domingo, janeiro 08, 2017
12º Aniversário
Este ano foi curto, muito curto, o objectivo é imenso, maior que uma onda da Nazaré, quase do tamanho da vida. Porém, a paternidade é o acicate primário do empenho colocado na progressão constante mas da permanente preocupação na recolha de elementos úteis que o caminho nos ofereça, aceitando que a utilidade é sempre subjectiva, como o tempo.
sábado, janeiro 07, 2017
O mais representativo
É de facto mais uma referencia da minha realidade que desaparece, não apenas no aspecto político, mas, essencialmente. Não querendo constituir-me arauto da defesa de decisões de outros, devo porém assumir que o cenário governativo actual no meu país revela uma elasticidade democrática da população sufragista que coloca o raciocinio colectivo dos meus conterráneos na vanguarda da realidade da sua área de influencia.
Quando criança, frente ao externato em que estudava existía um restaurante no primeiro andar no qual o meu pai almoçava com certa frequencia, tinha janelas para a Prior do Crato (Colégio) e outra varanda virada para o jardím onde brincavamos os putos da "Praça da Armada", do qual também usufruiam a casa em que nasci e o quartel da Armada onde finalmente assentei praça. Em referido restaurante, almoçava também um personagem que nos chamava a atenção pelo Citrôen "Boca de Sapo" negro que então nos parecía extraordinário, era o Mário Soares, que então assumia responsabilidades no Palácio das Necessidades, em cuja igreja foi baptizado o meu filho, anos depois da minha breve passagem pelos Escuteiros que ali se sediavam. Anos mais tarde, mesmo depois de assistir ao afastamento do meu pai da actividade política militante, pude entender o que aquilo era e soube então das suas reuniões em diferentes locais de Lisboa, de modo reiterativo no "Retiro do Quebra-Bilhas", socialistas todos, partilhando a vontade de um Portugal de outra dimensão.
Assim, não tendo o meu Pai aludido a qualquer proximidade com o falecido Soares mais que a supra relatada, que não obstante comungavam na inquietação e solução sociais e políticas, poderia afirmar que faleceu o publicamente mais representativo constructor da actual democracia portuguesa. Ainda não tenho a certeza se é realmente "preferível um a mau acordo a nenhum acordo", sei que o nosso país não está tão mal quanto há quarenta e três (43) anos.
quinta-feira, abril 28, 2016
domingo, maio 17, 2015
Na Lisboa de onde venho.
Sem que as imagens sugeridas na música abaixo reproduzam
qualquer experiência pessoal, antes a percepção de comportamentos interpretada de maneira similar, aquelas que colhí esta manhã no jardim onde
crescí reiteram motivações dispersas pela necessidade ou equívoco.
Lamentável é a água do tanque estar tão suja.
--
domingo, janeiro 11, 2015
10º Aniversário
Foi há dez (10) anos, quando por tentar expor, defender-me, a e, da mentira na qual nos obrigam a esgotar a vida e a vontade que, algo mais maçarico que hoje, decidi utilizar este meio.
Intensíssimos anos, muito mesmo, e continuarão, tal como a mentira, cada vez maior, mais contagiante.
Um abraço a quem por cá passou e, claro, a quem por aí vier por bem.
Intensíssimos anos, muito mesmo, e continuarão, tal como a mentira, cada vez maior, mais contagiante.
Um abraço a quem por cá passou e, claro, a quem por aí vier por bem.
domingo, dezembro 14, 2014
2014
A modo de retrospectiva dos trezentos (300) últimos dias, a decisão que tomei há aproximadamente dois (2) anos, que entendia vital prescindir de tantos cuidados com a exposição do pensamento quantos aqueles motivados pelo medo infindo que oxalá controlara-mos da mesma forma que nos acreditamos conscientes de tudo o que sentimos, mas, que me tolhiam, oprimiam ou escravizaram mesmo em sonhos, resultou mais ajustada às expectativas que a margem de erro previamente assumida. Aquilo a que muitos chamam “Destino”, depois desta “travessia no deserto”; este “trabalho de campo”, começa a aparecer cada vez mais distante no horizonte, quase como um direito exclusivo de quem reclama o direito à vida.
Por agora, lamentavelmente já sem o meu Pai no debate sobre
conclusões preliminares, depois de destruída a confiança no discurso e na ação
do meu anterior partido, tendo podido conhecer (sem muita dificuldade) a ética
das relações partidárias com os executivos eleitos nos diferentes patamares da
governação do nosso país e a de todos estes com o capital, a ideia de começar a
olhar para o pseudorradicalíssimo burguês demagogo multifacetado mas
concretamente aquele de fachada marxista/leninista, tipo PCP, como se de uma
manipuladora balaustrada do inconformismo português se tratara, é intransponível.
Por outra parte, além da vida política, assinalada
anteriormente por ter sido dos motivos centrais no que ao regresso a Portugal
concernia, justificação, também, foi o meu Pai. Curiosamente, é agora, sem
telefones nem combustível que valham, que encontro na sua trajetória elementos
que, somente, reforçam o seu Socialismo desde a génese do seu partido até ao seu
próprio repouso. Nunca esboçou mais que uma expressão de alegria e outra de
quem nos diz que também no pensamento, apenas se parte da realidade, encontramos
respostas através de relações sinápticas apenas funcionais depois de certo
amadurecimento do indivíduo, algo não obrigatoriamente relacionado com a
quantidade de experiencias (positivas/negativas). Sendo que, o conceito
“realidade”, mais que aquele convindo socialmente, traduz desde o comportamento
singular de um autista ao de qualquer cientista, outra coisa seria a
hiper-realidade dentro da qual nos tentam manipular.
Apolítico não, essa seria uma conversa estéril, tão estéril
quanto uma mente despolitizada. Claramente, trata-se agora de procurar
coerência, não com sonhos de outros, mas, com as necessidades do indivíduo que
almeja um equilíbrio que jamais conseguirá esperando um Deus; a capacidade de
voar ou, uma revolução de presos de dogmas falhados, ultrapassados, sustento do
imobilismo mais cobarde no qual já nem os próprios acreditam.
Concluindo, escrever, compor, executar, ainda não. Ainda não
descansei de amar.
domingo, agosto 17, 2014
Bitcoin
Por não ser fiduciária é apenas uma unidade contabilística para os alemães, sem obrigações legais por parte dos usuários nos estados unidos da américa segundo o departamento do tesouro em comunicado do "financial crimes enforcement network", praticamente incólume com relação á inflação, usada para pagar salários ou adquirir um automóvel aqui mesmo em Portugal, a BITCOIN é um activo virtual que se gera sem a intervenção de qualquer autoridade e que, curiosamente, também se pode obter, além do processo manual, com uma "maquinita" que se compra por aprox. €300 (também com bitcoins) no escaparate da rede.
Assim, atendendo á inicial segmentação da população em "user" e "non user", que a harmonização dependerá do crescimento económico mundial para adernar ou não no sentido da substituição natural da ferramenta (e essencialmente dos mecanismos de acesso à mesma) de relação com a sociedade da qual hoje somos apenas subordinados, colocam-se algumas questões: Alicerçará o conflito entre a economia real e este cada vez mais tangível paradigma algum tipo de violência; estaremos ante um solução que possa contribuir, até mesmo protagonizar, o desaparecimento do Estado?
Assim, atendendo á inicial segmentação da população em "user" e "non user", que a harmonização dependerá do crescimento económico mundial para adernar ou não no sentido da substituição natural da ferramenta (e essencialmente dos mecanismos de acesso à mesma) de relação com a sociedade da qual hoje somos apenas subordinados, colocam-se algumas questões: Alicerçará o conflito entre a economia real e este cada vez mais tangível paradigma algum tipo de violência; estaremos ante um solução que possa contribuir, até mesmo protagonizar, o desaparecimento do Estado?
terça-feira, maio 27, 2014
Apontamento
Por decisão própria, há dois anos, prescindi priorizar o
sustento económico que me tinha até então proporcionado certa comodidade.
Então, por base dessa aventura tomei o desafio de encontrar uma forma de me
relacionar com a sociedade que usasse como ferramentas outros aspectos da
relação humana que não apenas o económico.
Provocado o colapso de toda uma estrutura construída com
assento no trabalho, na reflexão, na ponderação, mas que, se caracterizava por
atribuir ao “super-eu” freudiano o papel de juiz da minha forma de existir,
deparei com inusitadas realidades que, agora em condições de o afirmar, não
apenas usufruem do condicionamento social próprio do actual modo de interação
humana senão que, ajudam a forjar nas brasas essencialmente do maniqueísmo o
gradeamento que efectivamente nos limita o caminhar.
Nesse sentido, utilizando subterfúgios mais ou menos
ardilosos e outras vezes nem isso, nem sequer o silêncio, enquanto atitude, se
pode considerar alheio à evolução do pensamento ou à manutenção desta fogueira
de aparentes vontades, defendidas sempre pelos seus preconizadores.
Chegado aqui, devo negar-me fora da sociedade. Porém, depois
de atravessar momentos que nunca tinha tido a oportunidade de entender, ainda
que já conhecidos com base na partilha de episódios e/ou vidas de diferentes
pessoas e na literatura que procurei e me chegou, devo aceitar que não existe
ou existiu feito que mereça ou tenha merecido a vida de ninguém. Esta afirmação
não se legitima internamente por assunção de qualquer incapacidade, mas, trata
de evitar que a permeabilidade da mente justifique uma atribuição causal
exógena como a predisposição do indivíduo para competir.
Longo, ainda que relativamente nem por isso, o caminhar da
espécie tem sido protagonizado por massas condicionadas que, sem capacidade
para decidir sobre os frutos da síntese do seu acervo de experiências,
conclusões e melhores practicas, se permite assumir usurpada pelo poder
cristalizado através de modelos que, qual auto-flagelados, obrigam ao
hermetismo, ou, de outra maneira, à variação contida, à diversidade capada,
enfim, à sociedade amedrontada, insegura, pueril, manipulável.
Vou então continuar, espero não ter que aguardar tanto tempo
pela necessidade de escrever, ainda assim, depois de mais de nove anos,
continua sendo este o espaço onde vejo a forma das minhas dúvidas.
quinta-feira, novembro 28, 2013
Morrendo
Morrer, ainda
não sei
sabê-lo não
será algo apelatívo
só por ser
morte, mas é!
O que é?
O que é?
A memória
que ratifica a vida
é morrer, é
viver
é herança
de mortos
vivos
poderia ser
a vida dos historiadores
a morte dos
ignorantes
é o Homem?
sem escolha
escravo das vontadesimortal...
Mas, e morrer?
Mitchourine
quinta-feira, novembro 07, 2013
Nazaré só com limão
Diz a certa altura da reportagem, uma jovem, que pelo discurso podia ser, porque não marciana, comunista, que "antes do McNamara já cá havia gente". Curta a memória de quem esquece o dispêndio económico abrumador que a "Nazaré Qualifica" realizou para dar a conhecer.... o dito. Enquanto isto acontece, apagam-se as luzes à noite, "aperta-se a azeitona".
Ainda bem que, ainda, por estar no desemprego não se perde o direito ao voto, como no Reino do elefantes.
Ainda bem que, ainda, por estar no desemprego não se perde o direito ao voto, como no Reino do elefantes.
sábado, fevereiro 23, 2013
Trai
Por entre
um abandono ao amor, por emocionar-me com o usufructo da vontade, condicionada,
como sempre e por sempre, encontro que uma proposta com os contornos daquela
que o próprio Lenine colocou como solução a uma determinada questão com todas
as suas peculiaridades e assim também condicionada, não resulta hoje viável –
opinião contra a qual não argumento. Inviável é hoje, também, o escamotear da
opinião seja de quem fôr se esta se balizar dentro de determinada ideologia,
coerênte, plausível, mas, de escassa acepção, mesmo que incorporando o sentido
de traduções como por exemplo “O Rei Lear”, de Alvaro Cunhal, acessíveis à
cognição mais oprimida.
Na prática, fechar as portas que Abril abriu
ou prescindir de ser livre na liberdade resulta não mais que uma mentira, feia,
vilipendiadora, revoltante.
Mino
terça-feira, janeiro 08, 2013
Ao Rui
Um abraço camarada à familia.
Mário Pinto
"
Antes do dia 25 de Abril de 1974, os jovens eram obrigados a ir para a guerra onde muitos morriam ou ficavam estropiados para toda a vida, sem olhos, sem braços e sem pernas.
Rui Paz, que os nossos leitores conhecem pelo seu trabalho enquanto membro do Conselho das Comunidades Portuguesas, é músico, compositor e professor de harpa. É também um nome ligado a um movimento de protesto contra a guerra colonial que se manifestou através da ocupação de uma igreja em Lisboa.
Neste mês em que se comemora mais um aniversário do 25 de Abril, o PP entrevista Rui Paz por ter participado num dos meus simbólicos movimentos de protesto contra a guerra colonial e e ser autor, conjuntamente com a poetisa Sophia de Mello Breyner , de uma canção contra a guerra que ficará ligada à libertação de Portugal do regime ditatorial que vigorou até ao 25 de Abril de 1974.
PP: Quer partilhar com os leitores o seu percurso como músico, compositor e professor de um instrumento original como é a harpa?
Rui Paz: Desde muito cedo, tinha cinco anos, comecei a aprender música, a tocar a piano e a cantar em coros. Aos 12 anos já sabia que queria estudar música no Conservatório em Lisboa. Como era necessário tocar dois instrumentos comecei também a aprender harpa. Finalmente acabei por concluir o curso do Conservatório Nacional com 20 anos. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian aperfeiçoei-me em harpa no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris e estudei musicologia na Universidade de Vincennes, tendo posteriormente actuado na Orquestra da Fundação Gulbenkian e leccionado no Conservatório Nacional em Lisboa
PP: E como é que veio para Alemanha e ser hoje um professor deste instrumento neste país ?
R.P.: Vim para a Alemanha no início dos anos oitenta concluir o mestrado em Ciências Musicais na Universidade de Colónia e frequentar o curso de composição algorítmica (informática) no Conservatório Robert Schumann em Düsseldorf.
PP: Em que escola ensina e quem são os são alunos?
R.P.: Logo que cheguei fui imediatamente convidado para leccionar harpa na Folkwang Musikschule em Essen e dirigir o teatro acústico, um projecto interdisciplinar que envolvia instalações musicais, música electrónica e música ao vivo. Os meus alunos são jovens músicos que actuam não só na Alemanha mas também no estrangeiro, na Finlândia, Rússia, Polónia, Itália, Hong-Kong ou Singapura. Neste momento a classe de harpa da Folkwang Musikschule é a maior e a mais premiada da Alemanha.
PP: Fale-nos um pouco do instrumento. Que capacidades se deve ter para tocar esse instrumento?
R.P.: A primeira dificuldade é que se trata de um instrumento caro. Uma harpa de concerto custa hoje a partir de 15 mil euros. A técnica e o sistema da escala nas cordas são muito semelhantes às do piano. Podemos dizer que nas 47 cordas encontram-se as teclas brancas do piano e que as teclas pretas são feitas através de um sistema de 7 pedais, cada um com três posições (sons diatónicos, sustenidos e bemóis). De resto é apenas necessário ter-se alguma musicalidade e capacidade motora nas mãos, nos dedos e nos pés. Eu costumo dizer aos meus alunos que os harpistas a exemplo dos futebolistas também tocam (jogam) com os pés.
PP: Em Portugal, o seu nome está ligado a um movimento de vigília numa igreja em Lisboa contra a guerra que o antigo regime mantinha nas antigas colónias. Quer contar-nos como foi?
R.P.: Eu era um dos poucos alunos do Conservatório que na altura me interessava pela situação politica, pois frequentava simultaneamente a Faculdade de Direito de Lisboa. Nalguns concertos ou acções de protesto sobretudo contra a guerra colonial as pessoas vinham ter comigo para eu ajudar na parte musical.
Na preparação de uma vigília de protesto contra a guerra colonial na passagem do ano de 1968/69, um grupo de cristãos progressistas pediu-me para compor cânticos que as pessoas pudessem cantar imediatamente sem ensaios pois a vigília estava a ser preparada clandestinamente para evitar a repressão policial. Fizeram-se várias reuniões clandestinas em casa do arquitecto Nuno Teotónio Pereira e na noite de 31 de Dezembro os participantes na vigília começaram a chegar ao café Nicola no Rossio e a ocupar as mesas que iam ficando livres. A certa altura tinham ocupado já todo o café e antes da meia-noite começámos a sair em pequenos grupos para não dar nas vistas. Depois de atravessarmos o Rossio, entrámos na igreja de S. Domingos onde o cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Cerejeira, que era amigo pessoal do ditador Salazar então já falecido e fervoroso adepto do fascismo e da guerra colonial estava a acabar de celebrar uma missa com meia dúzia de velhinhas. O mais intrigante para o cardeal era o facto de que quanto mais a missa se aproximava do fim mais a igreja se enchia de gente inclusive jovens.
PP: Também está ligado a uma composição musical com texto de Sofia de Mello Breyner que na altura se cantava como manifestação contra a guerra.
R.P.: Um dos cânticos entoados na vigília de S. Domingos foi a “Cantata da Paz”. A letra foi escrita pela poetiza Sophia de Mello Breyner que era minha vizinha no bairro da Graça em Lisboa. Durante várias semanas trabalhámos juntos. A Sophia recitava os versos que lhe iam surgido em voz alta e eu tentava descobrir os ritmos e as melodias mais adequadas de modo a que os participantes ouvindo-as uma vez pudessem cantar logo lendo só o texto. A “Cantata da Paz” acabou por se tornar numa espécie de hino de protesto dos cristãos que estavam contra o regime e a guerra colonial e apesar de proibida na rádio, passou a ser regularmente cantada nas celebrações da capela do Rato e posteriormente gravada pelo padre Fanhais que também a tinha cantado na Vigília de S. Domingos.
PP: O Rui Paz ficou ligado ao movimento de resistência contra o regime que foi derrubado a 25 de Abril de 1974. Hoje, para quem tem 30 ou menos anos não faz ideia de como era esse regime. Quer contar muito resumidamente como se processava essa resistência?
R.P.: Toda a actividade política tinha de ser organizada clandestinamente. Basta dizer que os partidos políticos estavam proibidos. A policia política, a PIDE-DGS tratava de organizar ficheiros, prender, torturar ou assassinar as pessoas que se opunham ao fascismo e à guerra colonial. Greves e protestos dos trabalhadores eram proibidos e violentamente reprimidos. A emigração era feita na maior parte dos casos “a salto”, isto é, atravessando a fronteira de Espanha clandestinamente por serras e montes para não se ser apanhado pela polícia. Os jovens eram obrigados a ir para a guerra em Angola, Moçambique e Guiné onde muitos morriam ou ficavam estropiados para toda a vida, sem olhos, sem braços e sem pernas. As prisões estavam cheias de presos políticos. Quando surgiu a Revolução do 25 de Abril, só os 26 membros do Comité Central do Partido Comunista Português em exercício na clandestinidade tinham passado no total 250 anos nas prisões do fascismo. É importante que a juventude conheça a nossa história para que Portugal não volte a passar por tanto sofrimento e para que a democracia instaurada com o 25 de Abril possa ser aprofundada no sentido de uma sociedade mais justa e mais fraterna ao serviço de todo o povo português e não de meia dúzia de banqueiros como acontecia no tempo do fascismo.
PP: O facto de estar empenhado aqui na Alemanha nas questões da comunidade lusa quer dizer que a sua luta iniciada antes do 25 de Abril de 1974 não está concluída?
R.P.: É evidente que a Revolução do 25 de Abril tem um valor universal ao ter instaurado as liberdades políticas, ao concretizar uma série de conquistas económicas, sociais e culturais e ao acabar com a guerra colonial em África, aspirações do povo português mas que hoje são comuns a todos os povos do mundo. Hoje, vivemos cada vez mais uma situação em que os valores e as conquistas democráticas, da justiça social e da paz se encontram em perigo. O mundo é cada vez mais governado pelo poder do dinheiro e não pelas legitimas aspirações dos povos. Enquanto portugueses com uma experiência tão rica de luta pela liberdade temos o dever de transmitir aos mais jovens os sentimentos democráticos e patrióticos que tornaram possível a Revolução de Abril de 1974. Mostrar-lhes que vale sempre a pena lutar por um ideal que seja justo e libertador.
Mário Pinto
"
Rui Paz, compositor e professor de música
Antes do dia 25 de Abril de 1974, os jovens eram obrigados a ir para a guerra onde muitos morriam ou ficavam estropiados para toda a vida, sem olhos, sem braços e sem pernas.
Rui Paz, que os nossos leitores conhecem pelo seu trabalho enquanto membro do Conselho das Comunidades Portuguesas, é músico, compositor e professor de harpa. É também um nome ligado a um movimento de protesto contra a guerra colonial que se manifestou através da ocupação de uma igreja em Lisboa.
Neste mês em que se comemora mais um aniversário do 25 de Abril, o PP entrevista Rui Paz por ter participado num dos meus simbólicos movimentos de protesto contra a guerra colonial e e ser autor, conjuntamente com a poetisa Sophia de Mello Breyner , de uma canção contra a guerra que ficará ligada à libertação de Portugal do regime ditatorial que vigorou até ao 25 de Abril de 1974.
PP: Quer partilhar com os leitores o seu percurso como músico, compositor e professor de um instrumento original como é a harpa?
Rui Paz: Desde muito cedo, tinha cinco anos, comecei a aprender música, a tocar a piano e a cantar em coros. Aos 12 anos já sabia que queria estudar música no Conservatório em Lisboa. Como era necessário tocar dois instrumentos comecei também a aprender harpa. Finalmente acabei por concluir o curso do Conservatório Nacional com 20 anos. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian aperfeiçoei-me em harpa no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris e estudei musicologia na Universidade de Vincennes, tendo posteriormente actuado na Orquestra da Fundação Gulbenkian e leccionado no Conservatório Nacional em Lisboa
PP: E como é que veio para Alemanha e ser hoje um professor deste instrumento neste país ?
R.P.: Vim para a Alemanha no início dos anos oitenta concluir o mestrado em Ciências Musicais na Universidade de Colónia e frequentar o curso de composição algorítmica (informática) no Conservatório Robert Schumann em Düsseldorf.
PP: Em que escola ensina e quem são os são alunos?
R.P.: Logo que cheguei fui imediatamente convidado para leccionar harpa na Folkwang Musikschule em Essen e dirigir o teatro acústico, um projecto interdisciplinar que envolvia instalações musicais, música electrónica e música ao vivo. Os meus alunos são jovens músicos que actuam não só na Alemanha mas também no estrangeiro, na Finlândia, Rússia, Polónia, Itália, Hong-Kong ou Singapura. Neste momento a classe de harpa da Folkwang Musikschule é a maior e a mais premiada da Alemanha.
PP: Fale-nos um pouco do instrumento. Que capacidades se deve ter para tocar esse instrumento?
R.P.: A primeira dificuldade é que se trata de um instrumento caro. Uma harpa de concerto custa hoje a partir de 15 mil euros. A técnica e o sistema da escala nas cordas são muito semelhantes às do piano. Podemos dizer que nas 47 cordas encontram-se as teclas brancas do piano e que as teclas pretas são feitas através de um sistema de 7 pedais, cada um com três posições (sons diatónicos, sustenidos e bemóis). De resto é apenas necessário ter-se alguma musicalidade e capacidade motora nas mãos, nos dedos e nos pés. Eu costumo dizer aos meus alunos que os harpistas a exemplo dos futebolistas também tocam (jogam) com os pés.
PP: Em Portugal, o seu nome está ligado a um movimento de vigília numa igreja em Lisboa contra a guerra que o antigo regime mantinha nas antigas colónias. Quer contar-nos como foi?
R.P.: Eu era um dos poucos alunos do Conservatório que na altura me interessava pela situação politica, pois frequentava simultaneamente a Faculdade de Direito de Lisboa. Nalguns concertos ou acções de protesto sobretudo contra a guerra colonial as pessoas vinham ter comigo para eu ajudar na parte musical.
Na preparação de uma vigília de protesto contra a guerra colonial na passagem do ano de 1968/69, um grupo de cristãos progressistas pediu-me para compor cânticos que as pessoas pudessem cantar imediatamente sem ensaios pois a vigília estava a ser preparada clandestinamente para evitar a repressão policial. Fizeram-se várias reuniões clandestinas em casa do arquitecto Nuno Teotónio Pereira e na noite de 31 de Dezembro os participantes na vigília começaram a chegar ao café Nicola no Rossio e a ocupar as mesas que iam ficando livres. A certa altura tinham ocupado já todo o café e antes da meia-noite começámos a sair em pequenos grupos para não dar nas vistas. Depois de atravessarmos o Rossio, entrámos na igreja de S. Domingos onde o cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Cerejeira, que era amigo pessoal do ditador Salazar então já falecido e fervoroso adepto do fascismo e da guerra colonial estava a acabar de celebrar uma missa com meia dúzia de velhinhas. O mais intrigante para o cardeal era o facto de que quanto mais a missa se aproximava do fim mais a igreja se enchia de gente inclusive jovens.
PP: Também está ligado a uma composição musical com texto de Sofia de Mello Breyner que na altura se cantava como manifestação contra a guerra.
R.P.: Um dos cânticos entoados na vigília de S. Domingos foi a “Cantata da Paz”. A letra foi escrita pela poetiza Sophia de Mello Breyner que era minha vizinha no bairro da Graça em Lisboa. Durante várias semanas trabalhámos juntos. A Sophia recitava os versos que lhe iam surgido em voz alta e eu tentava descobrir os ritmos e as melodias mais adequadas de modo a que os participantes ouvindo-as uma vez pudessem cantar logo lendo só o texto. A “Cantata da Paz” acabou por se tornar numa espécie de hino de protesto dos cristãos que estavam contra o regime e a guerra colonial e apesar de proibida na rádio, passou a ser regularmente cantada nas celebrações da capela do Rato e posteriormente gravada pelo padre Fanhais que também a tinha cantado na Vigília de S. Domingos.
PP: O Rui Paz ficou ligado ao movimento de resistência contra o regime que foi derrubado a 25 de Abril de 1974. Hoje, para quem tem 30 ou menos anos não faz ideia de como era esse regime. Quer contar muito resumidamente como se processava essa resistência?
R.P.: Toda a actividade política tinha de ser organizada clandestinamente. Basta dizer que os partidos políticos estavam proibidos. A policia política, a PIDE-DGS tratava de organizar ficheiros, prender, torturar ou assassinar as pessoas que se opunham ao fascismo e à guerra colonial. Greves e protestos dos trabalhadores eram proibidos e violentamente reprimidos. A emigração era feita na maior parte dos casos “a salto”, isto é, atravessando a fronteira de Espanha clandestinamente por serras e montes para não se ser apanhado pela polícia. Os jovens eram obrigados a ir para a guerra em Angola, Moçambique e Guiné onde muitos morriam ou ficavam estropiados para toda a vida, sem olhos, sem braços e sem pernas. As prisões estavam cheias de presos políticos. Quando surgiu a Revolução do 25 de Abril, só os 26 membros do Comité Central do Partido Comunista Português em exercício na clandestinidade tinham passado no total 250 anos nas prisões do fascismo. É importante que a juventude conheça a nossa história para que Portugal não volte a passar por tanto sofrimento e para que a democracia instaurada com o 25 de Abril possa ser aprofundada no sentido de uma sociedade mais justa e mais fraterna ao serviço de todo o povo português e não de meia dúzia de banqueiros como acontecia no tempo do fascismo.
PP: O facto de estar empenhado aqui na Alemanha nas questões da comunidade lusa quer dizer que a sua luta iniciada antes do 25 de Abril de 1974 não está concluída?
R.P.: É evidente que a Revolução do 25 de Abril tem um valor universal ao ter instaurado as liberdades políticas, ao concretizar uma série de conquistas económicas, sociais e culturais e ao acabar com a guerra colonial em África, aspirações do povo português mas que hoje são comuns a todos os povos do mundo. Hoje, vivemos cada vez mais uma situação em que os valores e as conquistas democráticas, da justiça social e da paz se encontram em perigo. O mundo é cada vez mais governado pelo poder do dinheiro e não pelas legitimas aspirações dos povos. Enquanto portugueses com uma experiência tão rica de luta pela liberdade temos o dever de transmitir aos mais jovens os sentimentos democráticos e patrióticos que tornaram possível a Revolução de Abril de 1974. Mostrar-lhes que vale sempre a pena lutar por um ideal que seja justo e libertador.
domingo, dezembro 23, 2012
sábado, dezembro 08, 2012
segunda-feira, novembro 26, 2012
sexta-feira, novembro 23, 2012
Os Mafiosos de Madrid
Não é difícil, na música, divagar de tal forma que nos assalte a figura dos neo-kamikaze (terroristas de Estado). De aqui para frente os esbirros, esta é uma espécie que serve de moeda para pagar à opinião pública os erros da administração/governo da comunidade de Madrid, no seu nepotismo mais amarelo, torrado, derivando com demasiada reiteração na morte de diferentes vizinhos desta terra.
Os esbirros, depois de corridos das suas actuais funções devído à dissnonância que sofre a justiça, são mais tarde, ou mais cedo, mais cedo que tarde, colocados noutros lugares que, não limpando a baba hedonista, lhes assegura afirmar a mediocridade como ciência.
Que poderosa máfia aquela de algumas funerárias.
quinta-feira, novembro 22, 2012
terça-feira, novembro 06, 2012
Com vistas ao mar
As áreas do
cérebro que se activam quando interagimos são as mesmas que brilham quando
realizamos qualquer actividade prazenteira. Porquê?
Dependendo
das janelas temporais anteriormente aproveitadas, o Homem distancia-se do
macaco, com quem nos afirmam tão próximos, enquanto continua o crescimento da
sua massa cerebral ficando-se o amigo pelas quatrocentas gramas, em média,
cinquenta mais que o peso que ambas espécies trazem à nascença.
A construção
da mente, a semântica cognitiva individual, são tão dispares quanto humanos
somos, ainda que, não sendo a alteração de factores senão os processos em cada
etapa do fluxo do pensamento que merecem ser olhados com vontade, sem amparar
mas antes: despertando.
(digo
eu...)
sábado, outubro 20, 2012
Claro..
"5. O regime de liberdade que o PCP preconiza implica não apenas o respeito e garantia pelo Estado e outras entidades de exercício da liberdade política de cada cidadão, mas também a garantia dos direitos e liberdades de participação política e social, dos direitos económicos, sociais e culturais dos trabalhadores e suas organizações e de outras estructuras e camadas sociais.
A plena afirmação e integral respeito pelas liberdades e direitos fundamentais não é separável da realização dos restantes aspectos da democracia política e da progressiva concretização da democracia económica, social e cultural."
(Projecto de alterações ao programa do PCP)
A plena afirmação e integral respeito pelas liberdades e direitos fundamentais não é separável da realização dos restantes aspectos da democracia política e da progressiva concretização da democracia económica, social e cultural."
(Projecto de alterações ao programa do PCP)
terça-feira, setembro 25, 2012
lá fora
O tempo é
lento para nós
Crescemos
arrastando o corpo desfalecente
Todas as
noites, toda a noite
Até ao
pequeno-almoço
Rápido
demais, o tempo lá fora
Para os
chacais
Abutres
Mitchourine
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