terça-feira, outubro 06, 2026

¡Monstruo infame!

Utilizar un inocente
para suplir tus carencias,
es infame.

Despreciar y desperdiciar
la vida de quien
confía en ti, a ciegas.
Ver cómo se le van los días
impidiendo que florezca.
Saber que es tu deber
fomentar su evolución
y negarte por envidia
es infame.

Priorizar, ante tu propio fruto,
a los nauseabundos
que te hicieron.
Quedarte una vida
que no te pertenece
es infame.

Impedir que sea
amada por otro,
con tu misma potestad
y como es tu función orgánica.
Enorgullecerte del éxito
de tu patológica perfidia
es inhumano, es infame.

Nunca serás más
que la escoria que reste
de la oxidación de los días:
desechable,
infame,
¡infame!

Y te seguirá cantando,
balando,
inocente.

Mário Pinto, Madrid, 2026

domingo, outubro 04, 2026

Para Inês

Te escribiría en mi idioma,

pero entiendo que
no puedas escuchar quién soy.

Por ello no esperaré
que las palabras te llamen,

sino que, de alguna forma,
te alcancen,

puede que algún día
te encuentren.

Recuerdo aquella mirada,
cintilante,
curiosa,
exploradora.

Faro de vida.

Hacías creer
a los despojados
que la felicidad existe,

que Sorolla
sólo era
un fotógrafo arcaico.

Zozobra hoy
quien te contemplaba.

Las nubes,
entonces de azúcar,
son oscuras.

Ya no me cruzo
con tu inquietud
cuando escruto
el horizonte.

Desconozco si te percibes,
o te valoras más
que a un reflejo cualquiera,

sin que importe
desde dónde
o de quién.

No te veo.

No puedes ser tú
la figura
que mueve tu sombra,

no sé si te quiere,
si sigue tus pasos,
si te vive.

Tengo un cofre
con dudas
que me hiciste guardar.

Recuerda
que son tuyas,

como lo hago yo,

por si las quieres
rescatar.

   Mário Pinto, Madrid, 2026

sexta-feira, outubro 02, 2026

Dizes tu...


 «Teu nome

guarda linhagem

da minha religião.»

 

Mas desconheço

outra linhagem

além desta que alcanço:

genética e tempo,

história que passa,

matéria breve

que ainda floresce.

 

Essa condescendência

disfarçada de altruísmo,

filantropia,

não esconde

o anzol

chauvinista.

Nada possuis

além de contos,

contos de vigário,

feitos verdade tua.

 

Pertencer aos apelidos

que me foram dados,

à terra onde nasci?

As raízes podem

também arrancar-se.

Podem transplantar-se,

adubar-se

e até secar

em todos os lugares.

 

E uma vida pode

perder-se

inteira

quando já não sabe

lembrar-se,

e menos ainda

do eu

de amanhã.

 

Levar

um semelhante

a viver os vazios

da tua história

é impor-lhe

a inexistência.

Como torná-la lei,

fingindo que aceitas

uma ética

que a criminaliza.

 

Cada raiz penetra

onde decide,

até falecer.

Cada memória

guarda o seu lugar.

Não confundas

a tua linhagem

com a minha.

Não confundas

a tua história

com a minha.

Nem a tua fé

com o meu nome.

 

Herança,

ínfima parcela.

Herdamos, escolhemos,

transformamos?

É matéria viva.

Que deveria

ser vontade.

 

Mas sei de outros, por aí,

que dizem:

até a pátria

nos pode caber

nos sapatos,

 

ou no sapato,

 

se nos amputam.

Mino, Madrid, 2026



quinta-feira, outubro 01, 2026

Amas?



Fiquei sem rede e aproveitei para tentar escrever alguma coisa com substância, que te leve à subjetividade. Mas quê: vou escrever sobre o amor, sobre a paixão? Estou obrigado a aceitá-la como algo etéreo e a divagar sobre a mesma; devo ser mais coerente e procurar explicar o meu ponto de vista desde uma perspectiva neurocientífica? Ou devo procurar que seja a sociologia quem revele esta mania de nos procurarmos?

Pois é, não fica fácil para um texto curto, apropriado a um blogue, uma quase-bitácora de ensaio, narrativa ou crónica, afirmar que não deixarei de procurar noutras bocas os lábios de quem amo, ainda que isso pudesse resultar numa imagem bonita, até certo ponto.

Mas vem depois o amor visceral, atómico, molecular, celular, como queiras: aquele amor que supomos protector, aos filhos, aos pais, à família, mesmo sabendo que logo podem surgir recordações próprias, tuas, minhas, de outros, que nos contem como uma aparente preocupação pode sempre ensombrecer o ressentimento de uma narcisista pela filha, que a pode levar, em tantos casos, ao extremo de lhe arrebatar a vida como única forma de preservar a sua mediocridade no anonimato da máscara, sem ser necessário que a inocente deixe de respirar. Ou, como em outros casos, sujeitos para os quais os outros só se ostentam, sem que aquilo que se pensa amor se revele mais do que uma ferramenta.

Não obstante, continuando com o Homem, que se presume o único ser capaz de amar, seja lá isso o que for, poderíamos submergir-nos nesses matrimónios entre humanos e animais, em que um rottweiler tolera que o casal o acompanhe no sofá ou na cama e que o leve a passear quando o necessita, o bicho, de apelido olvidado. Algo muito complexo, demasiado também para nos debruçarmos aqui mais do que nestas linhas.

Sei que poderia lamentar que o meu cão já não te pise o tapete, consciente de poder também pintar um quadro íntimo.

Enfim, entendo que se aceita que o amor começa sempre por cada um de nós. Somos sempre os nossos maiores amantes, seremos sempre a nossa maior paixão, pelo menos é o que a sociedade parece querer mostrar, ainda que, em realidade, possa resultar uma patologia.

Mário Pinto, Madrid, 2026

quarta-feira, setembro 30, 2026

P'rá frente!



É difícil manter um perfil estável, hermético,
mais se a decadência não se contempla,
senão a evolução.
Desde 2005 que por aqui despejei muito do que fui aprendendo:
dúvidas sobre aquilo com que me fui deparando,
questionamentos e, por vezes, alinhamentos
com soluções que a sociedade incorporou ou rejeitou.
Assim, revejo-me nos erros passados
mas, também, nos acertos que preconizei;
tudo isso parte de quem sou,
nunca de quem seria.
Sem dúvida, houve decisões que me limitam a vida,
outras que a possibilitam;
nenhuma, porém, me libertou por completo
nem me aproximou de quem imagino gostar de ser.
Contudo, será que o que pretendo seria o melhor;
sou hoje a melhor versão
que a vida poderia produzir de mim?
Sei que não sei a resposta, e é isso o que hoje sei de mim.
Como tal, decidi voltar a utilizar este espaço como caderno,
com maior frequência do que o fiz nos últimos anos.

A ver vamos...

P'rá frente!


Mário Pinto - Madrid - 2026



quarta-feira, setembro 23, 2026

Tu e solidão


Morreu o músico.

Fel.

Frio.

Incisivos expostos,

saliva bolhosa,

luxúria acesa no sofrer,

suor de néscios.

Silêncio.

Esquizofrenia consciente,

dependência,

sem coragem

de não ser.


Mino, Madrid, 2026



terça-feira, setembro 22, 2026

"Para nós não há mortos. Só há vivos."


É assim que a gente vai continuar,
mesmo que o que lá foi
desse o que pensava
que tinha para dar.
Ganhámos.
E uso-me disso.
Goza bem a tua rota.
Nunca mais só.
Pela passadeira vermelha,
redundante,
à entrada do Bairro do Amor,
já frágil,
depois de tomares a Bastilha.
Sem lamentar Portugal,
sem alertar Portugal.
No teu Portugal, seguramente,
sempre no mar,
sem tantas necessidades,
sem ter de pedir lume sequer.
Afinal, tens as chaves
do céu e do inferno.
E a liberdade
é uma maluca!

Mino, Madrid, 2026