quinta-feira, outubro 01, 2026

Amas?


Fiquei sem rede e aproveitei para tentar escrever alguma coisa com substância, que te leve à subjetividade. Mas quê: vou escrever sobre o amor, sobre a paixão? Estou obrigado a aceitá-la como algo etéreo e a divagar sobre a mesma; devo ser mais coerente e procurar explicar o meu ponto de vista desde uma perspectiva neurocientífica? Ou devo procurar que seja a sociologia quem revele esta mania de nos procurarmos?

Pois é, não fica fácil para um texto curto, apropriado a um blogue, uma quase-bitácora de ensaio, narrativa ou crónica, afirmar que não deixarei de procurar noutras bocas os lábios de quem amo, ainda que isso pudesse resultar numa imagem bonita, até certo ponto.

Mas vem depois o amor visceral, atómico, molecular, celular, como queiras: aquele amor que supomos protector, aos filhos, aos pais, à família, mesmo sabendo que logo podem surgir recordações próprias, tuas, minhas, de outros, que nos contem como uma aparente preocupação pode sempre ensombrecer o ressentimento de uma narcisista pela filha, que a pode levar, em tantos casos, ao extremo de lhe arrebatar a vida como única forma de preservar a sua mediocridade no anonimato da máscara, sem ser necessário que a inocente deixe de respirar. Ou, como em outros casos, sujeitos para os quais os outros só se ostentam, sem que aquilo que se pensa amor se revele mais do que uma ferramenta.

Não obstante, continuando com o Homem, que se presume o único ser capaz de amar, seja lá isso o que for, poderíamos submergir-nos nesses matrimónios entre humanos e animais, em que um rottweiler tolera que o casal o acompanhe no sofá ou na cama e que o leve a passear quando o necessita, o bicho, de apelido olvidado. Algo muito complexo, demasiado também para nos debruçarmos aqui mais do que nestas linhas.

Sei que poderia lamentar que o meu cão já não te pise o tapete, consciente de poder também pintar um quadro íntimo.

Enfim, entendo que se aceita que o amor começa sempre por cada um de nós. Somos sempre os nossos maiores amantes, seremos sempre a nossa maior paixão, pelo menos é o que a sociedade parece querer mostrar, ainda que, em realidade, possa resultar uma patologia.

Mário Pinto, Madrid, 2026