domingo, setembro 12, 2010

O perigo


Prematuro mas catártico, o motivo que justifica este texto.

Emigrante, trabalhador e militante de um partido político, que podia ser qualquer se fosse outro o autor e/ou as suas razões, mas, uma vida, outra, única, e tantas. Decidi debruçar-me sobre os efeitos que a emigração pode ter no indivíduo e seu entorno, tratando a questão desde a infância e as suas diferentes situações, à despersonalização mais profunda e à destruição do Homem que se empenha em, por vezes aproveitar, mas, sempre, sofrer o capitalismo.

O léxico, que empregarei, será aquele que considere oportuno e que, também, dentro do escasso conhecimento linguístico que se poderá constatar, proporcione da forma mais abrangente uma leitura fluida. É importante antecipar que o tema obriga a utilização de determinada terminologia de síntese que, nalgum caso, por não se tratar de apresentar sinónimos, estenderia à extenuação deste que escreve e daquele a quem possa interessar a sua explicação.

Finalmente, e para entrarmos em matéria, não está demais informar que não conservo apetência nem aptidões para o ballet.

As crianças, em idade pré e escolar:

São por demais conhecidas as contrariedades que experimenta um indivíduo quando certas peculiaridades o colocam fora do endogrupo, tornando-se estas mais acentuadas quando este as encontra numa etapa de formação da sua estrutura cognitiva, neuroanatómica e/ou neurofisiologica, impactando na sua personalidade adulta a necessidade alostática de debelar repetidamente fronteiras de cariz estereotípico. Por outra parte, ainda assumindo que termine finalmente por se integrar socialmente, no que ao âmbito familiar concerne pode também constituir uma fonte de cisão com a cultura parental, enquanto o pai, adulto, experimentará outras complicações que mais à frente se tratarão mas que raramente passam pela plena integração, o filho, chega por vezes a revelar-se como articulação entre duas culturas, fundamentalmente quando sobrevaloriza a receptora menosprezando a de proveniência. Nesta situação, os roles familiares chegam frequentemente ao limite de se inverterem entre pai e filho, gerando assim situações de insucesso escolar, toxicodependência, condicionamento social, violência ou mesmo uma capacidade imunológica diminuída.

No relativo às situações negativas geradas, também no caso antagónico, no qual se verifica um apego exacerbado à cultura de proveniência em detrimento da adoptiva, estas se podem desencadear. Sem procurar sistematizar critérios de avaliação nem tão pouco teorias herméticas, estas constatações tomam base em diversos estudos realizados entre 1979 e 1990, os quais apontam, como habitual, que a situação socioeconómica é uma constante proeminente no sustento destas adversidades.

Assim mesmo, referindo-nos agora a factores atenuantes ou promotores das diferentes situações acima descritas, devemos observar certas distinções entre: descendentes de emigrantes em que ambos progenitores compartem naturalidade, idioma, grau de aculturação, situação laboral ou até formação, todos estes aspectos nos mais diversos níveis e que actuam de forma exponencial; onde um dos elementos do casal é oriundo da região; o factor de multiculturalidade dentro do qual amadurece a criança ou até, as suas afiliações comuns, ou não, à generalidade.
O bilinguismo intrafamiliar pode, porém, resultar favorável, mas, da mesma forma que se cria um sistema no qual os símbolos se podem intercambiar, estimulando a organização do pensamento, este poder-se-á desequilibrar quando a família não mantém um reparto na utilização do idioma similar ao do entorno infantil.
Terminado este apartado, apenas mencionar alguns dados quantitativos, tomando como referencia a população emigrante portuguesa, e do magrebe, em França. Sabemos hoje que, em 1985, a metade dos expedientes de tutela temporária e 20% das solicitações de custódia foram relativas a este colectivo. Por tal, tranformado, neste caso, num problema psicológico mais que linguístico, o fenómeno migratório guarda também uma relação directamente proporcional com duas etapas infantis: A patologia carencial, tanto somática como psicológica, que apresenta maior incidência na idade pré-escolar, maximizando-se mais tarde, no período de latência, os problemas escolares. Já na adolescência, momento de consolidação, verificam-se conflitos de identidade podendo estes ser potenciados pelo biculturalismo, razão maior na explicação dos transtornos apontados.
Entre 1980 e 2010, depois da integração na U.E., os emigrantes Portugueses diminuíram o seu fracasso escolar, com rácios similares aos espanhóis, distinguindo-se notavelmente dos estudantes de países africanos. Também assim, a inserção laboral familiar ou a consideração social sobre a nacionalidade, sofreram certa melhoria (aqui também se pode encontrar certa influencia da revolução de Abril), não havendo podido contudo eliminar quadros semelhantes aos relatados.


O Emigrante adulto:

Referindo o continuo entre os dados anteriormente utilizados e os indicadores actuais, constata-se que subsistem enormes dificuldades na afirmação de igualdade entre as populações de estudo e os cidadãos nacionais, persistindo a clivagem social, reforçada pela indefensão aprendida resultante da percepção da realidade do país de origem e pelos discursos e medidas que adoptam os governos dos países receptores, submetidos a ditames de carácter imperialista que legislam como subversiva a defesa de culturas que, ainda diferentes, são indubitavelmente importantes para a estrutura interna do trabalhador, facto que por si só destitui em certa medida de vontade própria e identificação aqueles que encontram como solução aceitar os desígnios de empregadores nacionais, com similar, ou até menor formação (não só académica ou profissional) e, vínculos contratuais onde a precariedade prima pela constância. Concluímos neste caso que, apesar do passar do tempo, da assunção da diferença pelos migrantes, na Europa – para não divagarmos sobre a problemática da população negra norte americana depois de mais de duzentos anos de lutas -, actualmente, também a condição de nacionalizado determina maior exposição a distúrbios psicológicos.

Por outro lado, tratando-se de trabalhadores que recentemente se tornaram emigrantes, observam-se assim mesmo experiências paralelas, mas, neste caso concreto, não carece de necessidade a contemplação do incremento nos direitos, liberdades e garantias que desfrutavam na sua terra (voltando aqui, apesar do fascismo demagógico actual, a mencionar o 25 de Abril como enorme conquista civilizacional), revelando-se a situação prévia à equiparação, muitas vezes exo-distinção positiva, com o colectivo analisado no início do texto.

Interpretando esta amálgama de contrariedades desde a neurociencia, não reduzindo os seus efeitos ao já conhecido sindroma de ulisses, que passa por ser uma tentativa de impedir o profundizar da introspecção na procura dos motivos reais que precedem este fenómeno, delimitando por consequência a sua dimensão, mais, por tomar como base de estudo populações oriundas de regiões geográfica e culturalmente radicalmente diferentes das receptoras, servindo-nos para o explicar a sua suficiente definição wikipédica (em Espanhol, por não existir em Portugal um cuidado sobre esta matéria):
“El Síndrome de Ulises, también conocido como síndrome del emigrante con estrés crónico y múltiple, es un síndrome de naturaleza psicológica que se caracteriza por un estrés crónico que viene asociado a la problemática de los emigrantes al afincarse en una nueva residencia. El nombre viene variado del héroe mítico Ulises el cual, perdido durante muchísimos años (diez según Homero) en su camino de vuelta a Ítaca, añoraba su tierra de origen pero se veía imposibilitado de volver a ella.
Según su descubridor, el doctor Joseba Achótegui, psiquiatra del SAPPIR y profesor titular de la Universidad de Barcelona, es una situación de estrés límite, con cuatro factores vinculantes: soledad, al no poder traer a su familia; sentimiento interno de fracaso, al no tener posibilidad de acceder al mercado laboral; sentimiento de miedo, por estar muchas veces vinculados a mafias; y sentimiento de lucha por sobrevivir. Se calcula que en España puede haber unas 800.000 personas afectadas por esta enfermedad.
El síndrome de Ulises no sólo actúa por sí mismo sino que, como toda situación de estrés, contribuye a acelerar o desarrollar ciertas patologías que podían hallarse latentes en aquellos que los sufren. Por ejemplo, pacientes con predisposición a desarrollar brotes psicóticos pueden ver acelerada o aumentada su aparición a causa del estrés, de ahí que la tasa de estas patologías sean mayores en el colectivo de inmigrantes que en la población general.”


Utilizaremos, deste, como reforço da linha de pensamento aqui apresentada, a constatação de patologias como a esquizofrenia, à qual somaremos a percentagem de emigrantes no número de pacientes que atenderam a consultas de saúde mental no serviço de saúde Galego, 12.5%, um resultado extraordinariamente elevado sabendo que não houve qualquer retorno massivo daqueles que emigraram.

Assim, a causa mais provável deste tipo de psicopatologias parece residir na perda do contacto com diversas características que, em conjunto com a herança genética, constituem o indivíduo: paisagem, idioma, esquemas de movimento, clima, palatabilidade, arquitectura, vestuário, leis, entorno social, etc, e, assumindo outras, para as quais não existem heurísticos; resgatando a óptica evolucionista, poderíamos afirmar que se torna vital para o indivíduo entrar numa situação depressiva, momento no qual o organismo prioriza o pensamento e a análise sobre novos problemas que devem ser resolvidos em ordem a permitir a adaptação ambiental. Nesta situação, o suicídio é uma opção muito tangível em fases mais agudas e, não esquecendo que não existe inserção no meio e que por tal as possibilidades de uma pseudo-terapia de grupo são escassas, aparece no recurso ao especialista uma forma de solucionar, quase sempre quimicamente, ou atenuar, as consequencias do paciente se ostracizar. Os dados, porém, indicam que só uma ínfima percentagem dos afectados recorre a soluções médicas (por questões que vão desde o condicionamento social à nacionalidade do terapeuta), potenciando, com o decorrer do tempo, o agravamento da situação. Consequentemente, a perda de volume de áreas e sistemas fulcrais do cérebro - o hipotálamo por exemplo -, deprimindo também a capacidade cognitiva, intelectual ou de memória, desvincula-o da realidade e promove, assim, uma possível psicose, derivando habitualmente na sua vertente esquizofrénica, problema com o qual voltam ao seu país ou perecem na aventura.

Estagnação ou evolução:

Como é fácil perceber, suprimindo a sua vontade, grande número de emigrantes atravessa esta fase sem sequer se aperceber, algo que guarda relação com outras capacidades do Homem. Os mecanismos mais usuais para preservar o equilíbrio homeostático, muitas das ocasiões com êxito, passam por aderir ou formar associações que pugnem pelos interesses comuns daqueles que compartem rasgos culturais e, dependendo da adquisição de consciência sobre os motivos pelos quais se encontra atravessando determinadas dificuldades, a militância política.

Conclusão:

Exceptuando a militância política activa, as medidas de evitação ou escape, como as descritas, ou até a construção de uma casa na terra, as estâncias periódicas no seu país, etc., não se podem entender além da morte prematura da vontade.
Enquanto emigramos procurando a “sopa feita”, noutros casos só o pão, sensibilizados por uma melhor compensação pela produção de mais-valia, raramente questionamos o modelo que cada dia mais acicata as desigualdades. Esta Europa a duas velocidades, o concentracionismo (que subsidia o arroz por hectare em lugar do quilo de arroz semeado), a conveniente destruição do tecido produtivo nacional, a aposta pelos baixos salários (algo que defenderia em outro paradigma), são estratégias defendidas com vista a fomentar a necessidade de emigrar dos Portugueses e proporcionando assim aos países ricos uma força de trabalho dúctil, subserviente, igual àquela que permanece no seu país mas com uma retribuição menos má. Outra importante vertente a defender é fuga de potencial intelectual, técnico e artístico e cultural.


Países como Portugal, sem o esclarecimento e a participação do povo, afrontam a ameaça de se assemelharem a um aviário de mão-de-obra barata e descartável, onde, neste caso, se podem apreciar um dos mais elevados índices de psicopatologias do mundo e, no qual cerca de metade da população experimentou já, no passado recente, transtornos psicológicos (considerando apenas casos censados).

Breve quanto possível, tratando de obviar elementos que, embora importantes, pouco ou nada compatíveis seriam com o tratado, espero haver contribuído para alertar quem ainda o não está para as consequências que da fuga de nós próprios, na procura da felicidade, podem advir.

Mário Pinto

sexta-feira, setembro 10, 2010

Ler para pensar o mundo - Graça Mexia

Cerca de dez livros foram apresentados na Atalaia, de diversos géneros e abordando temas diferentes. Obras para pensar ou repensar o nosso mundo.

O ambiente era propício à leitura: milhares de volumes estavam espalhados pelas mesas da Festa do Livro, convidando quem entrava a folheá-los e a deixar-se seduzir. Onze dessas obras foram apresentadas naquele espaço, em sessões acompanhadas por leitores e futuros leitores.

Na noite de sexta-feira, Fernanda Mateus, membro da Comissão Política do PCP, apresentou a obra de Graça Mexia 45 Anos e 38 Mil Grávidas Depois, que aborda o método psicoprofilático do parto, que a autora prepara desde 1962. A dirigente comunista recordou como descobriu a existência de um treino que permite às mulheres terem os seus filhos sem dor e encararem a maternidade «como um acto responsável e feliz, não como um fardo». Os relatos cruéis de gerações de partos com dor alimentavam uma visão obscurantista do acto de dar à luz, situação ultrapassada pelo método psicoprofilático, garantiu.

«Politicamente, este livro traz-nos momentos negros da História portuguesa. A sexualidade das mulheres era reprimida e o fascismo não aceitava o trabalho de Graça Mexia», afirmou Fernanda Mateus, lembrando que muitas militantes comunistas que foram mães na clandestinidade conseguiram utilizar este método.

«Hoje, assistimos ao encerramento de maternidades e centros de saúde e o método psicoprofilático tornou-se uma miragem», denunciou a dirigente, sublinhando que a precariedade dos contratos e os horários de trabalho alargados fazem com que a maternidade seja considerada um peso e constituem barreiras a este método.

Graça Mexia confirmou as palavras de Fernanda Mateus: «Nas décadas de 1980 e 1990, acompanhava 75 mulheres por dia, porque a lei permitia que saíssem do trabalho para prepararem o parto. Agora já não. Há um decréscimo brutal de mulheres que o podem fazer, tal como o número de crianças a nascer em Portugal. Isto relaciona-se também com o desemprego, o atendimento nos centros de saúde, a falta de médicos e enfermeiros... Até para a recuperação do parto é difícil ter tempo.»

In, "Avante!"

quinta-feira, setembro 09, 2010

segunda-feira, setembro 06, 2010

A Festa que foi, e já é!

Começou a Festa, mas..

Para lá chegarmos lutámos pelos direitos na Emigração

Trabalharam na construção da Festa

e, depois de reforçar o corpo

e a mente,


estou convencido de não haver feito suficiente.







Obrigado, Camaradas!

quarta-feira, agosto 18, 2010

Mal nos conhecemos

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!.

Alexandre O'Neill

Eu vou!

terça-feira, agosto 17, 2010

5 minutos de blog

O altruísmo.

O altruísmo, para começar, tende a ser endogrupal, mas conserva um aspecto individualista que a meu ver se revela fundamentalmente no voluntarismo.
No âmbito do grupo, o objecto da participação (invariavelmente) termina em benefício próprio, mas, também, e conscientemente, e primordialmente, em benefício do grupo, com a intenção de melhorar questões que a este se reservam, elevando a sua capacidade, prestígio, consideração, dimensão, ou mesmo acesso a recursos, indirectamente somos beneficiados por a este pertencer.
A dinâmica de grupo, sendo o colectivo composto por vários indivíduos, pode ver-se mermada devido a questões como o nepotismo corrupto, cobardia, soberba, inveja, incapacidade, frustrações pessoais ou simples ambição. Neste caso, quando estas formas de inter-relação se impõem ao ideal conjunto, quando se legitimam por comunhão daqueles que ocupam roles de proeminência, aparece a individuação, o abandono e/ou a cisão, criando-se um novo grupo ou inserindo-se noutros que careçam dessas desviações ou que, incorporando-as, permitam uma identidade social positiva de maior amplitude.
Também no seio do grupo, sobretudo numa sociedade de perfil colectivista como a nossa, se encontram os, por mim denominados, “ratos”. Estes são aqueles que esperam do grupo, as oportunidades por este criadas, para alcançar através das mesmas o que não foram capazes de alcançar na coerência com os seus dissimulados ideais, as condições que supram as mais variadas lacunas que equivocadamente, ou não, subsistem na sua personalidade. Não obstante, o altruísmo endogrupal neste caso não existe, sim a assunção informativa, mas, excepcionalmente, não a normativa, uma vez que não se desencadeiam acções quando não se perspectivam compensações. Em psicologia, este tipo de perfil conhece-se como advindo de certas patologias, mesmo deformidades neuroanatómicas ou morfológicas.
No caso concreto do grupo ao qual pertenço, por condição, estas últimas não ousam predominar, antes pelo contrário, basta lembrar Homens como Bento Gonçalves, Dias Lourenço, Dias Coelho, Soeiro, e tantos outros que para mencionar não bastaria o virtual espaço deste blog. O ideal do meu partido é maior que o de qualquer homem, que o de qualquer doença, que o de qualquer dogma.
Assim, atribuída que está a vertente política à maioria dos grupos, se não a todos, para evitar situações como as descritas mais acima, sabemos que a concentração de elementos nocivos pode a partida ser limitada com base nos procedimentos estabelecidos que dão lugar à aceitação de novos integrantes, ainda que, dificilmente se detectem e menos se reúnam argumentos para afastar aqueles que no percurso se corromperam, elementos que dificultam, não chegando contudo a degradar, o progresso e o crescimento do colectivo. Contrariedade que promove, de novo, a individuação. A resposta, neste caso, apela à coerência individual com os valores que estiveram na base da decisão primeira de escolher determinado grupo, que formaram determinada personalidade, e, ainda pesando o comportamento abjecto de alguns semelhantes, a análise toma outro cariz, reforçando a identificação com a maioria endogrupal, terminando essa por fortalecer o altruísmo e relegando para o limbo da segregação aqueles que com a sua actitudinal deformação infectam o ambiente.
Porém existe também a necessidade de compartir os recursos. Nessa situação, a diferença entre um grupo com características standard e outro de elíte, é que no actual paradigma, os recursos do último sobram para todos elementos, favorecendo assim a competitividade e premiando a dominancia sem olhar a meios, sendo este evitado pelos que aproveitam outras prácticas camuflando a sua vontade dentro de um entorno solidário, não obrigatóriamente carecido.
Como conclusão, o Homem é um ser social, necessita o grupo, e, como meta essencial reproduzir-se. O altruismo é, pois, a forma que melhores resultados prova alcançar no sentido da transformação do futuro no qual crescerão os nossos genes, viveremos nós e, a sociedade da qual fazemos parte.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Humanidade, tempo, espaço e colectivismo

"O homem culto é aquele que tem consciência do seu lugar no universo e na sociedade, reconhece a dignidade inerente a qualquer indivíduo e coloca como seu fim supremo o aperfeiçoamento interior."
Bento de Jesús Caraça

sábado, agosto 14, 2010

O silêncio

O silêncio.

O texto que segue toma como base a imposição do silêncio durante a ditadura fascista que marcou quarenta e oito anos da vida de Portugal e dos Portugueses, no intuito de expor uma pseudo-tese que explique e denuncie a depressão que actualmente se verifica no âmbito social, e, como conclusão, encontrar hipotéticas formas para a alterar:

Vinte e poucos anos depois da transição efectiva de um sistema feudal a outro prenunciado democrático - um avanço civilizacional incontestável -, estabeleceu-se no nosso país um tipo de ditadura extraordinariamente repressiva, fundamentada no nacional-corporativismo alimentado, também, pela dimensão de potência colonizadora que Portugal detinha à época. Durante esse período, fundamentalmente personificado por salazar (o botas) e mais tarde por marcelo caetano, aparte de não existirem quaisquer garantias sociais que evitassem a renúncia do povo a exibir critério próprio, proibidas que estavam as reuniões populares, a lei determinava não haver lugar a opinião contrária àquela segundo a qual se regia a vida dos Portugueses e que conservava desígnios de uma oligarquia.

Tentando desde a neurociência enunciar alguns possíveis transtornos advindos desse regime, transtornos que podem hoje preconizar a atitude da população em geral, podemos atender a diferentes factos, sendo o primeiro deles a localização do sistema de processamento de linguagem no cérebro humano, córtex frontal, área de broca. Compartindo disposição estão situadas importantes funções de coordenação – que para o caso não apresentam relevância – e, motivação e conduta, tomando estas papel central nas conclusões que pretendo alcançar.
Assumindo que dialogar permite a afirmação da personalidade do indivíduo, que o mesmo evolua no contraste com outros pensamentos, e que, ao contrário, através do condicionamento instrumental; operante, se podem cominar alterações psicológicas como a depressão e assim a indefensão aprendida e que estas, durante um processo tão alargado no tempo quanto a mencionada ditadura e sem tratamento (antes pelo contrário), puderam influenciar ontogénicamente as características do aporte filogénico na reprodução, podemos identificar o motivo da apatia que se constata socialmente.

Porém, sem deixar de contemplar a transformação que a liberdade conquistada com o 25 de Abril proporcionou com relação à dimensão da exposição cognitiva, ao seu contributo no processo evolutivo, podemos assegurar que, segundo a teoria da selecção natural, as gerações que agora se reproduzem já não transmitirão geneticamente consequências desse tipo de fascismo e, ainda que não seja a metamorfose do mesmo o elemento de estudo, no artigo anterior dá-se conta da estratégia actual de dita política.

Assim, aceitamos então que a possibilidade de escolha ou afirmação do indivíduo é factor necessário para a felicidade. Contudo, o processo de consciencialização que permita tornar efectivo, real, o uso desse direito, continua a ser dificultado pela reacção, pelas forças políticas da direita, e será contra essas, sem dúvida, que a luta deve ser travada. Sustentando esta opinião, mesmo atendendo ao resultado de investigações que indica que, à semelhança do que propugna o Marxismo, o processamento de informação se vê melhorado quando o Homem elucubra fortalecido pelo colectivo (exemplo).

Constituindo exemplo suficiente a propaganda que aqui encontramos do quão bombardeada resulta a democracia nos dias que correm, revela-se assim inviável, mesmo que interiorizada positivamente, que a revolução de 1974 sirva como "priming" para evitar que a tentativa de estereotipar o Socialismo surta o efeito desejado por aqueles que, por exemplo, promovem o concentracionismo, elitizando o acesso a serviços como a justiça a educação ou a medicina, colocando-se assim como classe dominante.

Concluindo: ainda tendo sido sacrificada pelos mesmos que a louvaram, a vaca galega que debelou o ataque de uns lobos que habitavam a serra onde pastava, quando perdida com a sua cria durante 12 dias, depois de aprender a lutar para se defender deixou de obedecer ao pastor como o faziam as suas semelhantes domesticadas (motivo da sua morte). Utilizando como parábola, e salvando claramente as distancias, esta fábula que encontrei no livro "A viagem do elefante" de José Saramago, lembra que são muitos aqueles que hoje continuam a fazer o que de melhor aprenderam, lutar, e sim, claro que também para estes a ontogénia tem os seus efeitos, ainda que no seu caso, por não acicatar a depressão, comporte o potencial necessário para levar a cabo a ansiada mudança (transformação aferível de paradigma), que sobrevirá, mais cedo que tarde.

sábado, agosto 07, 2010

O Herói anda por dentro

Hoje, ao ler um artigo de um blog muito interessante, que mencionava uma notícia sobre o super-homem, decidi escrever sobre o assunto que me tem vindo a martelar há umas semanas: a política e os comic. Porém, não vou entrar tão a fundo na matéria que me leve a viajar por sendas que já trilhei e que, como proposta deste texto, resultariam ainda mais aborrecedoras que o mesmo.
Personagem que me interessa desde o ponto de vista (de momento) académico, o batman, poderia justificar quatro ou cinco páginas de um livro, ainda que, não por evitá-lo deixarei de referir a sua traiçoeira adição às endorfinas, a esse ópio endógeno que se produz na tentativa orgânica de alcançar o equilíbrio homeostático perdido no reviver de experiencias semelhantes a outras traumáticas (como quando, apontando-lhe com um revólver, assassinam seus pais) ou, em situações inusitadas, sempre negativas. Enfim, à justificação da sua pseudo-altruísta inquietação pela defesa da população, desde uma clara eleição de classe... Burguesa, egocentricamente hedonista.
Nesse sentido, e aproveitando a onda que se conforma, na espontânea tentativa de análise sobre uma tão proeminente figura desse universo aos quadradinhos, onde muitos de nós vivemos momentos da nossa vida, fundamentalmente na etapa de crescimento, continuarei, procurando contribuir para uma interpretação distinta de outra personagem com estatuto superior, o super-homem.

O super-homem, “Superman” para evitar confusões com outros tipos de anticristo, abandonado pelos seus pais, quando estes decidem perecer por não se legitimarem sem feudo e incapazes, como reaccionários, de afrontar o desafio de partilhar e integrarem novas e desconhecidas realidades; vítima da cobardia dos progenitores, cai na terra (“América”, enorme, onde qualquer homem de boa fé, um bebé, um inocente, podem estar seguros), em terreno lavrado, cheio de vida potencial, que, como de forma “comum” nessas esplêndidas e generosas paragens, pertence a um só casal. Desfrutando de uma infância cómoda, abstémia, casta, alienada da mundana humanidade, e curiosa e paradoxalmente, exemplarmente abnegado humilde limpa-botas dos filhos dos vulgares abastados homens que abundam nesse paraíso, consegue compensar com trabalho os escassos recursos que os seus anciãos tutores dispunham para a sua educação, graduando-se ("doutorando-se", em Portugal), em jornalismo. Meritório esforço (ainda que de quem não sua), mas, básica e tácita apologia de um paradigma de submissão e competição, de uma assumida clivagem classista capitalista ultra-ortodoxa, onde a emancipação se outorga em “canudos”.
Recapitulando, nesta inicial aproximação ao “SM” – abreviando como se estila actualmente -, começo por concluir que segundo os guionistas e a censura norte-americana, o abandono de menores deve ser legalizado, e quem diz abandono diz venda, sempre que os pais não tenham possibilidades de manutenção do menor. Conclúo também que, cair na América, ainda que de forma aleatória, é uma sorte acompanhada de oportunidades, sempre que nos aborreguemos o suficiente.
Mais importante, para terminar este primeiro inciso, encontro uma diferença assinalável entre a aposta por um progresso sustentado “também” nas centenas de, pelas mais diversas razões, “Mitchourines*”, elemento central da intelectualidade, e outra forma, a qual, reiterando e defendendo a prevalência do estabelecido, cuidando a marisma, apenas reconhece idoneidade ou razão fundamentada, ou mesmo pondera somente a argumentação; atribui valor, aos formados segundo seculares critérios programáticos redutores.

Noutros âmbitos, contra a emancipação do indivíduo, existe o Hulk. Para nos fixar num mundo sombrio, solitário, insolidário, frente a um copo que depois de vazio tentamos romper com o poder da mente e que por tal logro vazamos cada vez com maior diligência, estão os X-men, com o seu chefe numa cadeira de rodas, mas, claro, estes seriam só o veludo.

Voltando ao nosso, deles, homem, e para não nos alargarmos muito mais, uma constatação simples é a de que o “SM” foi mesmo criado como elemento estrutural, e estructurante, da estratégia de manipulação imperialista. Se nos detivermos em aspectos paralelos, perceberemos que, este é o único super-herói que necessita disfarçar-se para viver entre a população - isto numa das maiores metrópoles do mundo -, que começa por querer identificar-se com o entorno, facto que permite extrapolar que o comportamento de um ser especial (da população americana que pretende imitar, tornando-a extraordinária; dos valores americanos) é temeroso na sua relação com o semelhante (distante), dócil com o patrão (cash), austero aos sentimentos (privilégio do homem); deve ser voluntarioso e humilde para com os seus inferiores, inferiores (como para decidir quando como e onde levar a cabo invasões solidárias ou defesa de conflitos previamente criados); que ainda sendo todo-poderoso não deve submeter (ou mais bem, não mostra submeter) mais que os vilões por ele ajuizados (possuidores de arsenais nucleares, por exemplo), e que, tudo faz com a consciência de poder cometer erros como um humano, com as suas kriptoniticas e humanas debilidades (não existindo Haya para os soldados americanos). Em suma, olhamos para alguém que podendo dominar o mundo prefere, aparentemente, dominar-se a si (perdoando-nos a vida).

No caso do homem-aranha... sendo um cientista, é o único capaz de afirmar na sua biografia que, a interacção conscientemente respeitadora entre espécies, no seu caso e sem sequer ter esborrachado a aranha, pode ser benéfica (afinal existe sempre um vínculo filogénico). Tomando esta figura híbrida, entrando noutro ramo da sua área de formação enquanto simples humano, em diferente matéria, concretamente segundo as últimas conclusões da neurociência, a forma mais efectiva para aturdir o povo; impor o pensamento único, é mesmo bombardeá-lo com opções, tantas quantas as necessárias para o paralisar, para que este, mesmo podendo actuar não possa decidir fazê-lo. Ora, se uma das faculdades que conformam a espécie humana, no que à psicobiologia concerne, é a capacidade de decisão, ao ser impedidos de escolher entramos numa espiral depressiva. Apáticos, indiferentes, tornamo-nos – como o batman -, depressivo-dependentes ou, dependentes das substancias que o nosso corpo segrega quando nos deprimimos, votando em quem sabemos nos roubará o que puder, nos retirará os direitos outrora conquistados lutando; incapazes de assumir a responsabilidade de mudar em direcção a uma sociedade transformada (como pais de um imaginário super-homem). Enquanto isso, o mundo gira e avança, e nós com ele, sem preconizarmos a vida com que trazemos agarrada ao nascer. Permanecemos hirtos, como num prado onde a contemplação se extende até um horizonte com escritura de propriedade.

Em Portugal, mais de 45% da população sofreu psicopatologias, actualmente estão diagnosticados e medicados, aproximadamente 25% dos portugueses, um dos rácios mais altos do continente (incluindo países frios onde a população, bastante mais individualista, obtém uma taxa de suicídios extremamente elevada, sabendo que os últimos trabalhos apontam também a que não ter amigos se pode considerar tão nocivo quanto fumar. Tese esta, última, à qual me atrevo a acrescentar um factor também ecológico, o paisagístico), nada inexplicável depois de 48 anos de repressão e obscurantismo, onde a impossibilidade de eleger era imposta abruptamente, uma forma prematura do esquema de condicionamento que hoje se continua a aplicar, com alcance mais global, e que, prova o trabalho de escolas como Tavistock.

A modo de conclusão, sem ter andado por Zeus e seu pai, nem querendo que este se revele referência sequer para seu filho: Fundamental será manter acesos os alarmes anti-demagogia, evitar ver a realidade através dos quadradinhos nos quais diariamente nos tentam enclausurar o pensamento; ver com olhos de ler, para que não se imponha uma espécie de neo-linguagem transmissora de um guião escrito na vida de outros, que podia ser a nossa, internacional. Nessa luta, a dificuldade é inversamente proporcional à dimensão da “cultura integral do indivíduo”.

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* Mitchourine:

"Era uma vez...

Todas as histórias fantásticas começam assim. Mas esta que vou contar, inspirada num livro famoso de Iline, nada tem de fantasia.
Há 45 anos, numa cidadezinda de mal conhecido e longínquo país, vivia um homem que se chamava Mitchourine. Era modesto empregado da estação, incumbia-se de vigiar o relógio da gare: dar-lhe corda e acertá-lo.
Triste destino este de ver passar o tempo e os comboios numa gare sombria, aberta tanto ao vento como aos passageiros, desconfortante como todas as gares.
Ele, que fora criado no campo e se debruçara, encantado, sobre o mistério da vida das plantas; que passara dias e dias a ver florir um simples botão de macieira brava; envelhecia agora a vigiar o ponteiro das horas, sempre iguais.
No inverno, quando a neve esbatia contornos e arrasava de brancura a planície, Mitchourine encostava-se aos pilares álgidos da gare e ficava tempo esquecido a olhar um ponto distante, para além do horizonte baço, indefinível... Via talvez, em pensamento, as árvores que tanto admirava, vergadas ao peso da neve, hirtas de frio e rijas como cadáveres. E sofria por elas.
Depois, à noite, aconchegada mais a gola do casaco de trinta invernos, ia meter-se em casa, a sós com os seus livros, arranjados não se sabia como nem onde. Lia, fumava no seu cachimbo e esperava.
Até que um dia, o comboio que chegava sempre para os outros, chegou também para ele. Vendeu a casinha que fora de seus pais, juntou as poucas economias e abalou para os arredores da cidade, onde adquiriu, em pleno campo, um pequeno talhão com árvores de fruto, entre as quais passou a viver, em mísera cabana.
Realizara, enfim, o seu sonho. Era perseverante e forte de vontade como os sábios, este Mitchourine. E porque era, decidiu fazer uma coisa audaciosa: substituir as árvores quase selvagens do seu país por outras que dessem frutos belos e saborosos como as fruteiras do Ocidente.
Estas, não resistiam às temperaturas negativas do Inverno? A ciência daquele tempo não desvendara ainda os mistérios da hereditariedade? Pouco importava isso a quem confiava na inteligência e no trabalho. Mitchourine recolheu o pólen das flores da pereira beurré-royal e fecundou as flores da pereira autóctone, selvagem. Cinco pêras irmãs nasceram deste cruzamento - cinco frutos da tenacidade do ex-vigilante de relógios, o qual passou a vigiar dia a dia, ano a ano, com cuidados paternais, a fixação dos caracteres das novas fruteiras, que tomaram o seu nome.
Depois, foi mais longe na sua audácia: cruzou a maçã brava com a cereja, a sorva, a groselha - e obteve frutos bizarros, com sementes bicornes, irregulares. E nos viveiristas da cidade começaram a aparecer plantas estranhas, que não temiam os frios rigorosos, e davam frutos de polpa e de cores vivas, como que beijadas pelo sol dos trópicos.
Um ano houve em que todas as cerejeiras do Canadá morreram de frio. Todas, menos a "Mitchourine", que resistia a 40º negativos.
Como se adivinha, já então as plantas do extraordinário fruticultor corriam mundo. Ele, porém, continuava a morar na sua barraca tosca, entre viveiros.
Há sábios assim: homens que servem a humanidade e de quem a humanidade não fala...
Não obstante, Mitchourine não foi esquecido. Vinte anos mais tarde, abriu com mãos trémulas de velho um telegrama que dizia: "As experiências de culturas novas têm enorme significado. Enviai-me um relatório dos vossos trabalhos." E, no lugar da assinatura, estava escrito o nome do primeiro chefe do país.
Desde aí, Mitchourine trabalha num viveiro com muitos hectáres de tamanho, e dirige um Instituto de ciência experimental, que tem o seu nome. Na gare sombria da estação em que ele fora modesto vigilante de relógio começaram a descer centenas de estudantes, ciosos do saber e experiência do mestre...

Esta história verídica tem um conceito, como todas as histórias: só será progressivo o país que saiba encontrar os seus Mitchourine entre os filhos do campo.

Soeiro Pereira Gomes - Alhandra, Janeiro de 1943."

quarta-feira, agosto 04, 2010

-Não consigo arranjar o espelho... Antes, mesmo com algumas lâmpadas fundidas, ainda se vislumbrava; lobrigava.

domingo, agosto 01, 2010

Entram em vigor hoje os Decretos-lei 70/2010 e 72/2010, que reduzem os apoios aos portugueses com rendimentos insuficientes e aos desempregados

Com o pretexto de que a economia portuguesa está a recuperar, mas fundamentalmente com o objectivo de reduzir o défice orçamental de 9,3% para apenas 2% do PIB entre 2009 e 2013, o que corresponde a uma redução da despesa publica de 12.234,8 milhões € em quatro anos, que significa um corte muito grande, o governo, através do Decreto-Lei 77/2010, eliminou as medidas extraordinárias de apoio aos desempregados que eram para vigorar durante a crise, e que foram as seguintes: (a) Eliminação da prorrogação por mais 6 meses do subsídio social de desemprego inicial e subsequente; (b) Eliminação da redução do prazo de garantia (numero de dias de descontos para a Segurança Social) para se ter acesso ao subsídio de desemprego que era de 365 dias e que agora passou para 450 dias; (c) Eliminação da majoração de 10% do subsídio de desemprego para os desempregados com dependentes a seu cargo. Portanto, medidas todas elas que vão atingir profundamente todos os portugueses que não têm trabalho, reduzindo ainda mais os que têm direito a receber o subsídio de desemprego. E isto quando o numero de desempregados a receber subsídio de desemprego não para de diminuir. De acordo com o Ministério do Trabalho, em Fevereiro de 2010 eram 370.658, mas em Junho de 2010 já apenas 352.846, ou seja, menos 17.812.

Para além destas medidas extraordinárias que o governo tinha aprovado no inicio do ano para vigorarem até ao fim de 2010, mas que eliminou em Junho deste ano, este governo aproveitou a "embalagem" e eliminou também uma medida que não era extraordinária, que tinha sido implementada através do Decreto-Lei 245/2008, portanto muito antes das chamadas medidas extraordinárias, que era a seguinte: "Os titulares do direito a abono de família para crianças e jovens, de idade compreendida entre 6 e 16 anos durante o ano civil que estiver em curso, têm direito a receber, no mês de Setembro, além do subsídio que lhes corresponde, um montante adicional de igual quantitativo que visa compensar as despesas com encargos escolares, desde que matriculados em estabelecimento de ensino". Após a publicação do Decreto-Lei 77/2010, passaram a ter direito, não todas as famílias que recebiam abono como acontecia, mas apenas as beneficiários pertencentes ao 1º escalão do abono de família, ou seja, passaram a ter direito a este adicional de abono a receber em Setembro de cada ano apenas as famílias cujo rendimento familiar a dividir pelo numero de filhos com idade entre os 6 e 16 anos seja inferior a 209,61€/mês, o que reduziu drasticamente o numero de famílias com direito ao adicional do abono de família.

E como tudo isto já não fosse suficiente, este governo aprovou dois outros decretos – o Decreto Lei 70/2010 e 72/2010 – que entram em vigor dois meses após a sua publicação, ou seja, em 1 de Agosto de 2010, que reduzem o apoio aos portugueses com rendimentos insuficientes, portanto próximos ou mesmo no limiar da pobreza, e aos desempregados. E são esses dois decretos que entrarão em vigor no inicio de Agosto, que revelam um profunda insensibilidade social, que vamos analisar seguidamente procurando tornar claros os seus efeitos.

O DECRETO-LEI Nº 70/2010 – A alteração da chamada condição de recursos vai reduzir significativamente o direito a apoios sociais

O acesso em Portugal a muitas prestações de apoio social (abono de família, abono pré-natal, subsídio social de desemprego, complemento solidário de idoso, rendimento social de inserção, acção escolar, taxas moderadoras, comparticipações nos medicamentos, comparticipação nas despesas dos utentes de cuidados continuados, etc.), de quem não possua recursos suficientes depende de cumprir a chamada " condição de recursos", que é definida com base no rendimento "per capita" do agregado familiar.

Para reduzir o número daqueles que têm direito a esses apoios sociais o governo alterou a fórmula como se calcula o rendimento "per capita".

Até aqui só eram considerados como pertencentes ao agregado familiar aqueles em que se verificava uma relação dependência económica. Após 1 de Agosto de 2010, com a entrada em vigor do Decreto-Lei 70/2010, são consideradas todas as pessoas em economia comum, ou seja, que residem no mesmo alojamento e suportem em conjunto as despesas fundamentais ou básicas, portanto muitas mais, o que fará aumentar o rendimento familiar, e quanto maior seja o rendimento familiar menos é a probabilidade de ter direito a apoios sociais.

Para além disso, até aqui o rendimento "per capita" era obtido dividindo o rendimento do agregado familiar pelo número de pessoas que o constituíam. Após 1 de Agosto de 2010, com a entrada em vigor do Decreto-Lei 70/2010, já isso não acontece. O primeiro adulto "vale" 1, mas cada adulto seguinte vale apenas 0,7; e as crianças, cada uma somente 0,5.

Um exemplo, para tornar as consequências desta alteração mais claras. Imagine-se um agregado familiar cujo rendimento é de 1000€/mês, constituído por 2 adultos, em que um foi despedido, e por duas crianças. Até aqui o rendimento "per capita" do agregado familiar obtinha-se dividindo os 1000€ pelas 4 pessoas, o que dava 250€. Agora divide-se apenas por 2,7 (o 1º adulto=1; o 2º adulto =0,7; cada criança =0,5), e obtém-se já 370€, de rendimento "per capita". Para se ter acesso ao subsídio social de desemprego é obrigatório que o rendimento "per capita" do agregado familiar do desempregado seja inferior a 80% do IAS, ou seja, a 335€. Pela forma como antes era calculado o rendimento "per capita" o desempregado daquele agregado familiar tinha direito ao subsídio social de desemprego. Após a a entrada em vigor do Decreto-Lei 70/2010 este mesmo desempregado já não tem direito ao subsídio social de desemprego. O que acontece com este subsídio sucede como muitos outros apoios sociais a pessoas a viver no limiar da pobreza. Portanto, o numero de portugueses com insuficiência de recursos com direito a apoios sociais (abono de família, abono pré-natal, subsídio social de desemprego, complemento solidário de idoso, rendimento social de inserção, acção escolar, taxas moderadoras, comparticipações nos medicamentos, comparticipação nas despesas dos utentes de cuidados continuados, etc.) vai diminuir significativamente. Mas é desta forma que este governo pretende reduzir as despesas do Estado, para assim reduzir o défice orçamental.

O DECRETO-LEI Nº 72/2010: Reduz o subsídio de desemprego e determina a diminuição geral dos salários no futuro

E como tudo isto já não fosse suficiente, o governo também alterou a lei do subsídio de desemprego, ou seja, o Decreto-Lei nº 187/2007. Segundo o nº2 do artº 29 do Decreto-Lei 72/2010, que também entra em vigor em 1 de Agosto de 2010, o valor máximo do subsídio de desemprego vai baixar de 65% do salário ilíquido que o trabalhador recebia antes de ser despedido para apenas 75% desse salário líquido , ou seja, depois de deduzir o desconto para a Segurança Social (11%) e a retenção do IRS. Para além disso, o desempregado passa a ser obrigado a aceitar qualquer emprego, sob pena de perder o direito ao subsídio, desde que o salário oferecido nos primeiros 12 meses seja igual ao subsídio de desemprego mais 10%, e depois basta que seja igual ao subsídio de desemprego, que no máximo corresponde a 75% do salário liquido que o trabalhador recebia no emprego anterior (.

Portanto, e repetindo para ficar claro, a partir de 1 de Agosto de 2010, com a entrada em vigor do Decreto-Lei 72/2010 não é só o subsídio de desemprego que vai diminuir (passa de 65% do salário ilíquido que o trabalhador tinha antes de ser despedido para apenas 75% desse salário liquido ), mas também o salário do desempregado em futuro emprego já que ele ficará obrigado a aceitar um emprego cujo salário seja apenas igual ao subsídio de desemprego após mais 10% nos primeiros 12 meses de desemprego, e depois desse período é obrigado a aceitar um emprego desde que o salário seja igual ao subsídio de desemprego que está receber, o qual no máximo é igual a 75% do salário liquido que recebia antes de cair no desemprego. E se não aceitar perde o direito ao subsídio de desemprego (artº 13º, artº 41, nº1, alínea a; artº 49,nº1, alínea a). É de prever que os patrões aproveitem esta disposição da lei, ou seja, esta ajuda do governo para baixar ainda mais os salários. Mas é desta forma que este governo pretende promover o emprego em Portugal, reduzindo ainda mais a qualidade do emprego e os salários.

O CARACTER RECESSIVO DO PEC E A INSENSIBILIDADE SOCIAL DESTAS MEDIDAS

O PEC:2010-2013 é um programa recessivo porque reduz a despesa e o investimento público e diminui o poder de compra da população através do congelamento dos salários e das prestações sociais, ou da sua eliminação, e da subida dos impostos (só a subida do IVA e do IRS reduz o poder de compra da população em mais de 1.260 milhões €/ano). Como se está a verificar igual corte de despesas públicas em todos os países da U.E. (mais de 200.000 milhões €), as exportações tornar-se-ão mais difíceis, e o desemprego vai continuar a aumentar. A saída de Portugal da crise torna-se assim mais difícil.

Para além de tudo isso, pelas medidas analisadas neste artigo que também constam do PEC, fica claro que ele é também um programa que revela uma profunda insensibilidade social.

Numa altura como esta é necessário que o País e também as famílias façam uma aplicação rigorosa dos seus recursos, não se endividando mais (as taxas de juro estão a aumentar), e que ninguém cruze os braços, não deixando de participar em movimentos da sociedade civil para que a politica do governo português e da UE deixe de se preocupar apenas com a redução do défice orçamental e em "agradar os mercados" e passe a se preocupar com as pessoas, em particular com as que menos têm.

Eugénio Rosa
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"... Repetiu-se o som estridente do claxon. O automóvel guinou para o lado esquerdo, ao chocar no corpo do pastor; ainda roçou nas ervas da berma em que o moço jazia; mas depressa retomou a marcha normal.
O sujeito que guiava perguntou à senhora, a seu lado:
-O menino viu?...
-Não. Escondi-lhe a carinha no meu peito. Tive tanto medo do homem...
-Está bem. Não vimos nada. Percebeste? -atalhou o sujeito.
No alto, sobre a placidez da noite, as primeiras estrelas prenunciavam bom tempo."

"Um caso sem importância" (Excerto)
Soeiro Pereira Gomes

quarta-feira, julho 28, 2010

Declaração

Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.

José Saramago

domingo, julho 25, 2010

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

José Gomes Ferreira

sexta-feira, julho 23, 2010

A Terceira Depressão




Paul Krugman*
02.Jul.10

São cada vez mais, mais fortes e mais apreensivas as vozes dos epígonos do capitalismo que alertam para os perigos económicos e as graves consequências sociais das políticas impostas pelo grande capital na sua tentativa da recuperação capitalista da crise. Sabedores dos perigos sociais e políticos de uma recuperação à custa da classe trabalhadoras procuram a quadratura do círculo: uma inexistente posição intermédia entre a recuperação á custa da classe trabalhadora ou do grande capital monopolista.
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Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. E o custo para a economia mundial será imenso
Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras qualificadas como «depressões» na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.
Nem a Longa Depressão do século XIX nem a Grande Depressão, no século XX, registaram declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos de crescimento. Mas esses períodos de melhoria jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.
Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para as milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.
E essa terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no desanimador encontro do G-20 – os governos mostram-se obcecados com a inflação quando a ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.
Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juro para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do Banco Central Europeu (BCE) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito.
Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para combater uma economia em declínio, os governos hoje deixam os déficits crescerem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão causada pela crise acabou no Verão (no Hemisfério Norte) passado.
Mas os futuros historiadores vão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retoma econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos. E tanto os Estados Unidos como a Europa estão perto de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão.
Diante desse quadro, você poderia esperar que os legisladores entendessem que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte.
O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O FED parece consciente dos riscos de deflação – mas o que propõe fazer é: nada. O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas, como republicanos e democratas conservadores não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes nos orçamentos estaduais e municipais.
Por que essa virada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há evidência de que uma austeridade a curto prazo, ante uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores.
Pelo contrário: a Grécia concordou com um plano de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior que a Espanha, que até agora resiste em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.
É como se os mercados entendessem o que os legisladores não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente.
Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer visão realista sobre o que priorizar: déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor sofrimento a outras pessoas para mostrar liderança.
E quem pagará o preço pelo triunfo dessas teses? A resposta: dezenas de milhões de desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar.

* Paul Krugman, economista galadoardo com o Prémio Nobel em 2008 é colaborador habitual do New York Times

Este texto em português, traduzido do New York Times, foi publicado no diário brasileiro Estado de S. Paulo com tradução de Terezinha Martinho.
Também em "Odiario.info"

terça-feira, julho 20, 2010

Não acredito na igreja

Fazendo justiça ao fundamento deste espaço, um blog:


Fiquei com a impressão de que a necessidade de poder, de muitos, não passa da exteriorização do medo. Enquanto se conquistam espaços; se impõem directrizes, condiciona-se o comportamento dos semelhantes pelo medo da falta de capacidade para compartir.
O altruísmo, atitude de vanguarda ainda hoje - não acredito que ainda o seja na génese da espécie - é condição que, só por si, permite situar-nos num patamar de evolução exclusivo; é mostra do arrojo necessário para progredir. Porém, o medo, reflexo que compartimos com todas as espécies, ultrapassa em nós a simples e contagiante dimensão de reacção empática, tomando mesmo contornos de patologia, exógena, mas, por vezes (cada vez mais), também filogénica.

A igreja continua a ser o inibidor principal da conduta natural do Homem, além de que, acicata simultaneamente o preconceito, resultando assim (nesse particular), como base para a vulgarização ou propagação alienada, alienadora e aleatória de tal condicionante. Aprofundando a análise sobre esta ferramenta da manipulação, num país no qual cada vez mais se coarcta o acesso à diversidade, se contrai a liberdade, se coíbe a emancipação do indivíduo, reduzindo o espectro de opções e injectando o pensamento único uniformador discriminatório tanto quanto fascista, apostando por continuar a divagar, e sem querer com isso realizar-me por sempre aqui, mas também, agora, e, fundamentalmente, sem medo, legitimando-me o empirismo: Há uns tempos, mais por obrigação que por devoção, visitei o centro/norte de Portugal, abismado, verifiquei que os retrocessos, que denuncia por exemplo no âmbito político o PCP, vão mesmo muito além das portagens que o governo pretende impor nas scuts (essas que os empresários afirmam haver pago e que agora nos devem servir de justificação para que permitamos um verdadeiro roubo com armas (chips) oferecidas por nós); transborda, a mera impressão de abandono dos reformados, com antigos hospitais transformados em caixas de arquitectura "moderna" extemporâneamente fugaz como recintos de preparação para não estranhar o caixote mesmo depois de mortos; aposta-se num concentracionismo aberrante nas 4 ou 5 urbes litorais com capacidade de apelo ao consumo ou, permite-se a construção en zona REN e RAN, de piscifactorias geradoras de resíduos altamente nocívos para a legitimação da categorização dessas áreas – isto no caminho-.

Já no cercado, deparei-me com uma inusitada dependência da igreja por parte da maioria do povo com o qual tive a oportunidade de me encontrar, a mim, chegando mesmo, no Sábado, num concurso de ranchos folclóricos, escutar como uma alusão a uma figura eclesiástica qualquer constituia motivo para uma das ovações mais fervorosas da tarde (tal é o desespero). Quis atribuir à padroeira dos pescadores da zona a razão de tal euforia! Porém, no Domingo, de janela aberta, foi ver e escutar quem tinha o som da eucaristia mais alto, inúmeras janelas abertas, tipo hipnose recíproca, sem sentir em ninguém a liberdade para destoar, ouviam-se até preces terminais. Enfim, como deus manda... Não vão por aí dizer que é comunista!

Assim, somando sucinto epítome do percebido, à assumida condição de pertença a um povo dos mais estigmatizados da europa, dos mais fragilizados; de uma geração de espelho salazarento e cabelo indomável, à pegajosa humidade da marisma para a qual deixámos cair o estado; à forma como cada dia entregamos a vida para continuar a encher os mesmos porcos de sempre, continuando a somar, é possivel acreditar que a ferida aberta do tamanho do mundo que nos faz sofrer, encontrará, na necessidade do Homem de procurar a sua cura, a realização do sonho deste sono induzido.

sexta-feira, julho 16, 2010

Caim II

Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro Caim e depois Abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho.
Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ficou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou tão maus como os demais.

José Saramago

quinta-feira, julho 15, 2010

Sem mentira

Licito é querer
Aceitar a vida não
Viver

Assumir qualificação
Determinante consideração
De quem?
Do virtual superior?
De um irmão?
Desse... não.
De outro
Também
Não!

Fechados condicionados
Frustrados pedantes
Num reducto de narcisa existência
Na qual não cabe outro valor
Que temor, tumor
Decadência
O Homem não é amor

Nunca a meta seria
Deixar morte na despedida
Nem pretender arrastar
Depois desta vencida
Aqueles que arados
Te negam o adeus
Com a própria vida

sexta-feira, julho 09, 2010

Caim I

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser.
Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, -Vamos para a cama.

José Saramago

domingo, julho 04, 2010

Sejamos

Frágeis
Frágil elenco
Desta obra abjecta
Desta perda de tempo

Encimados em mentiras
Empoleirados no medo
A correr, aos saltos
P’ra frente
Estagnamos
Sem movimento

Em opaca redoma
Vital evitar que vejam
Verdade nossa que assusta
Os olhos
Que nos sobejam

Parecemos ser
Ser o que procuram sejamos
Seremos quem queremos
Ser
Numa terra sem amos

sábado, julho 03, 2010

José Caravela e António Maria Casquinha, Escoural, assassinados por lutar contra a fome!


Aqui
Nesta planície de sol suado
Dois homens desafiaram a morte, cara a cara,
em defesa do seu gado
de cornos e tetas.
Aqui onde
agora vejo crescer uma seara
de espigas pretas

Quando os dois camponeses desceram às covas,
Ante os punhos cerrados de todos nós,
Chorei!
Sim, chorei,
Sentindo nos olhos a voz
do que há de mais profundo
nas raízes dos homens e das flores
a correrem-me em lágrimas na face.
Chorei pelos mortos e pelos matadores
- almas de frio fundo.
Digam-me lá:
Para que serviria ser poeta
Se não chorasse
Publicamente
Diante do mundo?


José Gomes Ferreira
Para um tempo que fica
Doendo por dentro
E passa por fora
Para o tempo do vento
Que é o contratempo
Da nossa demora
Passam dias e noites
Os meses...os anos
O segundo e a hora
E ao tempo presente
É que a gente pergunta
E agora...e agora

Tempo
Para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para emendar pois outro tempo menos lento
Tempo
Dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que apanha sempre o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai...o tempo constante
Que a cada instante
Nos passa por fora
Este tempo candente
Que é como um cometa
Com laivos de aurora
É o tempo de hoje
É o tempo de ontem
É o tempo de outrora
Mas o tempo da gente
É o tempo presente
É agora...é agora

Tempo
Para agarrar cada momento deste tempo
E terminar em absoluto ao mesmo tempo
Em temporal como o ponteiro dos minutos
Tempo
Para o relogio bater certo com a vida
Que um homem bom
que um homem são
que um homem forte
Que nao chegava a conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte

Ary Dos Santos

A revolução é hoje!

sexta-feira, julho 02, 2010

Greve.. Greve???

Estendendo a resposta que ofereci aos correios de amig@s, Camaradas (enorme consideração), sobre a menção que num texto anterior fiz ao puto que “chorou quando o Zeca deixou de gravar”, quero deixar claro que, esse puto aprendeu que a vida nos foge qual lágrima se a estas insistir-mos em agarrar-nos.

Por outra parte, olhando para o acontecido nas “redondezas”, continuo a ver as folhas de papel de anúncio, a que alguns teimam em chamar jornais, grátis, impressas com um recorde de mentiras que cada dia se parece superar. Começando pela greve sem serviços mínimos que o “Metro” de Madrid realizou, que continua hoje mas com estes a 40%, à qual só se referem para tecer críticas de “trabalhadores”, emigrantes condicionados; porteiros com residência no edifício no qual trabalham e que não utilizam o Metro a não ser ao Domingo, ou mães separadas, com o seus esquemas horários comprometidos pela falta de contemplação própria de um paradigma capitalista, podemos também ver como o governo tenta fazer passar a mensagem de que os 80.000 novos postos de trabalho em Junho – 60% na hotelaria – se devem à recuperação económica que as medidas adoptadas e que todos os dias transformam a paisagem urbana no puzzle de cores com nomes de imobiliárias que podemos contemplar no caminho ao trabalho (aqueles que o têm), geram.

Enfim, pueril ou não, sem pretender “dar uma” de John Lennon, imaginas que todo esse tijolo, feito de inflação, especulação, que por aí, vazio, invade o horizonte, servisse para algo mais que para escravizar à banca muitos ambiciosos alienados, manipulados, fossem ocupados pelos milhares de emigrantes que sem casa procuram o pão, tantas vezes com bolor mas pão, que se fabrica com aquele do qual são espoliados nos seus países de origem, pelos sem-abrigo, sem trabalho, sem fundo de desemprego? Mais: Imaginas que todos, todos, os hipotecados, aqueles que trabalharão para a banca durante os próximos anos, deixassem de pagar a mensalidade em simultâneo, só um mês??? Poderíamos chamar-lhe greve?

domingo, junho 27, 2010



..a mente não funciona como um computador, não nos limitamos a memorizar e processar mecanicamente. Os animais... também pensam.



Porém, o dano que causaram quase 50 anos de ditadura, nos contemporâneos, nas gerações subsequentes, sem qualquer tipo de tecnologia pública ao serviço do Povo, nem com lítio se dilui. No entanto, a vontade está aí.

Com relação a todos estes avanços, não os poderemos disfrutar, também muitos psicólogos seriam queimados na fogueira se ainda se estilasse essa forma de opressão.

quarta-feira, junho 23, 2010

A poesia não é um dialecto

A poesia não é um dialecto
para bocas irreais.
Nem o suor concreto
das palavras banais.
É talvez o sussurro daquele insecto
de que ninguém sabe os sinais.
Silêncio insurrecto.

José Gomes Ferreira

"Monólogo a muitas vozes"
Mário Dionísio

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago

Havia já muitos anos que o meu desequilíbrio não aumentava tão abruptamente, e claro, não pensei que, porque outros olhos se fechassem à primavera, esse mal-estar ao qual tendemos a adaptar-nos sofresse alguma alteração, afinal todos nos transformamos, mesmo aqueles que em vida (por exemplo) o fizeram em mim. Porém, hoje ao almoço, mesmo antes de me sentar, a caixa perversa – esse espelho da mentira de muitos nós - voltou a tentar enganar-me: Noticiava a morte de José Saramago. José Saramago não morreu!

Escutando um vizinho desse nosso conterrâneo; Camarada; Revolucionário, recordo a impressão que experimentei quando emigrei por primeira vez: Este percurso é como uma cova à beira-mar, quanto mais profunda mais se desmorona; quanto mais água aparece mais paredes falecem, desabrochando esta do nosso cansaço, qual flor, e terminando por secar.

Nesta ocasião, na qual voltei a encontrar o puto que chorou quando o Zeca deixou de gravar, voltei, também, à planície onde a vizinhança plantava vida, à nossa rua. Lembrei haver tentado fugir da luz que me acordou de um sonho de criança, ao iluminar as pedras da calçada que me pareceu terem encolhido; as paredes que me cercavam, deixando-me compreender que o ruído, que parecia correr comigo anos atrás, era então apenas eco, inerte, parado, degrau pisado ao descer, mas... a luz lá estava, e via-a, vinha do Sol, o mesmo que acende o tempo, cada dia. Então, conclui: “enquanto houver vida haverá Sol!”.

Assim, tomando como boa essa lei, sempre que o Homem sentir a necessidade, que lhe vem nos genes, de percorrer o caminho que reclama a sua própria liberdade; na resistência dos braços, sedentos; no sonho, viverá Saramago.

Em suma, como dizia o Ary: “pois viver é, também, acontecer”(o que não deve ser novidade para ninguém).

É Saramago, um grande Português!


WebIslam

quarta-feira, junho 09, 2010

Repressão, frustração ou condicionamento?

A Escola Secundária Dr. Jorge Correia, em Tavira, foi palco de uma onda de protestos, na terça-feira, devido a um aviso da direcção relativo ao uso de roupas «de Verão».

Afixado em vários pontos do estabelecimento de ensino, o aviso recomendava a alunos, professores e funcionários que não usassem chinelos, calções de praia, ou qualquer peça de vestuário demasiado curta.

O director da escola, José Baía, frisou ao tvi24.pt que não se trata de uma proibição. «Ninguém proibiu nada. Houve uma recomendação afixada, que tem a ver com a época de exames, pois já fomos várias vezes chamados à atenção pelas inspecções», referiu.

Questionado sobre a maneira de vestir dos alunos, José Baía afirmou que «vêm como vão para a praia». «Chinelos, calções de banho, no caso das jovens micro-saias, já nem falo em mini-saias...», sustentou.

O director salientou que o tipo de vestuário adoptado pelos jovens não seria o mais apropriado, adiantando, no entanto, que a recomendação se estende a toda a comunidade escolar.

«Também ninguém vai para a praia de fato e gravata», ironizou.

Em relação aos protestos dos alunos, que se vestiram na terça-feira com as indumentárias «leves» apontadas pela recomendação, o director afirmou que não teve conhecimento de nada.

«Não estava à espera de protestos, mas também não dei conta de nada, nenhum jovem veio falar comigo e ninguém foi expulso», concluiu.

sábado, junho 05, 2010

Ladrão!!!

No seu discurso, José Sócrates, que esteve acompanhado pela ministra da Educação, Isabel Alçada, apontou que o Ministério da Educação já encerrou cerca de 2500 escolas. E acrescentou: «Agora encerramos as outras, em negociação com as autarquias».

sexta-feira, junho 04, 2010

Rosa Coutinho


Na noite decisiva de 24 para 25 de de Abril de 1974 o então capitão de fragata Rosa Coutinho cumpria o seu serviço de rotina na sede do Comiberland. Nessa madrugada, o movimento dos capitães desencadeava as acções militares que, horas depois, poriam fim ao mais longo regime fascista deste século na Europa. Na noite de 25 para 26 de Abril, reunia-se no quartel da Pontinha a Junta de Salvação Nacional, de que Rosa Coutinho fazia parte, nomeado pelos oficiais do MFA da Marinha. As contingências atribuladas do processo fizeram com que fosse um dos oficiais da Junta isentos de funções de chefia militar, situação não prevista no protocolo anexo ao Programa do MFA. Ele e o general Galvão de Melo foram então afogados, no vazio de Governo, pelos problemas de um País que expunha as suas chagas, os seus sonhos e anseios, e tinha finalmente quem o ouvisse. Nomeado mais tarde presidente da Junta Governativa de Angola, a Rosa Coutinho, promovido a almirante por força dos regulamentos militares aplicados às altas funções que a Revolução lhe atribuiu, coube o papel mais duro e controverso do processo de descolonização.

A breve entrevista que se segue, concedida, 25 anos depois, ao jornalista Armando Pereira da Silva, não trará novidades absolutas. Mas é uma reflexão serena que ajudará a compreender o episódio mais marcante da nossa história contemporânea.

A constituição da Junta de Salvação Nacional continua a ser um processo pouco claro, e aparentemente dos mais contraditórios, aos olhos da opinião pública. Que se passou?

Deve ter-se em conta que, para os militares, o respeito pelas hierarquias é um valor fundamental. E os capitães, que organizaram e concretizaram o golpe militar, estavam atentos à natureza da sua instituição. Não seria fácil fazer passar a ideia de um país governado por capitães. Por isso decidiram escolher sete oficiais generais de 4 estrelas para constituírem a Junta de Salvação Nacional. Todos com funções militares: um presidente da Junta e da República, um chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, dois vice-chefes, três chefes de Estado-Maior dos ramos. As regras estavam definidas num documento pouco conhecido, o Protocolo anexo ao Programa do MFA, julgo que só publicitado num livro do Dinis de Almeida.

Mas como foi feita essa escolha?

Havia dois nomes óbvios e inevitáveis: Costa Gomes e António de Spínola. Aceitaram, embora não se tivessem comprometido directamente no levantamento. Os outros seriam escolhidos nos próprios ramos pelos oficiais do MFA. O Exército nomeou Silvério Marques. Da Força Aérea, foram nomeados Diogo Neto, que nada tinha a ver com o Movimento: era um operacional sem formação política, que ainda pilotava aviões a jacto, um dado importante para a mentalidade militar; e Galvão de Melo, já na reserva, que havia tomado atitudes de rebeldia profissional contra o anterior regime. Na Marinha procuraram oficiais generais ou próximos dessa patente. Pinheiro de Azevedo aceitou logo. Eu fui o quarto convidado: era capitão de fragata, comandante de um navio. Nenhum dos membros da Junta teve papel activo no golpe. Só Spínola ganhara uma certa projecção mediática imediata: o capitão Salgueiro Maia não quis assumir a responsabilidade pessoal pela rendição de Marcelo Caetano e chamou-o ao quartel do Carmo para o efeito.

Anunciava-se uma gestão difícil...

Era um autêntico saco de gatos. Os oficiais da Junta, na sua maioria, foram promovidos para poderem exercer as funções. Nem se conheciam. Reuniram-se pela primeira vez na Pontinha, à noite. Menos o Diogo Neto que estava em Moçambique, não sabendo o que se passava. Alguns nem sequer conheciam o Programa do MFA, casos de Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Nessa mesma noite, por iniciativa do Costa Gomes, foi convidado Spínola para Presidente da República. Costa Gomes seria CEMGFA. Aceitaram. Primeira discussão, difícil, do Programa, que sofreu algumas alterações “suavizadoras”, sobretudo no capítulo da descolonização. Spínola até já tinha escolhido um novo director para a Pide/DGS que, entretanto foi decidido que após expurgada, continuaria em funções no Ultramar com a designação de Polícia de Informação Militar. As negociações arrastaram-se e atrasaram, o que não era conveniente, a proclamação pública da Junta. Mas a Comissão Coordenadora não abdicou do seu direito de manter ou não a confiança nos membros empossados. Essa reserva acabou por ter efeitos práticos no 28 de Setembro, quando foi retirada a confiança a três deles: Diogo Neto, Galvão de Melo, Silvério Marques. Como Spínola renunciou, a Junta ficou então reduzida a três.

Em síntese: o Protocolo não foi cumprido, porque Diogo Neto e Pinheiro de Azevedo não quiseram ser vice-chefes do Estado Maior General das Forças Armadas, antes chefes dos respectivos ramos. Em consequência, eu próprio e Galvão de Melo ficámos sem funções militares definidas. Foi tudo feito sobre o joelho, com consequências graves sobre o funcionamento do sistema resultante da Revolução. A administração pública caiu em cima de dois membros da Junta até à formação do 1º Governo. Eram sobretudo problemas laborais. A Junta tomou decisões que por vezes contrariavam as orientações da Comissão Coordenadora. Uma delas: mandar Marcelo Caetano e Américo Tomaz para a Madeira, e depois para o Brasil, decisões estas combatidas pelas estruturas do MFA. A Junta inicial durou até ao 28 de Setembro. Reconstituída, o seu papel passou a ser essencialmente militar.

Fale-nos agora da intervenção dos militares de Abril na vida política, depois da Revolução. Havia uma noção clara do seu papel?

Os capitães derrubaram o regime anterior e, por isso, tiveram o apoio de uma imensa maioria do nosso povo. Elaboraram e aprovaram um Programa de regeneração da vida portuguesa, se quiser assente nos três DDD: democracia, descolonização, desenvolvimento. Criaram as estruturas de arranque do novo regime democrático, e definiram como seu papel essencial o da vigilância quanto ao cumprimento do Programa do MFA, ponto fulcral da Revolução. Papel esse que se revelou decisivo face às tentativas continuadas de o subverter, a partir do próprio Presidente Spínola. Foi este que quis esvaziar o MFA, diluindo-o precocemente no conjunto das FA, retirando-lhe a capacidade de intervenção nas questões mais relevantes, incluindo a descolonização. Era ele próprio que escolhia não só o Primeiro-Ministro, como os próprios ministros... Foi assim até ao 28 de Setembro. Não se tratava de devolver o poder aos civis, mas de eliminar o MFA e suas estruturas. Quis chamar a si a descolonização, mas o MFA não consentiu. Está aí a raiz da crise Palma Carlos: a solução, que se impunha com premência, do problema da Guiné e a transformação das eleições para a Constituinte num plebiscito nacional, subvertendo o Programa do MFA. Os mecanismos de precaução voltaram a funcionar: o Conselho de Estado alterou a Constituição, como era de sua competência, e Spínola teve de anunciar a independência da Guiné. E eu, que já estava em funções em Angola, não sabendo tudo o que se passava, até o felicitei pelo discurso pronunciado...

Descolonização. O almirante Rosa Coutinho acabou por ter um papel fulcral na concretização do processo, quanto mais não seja porque exercia funções da maior responsabilidade na “joia da coroa” entre as antigas colónias: Angola. A esta distância, como definiria o processo? Fez-se a descolonização necessária, a possível, como foi?

Situemo-nos na época: tanto o 25 de Abril como o apoio popular esmagador que lhe foi dado revelaram que a grande preocupação da população portuguesa era a esperança de que finalmente iam terminar as guerras coloniais. Ao fim de 13 anos de esforço continuado em três frentes, todos estavam fartos: militares e população. Não havia saída com os descendentes de Salazar no poder. As guerras até eram relativamente baratas, mas o esforço nacional foi tremendo. Cerca de um milhão de jovens portugueses passaram pela guerra, com números importantes de mortos, feridos e traumatizados psicológicos.

O sentimento da população reflectiu-se na maneira como foi feita a descolonização. Iniciada a democratização interna (com o fim da censura e da Pide), a descolonização era um imperativo de execução rápida. A permanência das Forças Armadas nas antigas colónias não podia ser prolongada. Nem os militares nem a população aceitavam a substituição dos soldados presentes. Não havia possibilidade de negociar em situação de força real. Na prática, o prazo estava fixado. Puxemos pela memória: em Portugal gritava-se: «nem mais um soldado para as colónias». E em finais de 1974, em Angola, gritava-se: «Portugal para o Natal». A operacionalidade caiu a pique, exceptuando as forças especiais. As restantes o que queriam era o regresso à família. A pressão em Portugal era idêntica. Daí que se tivessem de fazer negociações rapidamente com movimentos independentistas reconhecidos pela Organização dos Estados Africanos. O problema estendeu-se a todas as colónias, mesmo aquelas onde não havia luta armada.

E na prática, como foi?

A descolonização em si não foi exemplar nem perfeita. Foi a possível. Evitou-se um descalabro, que seria trágico para o País e para as Forças Armadas, como aconteceu à França na Argélia e no Vietnam. A descolonização pecou por ser tardia. Devia ter sido iniciada 10 anos antes, quando havia condições reais de protecção das pessoas e bens portugueses. Tal como foi, representou uma espécie de intervenção cirúrgica em desespero. Os que tiveram de a fazer fizeram o papel de cirurgiões de último recurso. Não podia ser exemplar. O prazo foi determinado pela impossibilidade de rendição das tropas.

A descolonização teve efeitos concretos no desenvolvimento do processo revolucionário de Abril?

Claro que sim. A forma como teve de ser executada deu motivo às sucessivas crises do MFA. As crises Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outras que não foram reveladas, todas têm como pano de fundo o problema da descolonização. “Maioria silenciosa”? Fantasias: a crise teve a ver com o problema colonial, começou com o 7 de Setembro em Moçambique. Curiosamente, a descolonização acabou por abalar o ímpeto da Revolução: o 25 de Novembro só foi possível porque a 11 de Novembro acabara o processo de descolonização com a independência de Angola.

Para terminar: 25 anos depois, que balanço faz do 25 de Abril?

Todos sabemos que muitos sonhos não se realizaram. Mas outros, positivos, já podem ser correctamente avaliados. Portugal, hoje, é um País completamente diferente. Verificou-se uma revolução de mentalidades, ainda em curso. Evitaram-se traumas maiores da descolonização e da guerra. Não sofremos nenhum Dien Bien Phu nem tivemos uma OAS. O País reintegrou- -se num espaço europeu a que sempre pertenceu. Conquistaram-se e solidificaram-se as liberdades fundamentais, integrámo-nos com segurança na vida em democracia. Um dos efeitos mais marcantes é o poder local democrático, só possível com o 25 de Abril. O movimento sindical teve finalmente condições para florescer. A explosão educacional, embora com defeitos, embora com problemas, com incompreensões, não tem paralelo na nossa história.

Não esqueçamos o impacte internacional do 25 de Abril: ele foi enorme, apesar de nem sempre reconhecido. A Espanha, aqui ao lado, foi obrigada a uma reconversão política rápida; o processo de libertação da África Austral (Zimbabué, Namíbia, África do Sul) foi acelerado pela Revolução Portuguesa. Tudo isto deve ser para nós um motivo de orgulho.

É evidente que as coordenadas políticas e sociais vividas no País se modificaram, e outros medos se instalaram na sociedade portuguesa. O maior inimigo da liberdade é o medo. E os medos, 25 anos depois, não são os mesmos dessa época. Já não há medo da Pide, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em compensação criaram-se outros também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conseguiu com o 25 de Abril. --------------------------------------------------------------------
«O Militante» Nº 238 - Janeiro / Fevereiro - 1999

quinta-feira, junho 03, 2010

terça-feira, junho 01, 2010

quinta-feira, maio 27, 2010

terça-feira, maio 18, 2010

Amassando

O presidente do banco BPI alertou hoje que o valor em que o Estado se quer endividar até 2013 "é impossível" e "completamente impensável, considerando que um dos problemas da economia portuguesa é que o país "não se consegue financiar".

Fernando Ulrich, que falava durante a conferência promovida pela revista Exame, sob o tema Portugal em Exame, sublinhou que "o problema é que Portugal não se consegue financiar" considerando ainda que "a restrição financeira tem sido completamente esquecida" pelos responsáveis.

O conselho do presidente do BPI ao Governo começou por ser para que não se publiquem mais cenários macroeconómicos sem explicar como se financiam, entendendo ainda que a dívida de Portugal (onde inclui Estado, empresas e particulares) é "de tal maneira grande" que acredita que "não é financiável".

Para Fernando Ulrich, a discussão dos grandes projetos de investimento "está completamente ultrapassada" por não existirem condições para financiar esses projetos, ou, a acontecerem, colocarem uma pressão "gigantesca" sobre a população.

Ainda quanto ao financiamento da dívida portuguesa, o banqueiro considera que só quando o Banco Central Europeu terminar a compra de títulos de divida pública será possível observar se a economia portuguesa é ou não financiável.

O banqueiro concluiu, sublinhando que no "PEC 2", onde estão incluídas as novas medidas, está previsto que o Estado vá buscar 45 mil milhões de euros em divida aos mercados.

Para Fernando Ulrich, com a informação de que dispõe, tal será "impossível" e "completamente impensável".