quinta-feira, outubro 28, 2010

EL NIÑO YUNTERO

Carne de yugo, ha nacido
más humillado que bello,
con el cuello perseguido
por el yugo para el cuello.

Nace, como la herramienta,
a los golpes destinado,
de una tierra descontenta
y un insatisfecho arado.

Entre estiércol puro y vivo
de vacas, trae a la vida
un alma color de olivo
vieja ya y encallecida.

Empieza a vivir, y empieza
a morir de punta a punta
levantando la corteza
de su madre con la yunta.

Empieza a sentir, y siente
la vida como una guerra,
y a dar fatigosamente
en los huesos de la tierra.

Contar sus años no sabe,
y ya sabe que el sudor
es una corona grave
de sal para el labrador.

Trabaja, y mientras trabaja
masculinamente serio,
se unge de lluvia y se alhaja
de carne de cementerio.

A fuerza de golpes, fuerte,
y a fuerza de sol, bruñido,
con una ambición de muerte
despedaza un pan reñido.

Cada nuevo día es
más raíz, menos criatura,
que escucha bajo sus pies
la voz de la sepultura.

Y como raíz se hunde
en la tierra lentamente
para que la tierra inunde
de paz y panes su frente.

Me duele este niño hambriento
como una grandiosa espina,
y su vivir ceniciento
revuelve mi alma de encina.

Lo veo arar los rastrojos,
y devorar un mendrugo,
y declarar con los ojos
que por qué es carne de yugo.

Me da su arado en el pecho,
y su vida en la garganta,
y sufro viendo el barbecho
tan grande bajo su planta.

¿Quién salvará este chiquillo
menor que un grano de avena?
¿De dónde saldrá el martillo
verdugo de esta cadena?

Que salga del corazón
de los hombre jornaleros,
que antes de ser hombres son
y han sido niños yunteros.
Miguel Hernández

quarta-feira, outubro 27, 2010

JCP denuncia nova ofensiva contra ensino

Austeridade nas universidades

Resultado da criação do Programa de Estabilidade e Crescimento e das medidas de austeridade, foram decretados, pelo Executivo PS, novos cortes nos apoios e prestações sociais dos estudantes do ensino superior.

Para a JCP este «ataque» põe em causa «a possibilidade de ingresso nos graus mais elevados de ensino», com a perda ou redução das bolsas, consequência das alterações na capitação dos rendimentos do agregado familiar.

«Actualmente para fazer o cálculo da bolsa, passam a ser considerados os rendimentos anuais ilíquidos, e não os líquidos do trabalho dependente, como era feito até então», salientam, em nota de imprensa, os jovens comunistas, frisando que as alterações «não ficam por aqui». «Se anteriormente cada pessoa contava como "1", neste novo modelo, o requerente mantém o mesmo peso mas os restantes adultos passam a valer "0.7" e as crianças "0,5"», informam, lembrando que estas «são estratégias que vão afastar os cálculos da realidade, uma vez que o rendimento surgirá mais elevado do que realmente é, não tendo em conta outros factores que pesam no rendimento das famílias».

Segundo estimativas feitas, entre 30 a 40 por cento dos bolseiros vão perder a bolsa, o que faz cair por terra o anúncio de reforço de 10 por cento para as bolsas. «Uma mera manobra de distracção por parte do Governo, para agora acabar por cortar as bolsas, que foi sempre o seu objectivo», acusa a JCP, criticando, por outro lado, a cada vez maior quantidade de papeis que os estudantes precisam de entregar para concorreram à bolsa.
(No Avante!)

segunda-feira, outubro 25, 2010

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.

António Patrício

sexta-feira, outubro 22, 2010

PSP impede pintura de mural

Na passada sexta-feira, vários militantes da JCP viram, mais uma vez, ser impedida a pintura de um mural junto à Rotunda das Olaias, em Lisboa, tendo sido identificadas duas pessoas e apreendido o material usado, alegando constituir crime público.

A pintura do mural, com a inscrição «Vem para a luta, por uma escola pública e democrática - JCP com os estudantes na luta por melhores condições materiais e humanas na António Arroio», já tinha sido impedida dois dias antes, chegando mesmo os agentes da PSP a deterem e insultarem os jovens comunistas, obrigando-os a despirem-se, retendo-os durante várias horas na esquadra.

«A pintura de murais em local público está prevista na Lei 97/88 de 17 de Agosto e no Parecer do Tribunal Constitucional sobre essa mesma lei, legitimando o seu exercício e condenando o seu impedimento», refere, em nota de imprensa, a JCP, que vai continuar «a fazer uso deste meio de Propaganda Política e a defender esse direito exercendo-o».

No "Avante!"


Para quando um sindicato de estudantes, mesmo sabendo que estes não conservam de momento esse direito?

Sê tu a palavra

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, outubro 21, 2010

Um passo

Lutar contra esse eu que me esconde é quase diabólico, mas não sou eu, são só conflitos, regras do “super-eu” que me atiram para a proa, não como vigia senão como carranca.
Liberdade é desmatar o caminho a esse que nos agita, que nos afirma humanos, diferentes e iguais, mas sendo, sem freio. Longe, contudo, de bakunin.

Em França queimam automóveis, na Grécia incendeiam bancos, e essa, essa não é luta de massas, essa é a anarquia que promove a anarquia.
Em França, em França também lutam organizados, como em Portugal, como na Grécia, como deve acontecer na Roménia, é bom sabê-lo, mas, também se luta nas Honduras, no México, no Brasil, na Colômbia, no Equador, luta-se por quase todo o mundo, todos os dias, em todas as noites, contra todas as noites. Porém, no nosso caso, não será esse ser sociável, ou socializado, nós, quem se disporá a lutar, será outro, esse que não assume tudo o que esta sociedade lhe impõe, esse que nos preocupamos em esconder para continuarmos ligados a qualquer coisa menos vida, pueril dependência
Cada 6 segundos morre uma criança, cada 6 segundos, morre uma criança!
Num projecto de mitigação da fome em Moçambique, um país que não experimenta a realidade mais aguda da fome mas onde esta mata diariamente, uma das trabalhadoras, depois de se precatar que um dos cooperantes chorava pela morte de um bebé, retorquiu: “-Chorar por quê? A vida é mesmo assim!” Pois! Assim mesmo, esta negação não é privilégio dos africanos, afinal todos aqueles que aceitam de bom grado entregar a única vida que têm a troco da ração que o capital considera suficiente para repor a energia que nos dia seguinte consumirá na produção da mais-valia que este continuará a acumular; aqueles que comem calados as migalhas que lhe atiram, só negam. Negam esse Homem livre que nunca desapareceu, que vive na penumbra da nossa cobardia, que sobrevive, libertador.

Qualquer caminho começa com 1 passo, termine depois de 100 metros ou 100 quilómetros, a diferença reside no valor de cada passo, um passo único que não voltaremos a dar, só o recordaremos... Ou não

quarta-feira, outubro 20, 2010

Anticipando: Merkel anuncia o fim do multiculturalismo


A Alemanha conseguiu ontem convencer a França a associar-se à sua exigência de revisão do Tratado da União Europeia (UE) para permitir a aplicação de sanções políticas contra os países do euro reincidentes em matéria de indisciplina orçamental.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina
Mário Dionísio

domingo, outubro 17, 2010

Sobre a fome

Ao iniciar a revolução comunista, a classe operária não pode desfazer-se de uma só vez das fraquezas e dos vícios legados pela sociedade dos latifundiários e capitalistas, a sociedade dos exploradores e tubarões, a sociedade do sórdido interesse e do lucro pessoal de uns poucos a par da miséria de muitos. Mas a classe operária pode vencer — e, ao fim e ao cabo, vencerá segura e inevitavelmente — o velho mundo, os seus vícios e as suas fraquezas, se se lançarem contra o inimigo novos e novos destacamentos de operários, cada vez mais numerosos, cada vez mais instruídos pela experiência, cada vez mais temperados pelas dificuldades da luta.

Lénine

sexta-feira, outubro 15, 2010

Este ano, na pública, foram mais €400

O Governo britânico pondera criar um imposto para licenciados, para ajudar a financiar o ensino superior. Os líderes universitários estão dispostos a aceitar esta medida, pois a maioria dos estudantes faz os cursos recorrendo a empréstimos.De acordo com a Lusa, líderes estudantis rejeitam o aumento dos juros dos empréstimos e concordam com a proposta dos Trabalhistas e a promessa eleitoral dos Liberais Democratas de criar um imposto especial para licenciados variável de acordo com os seus salários para ajudar a financiar o ensino superior.

Desde que o actual regime foi criado pelo Governo de Tony Blair que os estudantes recorrem a empréstimos para pagar propinas e outros custos, que amortizam ao longo da carreira profissional. Os juros poderão agora aumentar, de modo a que os licenciados terminam o curso com dívidas ainda mais substanciais, na ordem das dezenas de milhares de euros.

Já as universidades de elite, como Oxford e Cambridge, têm feito campanha no sentido de poderem aumentar as propinas e apoiam uma reforma do sistema para poderem competir com universidades americanas(*).

(*) Significa pagar entre 40 e 60 mil dólares ano

Freud

Há 110 anos, precisamente, Freud começou a psicoanálise de Dora. Junto com o conductismo, uma das mais controversas linhas de pensamento da psicologia até há poucos anos.

Nem eu oiço os mesmos tic e tac que o meu avô, nem o meu avô os ouvia com tanta frequência. Aliás, hoje os metais daqueles relógios que ainda fazem ruido, ou ruidos, nem sempre são os mesmos, quando não punhal de plástico.
A intensidade de hoje, para maior longevidade, resulta numa falta de tempo exasperante, que abrevia finalmente o desespero, que agiganta os passos sem alcançar um volátil horizonte.
Frustração? Pode ser, mas, se inconstante o objectivo débil a angústia, que toda, sem tempo, de Homens.

Não matar o pai não deixa de ser um prozac verdadeiro (que não um verdadeiro prozac), quando podemos. Quando não...
Trabalhamos, dormimos, roubamos, estudamos, amamos, violentamos, caminhamos, e, por vezes, crescemos.

Que Freud tivesse razão? Não creio!

quarta-feira, outubro 13, 2010

Falácia no e do, lodo

Empantanam o chão e nesse, que seria o único nós, gatinhamos (por vezes), e, levantamo-nos.
Encontramos,
outros, levantados, cansados, caidos;
homens horizontais sem horizonte mais que no reverso
do cristalino,
aqueles que algum dia ergueram,
agarrados ao seu monte(inho), à sua parcela.
A sua parcela,
essa que não serve mais que tropeços de quem quer olhar em frente; que poderia unida sustentar os corpos espalhados pelos caminhos, vida,
como desses antes de encontrar aquelas que usaram.
"-Não me a toques!"
"-Vai-te, aprender; amontoar para ti!"

Vidas de entre muros, sem porquê!

terça-feira, outubro 12, 2010

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Cegos de Madrid


Júlio Pomar

segunda-feira, outubro 11, 2010

Egoismo, quem sabe? Enquanto o não souber não serei mais que um imberbe.
Ainda mal sabendo andar tudo existia, hoje também.
A cada passo que dava, neste mundo, afirmava uma criança em coerência total com o seu eu, mas, hoje...
Hoje o mundo tornou-se imenso, a pressão, a opressão, não dos sistemas políticos ou das leis, essa que o sofrimento dos homens os veste despe-me
Nú sou paralítico. Vestido, disfarçado, a paisagem frustra-me. E a vida?
Chego a pensar que darwin, mais que qualquer outra coisa, foi o mais importante psicólogo social de sempre.
Os sentimentos, armazenados; o conhecimento, armazenado; os esquemas; os códigos; os muros. Tudo não passa de uma prisão, da prisão que vou construindo desde dentro, que é no fim só luta, luta por não perder a verticalidade de cada passo, daqueles que alguma vez dei cambaleando, sem ainda saber falar.
Só pode ser egoismo, permitir que alguém masque esta angústia, ainda que dedique o resto da vida limitando potenciais danos de uma conclusão “natural”, quem sabe pueril. São a felicidade, a alegria, essas que espelham um mosquito de vida fugaz.
Que mentira é esta?
Que ilusão é esta?
“A vida, a vida, a vida!” De quem?
É a realidade?

Poema épico

O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.

A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.

O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufelho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas;
- Eu já venho!

O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!

Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.
António Gedeão

domingo, outubro 10, 2010

Europa Acidental

Europa acidental
Aqui nem, mal nem bem
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
É porque a gente nasce
De um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
É natural (naturalmente)
Que haja gente também
Gente que é gente de bem
E gente que é apenas gente.

Europa acidental.

O mal
É Ter na nossa frente
Um mar de sal.
Um mar de gente
Que de repente
(é assim mesmo: de repente)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.
Joaquim Pessoa

Música, levai-me

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Eugénio de Andrade

sábado, outubro 09, 2010

70 Anos


Mesmo depois de que o governo norte-americano o assassinasse, durante o 11/9 bush foi capaz de proibir alguma das canções que aqui ficam. Depois de as ouvir (12), não será dificil imaginar o que pensaria o povo e assim os fascistas que o assassinaram.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Sobre o anterior paradigma

Depois de entender que o paradigma anterior se desenvolveu com sujeitos "aburguesados", sem fome, oprimidos e assim atribuindo ao hedonismo experimentado o protagonismo numa existência imposta. Neste caso, podemos observar e reiterar, como as necessidades básicas condicionam o comportamento e as eleições animais. Estas necessidades básicas, como outras, sobrepõem-se a qualquer grau de capacidade cognitiva:

Sobre a possibilidade de condicionar a aceitação de propriedade do resultado de todas as nossas acções por parte de uma oligarquia: A evocação, pelo condicionamento, promove a inserção do comportamento dentro de um paradigma auto-imposto pela indefensão aprendida.

O motivos são inúmeros, os fantasmas não existem, mas, humanos, como quando a uma criança informamos sobre a natureza fictícia de personagens de uma série animada, conseguindo assim que esta se coloque fora do contexto, só o exaustivo esclarecimento poderá trazer uma nova realidade para a maioria.

A predisposição, para atender esquemas diferentes aos utilizados como heurísticos; combater internamente estereótipos; questionar ou afirmar uma assumida ou desconhecida pertença ou desvinculação a determinado endogrupo, também existe, na contradição, na adaptação, na evolução, no Homem.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Além da definição do paradigma!

Rua!

"Foi a greve!"

Desta foi mesmo. Ao invés de outras ocasiões, onde por determinado comportamento, preponderando o rendimento dos demais dias de trabalho; a avaliação do custo/recompensa, proporcionaram a vitoriosa aceitação de um aspecto concreto do empregado ainda que sustentando um potencial de conflicto laboral para a empresa, depois de opções assumidas e compromissos tomados com limítes auto-impostos, éramos dezenas, na fila do centro de emprego.

Podia ser um problema pessoal, mas, terá que ser uma questão a solucionar por parte das empresas, neste tempo que inspiramos.

Mesquinho houvera sido que, por mencionar Marx e Lénine quando referindo-nos ao Comunismo, esquecendo ou omitindo por inércia ou condicionamento social, e de classe, o trabalho de Engels, nos colocassem como proletário de segunda, ou que, por um aspecto da acção ou do discurso em determinado momento se extrapolara de tal para determinar a qualidade de toda uma condição. Ainda que, por essa mesma condição, porque o grupo com o qual nos identificamos preserva os aspectos comuns que promovem dita familiaridade, a identificação da crítica, a sua tomada desde a óptica constructiva da aprendizagem ou do mero conhecimento, tomaria fundamento no altruísmo/colectivismo e seguramente, na sinceridade, séria, que sem temores obscurantistas acicataria a contradição e que no fim, sempre, contribuiria para a evolução.
Num meio reaccionário só se poderá considerar mesquinho se impúberes nos mantivermos, pelo menos incorporando certa aversão à emancipação, e pugnar-mos, em (in)consciência, pela assunção da diferença; pelo usufructo e pela conquista e defesa dos direitos laborais, confiando permanecer "impúnes" enquanto seja o valor da mais-valia superior ao impacto corporativo da postura preconizada. Outra coisa seria, não ter, ou não querer expressar, uma opinião.

Pois sim, mais que nunca, hoje, somos, qual arquipélago, que não constelação (por humildade? Por ser parte do Universo!).

domingo, outubro 03, 2010

Tentações do Apocalipse

Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa que
se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)

Jorge de Sena

sábado, outubro 02, 2010

Perguntas

Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teenagers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?

Joaquim Pessoa

No Municipio de Beja

Comunistas rejeitam perseguições
Os trabalhadores comunistas no município de Beja estão indignados com as declarações do presidente da Câmara a uma rádio local sobre a sua conduta profissional. Numa entrevista à Rádio Pax no dia 21, o autarca proferiu «afirmações atentatórias ao comportamento ético-profissional dos trabalhadores do município em geral e, particularmente, dos trabalhadores com opções políticas claras e identificadas», lembram os comunistas num comunicado emitido no dia seguinte.

A organização do PCP dos trabalhadores do município de Beja interpreta estas declarações como o «prenúncio de uma perseguição que o executivo chefiado por Jorge Pulido Valente pode estar a preparar contra os trabalhadores comunistas do município». Para os comunistas, o autarca poderá estar a lançar publicamente campanhas «difamatórias e falsas, com o objectivo de ir influenciando a opinião pública para preparar terreno e melhor justificar essas perseguições». Que, lembram, podem culminar com o despedimento ao abrigo das novas regras de avaliação de desempenho.

Face a este possível cenário, os comunistas afirmam que «não se deixarão intimidar por ameaças ou chantagens» pelo que não deixarão de exercer os seus direitos de cidadania e de defender os direitos dos trabalhadores e um serviço público subordinado aos interesses das populações.

No comunicado, os comunistas esclarecem que, entre eles, «nunca houve uma recusa no exercício das suas funções nem qualquer processo disciplinar que confirme a falta de zelo e, muito menos, que indicie práticas que presumam posturas sabotadoras, como foi insinuado nas declarações do presidente». Aliás, em reuniões do colectivo partidário, «sempre a postura militante foi de apelo a um desempenho profissional que melhor sirva os interesses da comunidade».

Com o objectivo de acabar com especulações, a organização partidária no município recorda não haver – nem no actual mandato nem nos anteriores – militantes do Partido em cargos de chefia e que sempre teve como orientação o respeito pelos dirigentes «independentemente das respectivas opções políticas». A prová-lo está o facto de nunca se terem registado conflitos por razões desta natureza.

Os comunistas consideram ainda que as declarações do presidente da Câmara indiciam desrespeito pelos restantes trabalhadores, ao deixar implícita a ideia de que se trata de «seres autómatos e não pensantes, que se deixam influenciar facilmente por ideias “conspirativas”».

In Avante!

quinta-feira, setembro 30, 2010

1400 km. Em 14 horas, sem me mexer...

Foi a greve, a greve em Espanha permitiu-me participar no desfile até à assembleia da república que tomou para seu início a rotunda do marquês do pombal.

Ainda a caminho do vitória, fui saudando e cumprimentando camaradas que de antemão confiava encontrar completando o impressionante quadro que de pé também quis pintar. A muitos efusivamente e a outros com um “embalo” que não compreendia contemplar certos formalismos que o meu eu, mínimo, despreza, minuto a minuto, cheguei tarde. No centro de trabalho poucos eram aqueles que permaneciam, mesmo assim, tomando o caminho de engrossar as fileiras do combate às injustiças.

De cabeça jovem(inter), o corpo daquela massa de trabalhadores que conquistava a cada passo as avenidas, o silencio, a luz de um radiante e caro sol que pela frente nos estendia um tapete que cada um pintava de sombra, era a liberdade contoneando-se como tensando e relaxando os músculos, que firmes, como milhares de vontades unidas, erguidas, mais adiante reclamariam justiça.
É certo que, para a generalidade dos Homens, tudo o que não entre nos 1400cm cúbicos do seu mundo se considera zona hostíl. Pois bem, ontem reforcei a certeza que os tais 1400cm são só parte do organismo que é a espécie, essa sim, enorme continente de felicidade. E afinal, que mais queremos? Esta é uma questão complexa.

Assim, na estrada de volta a Madrid, fazendo-me acompanhar de uma cadeia de rádio que penetra quase 300 km. Em território magnético Espanhol, fui ouvindo o sabujo que nos rouba e um dos seus acólitos, que o imitava nessa forma de, algo como regurjalar, discursar que nos agonia. Vinham dizer à população que manifestações como as de hoje eram meras excentricidades, folclore; que agora é que seriamos maiores que Espanha, começando com um IVA 6% mais alto; um corte de 5% em salários que não lembram nem ao, deles, menino jesus, e que, somos o suficientemente valentes e solidários para fiscalmente contribuir com mais uma parte dos nossos salários para o governo (que não estado), sem necessidade de progredir na carreira; que não necessitamos de ajudas de ninguém, nem de luxos, e que por tal se congelam todos os investimentos públicos; que a educação ou a saúde podem muito bem sofrer uns cortezitos devido à já de si esbanjadora garantia que auferimos nesses âmbitos, mas, curiosamente, sem ter escutado qualquer menção à esperada política de reposição dessas mesmas garantias. (Para quê?) Não obstante, fiquei ainda mais preocupado com a velada solução para cumprir as previsões do défice para 2010, tomando conhecimento que, o encaixe 2.400 milhões do fundo de pensões da PT não é mais que outra forma de hipotecar o nosso futuro e o daqueles que virão.

Continuando, depois de duas ou três voltas ao dial, aceitei que era essa, sem conteúdo, a música que devia ouvir até chegar a casa; era a música Espanhola que se impunha em todas as estações, essas que silenciavam a greve que segundo o governo foi apenas secundada por 7% dos trabalhadores. Pensando já em castelhano, vieram-me à memória algumas perguntas que me fazia, como parte que sou do organismo, quando era ainda um jovem, como esses que encabeçavam e acompanhavam a manifestação de Lisboa, como pode a sociedade levar um indivíduo a hipotecar o futuro dos seus filhos (também o seu e o dos seus iguais, mas fundamentalmente, dos seus filhos); como pode alguém ficar em casa numa greve, numa manifestação; como pode alguém tapar os olhos e aceitar, como um borrego, que os sabujos que ocupam o poder os utilizem, oprimam, roubem, gozem, ceifem os direitos e determinem, a anos de distancia, a vida que trazemos ao mundo?

Será tão dificil assumir que os nossos filhos, amanhã, quando adultos, vão sofrer mais cortes sobre os cortes que os muitos papás amedrontados aceitaram por uma moeda que recolheram do chão dos “senhores” que a atiraram?

Sem a luta de todos, também desses que pensam que outros de tal penumbra os livrarão; com a política educativa que se implementou e permitimos, sem exigencia académica; com o demonstrado desprezo pela vida que se traduz no paradigma sanitário que sofremos; sem emprego, não estaremos a contribuir para que os nossos descendentes se tornem dóceis “faxineiros” com 12º ano, num país-praia destes estados unidos da europa, que, como a califórnia, só existirá porque (àparte da irrelevante participação política) será uma forma de que a banca e outros estados, tenham uma colónia onde despejar um ano de frustrações.

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"Num jornal de 30/09

"A receita por quarto disponível para o conjunto dos hotéis da cidade de Lisboa subiu 24,4% em agosto face a igual mês de 2009, para os €53,3. Uma evolução positiva que se ficou a dever, segundo Vítor Costa, diretor-geral do Turismo de Lisboa, a um incremento do turismo de lazer. "As taxas de ocupação subiram, tal como os preços".

Por classes, o crescimento mais significativo ocorreu nos hotéis de cinco estrelas, onde este indicador trepou 53,4%, para €67,8. "Ainda se verificou uma pequena descida dos preços neste segmento, cerca de 2%, mas a ocupação subiu 56%, o que explica esta evolução", afirma Vítor Costa. Um sinal positivo, já que é a taxa de ocupação que explica a diferença entre este indicador e os preços praticados pelos hotéis.

A receita por quarto disponível é uma das principais medidas para avaliar o desempenho das empresas no sector do turismo, traduzindo as receitas por unidade de capacidade disponível, neste caso, por quarto disponível (seja ou não ocupado). Este rácio depende, assim, de duas variáveis: o nível de ocupação dos hotéis e os preços praticados."

sexta-feira, setembro 24, 2010

Como se diferencia o proletário do escravo?

O escravo está vendido de uma vez para sempre; o proletário tem de se vender a si próprio diariamente e hora a hora. O indivíduo escravo, propriedade de um senhor, tem uma existência assegurada, por muito miserável que seja, em virtude do interesse do senhor; o indivíduo proletário – propriedade, por assim dizer, de toda a classe burguesa -, a quem o trabalho só é comprado quando alguém dele precisa, não tem a existência assegurada. Esta existência está apenas assegurada a toda a classe dos proletários. O escravo está fora da concorrência, o proletário está dentro dela e sente todas as suas flutuações. O escravo vale como uma coisa, não como um membro da sociedade civil; o proletário é reconhecido como pessoa, como membro da sociedade civil. O escravo pode, portanto, levar uma existência melhor do que a do proletário, mas o proletário pertence a uma etapa superior do desenvolvimento da sociedade e está ele próprio numa etapa superior à do escravo. O escravo liberta-se ao abolir, de entre todas as relações de propriedade privada, apenas a relação de escravatura e ao tornar-se, assim, ele próprio proletário; o proletário só pode libertar-se ao abolir a propriedade privada em geral.

Engels - 1847

quinta-feira, setembro 23, 2010

terça-feira, setembro 21, 2010

"essa navegação, deve ser retomada!"



Identidade

Trocámos o nosso,
outros futuros;
a alegria de quem será,
que não somos.
Alcunhámos de vida o lamento,
sobrevivendo
nas migalhas dos pães, inteiros
que fomos

Arrotam os porcos
lá fora
rebolando no seu próprio excremento,
sustento
da muralha que nos obriga
o horizonte sonhar. Fétida
Nauseabunda,
Cercada pelo mar

Mário Pinto

segunda-feira, setembro 20, 2010

Coerência de um Partido

Depois de ouvir esta intervenção, grande, brilhante, daquele que considero, agora mais (se cabe), a única opção que como povo temos de melhorar as nossas condições de vida, "veio-me" à lembrança um momento que passou à 26 anos, na Costa da Caparica. Depois de um comicio, numa colectividade que frequentava, onde me abastecia em terra para depois ir para o mar, tendo na altura a responsabilidade sobre a informação e propaganda (penso que era isto...) da JCP para essa freguesia, virei-me para o Camarada Álvaro Cunhal e disse-lhe: -Camarada, a juventude está presente! A reacção desse camarada foi, para meu espanto, olhar para mim, aproximar-se e, dar-me um abraço. Depois desse episódio, durante todo o tempo que passou (que não foi nenhum), fui tentando perceber a motivação dessa atitude, e consegui. Hoje, começam a equilibrar-se as novidades com as memórias, algo que podia, só, ser decadente. Porém, sem que a minha concepção da existência reserve espaço para esse tipo de fenómeno, estas oportunidades são assim mesmo revitalizantes, ou até, capazes de criar a necessidade de exercer um esforço suplementário controlar o corpo.
O Francisco Lopes, nesta ocasião, no meu caso concreto, veio reforçar a certeza do quão correctas foram as conclusões às quais cheguei há alguns anos e, por conseguinte, "Francisco, avança, com toda a confiança!"

Terremoto político na Suécia após entrada de extrema-direita no Parlamento

ESTOCOLMO — As eleições legislativas de domingo na Suécia provocaram incerteza política no país, com uma coalizão de centro-direita minoritária que se vê obrigada a negociar com a esquerda para evitar uma aliança com a extrema-direita, que conseguiu entrar no Parlamento.

Após o anúncio do resultado, o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, cuja coalizão perdeu a maioria absoluta por três cadeiras, repetiu que não negociará uma aliança com os Democratas da Suécia (SD), o partido com uma plataforma anti-imigração que entrou no Parlamento.

"Fui claro. Não vamos cooperar ou ser dependentes dos Democratas da Suécia", afirmou aos seguidores o político de 45 anos.

"Vou procurar os Verdes (membros da coalizão de esquerda) para obter um apoio mais amplo", completou.

Diante da primeira reeleição da direita à frente do país, da queda histórica da social-democracia e sobretudo do choque causado pelo aumento da votação da extrema-direita, a imprensa sueca destaca o "fim de uma época".

Com seu pior resultado desde 1914, os social-democratas, que passaram boa parte do tempo no poder desde 1932, perderam o encanto sobre os eleitores.

A líder social-democrata Mona Sahlin, de 53 anos, desejava ser a primeira mulher a assumir o posto de chefe de Governo da Suécia, mas obteve apenas 30,9% dos votos.

"A época em que um partido estava aferrado ao poder e podia decidir tudo, felizmente acabou", afirma um editorial do jornal Dagens Nyheter.

"Perdemos. Não fomos capazes de recuperar a confiança", declarou Sahlin no domingos aos simpatizantes.

Mas o terremoto político no país, lembram os analistas, foi completado com a entrada no Parlamento dos Democratas da Suécia, liderados por Jimmie Aakesson, de 31 anos.

Com 5,7% dos votos, o partido conseguiu 20 cadeiras das 349 do Parlamento sueco e está em uma situação ideal para oferecer a maioria absoluta à coalizão, apesar de Reinfeldt ter descartado a hipótese.

"Não criaremos problemas. Assumiremos nossas responsabilidades. Prometo ao povo sueco", afirmou Aakesson no domingo à noite.

Toda a imprensa sueca lamenta nesta segunda-feira o avanço da ultradireita, que deseja acabar com a forte imigração (mais de 100.000 pessoas ao ano) no país, uma das poucas nações europeias flexíveis no tema.

"Caiu o estandarte da "tolerância" e as forças obscuras acabaram mantendo também como refém a democracia sueca", lamenta um editorial do jornal Expressen, que pede Fredrik Reinfeldt uma aliança com os Verdes.

"Se o preço a pagar é um posto de ministro do Meio Ambiente e impostos sobre a gasolina, não se deve hesitar por um segundo", completa.

Mas conseguir o apoio dos 25 deputados Verdes parece complicado, já que os ecologistas fizeram campanha com os social-democratas e contra o governo Reinfeldt.

Na noite de domingo, uma das principais figuras dos Verdes, Maria Wetterstrand, deixou claro que os planos do premier serão difíceis de ser concretizados.

"Vai ser muito difícil para nós, depois desta campanha, olhar para nossos eleitores nos olhos e dizer que vamos cooperar com este governo", disse.

A coalizão de quatro partidos de Reinfeldt recebeu 49,3% dos votos, o que representa 172 cadeiras, três menos que a maioria absoluta de 175. A coalizão de três partidos de esquerda conseguiu 157 deputados.

Copyright © 2010 AFP. Todos os direitos reservados.

(Onde se lê "coalizão", leia-se: Coligação)

sábado, setembro 18, 2010

Identidade

Trocámos o nosso,
outros futuros;
a alegria de quem será,
que não somos.
Alcunhámos de vida o lamento,
sobrevivendo
nas migalhas dos pães, inteiros
que fomos

Arrotam os porcos
lá fora
rebolando no seu próprio excremento,
sustento
da muralha que nos obriga
o horizonte sonhar. Fétida
Nauseabunda,
Cercada pelo mar

Nós por cá vamos bem..

4.530.000 - Esta era a dimensão da diáspora portuguesa em meados de 2009. Por quê?

Se nos encontrassemos na década de 60, quando chegaram a “saltar” 120.000 portugueses por ano; submetidos ao mais feroz fascismo que o nosso país pôde experimentar... Mas a realidade é esta, mais de 4,5 milhões de portugueses continuam cá fora.

Observando as preocupações dos governos portugueses que, desde Novembro de 1975, foram tentando fechar as portas que em Abril do ano anterior se haviam aberto, poderiamos dar-nos conta dos motivos. Pensar que estes eram só a preservação do controlo obscurantista sobre a população, demagógico desta feita, com o intúito de entregar aos substitutos, e a alguns anteriores, exploradores, um país e um povo que lhes permitissem alimentar os cães com bife do lombo. Mas isso é acreditar em conspirações.

Assim, já em 1978, três anos depois, se tinham definido políticas que contemplavam muitos daqueles que eventualmente poderiam querer passar férias lá fora com as riquezas que se adivinhavam.

Em 1990, depois de um período de consolidação, começamos a perceber quão bem se vivia na diáspora deste novo paradigma.
As noticias eram várias, começando pelos novos destinos, como o Reino-Unido, onde se assistia a casos de tuberculose que, sem dúvida, se arrastavam ainda do tempo do fascismo, na França, onde hoje o governo já adopta tintes neo-nazis, ou, sem parar, na Suiça, onde iam trabalhar para a banca.

Porém, a situação não se revelava apenas por motivos como aqueles que numa primeira impressão podemos imaginar. O contacto com outro tipo de dimensões denota outras, e claramente indicadoras da condição dos portugueses, importantes variáveis. A emigração de periferia. Neste contexto, como membros de pleno direito da UE, como os ciganos romenos, também nós assumíamos (e hoje também) a consideração de iguais.

Finalizando esta parte, depois de uns poucos anos de direita em portugal, já os novos emigrantes tinham ampla consideração: valha este exemplo.

Dessa forma, também os mais temerosos aceitavam um novo estereótipo, basta perceber este titulo, a opinião de um blog qualquer e dos seus mais de 70 comentários: subtilmente amistosos. Esta consideração, como era de esperar, veio gerar ainda mais noticias, como esta.

Tudo isto, como referido no início do texto, para conseguirmos alcançar o 1º lugar em igualdade, algo que Sócrates quase conseguiu, colocando-nos em lugar, mesmo que, o PSD, coo protagonista desta farsa, prometa.


Entretanto, cá fora, vamos assistindo a isto, isto, isto, isto. Nós, e aqueles que no segundo bloco desta página escrevem o que já na alegoria fica explicito.
Por outra parte e, curiosamente, não por assumirmos uma emigração itinerante, mas, preocupados com a imigração que suportamos dos países mais pobres, somos também capazes de investir para melhorar as condições de vida desse colectivo.

Assim, não deixa de resultar lógico que os portugueses, cada dia mais, optem pela diáspora para viverem, considerando as facilidades que cá fora encontram para quem vem de um país com umas condições tão favoráveis; com tais liberdades e garantias. Como tal, metade da população e mais de metade dos potenciais eleitores, enquanto aceitamos a média de idades daqueles que por cá andam, desmentem assim aqueles que explicam a emigração apenas como uma espécie de ânsia de fuga, ou não?


Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, setembro 16, 2010

Reflorir, sempre

Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

Jorge de Sena

quarta-feira, setembro 15, 2010

Sobre o lado esquerdo

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração."

de Sobre o Lado Esquerdo
Carlos de Oliveira

A ilha de cordas

domingo, setembro 12, 2010

O perigo


Prematuro mas catártico, o motivo que justifica este texto.

Emigrante, trabalhador e militante de um partido político, que podia ser qualquer se fosse outro o autor e/ou as suas razões, mas, uma vida, outra, única, e tantas. Decidi debruçar-me sobre os efeitos que a emigração pode ter no indivíduo e seu entorno, tratando a questão desde a infância e as suas diferentes situações, à despersonalização mais profunda e à destruição do Homem que se empenha em, por vezes aproveitar, mas, sempre, sofrer o capitalismo.

O léxico, que empregarei, será aquele que considere oportuno e que, também, dentro do escasso conhecimento linguístico que se poderá constatar, proporcione da forma mais abrangente uma leitura fluida. É importante antecipar que o tema obriga a utilização de determinada terminologia de síntese que, nalgum caso, por não se tratar de apresentar sinónimos, estenderia à extenuação deste que escreve e daquele a quem possa interessar a sua explicação.

Finalmente, e para entrarmos em matéria, não está demais informar que não conservo apetência nem aptidões para o ballet.

As crianças, em idade pré e escolar:

São por demais conhecidas as contrariedades que experimenta um indivíduo quando certas peculiaridades o colocam fora do endogrupo, tornando-se estas mais acentuadas quando este as encontra numa etapa de formação da sua estrutura cognitiva, neuroanatómica e/ou neurofisiologica, impactando na sua personalidade adulta a necessidade alostática de debelar repetidamente fronteiras de cariz estereotípico. Por outra parte, ainda assumindo que termine finalmente por se integrar socialmente, no que ao âmbito familiar concerne pode também constituir uma fonte de cisão com a cultura parental, enquanto o pai, adulto, experimentará outras complicações que mais à frente se tratarão mas que raramente passam pela plena integração, o filho, chega por vezes a revelar-se como articulação entre duas culturas, fundamentalmente quando sobrevaloriza a receptora menosprezando a de proveniência. Nesta situação, os roles familiares chegam frequentemente ao limite de se inverterem entre pai e filho, gerando assim situações de insucesso escolar, toxicodependência, condicionamento social, violência ou mesmo uma capacidade imunológica diminuída.

No relativo às situações negativas geradas, também no caso antagónico, no qual se verifica um apego exacerbado à cultura de proveniência em detrimento da adoptiva, estas se podem desencadear. Sem procurar sistematizar critérios de avaliação nem tão pouco teorias herméticas, estas constatações tomam base em diversos estudos realizados entre 1979 e 1990, os quais apontam, como habitual, que a situação socioeconómica é uma constante proeminente no sustento destas adversidades.

Assim mesmo, referindo-nos agora a factores atenuantes ou promotores das diferentes situações acima descritas, devemos observar certas distinções entre: descendentes de emigrantes em que ambos progenitores compartem naturalidade, idioma, grau de aculturação, situação laboral ou até formação, todos estes aspectos nos mais diversos níveis e que actuam de forma exponencial; onde um dos elementos do casal é oriundo da região; o factor de multiculturalidade dentro do qual amadurece a criança ou até, as suas afiliações comuns, ou não, à generalidade.
O bilinguismo intrafamiliar pode, porém, resultar favorável, mas, da mesma forma que se cria um sistema no qual os símbolos se podem intercambiar, estimulando a organização do pensamento, este poder-se-á desequilibrar quando a família não mantém um reparto na utilização do idioma similar ao do entorno infantil.
Terminado este apartado, apenas mencionar alguns dados quantitativos, tomando como referencia a população emigrante portuguesa, e do magrebe, em França. Sabemos hoje que, em 1985, a metade dos expedientes de tutela temporária e 20% das solicitações de custódia foram relativas a este colectivo. Por tal, tranformado, neste caso, num problema psicológico mais que linguístico, o fenómeno migratório guarda também uma relação directamente proporcional com duas etapas infantis: A patologia carencial, tanto somática como psicológica, que apresenta maior incidência na idade pré-escolar, maximizando-se mais tarde, no período de latência, os problemas escolares. Já na adolescência, momento de consolidação, verificam-se conflitos de identidade podendo estes ser potenciados pelo biculturalismo, razão maior na explicação dos transtornos apontados.
Entre 1980 e 2010, depois da integração na U.E., os emigrantes Portugueses diminuíram o seu fracasso escolar, com rácios similares aos espanhóis, distinguindo-se notavelmente dos estudantes de países africanos. Também assim, a inserção laboral familiar ou a consideração social sobre a nacionalidade, sofreram certa melhoria (aqui também se pode encontrar certa influencia da revolução de Abril), não havendo podido contudo eliminar quadros semelhantes aos relatados.


O Emigrante adulto:

Referindo o continuo entre os dados anteriormente utilizados e os indicadores actuais, constata-se que subsistem enormes dificuldades na afirmação de igualdade entre as populações de estudo e os cidadãos nacionais, persistindo a clivagem social, reforçada pela indefensão aprendida resultante da percepção da realidade do país de origem e pelos discursos e medidas que adoptam os governos dos países receptores, submetidos a ditames de carácter imperialista que legislam como subversiva a defesa de culturas que, ainda diferentes, são indubitavelmente importantes para a estrutura interna do trabalhador, facto que por si só destitui em certa medida de vontade própria e identificação aqueles que encontram como solução aceitar os desígnios de empregadores nacionais, com similar, ou até menor formação (não só académica ou profissional) e, vínculos contratuais onde a precariedade prima pela constância. Concluímos neste caso que, apesar do passar do tempo, da assunção da diferença pelos migrantes, na Europa – para não divagarmos sobre a problemática da população negra norte americana depois de mais de duzentos anos de lutas -, actualmente, também a condição de nacionalizado determina maior exposição a distúrbios psicológicos.

Por outro lado, tratando-se de trabalhadores que recentemente se tornaram emigrantes, observam-se assim mesmo experiências paralelas, mas, neste caso concreto, não carece de necessidade a contemplação do incremento nos direitos, liberdades e garantias que desfrutavam na sua terra (voltando aqui, apesar do fascismo demagógico actual, a mencionar o 25 de Abril como enorme conquista civilizacional), revelando-se a situação prévia à equiparação, muitas vezes exo-distinção positiva, com o colectivo analisado no início do texto.

Interpretando esta amálgama de contrariedades desde a neurociencia, não reduzindo os seus efeitos ao já conhecido sindroma de ulisses, que passa por ser uma tentativa de impedir o profundizar da introspecção na procura dos motivos reais que precedem este fenómeno, delimitando por consequência a sua dimensão, mais, por tomar como base de estudo populações oriundas de regiões geográfica e culturalmente radicalmente diferentes das receptoras, servindo-nos para o explicar a sua suficiente definição wikipédica (em Espanhol, por não existir em Portugal um cuidado sobre esta matéria):
“El Síndrome de Ulises, también conocido como síndrome del emigrante con estrés crónico y múltiple, es un síndrome de naturaleza psicológica que se caracteriza por un estrés crónico que viene asociado a la problemática de los emigrantes al afincarse en una nueva residencia. El nombre viene variado del héroe mítico Ulises el cual, perdido durante muchísimos años (diez según Homero) en su camino de vuelta a Ítaca, añoraba su tierra de origen pero se veía imposibilitado de volver a ella.
Según su descubridor, el doctor Joseba Achótegui, psiquiatra del SAPPIR y profesor titular de la Universidad de Barcelona, es una situación de estrés límite, con cuatro factores vinculantes: soledad, al no poder traer a su familia; sentimiento interno de fracaso, al no tener posibilidad de acceder al mercado laboral; sentimiento de miedo, por estar muchas veces vinculados a mafias; y sentimiento de lucha por sobrevivir. Se calcula que en España puede haber unas 800.000 personas afectadas por esta enfermedad.
El síndrome de Ulises no sólo actúa por sí mismo sino que, como toda situación de estrés, contribuye a acelerar o desarrollar ciertas patologías que podían hallarse latentes en aquellos que los sufren. Por ejemplo, pacientes con predisposición a desarrollar brotes psicóticos pueden ver acelerada o aumentada su aparición a causa del estrés, de ahí que la tasa de estas patologías sean mayores en el colectivo de inmigrantes que en la población general.”


Utilizaremos, deste, como reforço da linha de pensamento aqui apresentada, a constatação de patologias como a esquizofrenia, à qual somaremos a percentagem de emigrantes no número de pacientes que atenderam a consultas de saúde mental no serviço de saúde Galego, 12.5%, um resultado extraordinariamente elevado sabendo que não houve qualquer retorno massivo daqueles que emigraram.

Assim, a causa mais provável deste tipo de psicopatologias parece residir na perda do contacto com diversas características que, em conjunto com a herança genética, constituem o indivíduo: paisagem, idioma, esquemas de movimento, clima, palatabilidade, arquitectura, vestuário, leis, entorno social, etc, e, assumindo outras, para as quais não existem heurísticos; resgatando a óptica evolucionista, poderíamos afirmar que se torna vital para o indivíduo entrar numa situação depressiva, momento no qual o organismo prioriza o pensamento e a análise sobre novos problemas que devem ser resolvidos em ordem a permitir a adaptação ambiental. Nesta situação, o suicídio é uma opção muito tangível em fases mais agudas e, não esquecendo que não existe inserção no meio e que por tal as possibilidades de uma pseudo-terapia de grupo são escassas, aparece no recurso ao especialista uma forma de solucionar, quase sempre quimicamente, ou atenuar, as consequencias do paciente se ostracizar. Os dados, porém, indicam que só uma ínfima percentagem dos afectados recorre a soluções médicas (por questões que vão desde o condicionamento social à nacionalidade do terapeuta), potenciando, com o decorrer do tempo, o agravamento da situação. Consequentemente, a perda de volume de áreas e sistemas fulcrais do cérebro - o hipotálamo por exemplo -, deprimindo também a capacidade cognitiva, intelectual ou de memória, desvincula-o da realidade e promove, assim, uma possível psicose, derivando habitualmente na sua vertente esquizofrénica, problema com o qual voltam ao seu país ou perecem na aventura.

Estagnação ou evolução:

Como é fácil perceber, suprimindo a sua vontade, grande número de emigrantes atravessa esta fase sem sequer se aperceber, algo que guarda relação com outras capacidades do Homem. Os mecanismos mais usuais para preservar o equilíbrio homeostático, muitas das ocasiões com êxito, passam por aderir ou formar associações que pugnem pelos interesses comuns daqueles que compartem rasgos culturais e, dependendo da adquisição de consciência sobre os motivos pelos quais se encontra atravessando determinadas dificuldades, a militância política.

Conclusão:

Exceptuando a militância política activa, as medidas de evitação ou escape, como as descritas, ou até a construção de uma casa na terra, as estâncias periódicas no seu país, etc., não se podem entender além da morte prematura da vontade.
Enquanto emigramos procurando a “sopa feita”, noutros casos só o pão, sensibilizados por uma melhor compensação pela produção de mais-valia, raramente questionamos o modelo que cada dia mais acicata as desigualdades. Esta Europa a duas velocidades, o concentracionismo (que subsidia o arroz por hectare em lugar do quilo de arroz semeado), a conveniente destruição do tecido produtivo nacional, a aposta pelos baixos salários (algo que defenderia em outro paradigma), são estratégias defendidas com vista a fomentar a necessidade de emigrar dos Portugueses e proporcionando assim aos países ricos uma força de trabalho dúctil, subserviente, igual àquela que permanece no seu país mas com uma retribuição menos má. Outra importante vertente a defender é fuga de potencial intelectual, técnico e artístico e cultural.


Países como Portugal, sem o esclarecimento e a participação do povo, afrontam a ameaça de se assemelharem a um aviário de mão-de-obra barata e descartável, onde, neste caso, se podem apreciar um dos mais elevados índices de psicopatologias do mundo e, no qual cerca de metade da população experimentou já, no passado recente, transtornos psicológicos (considerando apenas casos censados).

Breve quanto possível, tratando de obviar elementos que, embora importantes, pouco ou nada compatíveis seriam com o tratado, espero haver contribuído para alertar quem ainda o não está para as consequências que da fuga de nós próprios, na procura da felicidade, podem advir.

Mário Pinto

sexta-feira, setembro 10, 2010

Ler para pensar o mundo - Graça Mexia

Cerca de dez livros foram apresentados na Atalaia, de diversos géneros e abordando temas diferentes. Obras para pensar ou repensar o nosso mundo.

O ambiente era propício à leitura: milhares de volumes estavam espalhados pelas mesas da Festa do Livro, convidando quem entrava a folheá-los e a deixar-se seduzir. Onze dessas obras foram apresentadas naquele espaço, em sessões acompanhadas por leitores e futuros leitores.

Na noite de sexta-feira, Fernanda Mateus, membro da Comissão Política do PCP, apresentou a obra de Graça Mexia 45 Anos e 38 Mil Grávidas Depois, que aborda o método psicoprofilático do parto, que a autora prepara desde 1962. A dirigente comunista recordou como descobriu a existência de um treino que permite às mulheres terem os seus filhos sem dor e encararem a maternidade «como um acto responsável e feliz, não como um fardo». Os relatos cruéis de gerações de partos com dor alimentavam uma visão obscurantista do acto de dar à luz, situação ultrapassada pelo método psicoprofilático, garantiu.

«Politicamente, este livro traz-nos momentos negros da História portuguesa. A sexualidade das mulheres era reprimida e o fascismo não aceitava o trabalho de Graça Mexia», afirmou Fernanda Mateus, lembrando que muitas militantes comunistas que foram mães na clandestinidade conseguiram utilizar este método.

«Hoje, assistimos ao encerramento de maternidades e centros de saúde e o método psicoprofilático tornou-se uma miragem», denunciou a dirigente, sublinhando que a precariedade dos contratos e os horários de trabalho alargados fazem com que a maternidade seja considerada um peso e constituem barreiras a este método.

Graça Mexia confirmou as palavras de Fernanda Mateus: «Nas décadas de 1980 e 1990, acompanhava 75 mulheres por dia, porque a lei permitia que saíssem do trabalho para prepararem o parto. Agora já não. Há um decréscimo brutal de mulheres que o podem fazer, tal como o número de crianças a nascer em Portugal. Isto relaciona-se também com o desemprego, o atendimento nos centros de saúde, a falta de médicos e enfermeiros... Até para a recuperação do parto é difícil ter tempo.»

In, "Avante!"

quinta-feira, setembro 09, 2010

segunda-feira, setembro 06, 2010

A Festa que foi, e já é!

Começou a Festa, mas..

Para lá chegarmos lutámos pelos direitos na Emigração

Trabalharam na construção da Festa

e, depois de reforçar o corpo

e a mente,


estou convencido de não haver feito suficiente.







Obrigado, Camaradas!

quarta-feira, agosto 18, 2010

Mal nos conhecemos

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!.

Alexandre O'Neill

Eu vou!

terça-feira, agosto 17, 2010

5 minutos de blog

O altruísmo.

O altruísmo, para começar, tende a ser endogrupal, mas conserva um aspecto individualista que a meu ver se revela fundamentalmente no voluntarismo.
No âmbito do grupo, o objecto da participação (invariavelmente) termina em benefício próprio, mas, também, e conscientemente, e primordialmente, em benefício do grupo, com a intenção de melhorar questões que a este se reservam, elevando a sua capacidade, prestígio, consideração, dimensão, ou mesmo acesso a recursos, indirectamente somos beneficiados por a este pertencer.
A dinâmica de grupo, sendo o colectivo composto por vários indivíduos, pode ver-se mermada devido a questões como o nepotismo corrupto, cobardia, soberba, inveja, incapacidade, frustrações pessoais ou simples ambição. Neste caso, quando estas formas de inter-relação se impõem ao ideal conjunto, quando se legitimam por comunhão daqueles que ocupam roles de proeminência, aparece a individuação, o abandono e/ou a cisão, criando-se um novo grupo ou inserindo-se noutros que careçam dessas desviações ou que, incorporando-as, permitam uma identidade social positiva de maior amplitude.
Também no seio do grupo, sobretudo numa sociedade de perfil colectivista como a nossa, se encontram os, por mim denominados, “ratos”. Estes são aqueles que esperam do grupo, as oportunidades por este criadas, para alcançar através das mesmas o que não foram capazes de alcançar na coerência com os seus dissimulados ideais, as condições que supram as mais variadas lacunas que equivocadamente, ou não, subsistem na sua personalidade. Não obstante, o altruísmo endogrupal neste caso não existe, sim a assunção informativa, mas, excepcionalmente, não a normativa, uma vez que não se desencadeiam acções quando não se perspectivam compensações. Em psicologia, este tipo de perfil conhece-se como advindo de certas patologias, mesmo deformidades neuroanatómicas ou morfológicas.
No caso concreto do grupo ao qual pertenço, por condição, estas últimas não ousam predominar, antes pelo contrário, basta lembrar Homens como Bento Gonçalves, Dias Lourenço, Dias Coelho, Soeiro, e tantos outros que para mencionar não bastaria o virtual espaço deste blog. O ideal do meu partido é maior que o de qualquer homem, que o de qualquer doença, que o de qualquer dogma.
Assim, atribuída que está a vertente política à maioria dos grupos, se não a todos, para evitar situações como as descritas mais acima, sabemos que a concentração de elementos nocivos pode a partida ser limitada com base nos procedimentos estabelecidos que dão lugar à aceitação de novos integrantes, ainda que, dificilmente se detectem e menos se reúnam argumentos para afastar aqueles que no percurso se corromperam, elementos que dificultam, não chegando contudo a degradar, o progresso e o crescimento do colectivo. Contrariedade que promove, de novo, a individuação. A resposta, neste caso, apela à coerência individual com os valores que estiveram na base da decisão primeira de escolher determinado grupo, que formaram determinada personalidade, e, ainda pesando o comportamento abjecto de alguns semelhantes, a análise toma outro cariz, reforçando a identificação com a maioria endogrupal, terminando essa por fortalecer o altruísmo e relegando para o limbo da segregação aqueles que com a sua actitudinal deformação infectam o ambiente.
Porém existe também a necessidade de compartir os recursos. Nessa situação, a diferença entre um grupo com características standard e outro de elíte, é que no actual paradigma, os recursos do último sobram para todos elementos, favorecendo assim a competitividade e premiando a dominancia sem olhar a meios, sendo este evitado pelos que aproveitam outras prácticas camuflando a sua vontade dentro de um entorno solidário, não obrigatóriamente carecido.
Como conclusão, o Homem é um ser social, necessita o grupo, e, como meta essencial reproduzir-se. O altruismo é, pois, a forma que melhores resultados prova alcançar no sentido da transformação do futuro no qual crescerão os nossos genes, viveremos nós e, a sociedade da qual fazemos parte.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Humanidade, tempo, espaço e colectivismo

"O homem culto é aquele que tem consciência do seu lugar no universo e na sociedade, reconhece a dignidade inerente a qualquer indivíduo e coloca como seu fim supremo o aperfeiçoamento interior."
Bento de Jesús Caraça

sábado, agosto 14, 2010

O silêncio

O silêncio.

O texto que segue toma como base a imposição do silêncio durante a ditadura fascista que marcou quarenta e oito anos da vida de Portugal e dos Portugueses, no intuito de expor uma pseudo-tese que explique e denuncie a depressão que actualmente se verifica no âmbito social, e, como conclusão, encontrar hipotéticas formas para a alterar:

Vinte e poucos anos depois da transição efectiva de um sistema feudal a outro prenunciado democrático - um avanço civilizacional incontestável -, estabeleceu-se no nosso país um tipo de ditadura extraordinariamente repressiva, fundamentada no nacional-corporativismo alimentado, também, pela dimensão de potência colonizadora que Portugal detinha à época. Durante esse período, fundamentalmente personificado por salazar (o botas) e mais tarde por marcelo caetano, aparte de não existirem quaisquer garantias sociais que evitassem a renúncia do povo a exibir critério próprio, proibidas que estavam as reuniões populares, a lei determinava não haver lugar a opinião contrária àquela segundo a qual se regia a vida dos Portugueses e que conservava desígnios de uma oligarquia.

Tentando desde a neurociência enunciar alguns possíveis transtornos advindos desse regime, transtornos que podem hoje preconizar a atitude da população em geral, podemos atender a diferentes factos, sendo o primeiro deles a localização do sistema de processamento de linguagem no cérebro humano, córtex frontal, área de broca. Compartindo disposição estão situadas importantes funções de coordenação – que para o caso não apresentam relevância – e, motivação e conduta, tomando estas papel central nas conclusões que pretendo alcançar.
Assumindo que dialogar permite a afirmação da personalidade do indivíduo, que o mesmo evolua no contraste com outros pensamentos, e que, ao contrário, através do condicionamento instrumental; operante, se podem cominar alterações psicológicas como a depressão e assim a indefensão aprendida e que estas, durante um processo tão alargado no tempo quanto a mencionada ditadura e sem tratamento (antes pelo contrário), puderam influenciar ontogénicamente as características do aporte filogénico na reprodução, podemos identificar o motivo da apatia que se constata socialmente.

Porém, sem deixar de contemplar a transformação que a liberdade conquistada com o 25 de Abril proporcionou com relação à dimensão da exposição cognitiva, ao seu contributo no processo evolutivo, podemos assegurar que, segundo a teoria da selecção natural, as gerações que agora se reproduzem já não transmitirão geneticamente consequências desse tipo de fascismo e, ainda que não seja a metamorfose do mesmo o elemento de estudo, no artigo anterior dá-se conta da estratégia actual de dita política.

Assim, aceitamos então que a possibilidade de escolha ou afirmação do indivíduo é factor necessário para a felicidade. Contudo, o processo de consciencialização que permita tornar efectivo, real, o uso desse direito, continua a ser dificultado pela reacção, pelas forças políticas da direita, e será contra essas, sem dúvida, que a luta deve ser travada. Sustentando esta opinião, mesmo atendendo ao resultado de investigações que indica que, à semelhança do que propugna o Marxismo, o processamento de informação se vê melhorado quando o Homem elucubra fortalecido pelo colectivo (exemplo).

Constituindo exemplo suficiente a propaganda que aqui encontramos do quão bombardeada resulta a democracia nos dias que correm, revela-se assim inviável, mesmo que interiorizada positivamente, que a revolução de 1974 sirva como "priming" para evitar que a tentativa de estereotipar o Socialismo surta o efeito desejado por aqueles que, por exemplo, promovem o concentracionismo, elitizando o acesso a serviços como a justiça a educação ou a medicina, colocando-se assim como classe dominante.

Concluindo: ainda tendo sido sacrificada pelos mesmos que a louvaram, a vaca galega que debelou o ataque de uns lobos que habitavam a serra onde pastava, quando perdida com a sua cria durante 12 dias, depois de aprender a lutar para se defender deixou de obedecer ao pastor como o faziam as suas semelhantes domesticadas (motivo da sua morte). Utilizando como parábola, e salvando claramente as distancias, esta fábula que encontrei no livro "A viagem do elefante" de José Saramago, lembra que são muitos aqueles que hoje continuam a fazer o que de melhor aprenderam, lutar, e sim, claro que também para estes a ontogénia tem os seus efeitos, ainda que no seu caso, por não acicatar a depressão, comporte o potencial necessário para levar a cabo a ansiada mudança (transformação aferível de paradigma), que sobrevirá, mais cedo que tarde.

sábado, agosto 07, 2010

O Herói anda por dentro

Hoje, ao ler um artigo de um blog muito interessante, que mencionava uma notícia sobre o super-homem, decidi escrever sobre o assunto que me tem vindo a martelar há umas semanas: a política e os comic. Porém, não vou entrar tão a fundo na matéria que me leve a viajar por sendas que já trilhei e que, como proposta deste texto, resultariam ainda mais aborrecedoras que o mesmo.
Personagem que me interessa desde o ponto de vista (de momento) académico, o batman, poderia justificar quatro ou cinco páginas de um livro, ainda que, não por evitá-lo deixarei de referir a sua traiçoeira adição às endorfinas, a esse ópio endógeno que se produz na tentativa orgânica de alcançar o equilíbrio homeostático perdido no reviver de experiencias semelhantes a outras traumáticas (como quando, apontando-lhe com um revólver, assassinam seus pais) ou, em situações inusitadas, sempre negativas. Enfim, à justificação da sua pseudo-altruísta inquietação pela defesa da população, desde uma clara eleição de classe... Burguesa, egocentricamente hedonista.
Nesse sentido, e aproveitando a onda que se conforma, na espontânea tentativa de análise sobre uma tão proeminente figura desse universo aos quadradinhos, onde muitos de nós vivemos momentos da nossa vida, fundamentalmente na etapa de crescimento, continuarei, procurando contribuir para uma interpretação distinta de outra personagem com estatuto superior, o super-homem.

O super-homem, “Superman” para evitar confusões com outros tipos de anticristo, abandonado pelos seus pais, quando estes decidem perecer por não se legitimarem sem feudo e incapazes, como reaccionários, de afrontar o desafio de partilhar e integrarem novas e desconhecidas realidades; vítima da cobardia dos progenitores, cai na terra (“América”, enorme, onde qualquer homem de boa fé, um bebé, um inocente, podem estar seguros), em terreno lavrado, cheio de vida potencial, que, como de forma “comum” nessas esplêndidas e generosas paragens, pertence a um só casal. Desfrutando de uma infância cómoda, abstémia, casta, alienada da mundana humanidade, e curiosa e paradoxalmente, exemplarmente abnegado humilde limpa-botas dos filhos dos vulgares abastados homens que abundam nesse paraíso, consegue compensar com trabalho os escassos recursos que os seus anciãos tutores dispunham para a sua educação, graduando-se ("doutorando-se", em Portugal), em jornalismo. Meritório esforço (ainda que de quem não sua), mas, básica e tácita apologia de um paradigma de submissão e competição, de uma assumida clivagem classista capitalista ultra-ortodoxa, onde a emancipação se outorga em “canudos”.
Recapitulando, nesta inicial aproximação ao “SM” – abreviando como se estila actualmente -, começo por concluir que segundo os guionistas e a censura norte-americana, o abandono de menores deve ser legalizado, e quem diz abandono diz venda, sempre que os pais não tenham possibilidades de manutenção do menor. Conclúo também que, cair na América, ainda que de forma aleatória, é uma sorte acompanhada de oportunidades, sempre que nos aborreguemos o suficiente.
Mais importante, para terminar este primeiro inciso, encontro uma diferença assinalável entre a aposta por um progresso sustentado “também” nas centenas de, pelas mais diversas razões, “Mitchourines*”, elemento central da intelectualidade, e outra forma, a qual, reiterando e defendendo a prevalência do estabelecido, cuidando a marisma, apenas reconhece idoneidade ou razão fundamentada, ou mesmo pondera somente a argumentação; atribui valor, aos formados segundo seculares critérios programáticos redutores.

Noutros âmbitos, contra a emancipação do indivíduo, existe o Hulk. Para nos fixar num mundo sombrio, solitário, insolidário, frente a um copo que depois de vazio tentamos romper com o poder da mente e que por tal logro vazamos cada vez com maior diligência, estão os X-men, com o seu chefe numa cadeira de rodas, mas, claro, estes seriam só o veludo.

Voltando ao nosso, deles, homem, e para não nos alargarmos muito mais, uma constatação simples é a de que o “SM” foi mesmo criado como elemento estrutural, e estructurante, da estratégia de manipulação imperialista. Se nos detivermos em aspectos paralelos, perceberemos que, este é o único super-herói que necessita disfarçar-se para viver entre a população - isto numa das maiores metrópoles do mundo -, que começa por querer identificar-se com o entorno, facto que permite extrapolar que o comportamento de um ser especial (da população americana que pretende imitar, tornando-a extraordinária; dos valores americanos) é temeroso na sua relação com o semelhante (distante), dócil com o patrão (cash), austero aos sentimentos (privilégio do homem); deve ser voluntarioso e humilde para com os seus inferiores, inferiores (como para decidir quando como e onde levar a cabo invasões solidárias ou defesa de conflitos previamente criados); que ainda sendo todo-poderoso não deve submeter (ou mais bem, não mostra submeter) mais que os vilões por ele ajuizados (possuidores de arsenais nucleares, por exemplo), e que, tudo faz com a consciência de poder cometer erros como um humano, com as suas kriptoniticas e humanas debilidades (não existindo Haya para os soldados americanos). Em suma, olhamos para alguém que podendo dominar o mundo prefere, aparentemente, dominar-se a si (perdoando-nos a vida).

No caso do homem-aranha... sendo um cientista, é o único capaz de afirmar na sua biografia que, a interacção conscientemente respeitadora entre espécies, no seu caso e sem sequer ter esborrachado a aranha, pode ser benéfica (afinal existe sempre um vínculo filogénico). Tomando esta figura híbrida, entrando noutro ramo da sua área de formação enquanto simples humano, em diferente matéria, concretamente segundo as últimas conclusões da neurociência, a forma mais efectiva para aturdir o povo; impor o pensamento único, é mesmo bombardeá-lo com opções, tantas quantas as necessárias para o paralisar, para que este, mesmo podendo actuar não possa decidir fazê-lo. Ora, se uma das faculdades que conformam a espécie humana, no que à psicobiologia concerne, é a capacidade de decisão, ao ser impedidos de escolher entramos numa espiral depressiva. Apáticos, indiferentes, tornamo-nos – como o batman -, depressivo-dependentes ou, dependentes das substancias que o nosso corpo segrega quando nos deprimimos, votando em quem sabemos nos roubará o que puder, nos retirará os direitos outrora conquistados lutando; incapazes de assumir a responsabilidade de mudar em direcção a uma sociedade transformada (como pais de um imaginário super-homem). Enquanto isso, o mundo gira e avança, e nós com ele, sem preconizarmos a vida com que trazemos agarrada ao nascer. Permanecemos hirtos, como num prado onde a contemplação se extende até um horizonte com escritura de propriedade.

Em Portugal, mais de 45% da população sofreu psicopatologias, actualmente estão diagnosticados e medicados, aproximadamente 25% dos portugueses, um dos rácios mais altos do continente (incluindo países frios onde a população, bastante mais individualista, obtém uma taxa de suicídios extremamente elevada, sabendo que os últimos trabalhos apontam também a que não ter amigos se pode considerar tão nocivo quanto fumar. Tese esta, última, à qual me atrevo a acrescentar um factor também ecológico, o paisagístico), nada inexplicável depois de 48 anos de repressão e obscurantismo, onde a impossibilidade de eleger era imposta abruptamente, uma forma prematura do esquema de condicionamento que hoje se continua a aplicar, com alcance mais global, e que, prova o trabalho de escolas como Tavistock.

A modo de conclusão, sem ter andado por Zeus e seu pai, nem querendo que este se revele referência sequer para seu filho: Fundamental será manter acesos os alarmes anti-demagogia, evitar ver a realidade através dos quadradinhos nos quais diariamente nos tentam enclausurar o pensamento; ver com olhos de ler, para que não se imponha uma espécie de neo-linguagem transmissora de um guião escrito na vida de outros, que podia ser a nossa, internacional. Nessa luta, a dificuldade é inversamente proporcional à dimensão da “cultura integral do indivíduo”.

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* Mitchourine:

"Era uma vez...

Todas as histórias fantásticas começam assim. Mas esta que vou contar, inspirada num livro famoso de Iline, nada tem de fantasia.
Há 45 anos, numa cidadezinda de mal conhecido e longínquo país, vivia um homem que se chamava Mitchourine. Era modesto empregado da estação, incumbia-se de vigiar o relógio da gare: dar-lhe corda e acertá-lo.
Triste destino este de ver passar o tempo e os comboios numa gare sombria, aberta tanto ao vento como aos passageiros, desconfortante como todas as gares.
Ele, que fora criado no campo e se debruçara, encantado, sobre o mistério da vida das plantas; que passara dias e dias a ver florir um simples botão de macieira brava; envelhecia agora a vigiar o ponteiro das horas, sempre iguais.
No inverno, quando a neve esbatia contornos e arrasava de brancura a planície, Mitchourine encostava-se aos pilares álgidos da gare e ficava tempo esquecido a olhar um ponto distante, para além do horizonte baço, indefinível... Via talvez, em pensamento, as árvores que tanto admirava, vergadas ao peso da neve, hirtas de frio e rijas como cadáveres. E sofria por elas.
Depois, à noite, aconchegada mais a gola do casaco de trinta invernos, ia meter-se em casa, a sós com os seus livros, arranjados não se sabia como nem onde. Lia, fumava no seu cachimbo e esperava.
Até que um dia, o comboio que chegava sempre para os outros, chegou também para ele. Vendeu a casinha que fora de seus pais, juntou as poucas economias e abalou para os arredores da cidade, onde adquiriu, em pleno campo, um pequeno talhão com árvores de fruto, entre as quais passou a viver, em mísera cabana.
Realizara, enfim, o seu sonho. Era perseverante e forte de vontade como os sábios, este Mitchourine. E porque era, decidiu fazer uma coisa audaciosa: substituir as árvores quase selvagens do seu país por outras que dessem frutos belos e saborosos como as fruteiras do Ocidente.
Estas, não resistiam às temperaturas negativas do Inverno? A ciência daquele tempo não desvendara ainda os mistérios da hereditariedade? Pouco importava isso a quem confiava na inteligência e no trabalho. Mitchourine recolheu o pólen das flores da pereira beurré-royal e fecundou as flores da pereira autóctone, selvagem. Cinco pêras irmãs nasceram deste cruzamento - cinco frutos da tenacidade do ex-vigilante de relógios, o qual passou a vigiar dia a dia, ano a ano, com cuidados paternais, a fixação dos caracteres das novas fruteiras, que tomaram o seu nome.
Depois, foi mais longe na sua audácia: cruzou a maçã brava com a cereja, a sorva, a groselha - e obteve frutos bizarros, com sementes bicornes, irregulares. E nos viveiristas da cidade começaram a aparecer plantas estranhas, que não temiam os frios rigorosos, e davam frutos de polpa e de cores vivas, como que beijadas pelo sol dos trópicos.
Um ano houve em que todas as cerejeiras do Canadá morreram de frio. Todas, menos a "Mitchourine", que resistia a 40º negativos.
Como se adivinha, já então as plantas do extraordinário fruticultor corriam mundo. Ele, porém, continuava a morar na sua barraca tosca, entre viveiros.
Há sábios assim: homens que servem a humanidade e de quem a humanidade não fala...
Não obstante, Mitchourine não foi esquecido. Vinte anos mais tarde, abriu com mãos trémulas de velho um telegrama que dizia: "As experiências de culturas novas têm enorme significado. Enviai-me um relatório dos vossos trabalhos." E, no lugar da assinatura, estava escrito o nome do primeiro chefe do país.
Desde aí, Mitchourine trabalha num viveiro com muitos hectáres de tamanho, e dirige um Instituto de ciência experimental, que tem o seu nome. Na gare sombria da estação em que ele fora modesto vigilante de relógio começaram a descer centenas de estudantes, ciosos do saber e experiência do mestre...

Esta história verídica tem um conceito, como todas as histórias: só será progressivo o país que saiba encontrar os seus Mitchourine entre os filhos do campo.

Soeiro Pereira Gomes - Alhandra, Janeiro de 1943."

quarta-feira, agosto 04, 2010

-Não consigo arranjar o espelho... Antes, mesmo com algumas lâmpadas fundidas, ainda se vislumbrava; lobrigava.