sexta-feira, outubro 02, 2026

Dizes tu...


Dizes:
«Teu nome
guarda linhagem
da minha religião.»

Mas desconheço
outra linhagem
além desta que alcanço:
genética e tempo,
história que passa,
matéria breve
que ainda floresce.

Essa condescendência
de altruísmo
ou filantropia
mal disfarça
o facciosismo.

Nada possuis
além de contos,
contos de vigário,
feitos verdade tua.

Pois é:
pertencer.
Aos apelidos
que me foram dados,
à terra onde nasci.

Mas só pertencem
se eu os quiser.

Pois os vínculos
não são destino.
Nunca seriam eu.

As raízes podem
também arrancar-se.
Podem transplantar-se,
podem adubar-se
noutros lugares.

E uma vida pode
perder-se inteira
quando já não sabe
lembrar o eu,
mesmo aquele
de amanhã.

Tentar obrigar
ou convencer
um semelhante
a viver os vazios
da tua história,
que são a sua
inexistência é vil.

Como torná-la lei
e mostrar que aceitas
a ética
que lhe chama crime.

Cada raiz penetra
onde decide,
até falecer.

Cada memória
guarda seu lugar.

Não confundas
a tua linhagem
com a minha.

Não confundas
a tua história
com a minha.

Nem a tua fé
com o meu nome.

Esta viagem
não é só herança
que se transmite.

Talvez seja
ínfima parcela.

O que herdamos,
o que escolhemos,
o que transformamos?

É matéria viva.
Que deveria
ser vontade.

E, se viver connosco
te parecer desafio,
que seja compreender:

a nossa existência
não te pertence.

Nem pode aceitar
a história que queres
viver de nós.

Dizem até, por aí,
que mesmo a pátria
nos pode caber
nos sapatos,
ou no sapato,
se nos amputam.

Mino, Madrid, 2026



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