muitos deles têm lamentado junto de mim, e infelizmente o país foi conduzido à situação em que nos encontramos."

"Estamos numa situação muito difícil, complicada e de difícil saída… não acredito nessas recuperações maravilhosas da economia do país, anunciadas por alguns… nós cá estaremos para ver”.


- O que deu origem ao 25 de Novembro de 75 e o que se passou com o anunciado desaparecimento da verba do dia de trabalho oferecido pelos trabalhadores ao país, já que nessa altura o senhor era ministro do Trabalho?

Costa Martins – A primeira questão é a mais complexa pela sua dimensão; o que teria originado o 25 de Novembro, e o que foi o 25 de Novembro. O 25 de Novembro acabou por ser um golpe de Estado, mas não foi feito não por aqueles que têm sido acusados de o terem praticado.

Conheço bem as causas do 25 de Novembro porque tive a oportunidades de as viver por dentro. A essência das causas do 25 de Novembro esteve no 25 de Abril, como passo a explicar: No dia 25 de Abril eu tinha tomado a responsabilidade da neutralização da Força Aérea (FA), porque o grupo que dizia representar a FA votou contra o golpe de Estado do 25 de Abril, numa reunião que tivemos em Cascais, em Março desse ano. Ali fiquei isolado e assumi responsabilidade da neutralização da FA. Poderia assumir essa missão a partir do Estado-maior da FA, onde trabalhava, ou a partir do Aeroporto que era melhor devido aos sistemas de controlo e radar, até porque nesse dia estava no aeroporto, por volta da hora de almoço.

Do Regimento de Paraquedistas, que nunca se tinha definido bem durante a preparação do 25 de Abril, com certos problemas com o Kaúlza de Arriaga, vieram três tenentes-coronéis meus amigos, pois eram os indivíduos que tinham a força operacional dos paraquedistas na mão. Vieram ao aeroporto colocar-se à minha disposição – assumindo eu o comando do Regimento de Paraquedistas, através deles. A segurança do Aeroporto seria reforçada pelos operacionais paraquedistas, sete companhias bem armadas, reforçando a segurança que na altura estava entregue à Escola Prática de Infantaria.

Quando os “páras” se preparavam e armavam para sair de Tancos com destino a Lisboa, recebi uma comunicação do major Vítor Alves, emanada do general Spínola (presidente da Junta de Salvação Nacional, na altura), onde se manifestava muito preocupado pelo facto dos paraquedistas virem para o aeroporto, já que poderiam alinhar com o Kaúlza depois de estarem em Lisboa. Não concordei mas para não arranjar ali algum problema, lá mandei um recado aos “páras” para não saírem de Tancos, embora já viessem a caminho. Entretanto Spínola manda nova mensagem, dizendo que era preferível para o reforço do aeroporto os Comandos, e lá foi o Jaime Neves com os comandos para o aeroporto.

Mais tarde os paraquedistas tiveram conhecimento da recusa do presidente Spínola por falta de confiança politica e militar nos “páras” - esta foi uma das causas remotas do 25 de Novembro.

Passados uns tempo, isto já na altura do VI Governo Provisório, com o almirante Pinheiro de Azevedo em primeiro-ministro, tinha havido a ocupação da Rádio Renascença, esse processo passou-me pelas mãos, porque o Patriarcado entendia que se tratava de um problema laboral, eu entendi que não, que eram dois indivíduos que se tinham apoderado indevidamente da RR e iam devolvê-la ao Patriarcado. Portanto se a PSP não tinha força, o COPCON através do Otelo deveria mandar prender os indivíduos e devolver a estação à Igreja, foi essa a minha posição.

O que se passou na RR foi uma autêntica fraude histórica, como também foi uma fraude histórica o que se passou no jornal A República, que por acaso também me passou pelas mãos, porque entenderam que era um processo laboral e eu como ministro do Trabalho, lá me foi parar o processo às mãos. Eu tenho a fotocópia do cheque de apoio à Comissão dos Trabalhadores, um cheque de mil contos na altura.
Mas estou a derivar um bocadinho, e não queria perder o fio à miada, como se costuma dizer, falando das causas do 25 de Novembro. Se bem se lembram, na altura, em vez de terem desalojado os indivíduos de lá pela força se fosse necessário – foi essa a minha posição - resolveram mandar dinamitar os emissores da RR na Buraca. Os chefes militares da altura, nem sequer tiveram a dignidade de tirar de lá os indivíduos, ou se queriam isolar os emissores mandavam para lá uma força militar ocupar aquilo.

O primeiro-ministro era almirante, no activo, tinha um regimento de tropas especiais, os Fuzileiros, pois foi convencer o Chefe do Estado-maior da FA para mandar uma força de “páras” dinamitar os emissores da RR.
Ora vejamos, os paraquedistas ficaram nos “cornos do touro”, agora pela segunda vez! Quando chega Novembro, a determinada altura, eles foram usados, o Chefe do Estado-maior da FA, Morais da Silva, começou a fazer uma série de provocações entre os paraquedistas, utilizando a alimentação e o salário, entre outras. Enfim, uma série de medidas tendentes de levar até à extinção do Regimento, como viria a suceder a seguir. Os paraquedistas ai reagiram e a população daquela zona de Tancos começou a levar alimentos e apoio aos “páras”.

A certa altura o Morais da Silva mandou, ou pelos menos deu a cobertura, que 150 oficiais dos paraquedistas fossem para a Base da Nato da Cortegaça, em Ovar. O Regimento de Paraquedistas quis demonstrar, contrariamente ao que diziam, que era uma tropa disciplinada, operacional, combativa, capaz de operar onde fosse necessário, então resolveram no dia 24 à noite, preparar uma demonstração de operacionalidade, foram uns para o Monsanto, outros ocupar o Estado-maior da FA e outros foram ocupar as várias bases operacionais. Porque em principio eles estavam para vir para Lisboa – o Regimento completo!. Eu por acaso assisti a isso e opus-me a que o RP viesse para Lisboa, porquê? Porque provavelmente teríamos guerra civil!

Isto foi aproveitado a seguir para uma contra reacção que estava toda preparada noutro sitio… e mais, houve provocadores nos “páras” muito bem pagos para fomentar todo aquele estado de agitação. O 25 de Novembro foi isto! Não foi monolítico, não foi uniforme porque houve várias forças e organizações a querem aproveitar-se, cada uma da sua maneira do 25 de Novembro.

Alguns indivíduos que participaram no 25 de Novembro, ou ainda alguns do Grupo dos Nove, fizeram-no enganados, porque posteriormente vieram reconhecer que estavam contra ao que se estava a passar, não queriam aquilo mas também de maneira nenhuma queriam aquilo que veio depois do 25 de Novembro!
Foram atropelos tremendos aos mais elementares princípios de justiça – eu estou à vontade de falar porque fui o indivíduo mais perseguido no 25 de Novembro, e como nunca me dobrei acabei por ganhar essas guerras judiciais e não só, durante 16 anos. Durante o 25 de Novembro tive de passar à clandestinidade, porque tinha vivido tudo por dentro no concreto, não foram essas balelas que esses indivíduos apregoam ai no país todos os dias, não me deixam ir à televisão, se escrever algo sobre o 25 de Novembro nos jornais nacionais é complicado.


- Está a afirmar que a censura regressou aos órgãos de Comunicação Social?

- Convidaram-me para uma entrevista na TV, para o aniversário dos 25 anos do 25 de Novembro, eu recusei, insistiram 2 ou 3 vezes, mais tarde disseram-me que seria um programa especial de carácter histórico depois de terem ouvido outras figuras tais como: Mário Soares, Ramalho Eanes, Otelo, Melo Antunes, e queriam ouvir-me a mim acerca do 25 de Novembro.

Decidi aceitar e dei uma entrevista em diferido, com a jornalista Márcia Rodrigues, mas como o tema da entrevista era muito longo decidiu-se fazê-la em duas partes (uma no mesmo dia e a outra no dia seguinte). Fiquei nesse dia à espera que me telefonassem – nada, ninguém me telefonou, como tinha de me deslocar ao Algarve, liguei novamente para a TV mas não consegui falar com ninguém do assunto em causa. No dia seguinte lá consegui falar com alguém que me disse que depois me contactariam. Passados vários dias telefona-me a senhora que me tinha contactado e fazia parte do grupo de trabalho que me convidou para a entrevista e começou por me pedir desculpa, porque também (ela) tinha sido enganada e que não só me iriam acabar a entrevista como haveriam ordens superiores para cancelar todo o programa! Todos sabem que todos os anos há debates sobre o 25 de Abril, já me viram lá!!??

Fui o principal perseguido do 25 de Novembro, todos os anos existem debates sobre isso, era lógico que lá estivesse, não me deixam lá ir!! Quando quiserem eu vou sozinho – levo a minha pasta… podem pôr do outro lado o número de entrevistadores que quiserem…


- Sentiram que o Povo estava ao lado do 25 de Novembro?

- A esmagadora maioria da população não estava de acordo, a realidade tem de ser dita, o 25 de Novembro, que é vendido e apresentado, é uma fraude histórica, muito grave. E com base nesta fraude histórica é que foram destruídos os valores essenciais da sociedade em que se chegou ao ponto de que se chegou, e toda a gente clama que não há justiça, mas se não há valores morais como pode haver justiça? Se não há a possibilidade de conhecer a verdade como se pode fazer a justiça? A verdade é a base essencial para a feitura da justiça, aliás as nossas leis até prevêem que no foro criminal, o arguido pode mentir à vontade.


Histórias do 25 de Novembro não lhe faltam, mas como começou a questão das verbas que alegadamente terão desaparecido respeitantes ao dia do trabalhador?

- No dia 25 de Novembro fui chamado a Belém, pelo PR Costa Gomes - que é o individuo a quem este país muito deve nas últimas décadas - conhecia-o muito bem, grande amigo pessoal, e chamou-me porque alguém lhe terá dito que eu era que estaria à frente do 25 de Novembro. Quando cheguei a Belém, naquela sala grande de reunião do Conselho de Estado, estava o Vasco Lourenço que tinha sido graduado em general – um dos que estiveram na montagem da cabala do dia do salário - pode escrever à vontade, publicar na integra – ele foi um dos principais responsáveis do dia do salário… o Sr. Vasco Lourenço tinha sido graduado – como herói do não sei quantos… Eu tinha lido “A República”, dois dias antes do 25 de Novembro, onde tinha sido publicada uma entrevista dele sobre o Ministério do Trabalho, sobre o ex-ministro do Trabalho, que era eu, dizendo que era preciso saber-se do que foi feito dos 300 mil contos da conta dos trabalhadores, para além de outras insinuações.… deixe-lhe um safanão e ele ficou no sofá, fui falar com o PR com a porta entreaberta, que me perguntou se eu estava à frente do 25 de Novembro, deu-me um abraço e disse - ainda bem que é você que está à frente disto. Vamos lá resolver isto. Estava eu com o comandante Pinheiro de Azevedo,. Eu respondi ao PR Costa Gomes - não estou metido nem tenho nada a ver com isto - e ele ficou altamente preocupado, perguntando-me quem é que realmente estava metido na situação pedindo: - então ajude-me com a sua influência na Força Aérea (FA) e com os paraquedistas, ajude-me a resolver esta situação para evitarmos a guerra civil. Então o general Costa Gomes pediu-me para ir a Monsanto falar com os Paraquedistas, e lá levei o recado e a forma de se resolver aquilo.


- Como foi?

- Em Monsanto estavam oficiais da FA presos pelo paraquedistas, lá providenciei para que eles fossem soltos – ao contrário do relatório/processo de 25 de Novembro, onde sou acusado de prender os oficiais de Monsanto… fui eu que os mandei soltar, não há nenhum desses tipo que diga à minha frente o contrário.
Mais tarde fui falar com o general Costa Gomes contando-lhe o que se tinha passado em Monsanto, onde fui informado que quem “mandava” era a Comissão de Luta. Da segunda reunião que tive com o general, já ao fim-da-tarde em Belém, o general Costa Gomes chamou a ele o comando de todas as tropas do país, assim quem comandou militar e politicamente o 25 de Novembro – foi o general Costa Gomes! Eu assisti, foi na minha presença. Há relativamente pouco tempo o antigo comandante da Região Militar do Norte, Pires Veloso, veio dizer precisamente isso. A Região Militar do Sul colocou-se sob o comando dele, a Armada foi colocada sob o comando dele directamente - foi o almirante Rosa Coutinho que lhe entregou o comando da Armada- Nas unidades de Lisboa, o general chamou a ele unidade por unidade, e foi passando o comando por delegação para o Vasco Lourenço que tinha sido nomeado Governador Militar de Lisboa, na véspera. Mas as unidades de Lisboa, algumas das mais fortes nunca aceitaram o comando de Vasco Lourenço, mesmo delegado do PR, assisti a isso, o sr. Vasco Lourenço na minha frente não desmente!

Novamente o general Costa Gomes pediu-me para ir a Monsanto tentar convencer os Paraquedistas – e que se despachassem …rápidos -, quando não mandava avançar os Comandos para Monsanto. Quando avancei para Monsanto passei primeiro pela COPCON, que era onde estava a bagunçada maior. Quando de lá sai, sozinho e já de noite, embora fosse bem armado, fui perseguido por dois carros de indivíduos trajando civilmente e armados até aos dentes, consegui fugir-lhes, já não cheguei a Monsanto. Passei à clandestinidade, naquela altura em que os despistei e fui para Benfica, para casa de uns amigos meus. Em casa desses amigos vejo na TV um comunicado do Chefe do Estado-maior da Força Aérea, Morais da Silva, que andou fugido durante o dia todo, e só apareceu à noite quando as coisas já estavam a virar, depois de ter abandonado completamente a FA. Nesse comunicado aparecia a minha fotografia acompanhada de uns termos que já não me recordo… mas algum assim - onde o virem agarrem-no vivo ou morto, porque este é que é o responsável.

Eu não me contive, peguei no telefone e liguei para o gen. Costa Gomes, para lhe dizer que não tinha conseguido chegar a Monsanto perseguido por aqueles gandulos, e insurgi-me contra aquele famigerado comunicado. O Costa Gomes perguntou-me onde estava, eu disse-lhe que estava em casa - não sendo a verdade, estava em casa de amigos e o meu telefone estaria com certeza sob escuta - disse-me ainda que estava prestes a começar uma reunião de emergência do Conselho da Revolução, devido a uma informação de que EU estaria na Lisnave a fazer o levantamento dos trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa, para marchar sobre Lisboa. O homem acreditou em mim que não estava na Lisnave.


- Então quem elaborou o comunicado?

Mais tarde vim a saber que esse comunicado/informação foi transmitido para a Presidência da República pelo Conselho da Revolução, a partir do posto do comando que estava na Amadora.
Em paralelo começo a ser informado que estavam a ser afixados cartazes e distribuídos panfletos, a dizer que eu tinha fugido com 13.000 contos roubados das contas dos trabalhadores! Ali, comecei a montar o puzzle, que não era muito difícil chegar a esta conclusão – os tipos puseram aqueles fulanos a perseguir-me quando ia para Monsanto, não seria para me matar mas sim para me agarrar.

Por tudo isto eu deduzi e até hoje não me desmentiram que me queriam levar para Monsanto, punham lá uma mala com notas e chamavam os trabalhadores para verem o “ladrão” fugir com um monte de dinheiro e eram os trabalhadores que me lixavam e eles ficavam como Pôncio Pilatos.

Passei à clandestinidade e sai do país em Janeiro do ano seguinte, tendo assistido a essas porca vergonhas todas com vontade de pegar numa pistola-metralhadora e ir onde estavam a afixar os cartazes…
Está aqui a história do dia do salário, que em Janeiro o jornal “O DIA” publica, mas que já não eram 13 mil mas tinha era posto 80 mil contos das contas dos trabalhadores numa conta pessoal minha.


- Foi complicado provar a sua inocência...?

- A história da cabala do dia do salário, ao fim e ao cabo, para mim acaba por ser um louvor autêntico, porque os tipos chafurdaram na minha vida toda, particular, familiar, profissional e politica de governação. Se tiveram que recorrer a uma coisa de uma baixeza tão porca como isso, é porque não encontraram a menor coisa em que me pudessem agarrar, senão tinham-me esfolado! Ah! demitiram-me por duas vezes da FA sem qualquer reintegração pelo meio, depois só faziam asneiras a meu respeito, tal era o nervosismo, quando viam qualquer documento meu só faziam asneira nos despachos. Lembro-me de um documento para o Lemos Ferreira, na altura Chefe do Estado-maior, em que solicitava a reposição da verdade e na minha situação normal – foi indeferido por falta de cabimento ao solicitado no documento…

Ao fim dos 16 anos da guerra sempre a nível do Supremo Tribunal Administrativo, em que alguns dos mais altos responsáveis político-militares do país não se coibiram de mentir ao tribunal, oficialmente, em ofícios de alguns generais e de elevados postos da vida militar politica do país, foi-me feita justiça.

Nunca desapareceu um tostão, aliás eu fiz questão, devido a não haver inquérito nem averiguações, não havia nada porque eles sabiam que nunca tinha havido falta de qualquer verba, obriguei-os a fazerem um inquérito depois de muitos requerimentos e de muitas insistências ao longo de muito tempo, foram obrigados a fazerem-no, porque eu requeri certidão do inquérito tenho uma certidão passada pelo Ministério do Trabalho, sempre ao nível do gabinete do ministro, cujo título é este - certidão provisória - não sei se alguém tem memória de uma certidão provisória. Depois da minha insistência, passam-me nova certidão, definitiva, com conclusões provisórias… dá vontade de rir, não dá?

Voltando ao inquérito, quando ficou concluído – ninguém tinha roubado nada, não tinha desaparecido nada, e é um autêntico louvor para mim e para os serviços desenvolvidos, mas não publicaram nada disto no Diário da República. Seguidamente faço um requerimento para pedir as conclusões públicas do inquérito, vem a resposta do chefe do gabinete com umas aldrabices, porquanto não podiam certificar porque o inquérito não estava ainda concluído por falta de homologação do ministro, e andámos nisto três anos, entretanto a minha paciência ia-se esgotando… entrei em contacto com o coronel Costa Brás - que era a maior autoridade contra a corrupção- estávamos em Janeiro de 1984) – ameacei ir ao gabinete do ministro puxa-lo pelos colarinhos e dar-lhe um par de murros. Ele disse-me que não era um questão de ministro e passados quinze dias estava dado o despacho depois de anos à espera.


- O que pensa hoje da nossa Democracia?

- Aquilo que eu penso é que se se um cidadão burlar outro arrisca-se a ir para a prisão, se burlar 10 milhões arrisca-se a ir para o poder e agir impunemente!



- E das manifestações militares?

- Sou contra esse género de actuação, acho que é um bocado desprestigiante para os militares, o militar deve ter uma postura diferente da postura de um simples passeio, terá de ter ou tomar uma posição frontal
Portanto se uma manifestação de militares não é feita em termos de postura militar, não pode ter nada de concreto nem de substrato.


- Hoje é possível a realização de outro golpe de Estado como em 25 de Abril de 74?

- Seria absolutamente impossível perante o contexto internacional existente.


- Que futuro para as Forças Armadas?

-No 25 de Abril havia um grupo que infelizmente não era muito grande, cujo elemento principal era o general Costa Gomes, e que entendíamos que Portugal não precisa de Forças Armadas. Portugal precisava de uma Guarda Republicana capaz, eficiente, com gente preparada e bem paga, também com uma Polícia bem preparada e com um bom nível de instrução para saber lidar directamente com os problemas e com a população. Precisávamos de umas lanchas rápidas para patrulhamento da zona económica exclusiva, de uns aviões bem equipados para patrulhar essa zona económica exclusiva, mais aviões de combate a incêndios e evacuação de feridos e doentes, e não precisávamos de mais nada!

Temos cento e tal oficiais generais e se calhar… não temos cento e tal soldados bem preparados… Por mexer com muitos interesses na altura não conseguimos porque há três vectores importantes da vida económica e financeira do Mundo, que são o petróleo, a droga os armamentos, e há quem não queira abdicar. Portugal comprou aviões F-16, Portugal não precisa de aviões de caça para nada! Eu sou piloto, piloto de caça, é das coisas que mais gozo me dá é o bom avião de caça, mas isso custo os olhos da cara ao país. Se a Espanha quisesse invadir Portugal, a FAP nem que tivesse os aviões mais ultra-modernos do mundo e os pilotos mais bem preparados, não havia qualquer possibilidade de reacção a um ataque espanhol. Os aviões de caça portugueses não servem para nada, servem sim para uns indivíduos comprarem os aviões, comprarem sobressalentes… etc., etc..


- Chegou a temer pela sua vida?

- Não tenho a menor dúvida que se pudessem ter-me eliminado fisicamente, sem rastos para poderem ser responsabilizados a seguir, e se não tivesse passado à clandestinidade não estaria aqui hoje a falar.



- Como se define enquanto ministro do Trabalho?

- Sempre pautei, na vida militar e civil, a minha postura por regras de boa conduta e amor à minha Pátria, no País ou no estrangeiro. Quando falei com outros governos, mesmo os considerdos mais importantes, sempre falei como representante do meu País em pé de igualdade.

O dia do salário foi um marco importantíssimo que eles espoliaram, em termos de diversão dos valores morais da sociedade, caluniando na forma peculiar, onde o Estado português é altamente responsável durante vários anos, constituindo-se num dos marcos que serviu de base à inversão dos valores pela dimensão e projecção que lhe deram, no enquadramento ao mais alto nível político-militar do país.


- Que pensa da Associação 25 de Abril?

- O Vasco Lourenço, presidente da Associação, sabe bem que conspirámos juntos, eu arrisquei a minha liberdade para o acompanhar e depois o reconhecimento foi a participação directa na preparação da cabala no dia do salário contra mim.

Aliás, o Vasco Lourenço não participou no 25 de Abril, na feitura do 25 de Abril, conspirou connosco foi mandado para os Açores antes desse dia, e o 25 de Abril foi tropeçar com ele nos Açores.
Em Fevereiro de 74 eu fui o primeiro oficial (do três ramos das forças armadas) a ser alvo/objecto de uma medida repressiva do anterior regime por causa do Movimento dos Capitães.

Em Março seguiram-se medidas repressivas em relação ao Vasco Lourenço, ao Melo Antunes e outro oficial que foram colocados nos Açores. Entretanto o Vasco Lourenço pediu-nos para simular o rapto dele, e tivemos o Vasco Lourenço connosco durante três dias, ao fim desse tempo, depois dessa exploração politica decidimos que ele se fosse apresentar no Governo Militar de Lisboa, acabando depois por ir para os Açores.
Estive exilado em Angola três anos e meio a seguir ao 25 de Novembro, quando regressei a Portugal estava a ser constituída a Associação 25 de Abril, com uma comissão instaladora liderada por Vasco Lourenço. Eu fui convidado, assinei uma ficha condicional porque me pediram muito para assinar, mas não coloco lá os pés enquanto Vasco lourenço estiver à frente da Associação.


- O PCP teve alguma intervenção no 25 de Novembro?

- Sobre a intervenção do PCP, vou narrar o que se passou comigo, no dia 24 já ao fim da tarde, eu tinha sido colocado no COPCON por malandrice, pelo Morais da Silva, e encontrei o Jaime Serra, dirigente do PCP, que me cumprimentou e disse “epá é a segunda vez que venho aqui dizer ao Otelo para não mandar assim tropas para a rua, para não se meter em aventuras”. – Isto é um facto histórico, passou-se comigo! Sei também, por informação, que o dia 25 de Novembro foi desencadeado pela saída dos paraquedistas – não que os “páras” tenham saído para algum golpe de Estado, isso é uma pulhice! -, eles sim vieram fazer uma manifestação de operacionalidade, o PCP mobilizou-se para o que desse e viesse – segundo me constou porque não vi nem participei. E depois desmobilizou quando o Costa Gomes chamou Álvaro Cunhal, para se desmobilizar e não haver uma guerra civil, que esteve por um fio.


- Qual a participação do General Ramalho Eanes?

-Todos os movimentos de tropas foram feitos com autorização e cobertura institucional do Costa Gomes. Há mensagens escritas do posto de Comando da Amadora, sempre com autorização de Costa Gomes.
Para terminar e sobre essa grande manifestação do tempo do Pinheiro de Azevedo (o almirante sem medo), quando começou a ser convocada a manifestação para a Praça de Londres, o Tomás Rosa em vez de se manter no gabinete do Trabalho, como lhe competia, foi ter com Pinheiro de Azevedo, que estava em S. Bento. A manifestação teve conhecimento e foi atrás dele, foi assim que a manifestação foi parara a S. Bento. Já naquela multidão à volta da Assembleia da República, começou a exploração politica, deixavam sair uns, não deixavam sair outros… e aquilo começou a complicar-se um bocado.

Eu estava em casa e telefonaram-me do Conselho da Revolução pedindo-me se eu não me importava de ir resolver a situação, ao que respondi: “eu já não estou no Governo já não estou no poder”, mas sendo um problema Nacional nunca fugia a situações difíceis, portanto se quiserem eu vou lá tentar resolver. O Conselho da Revolução faz um comunicado ao país dizendo que me pediu para ir resolver a situação, passada meia hora telefonam-me outra vez, agora os sindicatos, era a Intersindical dizendo que estavam numa situação complicada, perigosa, então pediram-me se eu não me importava em ir ajudar a situação. Eu fui. Cheguei ao Palácio de S. Bento e encontrei o primeiro-ministro com a barba por fazer na parte habitacional do mesmo, que tinha dormido na noite anterior na casota da PIDE que estava no Jardim do Palácio, e logo que me viu deu-me um grande abraço e disse-me: “epá tire-me daqui. Trouxe a tropa?” Não, respondi-lhe, entrei pela porta principal, ninguém me fez mal.

Mais tarde houve desmobilização geral e o Pinheiro de Azevedo foi à varanda de S. Bento prometer coisas que depois não cumpriu


Ler também este artigo

A revolução é hoje!


Original aqui

quarta-feira, março 10, 2010

Carta de despedida de Che a Fidel - 1965

"Outras serras do mundo requerem meus modestos esforços. Eu posso fazer aquilo que lhe é vedado devido à sua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos.

Quero que se saiba que o faço com uma mescla de alegria e pena. Deixo aqui minhas mais puras esperanças de construtor e os meus entes mais queridos. E deixo um povo que me recebeu como filho. Isso fere uma parte do meu espírito. Carrego para novas frentes de batalha a fé que você me ensinou, o espírito revolucionário do meu povo, a sensação de estar cumprindo com o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que seja. Isso me consola e mais do que cura as feridas mais profundas."

terça-feira, março 09, 2010

O hitlerzinho de valladolid



Mais uma história do clã O'bush: Acusar a Venezuela; Chávez, de apoiar a Eta no seu relacionamento com as Farc, promovendo o "terrorismo" na Colômbia e assim no feudo do manso de franco.

De novo, a velha estratégia de preparação da opinião pública para acometer contra um país livre, a Venezuela, uma era de repressão já conhecida pelo mundo fora, sobretudo em Cuba. Sob o pretexto de que "Chávez é o Bin Laden da América do Sul", sem que de tal sustentem a mais mínima prova (e mesmo que ninguém saiba ainda - digo eu - o papel e o fundamento que tal figura, membro da familia que detém grande parte da economia yanquee, se reserva), polarizando neste a razão de qualquer movimento discordante com o pensamento único que o imperialismo pretende impor, os porcos mafiosos do governo norte americano preparam-se a assim para reprimir uma vez mais a liberdade de muitos milhões de seres humanos.

Torna-se cada vez mais difícil entender como um punhado de cães consegue manter no cercado tanta liberdade.



P.D.- Curiosamente, cada vez que menciono o conquistador de "Perejil", recordo o atentado de Atocha...

domingo, março 07, 2010

Desemprego

Esse Desemprego
Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.

Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!

Bertold Brecht

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

sexta-feira, março 05, 2010

quinta-feira, março 04, 2010



Como podemos observar, este test é um desenvolvimento do condicionamento skineriano.
Se apenas atendermos ao autocontrolo, verificamos como alguns dos estudados já apresentam sérias desestabilizações, descompensações, e, da mesma forma que um dependente de qualquer substância aditiva, preferem a estabilização homeostática hedónica do soma (valha a aparente redundância) à valorização do reforço, à determinação em alcançar uma meta mesmo com um incentivo bastante interessante. Aqui já existe ansiedade, inestabilidade, relação parental inadequada, exposição cognitiva descontrolada, gestações e partos traumáticos, e, de forma pouco relevante, morfologia em evolução (porque devemos situar-nos longe do determinismo). Porém, existe, sem dúvida, capitalismo.

oncluindo, desde que nascemos nos encontramos num processo de aprendizagem, aprendendo, apreendendo, crescendo, e, cada vez que interactuamos, transformando(-nos), algo que resulta fundamental.
A questão será mesmo essa: Aprender, aprender sempre!

quarta-feira, março 03, 2010

Escutas?


A audição ou acção de ouvir, podemos considerá-la desde um foco psicofisiológico, como o resultado de uma excitação produzida por ondas sonoras sobre as terminações do nervo auditivo, que se transmite ao centro auditivo do cérebro e, dá lugar a uma sensação aural (ou auditiva).
Hoje, confirma-se que o ouvido é o mais qualificado dos
estímulos sensoriais cerebrais. Desses:
20% correspondem à visão
30% correspondem ao paladar, olfacto e tacto
50% correspondem ao ouvido, que desperta e impulsa o cérebro, àparte de protegê-lo contra o deterioro.