sábado, outubro 31, 2026

Nunca cinzento!

Hoje, agora, acreditando sentir-me de forma idêntica a quando, já fora daquele corpo, senti pela primeira vez o ar frio deste apodrecimento, estado ao qual a música costuma aproximar-me com crescente frequência — ultimamente quase de maneira constante —, encontrei necessário trazer de novo aqui esta canção.

Sem que seja por se tratar de uma suposta canção de amor — as canções, e as suas letras, quase nunca se limitam apenas à intenção original do autor —, esta possui a faculdade de abrir a porta a uma pergunta que, coisas da subtileza da consciência, costuma permanecer num reduto que, como muito, tem somente a luz de uma janela e que, assim mesmo, não considero útil o trabalho de tentar descortinar para que a possa iluminar. Questão essa que, só por tal decisão, se adivinha incómoda.

Não me considero um «Bonzinho» nem acredito que existam, deploro a violência, mesmo que já tenha sido recurso, último. Não procuro permanecer nos mundos que, imaginados, alimentavam a comunhão com outros putos, nem sequer perceber que a vida pode deixar de ser uma brincadeira, ainda que muito séria. Porém, aceitar a necessidade de tomar como atitude o desprezo ou adoptar um olhar distante e evasivo não é algo que contemple; acredito que nunca o será, como o cinzento da conveniência. Antes a monocromática dualidade de construir ou destruir, e é aí que me precipito na mais lacerante solidão em que este frio não faz sentido.

Como fui capaz de manter a música soando? Interessante proposta de inflexão. Se até aquela matriz arrefeceu, se todas as referências se esfumaram e a sua legitimidade se desvaneceu, como resultado da constante inquirição inerente à permanência neste provisório laboratório que, sem que cesse a análise, me revela a necessidade de lhes retirar o crédito, mesmo permanecendo convicto da inevitabilidade de me continuar a entregar à incerteza com o arrojo próprio da espécie; se ao cansaço lhe somarmos essa erosão da base vital em que confiamos para nos recuperar, já não tenho resposta, antes a certeza de jamais me permitir a falta de coerência. Ética que sempre procurei conservar, condição reforçada durante este outubro com o incremento tão inusitado quanto prolífico da actividade literária bem como da disposição para resolver as inúmeras dúvidas que durante estes dias se soltaram e que hoje partilho.

Não quero deixar que a música pare, seria insuportável continuar apenas com o ruído de tantas correntes que se arrastam por aí e que não podem traduzir a vida.

Mário Pinto, Madrid, 2026

sexta-feira, outubro 30, 2026

… e a Buttuller fechou.

Todas as manhãs, o uniforme.

Ninguém lhe chama disfarce.
Chamam-lhe vestir-se,
chamam-lhe ser.

Poderia vesti-lo.

Caberia na submersão massiva,
deixaria de ser excepção.

Já durmo uma parte da vida,
a totalidade desapareceria se disfarçado.

Fazer disso ofício,
profissional circense: não resolve.
Já ninguém parece ser outra coisa,
muitas vezes sem dar por isso,
ou sem que ali signifique o mesmo.


São tantas as dimensões
quantos paridos.

Vale a pena esta forma
que se supõe aceite,
expor-se à crítica dual da plateia
ou do próprio elenco,
tantas vezes com o manual de instruções
como único papel?

Este despudorado capricho do universo
quase explicado pela física
deveria ser mais que a primária aflição
por não possuir o que se não tem,

deveria ser melhor que o que resulta
de tornar o olhar um tribunal.

Carece de sentido, mas
encontra-o o narciso,
encontra-o o inocente, até que cede.

Resistir a atribuir-lho
pode custar a vida.

Rejeito-o.

Mino, Madrid, 2026


quinta-feira, outubro 29, 2026

Saldo

Tudo quanto se aprende
soma dúvida
ao inventário.

A espécie decifra o átomo,
cartografa o invisível,
inunda a distância
entre o impulso e o acto.
Depois, regressa a si.

Há sempre um método
para explicar o irreparável,
uma equação
para repartir o horror,
a incógnita
permanece.

O mundo não existe.
Insiste o problema.

Entre o que sabemos
e o que não fazemos
não falta informação.
Falta qualquer coisa:
o resto
que nenhum paradigma
isolou ainda.

Por um instante,
a música resolve-se
em cadência plagal.
O silêncio,
esse,
escurece tudo
como um foco férvido
alarve.

Mino, Madrid, 2026



quinta-feira, outubro 22, 2026

«¡Yo soy más joven!»

Reloj gamético:
dicen que la edad
está en el cigoto.
El imponderable desgaste
que no es dogma.

Cromosomas perdidos
en el afán, inevitable riesgo,
embrión emancipado, desamparado.
Científica mirada para
lo que empezó sin ser.

Flynn al revés,
carga alostática:
vivimos densos, saturados,
y la red sináptica
rompiéndose en la roca.
Incapaz del sinsentido.

Tu estimulante escuela
no onera culpa.
Y la raíz no es inocua.
Entre hermanos
la prueba susurra.
Trauma, no logro,
aunque en promoción.

Plasticidad, repiten,
como consuelo.
Manta del sistema:
“¡Que exijan poco!”,
y en ferias, festivales
se olvida el déficit.
Aislado el córtex, paga.

Cuando es objeto de estudio
oprime, atropella
y nos acaba devastando.
Y aun así
lo llaman política,
sesgo,
para refinados cobardes.

Fuese yo aún más
joven, de lentes científicas,
consciente de la incertidumbre.
Ojalá me equivoque,
en esta silla.

Mino, Madrid, 2026



domingo, outubro 18, 2026

Dupla fenda (Fundamento da hipótese)

Fenda, mar profundo,
colapso, motivo;
vibra em outro mundo,
molda o campo vivo.
Filtro faz-se mesto,
cosmos, raro gesto.

Trama do passado,
sónico que opera;
tempo desfasado,
o sujeito espera.
Ego quebra o vício,
sombras do seu início.

Fractal, puro alento;
mente sintoniza;
quebra o desalento,
fase estabiliza.
O ponto certeiro,
próprio marinheiro.

Fervor, melodia,
a palavra, o véu;
a razão sentia
o símbolo ao céu.
Inconsciente lesto,
o mudo protesto.

Escolhe o navio,
certeza consciente;
brana, abraço esguio,
condensadamente.
Vence a morte e o fado,
ser entrelaçado.

Mário Pinto, Madrid, 2026



sexta-feira, outubro 16, 2026

Eras tu

esperança de futuro,

de tantos sonho,

que valeu vidas,

hirtas de coragem.

 

E só podes rejeitar-te

como aos dias.

 

Sequer niilista:

esperpento,

arrogante

amuralhado,

só outra máscara corajosa.

 

Se o mutismo,

acto eleito, vontade,

for sorriso

coerente de ser,

contempla,

sente,

experimenta e,

além do hedonismo,

por fim,

liberto da gruta

de paredes de pálpebras,

ainda vencerá

hoje

aquele futuro.


Mino, Madrid, 2026

sábado, outubro 10, 2026

«Uma imagem vale mais que mil palavras»

diz o clichê popular,
ou atribuído a algum enorme
fantasma filósofo, já ido.

Mil palavras, contudo
mostram tantas imagens
que, julgada incapaz,
a razão,
apressurada
quase sempre pelo pão,
não lhes encontra o espaço
em cada um.

Sei que estás
aí.
Sem ninguém que veja
as imagens, nunca existirão.

Mas, da tua boca espero um mundo,
do teu olhar, tantas palavras,
uma daquelas que sonho ou outra
que não viverei.

Ouço o mar
a milhas;
podes ver-me.


O mar?

Mino, Madrid, 2026