A arquitectura cognitiva da dominação, a consciência individual e a disputa dos significados colectivos
Desenvolvimento teórico a partir das questões suscitadas em (Ainda Weidel, a AfD e a arquitectura cognitiva da extrema-direita)
Há um aspecto na alienação que me interessa mais do que os outros: a
possibilidade de alguém deixar de estranhar aquilo que lhe limita a autonomia.
Não apenas aguentá-lo, por necessidade ou falta de alternativa. Incorporá-lo,
até o sentir como vontade própria. A pessoa defende-o com convicção, encontra
nele uma identidade, uma explicação para o mundo, um sítio ao qual pertencer. A
dominação deixa de aparecer como exógena. Passa a viver-se como liberdade. E
ninguém lhe chama alienação.
Bem vistas as coisas, Marx já lá estava. O operário faz um objecto
que deixa de lhe pertencer, a actividade transforma-se em tempo vendido e os
outros homens, com quem devia construir a sua existência, tornam-se
concorrência. Nos Manuscritos de 1844, a criatura começa a mandar no criador.
Lukács alargará esta ideia à reificação: as relações entre pessoas adquirem
aparência de coisas naturais, como se fossem leis independentes daqueles que as
produziram.
A minha pergunta é outra, ou talvez seja uma extensão desta: que
acontece quando a separação alcança também as ferramentas com que interpretamos
o mundo? Quando já não são apenas o produto, a actividade ou as relações que se
autonomizam perante o indivíduo, mas os próprios pressupostos com que observa,
classifica e atribui sentido?
Não me interessa fazer da alienação um diagnóstico para aplicar a
quem pensa de forma diferente ou nos casos em que pensar não se estila. Uma
pessoa pode acreditar numa falsidade com o juízo intacto e defender uma verdade
sem nunca ter examinado por que razão a defende. O que me ocupa é a relação com
os pressupostos: se ainda podem ser postos em causa ou se a porta já se fechou
e o sujeito não percebeu.
Ninguém pensa a partir de um ponto neutro. A percepção selecciona,
compara, antecipa; o cérebro não fica à espera do mundo, trabalha sobre aquilo
que espera encontrar. A psicologia cognitiva e a neurociência descrevem este
processo por caminhos diferentes. Recebemos a língua, os valores e aquilo que
se prevê antes da formulação consciente. É também por isso que pensamos. A
herança é instrumento até ao dia em que se faz parede, tão velha e tão bem
pintada que a tomamos pelo mundo.
Duas pessoas defendem a mesma ideia com as mesmas palavras. Uma
chegou lá confrontando-a com outras, talvez enganando-se pelo caminho; a outra
aceitou-a porque confirma o grupo a que pertence, porque lhe dá chão, porque
pô-la em causa custaria amigos, estatuto, o lugar à mesa, a fome. Da porta para
fora, iguais. Por dentro, nada tem que ver. E quem está dentro raramente
repara: sente que pensa, argumenta, escolhe fontes, defende-se. O que perdeu —
a disponibilidade para rever as premissas — não deixou falta. E o que se perde
sem dor não se procura. Chamo-lhe, à falta de melhor termo, alienação
cognitiva.
A categorização é talvez o lugar onde isto se vê melhor. Reconhecer
uma pessoa exige alguma disponibilidade para atender à sua singularidade;
reconhecê-la através de uma categoria é muito mais rápido. O grupo fornece
antecipadamente aquilo que lhe atribuímos e o indivíduo desaparece, pelo menos
em parte, atrás da etiqueta. A categoria é um utensílio fundamental da cognição
humana. O problema começa quando deixa de organizar a experiência e passa a
decidir antecipadamente o que a experiência pode mostrar. Quando encontramos
alguém que não cabe na categoria, é muitas vezes a pessoa que acaba empurrada a
modificar-se ou a ser excluída, silenciada, obrigada a ocultar características
ou simplesmente reinterpretada pelos outros para continuar a caber.
O aposematismo, que usei no texto de base, ajuda-me a pensar uma
parte disto. O animal de cores berrantes não precisa de ser perigoso por
inteiro, ainda que a natureza assim o configure habitualmente; basta que o
sinal se assemelhe e quem o vê afasta-se. É economia: reconhecer custa menos do
que investigar. Na vida social, os sinais são incomparavelmente mais complexos,
mas a aparência, a origem, a língua ou a religião atribuída podem organizar um
sistema de reconhecimento que antecede o contacto com a pessoa. A diferença
deixa de ser diferença e passa a avisar.
A política percebeu há muito que a mensagem só pega porque encontra
trabalho feito: categorias disponíveis, receios instalados, necessidades
identitárias. Não começa do princípio. E seria cómodo atribuir tudo isto à
inteligência dos outros. Os estudos sobre capacidade cognitiva e atitudes
políticas, ou sobre inflexibilidade intelectual e extremismo, podem revelar
associações estatísticas, mas uma média não é um vizinho. Não explica o que se
desenvolve dentro de uma pessoa concreta, muito menos por que razão alguém
capaz de compreender uma conclusão prefere não a levar até ao fim. Talvez
porque compreender obrigaria a abandonar qualquer coisa que lhe é demasiado
importante.
A pertença não se reduz à vontade de estar acompanhado. Aristóteles
denominava-nos seres políticos, pessoalmente diría que pelo menos sociais, e
ainda bem. Pertencer é dispor de referências para interpretar, reconhecer
aliados e ameaças. É saber onde se está. Fromm percebeu que a autonomia pode
ser uma conquista, mas também um encargo: decidir sem garantias, suportar a
incerteza, perder a fralda. É mais fácil entregar parte desse trabalho a uma
autoridade ou a uma identidade colectiva. Ninguém precisa de querer ser
dominado; basta não querer suportar a responsabilidade de decidir sozinho. E
quando essa identidade passa também a ditar o que se pode reconhecer como
verdadeiro ou sequer ponderável, a identificação transforma-se em transferência
de juízo. A velha Maria que vai com as outras, agora em escala política, com
bandeiras, comentadores e uma explicação para tudo.
É aqui que a alienação cognitiva roça a reificação, sem se confundir
com ela. Se a reificação permite compreender como relações historicamente
produzidas adquirem aparência de coisas naturais, procuro perceber como as
próprias categorias com que as compreendemos podem ganhar autonomia semelhante.
Pensa-se através delas, mas torna-se difícil pensar sobre elas. Gramsci ajuda a
perceber o passo seguinte: a dominação também organiza significados, define o
que parece razoável e transforma uma interpretação particular em senso comum.
Os pressupostos não se formam em isolamento. Produzem-se nas relações de poder,
estendem-se e cristalizam-se nas famílias, nas escolas, nos empregos, nos
ecrãs, nas conversas que se repetem. E são também utilizados deliberadamente por
quem procura orientar a percepção colectiva e consolidar determinadas relações
de poder. A sua eficácia, porém, não depende apenas dessa utilização: encontra
terreno numa história de desigualdades, hierarquias e significados já
sedimentados. É talvez aqui que Marx e Gramsci se aproximam da hipótese que
procuro desenvolver. As condições materiais produzem relações de dependência;
essas relações participam na formação dos significados através dos quais a
realidade é interpretada; e esses significados, quando deixam de ser
reconhecidos como construções históricas, podem passar a reproduzir as próprias
condições que lhes deram origem. A alienação cognitiva seria, neste sentido,
não a causa isolada da dominação, mas uma das formas pelas quais ela se instala
também no modo de pensar. A abolição formal de uma relação de dominação não
significa necessariamente o desaparecimento das estruturas que a reproduziam;
algumas podem sobreviver sob outras formas, inclusive jurídicas. É o que
permite interrogar, por exemplo, a excepção inscrita na 13.ª Emenda à
Constituição dos Estados Unidos, que proíbe a escravatura e a servidão
involuntária, excepto como punição por um crime. A abolição não apagou, por si
só, as continuidades históricas da exploração e da desigualdade. Há coisas que
aprendemos sem que ninguém nos ensine formalmente. Talvez sejam essas as mais
difíceis de prescindir.
A dissonância cognitiva mostra duas situações próximas, mas
distintas. Numa, a informação contraria uma convicção a que estamos ligados e a
sua revisão tem um custo identitário ou social. Noutra, a representação já
passou à frente da observação: encontramos alguém que não corresponde ao
estereótipo e reinterpretamos a experiência para que este sobreviva. Num caso,
é o pressuposto que se sente ameaçado; no outro, é a própria experiência que já
chega subordinada à representação. As duas situações podem alimentar-se.
Acumula-se informação sem que o pensamento se mexa, porque compreender até ao
fim pode obrigar a rever uma parte de nós ou o lugar que ocupamos numa
comunidade.
E não vale a pena estabelecer a confortável divisão entre quem pensa
mal e quem pensa bem. A dificuldade em examinar pressupostos manifesta-se em
qualquer pessoa, incluindo naquelas que se acham especialmente críticas. A
convicção de se estar imune aos próprios pressupostos é uma das formas mais
resistentes de alienação. Escrevo-o a pensar em mim.
Nada disto flutua, claro. Uma teoria da alienação que ficasse pela
consciência faria da dominação um problema de interpretação individual, como se
bastasse corrigir representações para libertar o sujeito. Marx, por exemplo,
não deixa. A alienação do trabalhador está inscrita na propriedade, na
apropriação do produto e na maneira como se produz. A precariedade e a perda de
estatuto não determinam automaticamente uma orientação política, mas criam
condições em que as narrativas de pertença, ameaça e ordem perdida se tornam
eficazes. A promessa de recuperar uma posição, devolver grandeza a uma
comunidade e apontar culpados por uma perda cujas causas são dispersas e
difíceis de agarrar. É uma explicação que cabe numa frase para aquilo que a
realidade levou anos a produzir.
Uma coisa é a experiência de quem procura uma explicação para a sua
insegurança; outra, a de quem dispõe de meios para organizar e dirigir essa
interpretação. Não estão na mesma posição, nem têm a mesma responsabilidade. A
alienação cognitiva não substitui a material. Pode ser uma das formas através
das quais esta se reproduz e se torna menos reconhecível.
O caso de Alice Weidel, que originou o texto anterior, deixa ver uma
particularidade disto. Uma mulher lésbica, com uma companheira nascida no Sri
Lanka e filhos adoptados, à frente de um partido cuja retórica e propostas
incluem formas de exclusão dirigidas a grupos com os quais a sua biografia tem
proximidade simbólica. A contradição está à vista. Aquilo a que se poderia
popularmente chamar «a confirmação da regra» não obriga a que seja reconhecida
como tal por quem a apoia. Pode ver-se nela uma figura singular, uma excepção,
sem sentir necessidade de rever a posição perante as políticas do partido. A
incoerência não destrói a categoria; pode até ajudar a preservá-la.
Não sei se todos os eleitores fazem esta leitura, nem se a fazem
conscientemente. Mas uma biografia pode funcionar como símbolo que suspende a
avaliação crítica, e a identificação com uma figura pode ocupar esse lugar,
substituindo a análise do que representa. Uma sociedade pode produzir
indivíduos que se identificam com símbolos de liberdade, autonomia e diferença
enquanto apoiam estruturas que restringem essas mesmas possibilidades a outros.
A contradição continua lá. Pode apenas deixar de incomodar.
De aí os significados colectivos. O fascismo não inventa
necessariamente os símbolos de que se serve. Apropria-se deles, reorganiza-os,
impõe-lhes uma leitura exclusiva. A nação, a família, a comunidade, a memória e
a solidariedade são significados disputados, atravessados por histórias
diferentes. Talvez seja mais rigoroso falar de reapropriação cultural e
simbólica contra-hegemónica do que de alienação dos elementos utilizados pelo
fascismo. Os símbolos não estão alienados. O que pode estar alienada é a relação
das pessoas com os seus significados, quando só os reconhecem através de uma
interpretação que os restringe.
Reapropriar não é inverter a exclusão, nem trocar um monopólio por
outro. É recuperar a possibilidade de os significados serem partilhados,
discutidos e transformados. A família não tem de ser propriedade de uma moral;
a nação não tem de se reduzir a uma origem; a comunidade não tem de exigir
homogeneidade. Mas também não basta dizê-lo e esperar que os significados
regressem ao espaço comum. Quem os apropriou não vai simplesmente devolvê-los.
Resta uma dificuldade que atravessa tudo isto. Tenho usado a
expressão «confronto com a realidade» como se fosse evidente reconhecer o
momento em que uma representação deixa de lhe corresponder. Mas confrontar com
o quê? A experiência imediata, que também engana? Os dados, que pedem
interpretação? A ciência, indispensável e também inscrita em instituições? O
consenso, que pode reproduzir os pressupostos do grupo? Não são equivalentes
todas as interpretações, mas distingui-las exige critérios, e esses critérios
também têm de poder ser discutidos. Não costumo confiar em saídas que aparecem
depressa demais.
Talvez importe menos procurar um lugar exterior de onde observar a
realidade do que perceber se uma interpretação continua disponível para ser
questionada. Se admite revisão, se reconhece o que a contraria sem transformar
logo a contradição numa ameaça. Mas como sabemos que essa disponibilidade é
real e não apenas mais uma maneira de confirmar aquilo em que já acreditávamos?
Até que ponto estamos dispostos a reconhecer o que poderia obrigar-nos a mudar
de ideias?
A autonomia também não é apenas uma qualidade individual. Depende de
acesso à informação, de tempo, de educação, de pluralidade de experiências e da
liberdade de contestar autoridades e até da capacidade de manutenção material.
Uma pessoa pode ter capacidade para pensar e viver num ambiente que castiga
sistematicamente o seu exercício. Pode ter informação e não ter tempo para a
trabalhar; pode ter liberdade formal para discordar e saber que o preço será
perder o lugar que ocupa. A capacidade não desaparece, mas as condições para a
exercer podem tornar-se inviáveis. O mais vulgar é ouvir perguntar por que
razão as pessoas não pensam.
A emancipação pediria recuperar a possibilidade de interrogar os
instrumentos com que pensamos e transformar as relações materiais que fazem da
dependência uma rotina. Não se trata de escolher entre mudar a consciência ou
mudar o mundo. A separação entre as duas coisas é que talvez seja o miolo do
problema.
Por isso regresso ao princípio. O indivíduo pode continuar a falar,
a votar, a trabalhar, a defender as suas ideias, convencido de que exerce a sua
autonomia, dentro de um horizonte de significados que já não consegue
interrogar. A dominação não precisa de eliminar a consciência. Pode organizar o
seu funcionamento. E talvez a alienação mais difícil de reconhecer seja
precisamente aquela que não se apresenta como perda, que não dói, que até
oferece algum conforto. Ninguém lhe chama alienação. Chama-lhe convicção, bom
senso, identidade, liberdade, ser gente de bem.
Talvez a liberdade comece no instante em que recuperamos a possibilidade de
perguntar de onde vêm as ideias com que julgamos estar a pensar por nós
próprios. Não sei se isso chega. Desconfio e espero que não. Mas poderíamos
começar por aí?
Mário Pinto, Madrid, 2026





