Hoje, agora, acreditando sentir-me de forma idêntica a quando, já fora
daquele corpo, senti pela primeira vez o ar frio deste apodrecimento, estado ao
qual a música costuma aproximar-me com crescente frequência — ultimamente quase
de maneira constante —, encontrei necessário trazer de novo aqui esta canção.
Sem que seja por se tratar de uma suposta canção de amor — as canções, e as
suas letras, quase nunca se limitam apenas à intenção original do autor —, esta
possui a faculdade de abrir a porta a uma pergunta que, coisas da subtileza da
consciência, costuma permanecer num reduto que, como muito, tem somente a luz
de uma janela e que, assim mesmo, não considero útil o trabalho de tentar
descortinar para que a possa iluminar. Questão essa que, só por tal decisão,
se adivinha incómoda.
Não me considero um «Bonzinho» nem acredito que existam, deploro a
violência, mesmo que já tenha sido recurso, último. Não procuro permanecer nos
mundos que, imaginados, alimentavam a comunhão com outros putos, nem sequer
perceber que a vida pode deixar de ser uma brincadeira, ainda que muito séria.
Porém, aceitar a necessidade de tomar como atitude o desprezo ou adoptar um
olhar distante e evasivo não é algo que contemple; acredito que nunca o será,
como o cinzento da conveniência. Antes a monocromática dualidade de construir
ou destruir, e é aí que me precipito na mais lacerante solidão em que este frio
não faz sentido.
Como fui capaz de manter a música soando? Interessante proposta de inflexão.
Se até aquela matriz arrefeceu, se todas as referências se esfumaram e a sua
legitimidade se desvaneceu, como resultado da constante inquirição inerente à
permanência neste provisório laboratório que, sem que cesse a análise, me
revela a necessidade de lhes retirar o crédito, mesmo permanecendo convicto da
inevitabilidade de me continuar a entregar à incerteza com o arrojo próprio da
espécie; se ao cansaço lhe somarmos essa erosão da base vital em que confiamos
para nos recuperar, já não tenho resposta, antes a certeza de jamais me
permitir a falta de coerência. Ética que sempre procurei conservar, condição
reforçada durante este outubro com o incremento tão inusitado quanto prolífico
da actividade literária bem como da disposição para resolver as inúmeras
dúvidas que durante estes dias se soltaram e que hoje partilho.
Não quero deixar que a música pare, seria insuportável continuar apenas com o ruído de tantas correntes que se arrastam por aí e que não podem traduzir a vida.
Mário Pinto, Madrid, 2026





