Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Sábado, Novembro 14, 2009

Semi-Deus?


Flutuando a custo, depois do naufrágio da embarcação na qual trabalhava, o católico maquinista desesperado mas convicto, responde aos marinheiros de um cargueiro que se aproximou para o resgatar: -Agradeço a amabilidade mas não será necessário que me salveis, Deus o fará!

Algumas horas depois, entumecido pelo frio que provoca a asfixia de permanecer submergido durante largos períodos, aproxima-se um veleiro, o qual, lançando-lhe - antes mesmo de se poder aproximar a uma distancia que permitisse o diálogo - uma bóia de salvamento, manobra para recolher o aflito pelo costado de barlavento. Desperto pela agitação que o impacto da cortiça provocara, num giro do olhar, depara-se com uma mão a ponto de o agarrar, exclama este: -Não, não, Deus me salvará. Não!

Havendo demonstrado uma fé cega naquele que escolheu como senhor do seu destino, eis que o ruído de um fora-de-borda reanima um ser já quase sem vida, entregue aos desígnios do seu medo, aquele que o impediu aceitar que, uma vez mais, os pescadores de um arrastão de largo o recolhessem para a lancha de apoio, o que significaria provavelmente romper com a sua incutida crença espiritual.

Acabando por falecer no meio do vasto Oceano, que neste caso nem sequer revelou a sua imensidão se atendermos ao número de oportunidades que este usufruiu por estar numa rota muito navegada, num posterior e surrealista encontro com o seu Deus, ao dar-se conta que havia abandonado o mundo dos vivos (quase todos), interpela o "Criador" com a seguinte questão: -Então Senhor, com a fé que em si depositei, achou por bem deixar-me morrer, não me atendeu quando era necessário, pequei tanto como para merecer este fim?
Num timbre atronador e reductor quanto baste da capacidade de se questionar daquele indivíduo, responde dita divindade: -Três oportunidades, achas pouco?

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Pórtico

(Diego Rivera)

Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
— ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo duma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.
(Um ócio grande. Morre tudo
dum morrer suave e brando...

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm ...

João José Cochofel

Domingo, Novembro 08, 2009

Outubro

Rebanho??

Sobre a questão dos chip que o governo pretende obrigar os Portugueses a instalar nos seus automóveis.
Depois das diversas considerações publicitadas pelos distintos partidos, é sem dúvida a do PCP aquela que mais se aproxima à realidade. Contudo, atribuir o motivo da promulgação de mais esta medida de repressão governativa ao objectivo único de cobrar portagens com mais facilidade resulta algo superficial, lembrando quase um bitoque sem ovo.
Além da efectiva possibilidade de tornar mais efectiva e menos dispendiosa, a cobrança dessa dupla tributação que deriva da passagem pelas diversas portagens que cada dia mais proliferam pela nossa paisagem, como que substituindo as oliveiras que a “querida” Europa nos obrigou a arrancar impondo assim mais uma medida no sentido da destruição da nossa agricultura, a incorporação de um artefacto desse tipo naquilo que muitos consideram uma prolongação da sua casa pode interpretar-se de muitas outras formas, sem que que por tal tropecemos em qualquer espécie de teoria conspirativa.
Como questões alarmantes, àparte da mesma lei, poderiamos encontrar mais uma violação da constituição de Abril, enquanto o Povo se estima inocente até prova contrária. Ampliando a perspectiva sobre as múltiples possibilidades de control que um chip pode proporcionar, poderiamos imaginar como seria um país com leitores electrónicos em cada esquina – quando não por satélite -, permitindo perseguir os movimentos de todos aqueles cidadãos que por qualquer motivo se mostrassem contrários à ideologia imperante, daqueles que se negam a negar a sua existencia ou que preterem situar-se dentro do redil imposto pelo imperialismo cada vez mais opressor, e, sem descurar que com essa possibilidade de control, também a efectivação da aplicação de acções repressivas estaria demagógicamente legitimada. Basta supôr que, depois de identificados como subversivos, o seguimento dos Portugueses e a sua interpelação para, através das mais diversas razões, exercer uma coacção legal que poderia até acabar na privação efectiva da liberdade, seria extremamente simples, bastando implementar um sistema de informação similar ao norte-americano.
Por outra parte, temos aspecto económico, o investimento público brutal que mais não serve, e isto segundo a versão oficial do governo, que para permitir aos consórcios que exploram as nossas estradas aumentar a capacidade de espólio dos trabalhadores, mostra como o PS, mais uma vez, assume uma política de “maria vai com as outras”, apostando pelo anti-ambientalista uso do transporte privado em lugar de aplicar estes recursos ao melhoramento da rede de transportes públicos e melhorando a qualidade de vida no nosso país. Em suma, aproveitando mais uma vez os nossos impostos para beneficiar o privado, mesmo em detrimento da população, como “business-as-usual” do nacional corporativismo.
Poderiamos, ainda assim, contrapôr a esta crítica a “magnifica” construção do “RAVE”, que, não sendo “party”, resulta divertida se observarmos com algum cuidado a globalidade do projecto, aceite parcialmente como necessário, dificilmente se justifica em determinados trajectos internos e menos quando o modelo pendular permite poupar vários milhões de euros tão necessários ao desenvolvimento real do nosso caduco, mermado e agonizante tecido productivo, à manutenção da rede sanitária ou à solvência do sistema de cobertura social.
A juntar à vergonhosa aplicação da receita fiscal em prol do privado que efectivamente conduz a política no nosso Portugal, o actual governo, mesmo fomentando o despedimento colectivo assim como destruindo qualquer direito conquistado depois de 48 anos de escravatura, obriga-nos agora a pagar também, dos míseros salários/esmola que trocamos pela vida, o negócio imposto pelos seus patrões.
Contra esta ignominia, é vital potenciar o esclarecimento através da células de trabalhadores nas empresas, incrementar a acção sindical, reafirmando que é possivel mudar, e que hoje, como desde há quase 90 anos, existe a força capaz de o fazer, a nossa força, o Partido Comunista Português.

Vitória após seis anos de duro combate

Resistir compensa!

Ao fim de seis anos de luta e resistência, os trabalhadores da CP receberam finalmente o dinheiro que lhes era devido desde 2003 – nesse ano, o Conselho de Gerência da empresa marcou faltas injustificadas aos trabalhadores que aderiram a uma greve. Esta devolução resulta do protocolo assinado, no início deste ano, entre o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, da CGTP-IN e o Conselho de Gerência da CP.
Num comunicado da célula do PCP no Sector Ferroviário de Lisboa, os comunistas retiram desta vitória algumas lições. Uma primeira, a convicção de que «vale a pena lutar». Perante o «comportamento ilegal» da empresa, os ferroviários empreenderam várias formas de luta. Entre as quais se destaca a continuação da adesão massiva às greves que desde então se realizaram, «enfrentando as ilegais sanções que desde 2003 lhes caíam em cima». Casos houve, recorda-se no documento, em que trabalhadores perderam entre três e quatro dias de remuneração por um dia de greve – pela via de «encostar» a falta «injustificada» às folgas.
Mas esta luta foi mais longe, transpondo os portões da empresa até junto do Ministério dos Transportes, do Provedor de Justiça, dos tribunais.
Uma outra «lição» prende-se com o estado da democracia em Portugal. Concluindo que esta «está doente», a célula comunista acrescenta que os «direitos constitucionais – como o direito à greve – são cada vez menos respeitados nas empresas e locais de trabalho». O facto de esta situação se ter passado numa empresa pública e de terem sido necessários seis anos de luta para que finalmente se resolvesse de forma justa é bastante revelador, considera o PCP.
Avante! - 1875

Sábado, Novembro 07, 2009

Trepanação

Doente, o médico.
Diferente, a sociedade.
Infantil, os cordeiros.
Feliz, a verdade.

Molde, uma moeda.
Criminoso, o metal.
Perversa, a solidão.
Vital, a identidade.

Mentira, a opulência.
Rebelde, a vontade.
Terapia, o abandono.
Essência, a liberdade.

Inconsciência, a cura.
Amor, o futuro.
Covardia, a luta.
25 anos, a necessaria realidade.

(Anónimo)

Pintas?

(Pipas - Cândido Portinari)

As Solicitações e Emboscadas
Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás

Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas

No desprezo das horas odiosas
tanto faz


Mário Dionísio

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Parcial?

"O Homem é sempre parcial e tem muita razão. A própria imparcialidade é parcial, pertence ao partido dos imparciais."

Lichtenberg



Citação de José Manuel Jara, in "O render dos ideais - Políticas do discurso"

Domingo, Novembro 01, 2009

Pão para a boca

Quando levada a um grau extremo, a pauperização, diminuindo a capacidade de trabalho e pondo em perigo a reprodução da força de trabalho, compromete a continuidade da produção. Daí preocupações e investigações da burguesia e dos seus estadistas, economistas, higienistas e técnicos. Daí estudarem a situação alimentar, fixarem as despesas mínimas que podem permitir às famílias de trabalhadores "manterem as suas condições de saúde e de capacidade de trabalho", organizarem "dietas satisfatórias" — ou seja, em resumo, estabelecerem as rações adequadas à conservação e reprodução de uma mercadoria indispensável no processo de produção.