Dizes:
«Teu nome
guarda linhagem
da minha religião.»
Mas desconheço
outra linhagem
além desta que alcanço:
genética e tempo,
história que passa,
matéria breve
que ainda floresce.
Essa condescendência
de altruísmo
ou filantropia
mal disfarça
o facciosismo.
Nada possuis
além de contos,
contos de vigário,
feitos verdade tua.
Pois é:
pertencer.
Aos apelidos
que me foram dados,
à terra onde nasci.
Mas só pertencem
se eu os quiser.
Pois os vínculos
não são destino.
Nunca seriam eu.
As raízes podem
também arrancar-se.
Podem transplantar-se,
podem adubar-se
noutros lugares.
E uma vida pode
perder-se inteira
quando já não sabe
lembrar o eu,
mesmo aquele
de amanhã.
Tentar obrigar
ou convencer
um semelhante
a viver os vazios
da tua história,
que são a sua
inexistência é vil.
Como torná-la lei
e mostrar que aceitas
a ética
que lhe chama crime.
Cada raiz penetra
onde decide,
até falecer.
Cada memória
guarda seu lugar.
Não confundas
a tua linhagem
com a minha.
Não confundas
a tua história
com a minha.
Nem a tua fé
com o meu nome.
Esta viagem
não é só herança
que se transmite.
Talvez seja
ínfima parcela.
O que herdamos,
o que escolhemos,
o que transformamos?
É matéria viva.
Que deveria
ser vontade.
E, se viver connosco
te parecer desafio,
que seja compreender:
a nossa existência
não te pertence.
Nem pode aceitar
a história que queres
viver de nós.
Dizem até, por aí,
que mesmo a pátria
nos pode caber
nos sapatos,
ou no sapato,
se nos amputam.
Mino, Madrid, 2026


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