quarta-feira, novembro 03, 2010

Esclarecimento

Agradecendo de antemão que os comentários fiquem aqui expostos, que não seja o email uma caixa de críticas, essas que afinal são fundamentais para continuar a crescer. Fica aqui uma análise mais pausada do texto que anteriormente transcrevi e critiquei parcialmente.

“Os conservadores esperam que a investigação do genoma humano ajude a provar que a natureza, não ordens sociais desiguais, determinam quem acaba por se tornar doente e pobre. Mas os nossos genes têm-se recusado a cooperar.” Ainda parcialmente de acordo - a natureza não determina a pobreza -, não podemos esquecer as leis de Mendel.

“Um psicólogo clínico notável pelas suas observações sobre como a desigualdade afecta o que se passa nas nossas cabeças está agora a divulgar algumas percepções fascinantes, baseadas em nova investigação acerca de quanto a desigualdade reflecte o que está a acontecer nos nossos genes.” Nada de novo.

Este psicólogo clínico britânico, Oliver James, escreveu muito ao longo dos últimos anos acerca do que denomina "ansiedade pela riqueza" ("affluenza") [NT] , o "vírus" induzido pela desigualdade que nos conduz a um nível sempre mais alto de dinheiro, posses e fama.

“A affluenza, destacou James, varia amplamente na sociedade. Quanto mais desigual for a distribuição de rendimento e riqueza numa sociedade, mais affluenza e mais elevada a incidência de doenças mentais que a affluenza tão seguramente engendra.” Não sendo este o factor predominante, a affluenza, antes olhêmos as necessidades básicas como a fome, que raramente aparece nas conjecturas de cariz burguês.

“Os apologistas de ordens sociais desiguais sempre, naturalmente, contestaram qualquer ligação entre doenças mentais e o ambiente económico e social. Que pessoas de baixo rendimento sofram depressão a níveis duplos das pessoas de alto rendimento, acreditam estes apologistas, sugere apenas que pessoas na base nasceram neste mundo com mais "deficiências pessoais" do que as do topo.” Nada a contrapôr nesta crítica.

"A direita política acredita que os genes explicam amplamente porque os pobres são pobres, assim como terem uma probabilidade dupla de serem mentalmente doentes", como observa James. "Para elas, os pobres são lama genética, afundada na base do charco genético". Coisas da direita, nada de novo, nada de razoável.

“A prova científica deste afundamento, exultava a direita uma década atrás, viria quando "avanços rápidos na genética e na neurociência" – o projecto genoma humano e toda a investigação em torno dele — revelasse a verdadeira "história da natureza humana".” Idem.

“A investigação do genoma humano, como opinou dez anos atrás o cientista político Charles Murray junto à organização de extrema-direita American Enterprise Institute, "está em vias de contrair e abalar o espaço para certas posições políticas".” As da direita, certamente.

“"Estou a prever que os provérbios da direita geralmente demonstrar-se-ão mais próximos do alvo do que os provérbios da esquerda", escreveu Murray, "e que muitas das causas da esquerda revelar-se-ão incompatíveis com o modo como os seres humanos são programados (wired) ".” A esquerda é de poucos provérbios mas materialista.

“Com mais completa informação genética em mãos, Murray contestou: "verificou-se que a população abaixo da linha de pobreza nos Estados Unidos tem uma configuração de constituição (makeup) genética relevante que é significativamente diferente da configuração da população acima da linha de pobreza".” Mais um troço da mentira que é a direita.

“De facto, como observa Oliver Jones numa nova análise, as coisas não se apresentaram deste modo de forma alguma. A "extensa investigação do genoma" desde o ano 2000 não revelou qualquer "constituição genética" que predisponha algumas pessoas para o "êxito" e a riqueza e outras para a doença e a pobreza.” Aqui reside um erro importante da resposta do autor: Em realidade existe uma predisposição genética herdada para padecer determinadas doenças, ainda que as doenças sejam como o lumpen, não observem classes.

"Agora sabemos", observa James, "que os genes apenas variam a propensão entre irmãos, classes sociais ou grupos étnicos para sofrerem problemas de saúde mental". Estou de acordo.
“O Journal of Child Psychology and Psychiatry apresentou exactamente o mesmo ponto num editorial do princípio deste ano. A ciência séria, declarava o editorial, agora concentra-se mais do que nunca "sobre o poder do ambiente" e "todos excepto os deterministas genéticos mais teimosos tiveram de rever o seu ponto de vista".” Sem ser determinista, é bom lembrar que não devemos misturar pobreza e doenças.

"Os factores biológicos não existem num vácuo, hermeticamente selados de factores sociais e ambientais", acrescentou na semana passada o bioético Daniel Godlberg, da Carolina do Norte, num comentário sobre a nova análise de Oliver James. "Assim, a tentativa de separar o biológico e o social não faz o mínimo sentido". Não comparto esta afirmação totalmente, social não é ambiental. Nascer no Nepal ou no Peru, dentro de certa continuidade familiar, permite que o nosso sangue transporte muito mais oxigénio que o sangue de quem nasceu ao nivel do mar. Aqui não entra o aspecto social, só o ambiental. Por herança genética, acervo génico, os oriundos da África central possuem uma pele diferente à dos eslavos, e este é o resultado de uma adaptação ambiental, nada que ver com o social.

“Assim, o que faremos com o nosso novo entendimento da genética? Como podemos construir sobre o que agora sabemos a fim de ajudar a moldar sociedades mais saudáveis? James está a sugerir uma sequência de três passos.” Aqui chegamos ao cúmulo da confusão.

“Primeiro, aconselha o psicólogo, vamos "criar uma sociedade na qual o máximo de oportunidades para uma vida mentalmente saudável e realizada seja mais importante do que enriquecer uma minúscula minoria".” Há muito que lutamos contra o capitalismo, tentar inventar a pólvora através de um discurso tão confuso pode ser contraproducente.

“Segundo, vamos "colocar o atendimento das necessidades das crianças, especialmente as mais pequenas, à frente de todas as outras prioridades".” Isto não é possivel, não é lógico nem positivo.

“E, terceiro, vamos cultivar (nurture) as condições sócio-económicas que maximizam a saúde mental. James explica: "Isto significa criar maior igualdade económica, condições de trabalho muito mais seguras, muito maior flexibilidade de emprego para pais de crianças pequenas e uma semana de 35 horas".” Outra mistura perigosa: “maximizar a saúde mental” é comparar por baixo, os três aspectos enfatizados, como sabemos, fazem parte de um todo: Acabar com o capitalismo.

“Temos, reconhece James, "nem uma mínima possibilidade de algo disto acontecer até que os políticos entendam o que a ciência está a dizer-nos".” O que os cientistas, cientistas sérios, defendem, não se expõe de forma tão liviana nem com argumentos tão frágeis. Ainda que de existir (e existe) uma patologia que pode guardar relação com a realidade social cada vez mais homogénea da pobreza, esta é só mais uma, apenas mais uma, e estas, na sua grande maioria, conservam um denominador comum, o capitalismo. Não é por atirar para cima dos políticos a razão de todos os males da sociedade que vamos mudar nada, nem sequer pedindo-lhes que mudem o seu rol de prioridades, afinal quem os coloca em funções somos nós, todos, e seremos nós, povo, protagonizando a história, aqueles que devemos assumir de uma vez por todas o nosso papel, começando por cada um de nós, com os nossos filhos, com os professores, nas nossas relações com o mundo, connosco.

“Os cientistas podem precisar de falar mais alto. E o resto de nós? Podemos precisar ouvir mais atentamente.” Sobre esta sentença nada direi, fica ao critério do leitor a sua apreciação, afinal não se trata só de ouvir ou lêr.

[NT] Affluenza: União das palavras affluence (riqueza) e influenza (gripe), significando o desejo extremo de obter bens materiais ou o sentimento de insatisfação e ansiedade provocado pela busca obsessiva e incessante para obter sempre mais.

Agora, apodrecer

Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...

...mas apodrecer.

Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...

... mas apodrecer.

Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,

Sim, apodrecer ...

"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...

... mas apodrecer!

Sujar estrelas.

José Gomes Ferreira

segunda-feira, novembro 01, 2010

Um cão andaluz

Este filme (15 minutos) é tratado como o ícone do cinema do descrito manifesto surrealista de André Breton, rompe com toda a lógica e linearidade narrativa e tem evocações oníricas. A idéia, derivada das interpretações de Gaudi e Buñuel, com uma justaposição de imagens apontadas pelos dois, criou um curta metragem cheia de momentos desconexos e cenas por vezes chocantes para olhares mais sensíveis, como a do globo ocular sendo seccionado (O homem com a navalha é interpretado pelo próprio Buñuel), a qual, pode ser entendida como uma forma de mostrar a necessidade de olhar e de nos situarmos, em consciência, num mundo em que se nos esvai a essência sem nos apercebermos da entrega (uma visão pessoal, neste caso concreto). O efeito causado nos espectadores é uma tentativa de promover a associação de imagens com uma série de formas de experimentar a realidade. As respostas disparam do inconsciente.

O filme não possui uma história cronológicamente rígida, passa de "era uma vez" directo para "oito anos depois" e para "dezaseis anos antes". Utiliza o sonho, baseando-se na psicanálise de Freud.

Assim, como pesadelo, sou capaz de ver um chui perverso despir uma menor, um puto castigado de cara contra a parede, mas, sonhar também a felicidade de percorrer um caminho pedregoso acompanhado. Outra coisa seria imaginar que o orçamento não passa, que o governo se demite e que, sem eleições, o FMI empresta o país aos portugueses, ideação que me colocaria no corredor da psicose, à porta da ezquizofrenia.

domingo, outubro 31, 2010

Mais uma razão para a direita odiar a ciência

Os conservadores esperam que a investigação do genoma humano ajude a provar que a natureza, não ordens sociais desiguais, determinam quem acaba por se tornar doente e pobre. Mas os nossos genes têm-se recusado a cooperar.

Um psicólogo clínico notável pelas suas observações sobre como a desigualdade afecta o que se passa nas nossas cabeças está agora a divulgar algumas percepções fascinantes, baseadas em nova investigação acerca de quanto a desigualdade reflecte o que está a acontecer nos nossos genes.

Este psicólogo clínico britânico, Oliver James, escreveu muito ao longo dos últimos anos acerca do que denomina "ansiedade pela riqueza" ("affluenza") [NT] , o "vírus" induzido pela desigualdade que nos conduz a um nível sempre mais alto de dinheiro, posses e fama.

A affluenza, destacou James, varia amplamente na sociedade. Quanto mais desigual for a distribuição de rendimento e riqueza numa sociedade, mais affluenza e mais elevada a incidência de doenças mentais que a affluenza tão seguramente engendra.

Os apologistas de ordens sociais desiguais sempre, naturalmente, contestaram qualquer ligação entre doenças mentais e o ambiente económico e social. Que pessoas de baixo rendimento sofram depressão a níveis duplos das pessoas de alto rendimento, acreditam estes apologistas, sugere apenas que pessoas na base nasceram neste mundo com mais "deficiências pessoais" do que as do topo.

"A direita política acredita que os genes explicam amplamente porque os pobres são pobres, assim como terem uma probabilidade dupla de serem mentalmente doentes", como observa James. "Para elas, os pobres são lama genética, afundada na base do charco genético".

A prova científica deste afundamento, exultava a direita uma década atrás, viria quando "avanços rápidos na genética e na neurociência" – o projecto genoma humano e toda a investigação em torno dele — revelasse a verdadeira "história da natureza humana".

A investigação do genoma humano, como opinou dez anos atrás o cientista político Charles Murray junto à organização de extrema-direita American Enterprise Institute, "está em vias de contrair e abalar o espaço para certas posições políticas".

"Estou a prever que os provérbios da direita geralmente demonstrar-se-ão mais próximos do alvo do que os provérbios da esquerda", escreveu Murray, "e que muitas das causas da esquerda revelar-se-ão incompatíveis com o modo como os seres humanos são programados (wired) ".

Com mais completa informação genética em mãos, Murray contestou: "verificou-se que a população abaixo da linha de pobreza nos Estados Unidos tem uma configuração de constituição (makeup) genética relevante que é significativamente diferente da configuração da população acima da linha de pobreza".

De facto, como observa Oliver Jones numa nova análise, as coisas não se apresentaram deste modo de forma alguma. A "extensa investigação do genoma" desde o ano 2000 não revelou qualquer "constituição genética" que predisponha algumas pessoas para o "êxito" e a riqueza e outras para a doença e a pobreza.

"Agora sabemos", observa James, "que os genes apenas variam a propensão entre irmãos, classes sociais ou grupos étnicos para sofrerem problemas de saúde mental".

O Journal of Child Psychology and Psychiatry apresentou exactamente o mesmo ponto num editorial do princípio deste ano. A ciência séria, declarava o editorial, agora concentra-se mais do que nunca "sobre o poder do ambiente" e "todos excepto os deterministas genéticos mais teimosos tiveram de rever o seu ponto de vista".

"Os factores biológicos não existem num vácuo, hermeticamente selados de factores sociais e ambientais", acrescentou na semana passada o bioético Daniel Godlberg, da Carolina do Norte, num comentário sobre a nova análise de Oliver James. "Assim, a tentativa de separar o biológico e o social não faz o mínimo sentido".

Assim, o que faremos com o nosso novo entendimento da genética? Como podemos construir sobre o que agora sabemos a fim de ajudar a moldar sociedades mais saudáveis? James está a sugerir uma sequência de três passos.

Primeiro, aconselha o psicólogo, vamos "criar uma sociedade na qual o máximo de oportunidades para uma vida mentalmente saudável e realizada seja mais importante do que enriquecer uma minúscula minoria".

Segundo, vamos "colocar o atendimento das necessidades das crianças, especialmente as mais pequenas, à frente de todas as outras prioridades".

E, terceiro, vamos cultivar (nurture) as condições sócio-económicas que maximizam a saúde mental. James explica: "Isto significa criar maior igualdade económica, condições de trabalho muito mais seguras, muito maior flexibilidade de emprego para pais de crianças pequenas e uma semana de 35 horas".

Temos, reconhece James, "nem uma mínima possibilidade de algo disto acontecer até que os políticos entendam o que a ciência está a dizer-nos".

Os cientistas podem precisar de falar mais alto. E o resto de nós? Podemos precisar ouvir mais atentamente.

[NT] Affluenza: União das palavras affluence (riqueza) e influenza (gripe), significando o desejo extremo de obter bens materiais ou o sentimento de insatisfação e ansiedade provocado pela busca obsessiva e incessante para obter sempre mais.

O original encontra-se em http://www.toomuchonline.org/tmweekly.html

Traduzido em http://resistir.info/"

Revisão própria

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Depois de tantos anos de investigação cientifica, do esforço que significou elevar esta disciplina a ciência, voltar agora à tábua rasa é quase grotesco. Porém, não restam dúvidas que a tal de affluenza se observa e contrasta na sociedade, com uma dispersão similar à apresentada, que constitui a base da defesa de três soluções que já Marx defendeu à alguns anos, mas, que pode também ser entendido como resultado de uma forma de condicionamento instrumental.
Assim mesmo, é evidente que os factores epigenéticos são importantissimos, não obstante, o acervo génico da espécie permite algo chamado filogénese, registro genético das características mais importantes para a sobrevivência dos antecessores, desde África à Lapónia e conformado com base em transformações ontogénicas que repercutem na reprodução. Sabemos também que, por exemplo, o calor aumenta a agressividade, a irascibilidade, algo que, para uns pode aumentar a capacidade cognitiva e para outros diminuí-la; motivar um comportamento mais ou menos aceite pelo endogrupo e incrementar a frustração ou a convicção, ultrapassar ou impedir alcançar o grau de atenção ideal de cada indivíduo e, tudo isto com um impacto claro no que por exemplo, às células T respeita; nas depressões talâmicas e não só, na composição química que sustenta a comunicação neuronal ou até nas concentrações de sais, intra e exacelular, etc.

Contudo, não pela conclusão de uma investigação absurda que tenta legitimar de uma maneira muito básica a proposta final do texto mas pelas suas razões reais, que são aquelas que devêmos expôr quando tratamos de lutar contra o erro brutal do capitalismo, mesmo que só pela diferença de condições de vida entre "países centrais e periféricos", pela atroz emigração; pela morte, estou parcialmente de acordo com as três soluções encontradas, mesmo sabendo que pedagógos e psicólogos se devem apoiar numa classe, os professores, que seguem programas definidos por governos.

Por último, tão pouco a segmentação das soluções se entende, uma vez que, de estabelecer uma política educativa com os objectivos apontados, também a legislação laboral se veria obrigatóriamente afectada, assim como a repartição dos recursos, etc.

Mais enquadrada numa perspectiva tipo "gestalt" (que não a nazi, é bom não confundir), longe de recuperar o Darwinismo social excluente de princípios do século XX mas não por tal prescindindo da evolução natural que este defendeu, só a destruição de todos os alicerces do actual modo de inter-relação poderia abrir caminho à cristalização do sonho do autor, que, como é visível, comparto e por tal participo.
Esperar que o meu desenvolvimento fosse igual ao de um tibetano se os meus pais decidissem, depois de muitos séculos, ir viver para o Nepal, é duvidoso. Esperar que um inuit não tivera que dedicar grande parte da sua limitada (como a de todos os seres humanos) capacidade a adaptar-se a uma infância na Guiné-Bissau, é discutivel. Entender que por estas afirmações defendera maior ou menor capacidade intelectual dependendo da naturalidade, é uma conclusão simplista e pouco séria.
Todos diferentes, todos iguais, isso sim. Lutar pelo pleno desenvolvimento do Homem começando pelo aspecto ecológico, passando pelo social, terminando por exemplo no neurofisiológico, está, sem dúvida, na base do Comunismo. Pugnar pela preponderância de determinados mundos na constituição integral do indivíduo, macros no caso do texto aqui tratado, é um erro pueril de um facciosismo ignorante, quase tão tendencioso como o motivo pelo qual a direita sempre preteriu a ciência e o seu papel fundamental na criação das condições mais favoráveis para o surgimento de um feliz Homem novo.

sexta-feira, outubro 29, 2010

quinta-feira, outubro 28, 2010

EL NIÑO YUNTERO

Carne de yugo, ha nacido
más humillado que bello,
con el cuello perseguido
por el yugo para el cuello.

Nace, como la herramienta,
a los golpes destinado,
de una tierra descontenta
y un insatisfecho arado.

Entre estiércol puro y vivo
de vacas, trae a la vida
un alma color de olivo
vieja ya y encallecida.

Empieza a vivir, y empieza
a morir de punta a punta
levantando la corteza
de su madre con la yunta.

Empieza a sentir, y siente
la vida como una guerra,
y a dar fatigosamente
en los huesos de la tierra.

Contar sus años no sabe,
y ya sabe que el sudor
es una corona grave
de sal para el labrador.

Trabaja, y mientras trabaja
masculinamente serio,
se unge de lluvia y se alhaja
de carne de cementerio.

A fuerza de golpes, fuerte,
y a fuerza de sol, bruñido,
con una ambición de muerte
despedaza un pan reñido.

Cada nuevo día es
más raíz, menos criatura,
que escucha bajo sus pies
la voz de la sepultura.

Y como raíz se hunde
en la tierra lentamente
para que la tierra inunde
de paz y panes su frente.

Me duele este niño hambriento
como una grandiosa espina,
y su vivir ceniciento
revuelve mi alma de encina.

Lo veo arar los rastrojos,
y devorar un mendrugo,
y declarar con los ojos
que por qué es carne de yugo.

Me da su arado en el pecho,
y su vida en la garganta,
y sufro viendo el barbecho
tan grande bajo su planta.

¿Quién salvará este chiquillo
menor que un grano de avena?
¿De dónde saldrá el martillo
verdugo de esta cadena?

Que salga del corazón
de los hombre jornaleros,
que antes de ser hombres son
y han sido niños yunteros.
Miguel Hernández

quarta-feira, outubro 27, 2010

JCP denuncia nova ofensiva contra ensino

Austeridade nas universidades

Resultado da criação do Programa de Estabilidade e Crescimento e das medidas de austeridade, foram decretados, pelo Executivo PS, novos cortes nos apoios e prestações sociais dos estudantes do ensino superior.

Para a JCP este «ataque» põe em causa «a possibilidade de ingresso nos graus mais elevados de ensino», com a perda ou redução das bolsas, consequência das alterações na capitação dos rendimentos do agregado familiar.

«Actualmente para fazer o cálculo da bolsa, passam a ser considerados os rendimentos anuais ilíquidos, e não os líquidos do trabalho dependente, como era feito até então», salientam, em nota de imprensa, os jovens comunistas, frisando que as alterações «não ficam por aqui». «Se anteriormente cada pessoa contava como "1", neste novo modelo, o requerente mantém o mesmo peso mas os restantes adultos passam a valer "0.7" e as crianças "0,5"», informam, lembrando que estas «são estratégias que vão afastar os cálculos da realidade, uma vez que o rendimento surgirá mais elevado do que realmente é, não tendo em conta outros factores que pesam no rendimento das famílias».

Segundo estimativas feitas, entre 30 a 40 por cento dos bolseiros vão perder a bolsa, o que faz cair por terra o anúncio de reforço de 10 por cento para as bolsas. «Uma mera manobra de distracção por parte do Governo, para agora acabar por cortar as bolsas, que foi sempre o seu objectivo», acusa a JCP, criticando, por outro lado, a cada vez maior quantidade de papeis que os estudantes precisam de entregar para concorreram à bolsa.
(No Avante!)

segunda-feira, outubro 25, 2010

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.

António Patrício

sexta-feira, outubro 22, 2010

PSP impede pintura de mural

Na passada sexta-feira, vários militantes da JCP viram, mais uma vez, ser impedida a pintura de um mural junto à Rotunda das Olaias, em Lisboa, tendo sido identificadas duas pessoas e apreendido o material usado, alegando constituir crime público.

A pintura do mural, com a inscrição «Vem para a luta, por uma escola pública e democrática - JCP com os estudantes na luta por melhores condições materiais e humanas na António Arroio», já tinha sido impedida dois dias antes, chegando mesmo os agentes da PSP a deterem e insultarem os jovens comunistas, obrigando-os a despirem-se, retendo-os durante várias horas na esquadra.

«A pintura de murais em local público está prevista na Lei 97/88 de 17 de Agosto e no Parecer do Tribunal Constitucional sobre essa mesma lei, legitimando o seu exercício e condenando o seu impedimento», refere, em nota de imprensa, a JCP, que vai continuar «a fazer uso deste meio de Propaganda Política e a defender esse direito exercendo-o».

No "Avante!"


Para quando um sindicato de estudantes, mesmo sabendo que estes não conservam de momento esse direito?

Sê tu a palavra

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, outubro 21, 2010

Um passo

Lutar contra esse eu que me esconde é quase diabólico, mas não sou eu, são só conflitos, regras do “super-eu” que me atiram para a proa, não como vigia senão como carranca.
Liberdade é desmatar o caminho a esse que nos agita, que nos afirma humanos, diferentes e iguais, mas sendo, sem freio. Longe, contudo, de bakunin.

Em França queimam automóveis, na Grécia incendeiam bancos, e essa, essa não é luta de massas, essa é a anarquia que promove a anarquia.
Em França, em França também lutam organizados, como em Portugal, como na Grécia, como deve acontecer na Roménia, é bom sabê-lo, mas, também se luta nas Honduras, no México, no Brasil, na Colômbia, no Equador, luta-se por quase todo o mundo, todos os dias, em todas as noites, contra todas as noites. Porém, no nosso caso, não será esse ser sociável, ou socializado, nós, quem se disporá a lutar, será outro, esse que não assume tudo o que esta sociedade lhe impõe, esse que nos preocupamos em esconder para continuarmos ligados a qualquer coisa menos vida, pueril dependência
Cada 6 segundos morre uma criança, cada 6 segundos, morre uma criança!
Num projecto de mitigação da fome em Moçambique, um país que não experimenta a realidade mais aguda da fome mas onde esta mata diariamente, uma das trabalhadoras, depois de se precatar que um dos cooperantes chorava pela morte de um bebé, retorquiu: “-Chorar por quê? A vida é mesmo assim!” Pois! Assim mesmo, esta negação não é privilégio dos africanos, afinal todos aqueles que aceitam de bom grado entregar a única vida que têm a troco da ração que o capital considera suficiente para repor a energia que nos dia seguinte consumirá na produção da mais-valia que este continuará a acumular; aqueles que comem calados as migalhas que lhe atiram, só negam. Negam esse Homem livre que nunca desapareceu, que vive na penumbra da nossa cobardia, que sobrevive, libertador.

Qualquer caminho começa com 1 passo, termine depois de 100 metros ou 100 quilómetros, a diferença reside no valor de cada passo, um passo único que não voltaremos a dar, só o recordaremos... Ou não

quarta-feira, outubro 20, 2010

Anticipando: Merkel anuncia o fim do multiculturalismo


A Alemanha conseguiu ontem convencer a França a associar-se à sua exigência de revisão do Tratado da União Europeia (UE) para permitir a aplicação de sanções políticas contra os países do euro reincidentes em matéria de indisciplina orçamental.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina
Mário Dionísio

domingo, outubro 17, 2010

Sobre a fome

Ao iniciar a revolução comunista, a classe operária não pode desfazer-se de uma só vez das fraquezas e dos vícios legados pela sociedade dos latifundiários e capitalistas, a sociedade dos exploradores e tubarões, a sociedade do sórdido interesse e do lucro pessoal de uns poucos a par da miséria de muitos. Mas a classe operária pode vencer — e, ao fim e ao cabo, vencerá segura e inevitavelmente — o velho mundo, os seus vícios e as suas fraquezas, se se lançarem contra o inimigo novos e novos destacamentos de operários, cada vez mais numerosos, cada vez mais instruídos pela experiência, cada vez mais temperados pelas dificuldades da luta.

Lénine

sexta-feira, outubro 15, 2010

Este ano, na pública, foram mais €400

O Governo britânico pondera criar um imposto para licenciados, para ajudar a financiar o ensino superior. Os líderes universitários estão dispostos a aceitar esta medida, pois a maioria dos estudantes faz os cursos recorrendo a empréstimos.De acordo com a Lusa, líderes estudantis rejeitam o aumento dos juros dos empréstimos e concordam com a proposta dos Trabalhistas e a promessa eleitoral dos Liberais Democratas de criar um imposto especial para licenciados variável de acordo com os seus salários para ajudar a financiar o ensino superior.

Desde que o actual regime foi criado pelo Governo de Tony Blair que os estudantes recorrem a empréstimos para pagar propinas e outros custos, que amortizam ao longo da carreira profissional. Os juros poderão agora aumentar, de modo a que os licenciados terminam o curso com dívidas ainda mais substanciais, na ordem das dezenas de milhares de euros.

Já as universidades de elite, como Oxford e Cambridge, têm feito campanha no sentido de poderem aumentar as propinas e apoiam uma reforma do sistema para poderem competir com universidades americanas(*).

(*) Significa pagar entre 40 e 60 mil dólares ano

Freud

Há 110 anos, precisamente, Freud começou a psicoanálise de Dora. Junto com o conductismo, uma das mais controversas linhas de pensamento da psicologia até há poucos anos.

Nem eu oiço os mesmos tic e tac que o meu avô, nem o meu avô os ouvia com tanta frequência. Aliás, hoje os metais daqueles relógios que ainda fazem ruido, ou ruidos, nem sempre são os mesmos, quando não punhal de plástico.
A intensidade de hoje, para maior longevidade, resulta numa falta de tempo exasperante, que abrevia finalmente o desespero, que agiganta os passos sem alcançar um volátil horizonte.
Frustração? Pode ser, mas, se inconstante o objectivo débil a angústia, que toda, sem tempo, de Homens.

Não matar o pai não deixa de ser um prozac verdadeiro (que não um verdadeiro prozac), quando podemos. Quando não...
Trabalhamos, dormimos, roubamos, estudamos, amamos, violentamos, caminhamos, e, por vezes, crescemos.

Que Freud tivesse razão? Não creio!

quarta-feira, outubro 13, 2010

Falácia no e do, lodo

Empantanam o chão e nesse, que seria o único nós, gatinhamos (por vezes), e, levantamo-nos.
Encontramos,
outros, levantados, cansados, caidos;
homens horizontais sem horizonte mais que no reverso
do cristalino,
aqueles que algum dia ergueram,
agarrados ao seu monte(inho), à sua parcela.
A sua parcela,
essa que não serve mais que tropeços de quem quer olhar em frente; que poderia unida sustentar os corpos espalhados pelos caminhos, vida,
como desses antes de encontrar aquelas que usaram.
"-Não me a toques!"
"-Vai-te, aprender; amontoar para ti!"

Vidas de entre muros, sem porquê!

terça-feira, outubro 12, 2010

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Cegos de Madrid


Júlio Pomar

segunda-feira, outubro 11, 2010

Egoismo, quem sabe? Enquanto o não souber não serei mais que um imberbe.
Ainda mal sabendo andar tudo existia, hoje também.
A cada passo que dava, neste mundo, afirmava uma criança em coerência total com o seu eu, mas, hoje...
Hoje o mundo tornou-se imenso, a pressão, a opressão, não dos sistemas políticos ou das leis, essa que o sofrimento dos homens os veste despe-me
Nú sou paralítico. Vestido, disfarçado, a paisagem frustra-me. E a vida?
Chego a pensar que darwin, mais que qualquer outra coisa, foi o mais importante psicólogo social de sempre.
Os sentimentos, armazenados; o conhecimento, armazenado; os esquemas; os códigos; os muros. Tudo não passa de uma prisão, da prisão que vou construindo desde dentro, que é no fim só luta, luta por não perder a verticalidade de cada passo, daqueles que alguma vez dei cambaleando, sem ainda saber falar.
Só pode ser egoismo, permitir que alguém masque esta angústia, ainda que dedique o resto da vida limitando potenciais danos de uma conclusão “natural”, quem sabe pueril. São a felicidade, a alegria, essas que espelham um mosquito de vida fugaz.
Que mentira é esta?
Que ilusão é esta?
“A vida, a vida, a vida!” De quem?
É a realidade?