domingo, outubro 18, 2026

Dupla fenda (Fundamento da hipótese)

Fenda, mar profundo,
colapso, motivo;
vibra em outro mundo,
molda o campo vivo.
Filtro faz-se mesto,
cosmos, raro gesto.

Trama do passado,
sónico que opera;
tempo desfasado,
o sujeito espera.
Ego quebra o vício,
sombras do seu início.

Fractal, puro alento;
mente sintoniza;
quebra o desalento,
fase estabiliza.
O ponto certeiro,
próprio marinheiro.

Fervor, melodia,
a palavra, o véu;
a razão sentia
o símbolo ao céu.
Inconsciente lesto,
o mudo protesto.

Escolhe o navio,
certeza consciente;
brana, abraço esguio,
condensadamente.
Vence a morte e o fado,
ser entrelaçado.

Mário Pinto, Madrid, 2026



A fenda (cristalização de uma hipótese)

 


A dupla fenda mostra o mar profundo,
onde a matéria encontra o seu motivo;
partícula que vibra em outro mundo,
se o colapso molda o campo vivo.
O filtro do cérebro faz-se mesto,
ao ver no cosmos este estranho gesto.

A trama guarda a herança do passado,
o artifício sónico que opera;
o tempo em mil memórias desfasado,
na rota antiga que o sujeito espera.
O filtro quebra o ego no seu vício,
limpando as sombras desde o seu início.

A música que afasta o desalento,
traz o alento puro que sintoniza;
fractal que quebra o antigo esquecimento,
enquanto a mente em fase se estabiliza.
O todo encontra o seu ponto certeiro,
sendo o sujeito o próprio marinheiro.

Palavra que se junta à melodia,
fervor sagrado que desfaz o véu;
o duplo choque que a razão sentia,
ao ver o símbolo que passa ao céu.
O arco do inconsciente faz-se lesto,
deixando salvo o seu mudo protesto.

O consciente escolhe o seu navio,
coerência que evita a dispersão;
as branas marcham num abraço esguio,
fixando a rota da condensação.
Atado, vence a morte e o seu fado,
ficando eterno o mar entrelaçado.

Mário Pinto, Madrid, 2026



sexta-feira, outubro 16, 2026

Eras tu

esperança de futuro,

de tantos sonho,

que valeu vidas,

hirtas de coragem.

 

E só podes rejeitar-te

como aos dias.

 

Sequer niilista:

esperpento,

arrogante

amuralhado,

só outra máscara corajosa.

 

Se o mutismo,

acto eleito, vontade,

for sorriso

coerente de ser,

contempla,

sente,

experimenta e,

além do hedonismo,

por fim,

liberto da gruta

de paredes de pálpebras,

ainda vencerá

hoje

aquele futuro.


Mino, Madrid, 2026

sábado, outubro 10, 2026

«Uma imagem vale mais que mil palavras»

diz o clichê popular,
ou atribuído a algum enorme
fantasma filósofo, já ido.

Mil palavras, contudo
mostram tantas imagens
que, julgada incapaz,
a razão,
apressurada
quase sempre pelo pão,
não lhes encontra o espaço
em cada um.

Sei que estás
aí.
Sem ninguém que veja
as imagens, nunca existirão.

Mas, da tua boca espero um mundo,
do teu olhar, tantas palavras,
uma daquelas que sonho ou outra
que não viverei.

Ouço o mar
a milhas;
podes ver-me.


O mar?

Mino, Madrid, 2026

terça-feira, outubro 06, 2026

¡Monstruo infame!

Utilizar un inocente
para suplir tus carencias,
es infame.

Despreciar y desperdiciar
la vida de quien
confía en ti, a ciegas.
Ver cómo se le van los días
impidiendo que florezca.
Saber que es tu deber
fomentar su evolución
y negarte por envidia
es infame.

Priorizar, ante tu propio fruto,
a los nauseabundos
que te hicieron.
Quedarte una vida
que no te pertenece
es infame.

Impedir que sea
amada por otro,
con tu misma potestad
y como es tu función orgánica.
Enorgullecerte del éxito
de tu patológica perfidia
es inhumano, es infame.

Nunca serás más
que la escoria que reste
de la oxidación de los días:
desechable,
infame,
¡infame!

Y te seguirá cantando,
balando,
inocente.

Mário Pinto, Madrid, 2026

domingo, outubro 04, 2026

Para Inês

Te escribiría en mi idioma,

pero entiendo que
no puedas escuchar quién soy.

Por ello no esperaré
que las palabras te llamen,

sino que, de alguna forma,
te alcancen,

puede que algún día
te encuentren.

Recuerdo aquella mirada,
cintilante,
curiosa,
exploradora.

Faro de vida.

Hacías creer
a los despojados
que la felicidad existe,

que Sorolla
sólo era
un fotógrafo arcaico.

Zozobra hoy
quien te contemplaba.

Las nubes,
entonces de azúcar,
son oscuras.

Ya no me cruzo
con tu inquietud
cuando escruto
el horizonte.

Desconozco si te percibes,
o te valoras más
que a un reflejo cualquiera,

sin que importe
desde dónde
o de quién.

No te veo.

No puedes ser tú
la figura
que mueve tu sombra,

no sé si te quiere,
si sigue tus pasos,
si te vive.

Tengo un cofre
con dudas
que me hiciste guardar.

Recuerda
que son tuyas,

como lo hago yo,

por si las quieres
rescatar.

   Mário Pinto, Madrid, 2026

sexta-feira, outubro 02, 2026

Dizes tu...


 «Teu nome

guarda linhagem

da minha religião.»

 

Mas desconheço

outra linhagem

além desta que alcanço:

genética e tempo,

história que passa,

matéria breve

que ainda floresce.

 

Essa condescendência

disfarçada de altruísmo,

filantropia,

não esconde

o anzol

chauvinista.

Nada possuis

além de contos,

contos de vigário,

feitos verdade tua.

 

Pertencer aos apelidos

que me foram dados,

à terra onde nasci?

As raízes podem

também arrancar-se.

Podem transplantar-se,

adubar-se

e até secar

em todos os lugares.

 

E uma vida pode

perder-se

inteira

quando já não sabe

lembrar-se,

e menos ainda

do eu

de amanhã.

 

Levar

um semelhante

a viver os vazios

da tua história

é impor-lhe

a inexistência.

Como torná-la lei,

fingindo que aceitas

uma ética

que a criminaliza.

 

Cada raiz penetra

onde decide,

até falecer.

Cada memória

guarda o seu lugar.

Não confundas

a tua linhagem

com a minha.

Não confundas

a tua história

com a minha.

Nem a tua fé

com o meu nome.

 

Herança,

ínfima parcela.

Herdamos, escolhemos,

transformamos?

É matéria viva.

Que deveria

ser vontade.

 

Mas sei de outros, por aí,

que dizem:

até a pátria

nos pode caber

nos sapatos,

 

ou no sapato,

 

se nos amputam.

Mino, Madrid, 2026



quinta-feira, outubro 01, 2026

Amas?



Fiquei sem rede e aproveitei para tentar escrever alguma coisa com substância, que te leve à subjetividade. Mas quê: vou escrever sobre o amor, sobre a paixão? Estou obrigado a aceitá-la como algo etéreo e a divagar sobre a mesma; devo ser mais coerente e procurar explicar o meu ponto de vista desde uma perspectiva neurocientífica? Ou devo procurar que seja a sociologia quem revele esta mania de nos procurarmos?

Pois é, não fica fácil para um texto curto, apropriado a um blogue, uma quase-bitácora de ensaio, narrativa ou crónica, afirmar que não deixarei de procurar noutras bocas os lábios de quem amo, ainda que isso pudesse resultar numa imagem bonita, até certo ponto.

Mas vem depois o amor visceral, atómico, molecular, celular, como queiras: aquele amor que supomos protector, aos filhos, aos pais, à família, mesmo sabendo que logo podem surgir recordações próprias, tuas, minhas, de outros, que nos contem como uma aparente preocupação pode sempre ensombrecer o ressentimento de uma narcisista pela filha, que a pode levar, em tantos casos, ao extremo de lhe arrebatar a vida como única forma de preservar a sua mediocridade no anonimato da máscara, sem ser necessário que a inocente deixe de respirar. Ou, como em outros casos, sujeitos para os quais os outros só se ostentam, sem que aquilo que se pensa amor se revele mais do que uma ferramenta.

Não obstante, continuando com o Homem, que se presume o único ser capaz de amar, seja lá isso o que for, poderíamos submergir-nos nesses matrimónios entre humanos e animais, em que um rottweiler tolera que o casal o acompanhe no sofá ou na cama e que o leve a passear quando o necessita, o bicho, de apelido olvidado. Algo muito complexo, demasiado também para nos debruçarmos aqui mais do que nestas linhas.

Sei que poderia lamentar que o meu cão já não te pise o tapete, consciente de poder também pintar um quadro íntimo.

Enfim, entendo que se aceita que o amor começa sempre por cada um de nós. Somos sempre os nossos maiores amantes, seremos sempre a nossa maior paixão, pelo menos é o que a sociedade parece querer mostrar, ainda que, em realidade, possa resultar uma patologia.

Mário Pinto, Madrid, 2026