quarta-feira, novembro 04, 2026

Para uma teoria contemporânea da alienação

A arquitectura cognitiva da dominação, a consciência individual e a disputa dos significados colectivos

Desenvolvimento teórico a partir das questões suscitadas em Ainda Weidel, a AfD e a arquitectura cognitiva da extrema-direita

Há um aspecto na alienação que me interessa mais do que os outros: a possibilidade de alguém deixar de estranhar aquilo que lhe limita a autonomia. Não apenas aguentá-lo, por necessidade ou falta de alternativa. Incorporá-lo, até o sentir como vontade própria. A pessoa defende-o com convicção, encontra nele uma identidade, uma explicação para o mundo, um sítio ao qual pertencer. A dominação deixa de aparecer como exógena. Passa a viver-se como liberdade. E ninguém lhe chama alienação.

Bem vistas as coisas, Marx já lá estava. O operário faz um objecto que deixa de lhe pertencer, a actividade transforma-se em tempo vendido e os outros homens, com quem devia construir a sua existência, tornam-se concorrência. Nos Manuscritos de 1844, a criatura começa a mandar no criador. Lukács alargará esta ideia à reificação: as relações entre pessoas adquirem aparência de coisas naturais, como se fossem leis independentes daqueles que as produziram.

A minha pergunta é outra, ou talvez seja uma extensão desta: que acontece quando a separação alcança também as ferramentas com que interpretamos o mundo? Quando já não são apenas o produto, a actividade ou as relações que se autonomizam perante o indivíduo, mas os próprios pressupostos com que observa, classifica e atribui sentido?

Não me interessa fazer da alienação um diagnóstico para aplicar a quem pensa de forma diferente ou nos casos em que pensar não se estila. Uma pessoa pode acreditar numa falsidade com o juízo intacto e defender uma verdade sem nunca ter examinado por que razão a defende. O que me ocupa é a relação com os pressupostos: se ainda podem ser postos em causa ou se a porta já se fechou e o sujeito não percebeu.

Ninguém pensa a partir de um ponto neutro. A percepção selecciona, compara, antecipa; o cérebro não fica à espera do mundo, trabalha sobre aquilo que espera encontrar. A psicologia cognitiva e a neurociência descrevem este processo por caminhos diferentes. Recebemos a língua, os valores e aquilo que se prevê antes da formulação consciente. É também por isso que pensamos. A herança é instrumento até ao dia em que se faz parede, tão velha e tão bem pintada que a tomamos pelo mundo.

Duas pessoas defendem a mesma ideia com as mesmas palavras. Uma chegou lá confrontando-a com outras, talvez enganando-se pelo caminho; a outra aceitou-a porque confirma o grupo a que pertence, porque lhe dá chão, porque pô-la em causa custaria amigos, estatuto, o lugar à mesa, a fome. Da porta para fora, iguais. Por dentro, nada tem que ver. E quem está dentro raramente repara: sente que pensa, argumenta, escolhe fontes, defende-se. O que perdeu — a disponibilidade para rever as premissas — não deixou falta. E o que se perde sem dor não se procura. Chamo-lhe, à falta de melhor termo, alienação cognitiva.

A categorização é talvez o lugar onde isto se vê melhor. Reconhecer uma pessoa exige alguma disponibilidade para atender à sua singularidade; reconhecê-la através de uma categoria é muito mais rápido. O grupo fornece antecipadamente aquilo que lhe atribuímos e o indivíduo desaparece, pelo menos em parte, atrás da etiqueta. A categoria é um utensílio fundamental da cognição humana. O problema começa quando deixa de organizar a experiência e passa a decidir antecipadamente o que a experiência pode mostrar. Quando encontramos alguém que não cabe na categoria, é muitas vezes a pessoa que acaba empurrada a modificar-se ou a ser excluída, silenciada, obrigada a ocultar características ou simplesmente reinterpretada pelos outros para continuar a caber.

O aposematismo, que usei no texto de base, ajuda-me a pensar uma parte disto. O animal de cores berrantes não precisa de ser perigoso por inteiro, ainda que a natureza assim o configure habitualmente; basta que o sinal se assemelhe e quem o vê afasta-se. É economia: reconhecer custa menos do que investigar. Na vida social, os sinais são incomparavelmente mais complexos, mas a aparência, a origem, a língua ou a religião atribuída podem organizar um sistema de reconhecimento que antecede o contacto com a pessoa. A diferença deixa de ser diferença e passa a avisar.

A política percebeu há muito que a mensagem só pega porque encontra trabalho feito: categorias disponíveis, receios instalados, necessidades identitárias. Não começa do princípio. E seria cómodo atribuir tudo isto à inteligência dos outros. Os estudos sobre capacidade cognitiva e atitudes políticas, ou sobre inflexibilidade intelectual e extremismo, podem revelar associações estatísticas, mas uma média não é um vizinho. Não explica o que se desenvolve dentro de uma pessoa concreta, muito menos por que razão alguém capaz de compreender uma conclusão prefere não a levar até ao fim. Talvez porque compreender obrigaria a abandonar qualquer coisa que lhe é demasiado importante.

A pertença não se reduz à vontade de estar acompanhado. Aristóteles denominava-nos seres políticos, pessoalmente diría que pelo menos sociais, e ainda bem. Pertencer é dispor de referências para interpretar, reconhecer aliados e ameaças. É saber onde se está. Fromm percebeu que a autonomia pode ser uma conquista, mas também um encargo: decidir sem garantias, suportar a incerteza, perder a fralda. É mais fácil entregar parte desse trabalho a uma autoridade ou a uma identidade colectiva. Ninguém precisa de querer ser dominado; basta não querer suportar a responsabilidade de decidir sozinho. E quando essa identidade passa também a ditar o que se pode reconhecer como verdadeiro ou sequer ponderável, a identificação transforma-se em transferência de juízo. A velha Maria que vai com as outras, agora em escala política, com bandeiras, comentadores e uma explicação para tudo.

É aqui que a alienação cognitiva roça a reificação, sem se confundir com ela. Se a reificação permite compreender como relações historicamente produzidas adquirem aparência de coisas naturais, procuro perceber como as próprias categorias com que as compreendemos podem ganhar autonomia semelhante. Pensa-se através delas, mas torna-se difícil pensar sobre elas. Gramsci ajuda a perceber o passo seguinte: a dominação também organiza significados, define o que parece razoável e transforma uma interpretação particular em senso comum. Os pressupostos não se formam em isolamento. Produzem-se nas relações de poder, estendem-se e cristalizam-se nas famílias, nas escolas, nos empregos, nos ecrãs, nas conversas que se repetem. E são também utilizados deliberadamente por quem procura orientar a percepção colectiva e consolidar determinadas relações de poder. A sua eficácia, porém, não depende apenas dessa utilização: encontra terreno numa história de desigualdades, hierarquias e significados já sedimentados. É talvez aqui que Marx e Gramsci se aproximam da hipótese que procuro desenvolver. As condições materiais produzem relações de dependência; essas relações participam na formação dos significados através dos quais a realidade é interpretada; e esses significados, quando deixam de ser reconhecidos como construções históricas, podem passar a reproduzir as próprias condições que lhes deram origem. A alienação cognitiva seria, neste sentido, não a causa isolada da dominação, mas uma das formas pelas quais ela se instala também no modo de pensar. A abolição formal de uma relação de dominação não significa necessariamente o desaparecimento das estruturas que a reproduziam; algumas podem sobreviver sob outras formas, inclusive jurídicas. É o que permite interrogar, por exemplo, a excepção inscrita na 13.ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que proíbe a escravatura e a servidão involuntária, excepto como punição por um crime. A abolição não apagou, por si só, as continuidades históricas da exploração e da desigualdade. Há coisas que aprendemos sem que ninguém nos ensine formalmente. Talvez sejam essas as mais difíceis de prescindir.

A dissonância cognitiva mostra duas situações próximas, mas distintas. Numa, a informação contraria uma convicção a que estamos ligados e a sua revisão tem um custo identitário ou social. Noutra, a representação já passou à frente da observação: encontramos alguém que não corresponde ao estereótipo e reinterpretamos a experiência para que este sobreviva. Num caso, é o pressuposto que se sente ameaçado; no outro, é a própria experiência que já chega subordinada à representação. As duas situações podem alimentar-se. Acumula-se informação sem que o pensamento se mexa, porque compreender até ao fim pode obrigar a rever uma parte de nós ou o lugar que ocupamos numa comunidade.

E não vale a pena estabelecer a confortável divisão entre quem pensa mal e quem pensa bem. A dificuldade em examinar pressupostos manifesta-se em qualquer pessoa, incluindo naquelas que se acham especialmente críticas. A convicção de se estar imune aos próprios pressupostos é uma das formas mais resistentes de alienação. Escrevo-o a pensar em mim.

Nada disto flutua, claro. Uma teoria da alienação que ficasse pela consciência faria da dominação um problema de interpretação individual, como se bastasse corrigir representações para libertar o sujeito. Marx, por exemplo, não deixa. A alienação do trabalhador está inscrita na propriedade, na apropriação do produto e na maneira como se produz. A precariedade e a perda de estatuto não determinam automaticamente uma orientação política, mas criam condições em que as narrativas de pertença, ameaça e ordem perdida se tornam eficazes. A promessa de recuperar uma posição, devolver grandeza a uma comunidade e apontar culpados por uma perda cujas causas são dispersas e difíceis de agarrar. É uma explicação que cabe numa frase para aquilo que a realidade levou anos a produzir.

Uma coisa é a experiência de quem procura uma explicação para a sua insegurança; outra, a de quem dispõe de meios para organizar e dirigir essa interpretação. Não estão na mesma posição, nem têm a mesma responsabilidade. A alienação cognitiva não substitui a material. Pode ser uma das formas através das quais esta se reproduz e se torna menos reconhecível.

O caso de Alice Weidel, que originou o texto anterior, deixa ver uma particularidade disto. Uma mulher lésbica, com uma companheira nascida no Sri Lanka e filhos adoptados, à frente de um partido cuja retórica e propostas incluem formas de exclusão dirigidas a grupos com os quais a sua biografia tem proximidade simbólica. A contradição está à vista. Aquilo a que se poderia popularmente chamar «a confirmação da regra» não obriga a que seja reconhecida como tal por quem a apoia. Pode ver-se nela uma figura singular, uma excepção, sem sentir necessidade de rever a posição perante as políticas do partido. A incoerência não destrói a categoria; pode até ajudar a preservá-la.

Não sei se todos os eleitores fazem esta leitura, nem se a fazem conscientemente. Mas uma biografia pode funcionar como símbolo que suspende a avaliação crítica, e a identificação com uma figura pode ocupar esse lugar, substituindo a análise do que representa. Uma sociedade pode produzir indivíduos que se identificam com símbolos de liberdade, autonomia e diferença enquanto apoiam estruturas que restringem essas mesmas possibilidades a outros. A contradição continua lá. Pode apenas deixar de incomodar.

De aí os significados colectivos. O fascismo não inventa necessariamente os símbolos de que se serve. Apropria-se deles, reorganiza-os, impõe-lhes uma leitura exclusiva. A nação, a família, a comunidade, a memória e a solidariedade são significados disputados, atravessados por histórias diferentes. Talvez seja mais rigoroso falar de reapropriação cultural e simbólica contra-hegemónica do que de alienação dos elementos utilizados pelo fascismo. Os símbolos não estão alienados. O que pode estar alienada é a relação das pessoas com os seus significados, quando só os reconhecem através de uma interpretação que os restringe.

Reapropriar não é inverter a exclusão, nem trocar um monopólio por outro. É recuperar a possibilidade de os significados serem partilhados, discutidos e transformados. A família não tem de ser propriedade de uma moral; a nação não tem de se reduzir a uma origem; a comunidade não tem de exigir homogeneidade. Mas também não basta dizê-lo e esperar que os significados regressem ao espaço comum. Quem os apropriou não vai simplesmente devolvê-los.

Resta uma dificuldade que atravessa tudo isto. Tenho usado a expressão «confronto com a realidade» como se fosse evidente reconhecer o momento em que uma representação deixa de lhe corresponder. Mas confrontar com o quê? A experiência imediata, que também engana? Os dados, que pedem interpretação? A ciência, indispensável e também inscrita em instituições? O consenso, que pode reproduzir os pressupostos do grupo? Não são equivalentes todas as interpretações, mas distingui-las exige critérios, e esses critérios também têm de poder ser discutidos. Não costumo confiar em saídas que aparecem depressa demais.

Talvez importe menos procurar um lugar exterior de onde observar a realidade do que perceber se uma interpretação continua disponível para ser questionada. Se admite revisão, se reconhece o que a contraria sem transformar logo a contradição numa ameaça. Mas como sabemos que essa disponibilidade é real e não apenas mais uma maneira de confirmar aquilo em que já acreditávamos? Até que ponto estamos dispostos a reconhecer o que poderia obrigar-nos a mudar de ideias?

A autonomia também não é apenas uma qualidade individual. Depende de acesso à informação, de tempo, de educação, de pluralidade de experiências e da liberdade de contestar autoridades e até da capacidade de manutenção material. Uma pessoa pode ter capacidade para pensar e viver num ambiente que castiga sistematicamente o seu exercício. Pode ter informação e não ter tempo para a trabalhar; pode ter liberdade formal para discordar e saber que o preço será perder o lugar que ocupa. A capacidade não desaparece, mas as condições para a exercer podem tornar-se inviáveis. O mais vulgar é ouvir perguntar por que razão as pessoas não pensam.

A emancipação pediria recuperar a possibilidade de interrogar os instrumentos com que pensamos e transformar as relações materiais que fazem da dependência uma rotina. Não se trata de escolher entre mudar a consciência ou mudar o mundo. A separação entre as duas coisas é que talvez seja o miolo do problema.

Por isso regresso ao princípio. O indivíduo pode continuar a falar, a votar, a trabalhar, a defender as suas ideias, convencido de que exerce a sua autonomia, dentro de um horizonte de significados que já não consegue interrogar. A dominação não precisa de eliminar a consciência. Pode organizar o seu funcionamento. E talvez a alienação mais difícil de reconhecer seja precisamente aquela que não se apresenta como perda, que não dói, que até oferece algum conforto. Ninguém lhe chama alienação. Chama-lhe convicção, bom senso, identidade, liberdade, ser gente de bem.


Talvez a liberdade comece no instante em que recuperamos a possibilidade de perguntar de onde vêm as ideias com que julgamos estar a pensar por nós próprios. Não sei se isso chega. Desconfio e espero que não. Mas poderíamos começar por aí?

Mário Pinto, Madrid, 2026



sábado, outubro 31, 2026

Nunca cinzento!

Hoje, agora, acreditando sentir-me de forma idêntica a quando, já fora daquele corpo, senti pela primeira vez o ar frio deste apodrecimento, estado ao qual a música costuma aproximar-me com crescente frequência — ultimamente quase de maneira constante —, encontrei necessário trazer de novo aqui esta canção.

Sem que seja por se tratar de uma suposta canção de amor — as canções, e as suas letras, quase nunca se limitam apenas à intenção original do autor —, esta possui a faculdade de abrir a porta a uma pergunta que, coisas da subtileza da consciência, costuma permanecer num reduto que, como muito, tem somente a luz de uma janela e que, assim mesmo, não considero útil o trabalho de tentar descortinar para que a possa iluminar. Questão essa que, só por tal decisão, se adivinha incómoda.

Não me considero um «Bonzinho» nem acredito que existam, deploro a violência, mesmo que já tenha sido recurso, último. Não procuro permanecer nos mundos que, imaginados, alimentavam a comunhão com outros putos, nem sequer perceber que a vida pode deixar de ser uma brincadeira, ainda que muito séria. Porém, aceitar a necessidade de tomar como atitude o desprezo ou adoptar um olhar distante e evasivo não é algo que contemple; acredito que nunca o será, como o cinzento da conveniência. Antes a monocromática dualidade de construir ou destruir, e é aí que me precipito na mais lacerante solidão em que este frio não faz sentido.

Como fui capaz de manter a música soando? Interessante proposta de inflexão. Se até aquela matriz arrefeceu, se todas as referências se esfumaram e a sua legitimidade se desvaneceu, como resultado da constante inquirição inerente à permanência neste provisório laboratório que, sem que cesse a análise, me revela a necessidade de lhes retirar o crédito, mesmo permanecendo convicto da inevitabilidade de me continuar a entregar à incerteza com o arrojo próprio da espécie; se ao cansaço lhe somarmos essa erosão da base vital em que confiamos para nos recuperar, já não tenho resposta, antes a certeza de jamais me permitir a falta de coerência. Ética que sempre procurei conservar, condição reforçada durante este outubro com o incremento tão inusitado quanto prolífico da actividade literária bem como da disposição para resolver as inúmeras dúvidas que durante estes dias se soltaram e que hoje partilho.

Não quero deixar que a música pare, seria insuportável continuar apenas com o ruído de tantas correntes que se arrastam por aí e que não podem traduzir a vida.

Mário Pinto, Madrid, 2026

sexta-feira, outubro 30, 2026

… e a Buttuller fechou.

Todas as manhãs, o uniforme.

Ninguém lhe chama disfarce.
Chamam-lhe vestir-se,
chamam-lhe ser.

Poderia vesti-lo.

Caberia na submersão massiva,
deixaria de ser excepção.

Já durmo uma parte da vida,
a totalidade desapareceria se disfarçado.

Fazer disso ofício,
profissional circense: não resolve.
Já ninguém parece ser outra coisa,
muitas vezes sem dar por isso,
ou sem que ali signifique o mesmo.


São tantas as dimensões
quantos paridos.

Vale a pena esta forma
que se supõe aceite,
expor-se à crítica dual da plateia
ou do próprio elenco,
tantas vezes com o manual de instruções
como único papel?

Este despudorado capricho do universo
quase explicado pela física
deveria ser mais que a primária aflição
por não possuir o que se não tem,

deveria ser melhor que o que resulta
de tornar o olhar um tribunal.

Carece de sentido, mas
encontra-o o narciso,
encontra-o o inocente, até que cede.

Resistir a atribuir-lho
pode custar a vida.

Rejeito-o.

Mino, Madrid, 2026


quinta-feira, outubro 29, 2026

Saldo

Tudo quanto se aprende
soma dúvida
ao inventário.

A espécie decifra o átomo,
cartografa o invisível,
inunda a distância
entre o impulso e o acto.
Depois, regressa a si.

Há sempre um método
para explicar o irreparável,
uma equação
para repartir o horror,
a incógnita
permanece.

O mundo não existe.
Insiste o problema.

Entre o que sabemos
e o que não fazemos
não falta informação.
Falta qualquer coisa:
o resto
que nenhum paradigma
isolou ainda.

Por um instante,
a música resolve-se
em cadência plagal.
O silêncio,
esse,
escurece tudo
como um foco férvido
alarve.

Mino, Madrid, 2026



quinta-feira, outubro 22, 2026

«¡Yo soy más joven!»

Reloj gamético:
dicen que la edad
está en el cigoto.
El imponderable desgaste
que no es dogma.

Cromosomas perdidos
en el afán, inevitable riesgo,
embrión emancipado, desamparado.
Científica mirada para
lo que empezó sin ser.

Flynn al revés,
carga alostática:
vivimos densos, saturados,
y la red sináptica
rompiéndose en la roca.
Incapaz del sinsentido.

Tu estimulante escuela
no onera culpa.
Y la raíz no es inocua.
Entre hermanos
la prueba susurra.
Trauma, no logro,
aunque en promoción.

Plasticidad, repiten,
como consuelo.
Manta del sistema:
“¡Que exijan poco!”,
y en ferias, festivales
se olvida el déficit.
Aislado el córtex, paga.

Cuando es objeto de estudio
oprime, atropella
y nos acaba devastando.
Y aun así
lo llaman política,
sesgo,
para refinados cobardes.

Fuese yo aún más
joven, de lentes científicas,
consciente de la incertidumbre.
Ojalá me equivoque,
en esta silla.

Mino, Madrid, 2026



domingo, outubro 18, 2026

Dupla fenda (Fundamento da hipótese)

Fenda, mar profundo,
colapso, motivo;
vibra em outro mundo,
molda o campo vivo.
Filtro faz-se mesto,
cosmos, raro gesto.

Trama do passado,
sónico que opera;
tempo desfasado,
o sujeito espera.
Ego quebra o vício,
sombras do seu início.

Fractal, puro alento;
mente sintoniza;
quebra o desalento,
fase estabiliza.
O ponto certeiro,
próprio marinheiro.

Fervor, melodia,
a palavra, o véu;
a razão sentia
o símbolo ao céu.
Inconsciente lesto,
o mudo protesto.

Escolhe o navio,
certeza consciente;
brana, abraço esguio,
condensadamente.
Vence a morte e o fado,
ser entrelaçado.

Mário Pinto, Madrid, 2026



sexta-feira, outubro 16, 2026

Eras tu

esperança de futuro,

de tantos sonho,

que valeu vidas,

hirtas de coragem.

 

E só podes rejeitar-te

como aos dias.

 

Sequer niilista:

esperpento,

arrogante

amuralhado,

só outra máscara corajosa.

 

Se o mutismo,

acto eleito, vontade,

for sorriso

coerente de ser,

contempla,

sente,

experimenta e,

além do hedonismo,

por fim,

liberto da gruta

de paredes de pálpebras,

ainda vencerá

hoje

aquele futuro.


Mino, Madrid, 2026