quarta-feira, junho 24, 2009

Mudar de terra ou a terra?

(...)Devoravam as horas a falar dele, antevendo ambientes que o João da Loja lhes criara quando contava, aos serões, as suas aventuras por outras terras. Aquele homem, de quem se diziam os maiores crimes, tornara-se no alvo dos seus desígnios e na rota do seu futuro. Os dois companheiros punham-se sempre mais perto a escutá-lo; de quando em quando, trocavam olhares entre si, porque o sonho era de ambos e o desejo de abalar dominava-os a todo o momento.(...)

terça-feira, junho 23, 2009

Vós que lá do vosso Império

prometeis um mundo novo,

calai-vos, que pode o povo

qu'rer um Mundo novo a sério.
Vimos muitas miragens no deserto, talvez porque a sede da desafronta nos secasse a lucidez. Precisávamos de ter um povo, criarmo-nos com ele, e caminhámos ao seu encontro sobre nuvens de ilusões, supondo que pisávamos terra firme. E julgámos muitas vezes o País pelo que desejávamos, desconhecendo que as alienações divergem.

Lutadores pela liberdade ou criminosos?

Depois de franco-atiradores da marinha de guerra dos EUA terem disparado à cabeça dos companheiros do somali Abdiwali Abdiqadir Muse, o problema da «pirataria» nas águas costeiras do corno de África assenhorou-se das notícias. Muse e outros somalis, supostamente, tinha sequestrado um barco norte-americano e mantido como refém o seu capitão até que os captores fossem abatidos ou, no caso de Muse, capturado. Estes factos causaram preocupação em muitos observadores progressistas, tal como há quase 40 anos causou Kwame Nkrumah, então o primeiro-ministro do Gana. Este comentou: «por meio da imprensa e da rádio, dá-se conta da captura de “terroristas” por parte das “forças de segurança” (…) os “terroristas” são normalmente descritos como pobremente treinados, mal equipados, desmoralizados e inseguros sobre a causa porque estão a lutar.» Nkrumah continua a observar que «esta recusa a reconhecer os lutadores pela liberdade como soldados é de novo parte da estratégia do imperialismo desenhada para menosprezar os movimentos armados revolucionários, ao mesmo tempo desanimar aqueles que se poderão juntar a eles»…Não se está aqui a sugerir que Muse e os seus companheiros eram lutadorespela liberdade e, possivelmente, há pequenos delinquentes entre as fileiras daqueles que têm capturado barcos nas costas da Somália. No entanto, os media ocidentais têm sido tão persistentes na sua caracterização de todos os que capturam barcos como «piratas» que há pouca gente a saber que um dos primeiros grupos a fazer isto e conhecido como A Guarda Costeira Nacional Voluntária da Somália» foi, de acordo com alguns relatórios, criado por pescadores que se armaram e expulsaram os barcos estrangeiros suspeitos de estarem implicados em actividades de pesca ilegal lançado dejectos em águas somalis.«Um dos primeiros grupos a fazer isto é conhecido como A Guarda Costeira Nacional Voluntária da Somália.»Quando os media de direita nos EUA começaram a pressionar o exército norte-americano para levar a cabo operações em grande escala para limpar o «ninho» de piratas na Somália, havia razões para a preocupação com a alhada em que os legítimos lutadores pela liberdade estavam metidos. Os EUA já estão implicados em actividades militares e operações encobertas, que incluem cumplicidade na mudança do regime da Somália em 2006. Há também uma significativa presença dos EUA numa instalação militar especial em Djibouti. A procura pelos EUA de «piratas», «terroristas» e outros «malfeitores» (como Bush tinha por costume chamá-los) não se limitou ao Corno de África. Há muito tempo que a AFRICOM impôs uma ampla presença ao mais alto nível na costa Ocidental de África – particularmente no Golfo da Guiné e no Delta do Níger.Apesar da sua declarada missão oficial, a AFRICOM está a mostrar ser um veículo para utilização pelos EUA de tropas delegadas dos exércitos africanos para manter África segura para as corporações ocidentais que necessitam aceder aos recursos de petróleo e minério do continente. Compreende-se, por isso, por que razão estão os quadros dirigentes da AFRICOM tão interessados em África Ocidental como estão da Somália. Um estudo do governo nigeriano mostra que durante 2008, o país perdeu 28 milhões de dólares, em consequência de rebentamentos por grupos armados dos seus oleodutos. Além disso, estas organizações sequestraram pessoal das companhias petrolíferas. O estudo do governo estima que no ano passado se perderam cerca de 1.000 vidas, relacionadas com roubo de petróleo e actividades de sabotagem.Os ataques à indústria petrolífera não surgiram do nada. As operações petrolíferas provocaram catástrofes meio-ambientais, arruinaram a pesca, as actividades agrícolas e as fontes de água limpa em numerosos povos do Delta do Níger. Nestas áreas, segundo estimativas do governo, o desemprego excede os 80%, alimenta um espírito de rebelião e resistência entre a juventude que continua a alastrar. Patrick Aziza, um líder tradicional do Reino Okpe no Delta do Níger, pediu aos rebeldes para deporem as armas, mas também reconheceu que a sua frustração fortemente enraizada tem justificação. Esta conclusão é particularmente significativa, até porque provém de um coronel na reserva do exército nigeriano. No entanto, o governo nigeriano começou a traçar planos para reforçar a capacidade de forças militares especiais para combater os rebeldes. Com tanto petróleo em jogo, AFRICOM não ficou na expectativa sem fazer nada. Colaborou na operação de uma «Missão Conjunta de África» que foi, de porto em porto da costa ocidental, treinando pessoal da marinha africano para executarem operações militares úteis aosinteresses das corporações dos EUA na região.AFRICOM justificou as suas actividades afirmando que a região está infestada de crime e terrorismo. Também protestou quando foi acusada de intervenção militar imperialista, insistindo que os EUA foram «convidados» para a região pelos próprios africanos. O almirante Robert T. Moeller, um oficial de alto nível da AFRICOM declarou: «Eles próprios reconhecem ameaças de pirataria, contrabando de petróleo e outros delitos, por isso os africanos nos pediram que déssemos este tipo de assistência.» Além disso, para acalmar receios de que os EUA estão em África para militarizar o continente, deu-se muito ênfase ao trabalho humanitário da AFRICOM. Por exemplo, durante uma «Missão Conjunta de África» entregaram comida a doentes com sida e a órfãos.A história já demonstrou que sempre que corporações estrangeiras criam instabilidade e penúria para as pessoas de África, é mais que seguro que existirão os que estarão decididos a resistir – pelas armas se for preciso. Há já quatro décadas, Nkrumah compreendeu quão fácil é esquecer as causas subjacentes a um conflito amado, trocando-as pelas mentiras dos media e pela caricaturização dos africanos que resistem à exploração estrangeira.Quando se comemorar o Dia da Libertação, nós os que desejamos assegurar a autodeterminação africana deveríamos dar uma particular atenção aos organizadores dos contecimentos e «prestar honras a Nkrumah» (ver: www.africanliberationday.net), esforçando-nos por ser tão habilidosos como ele foi para ver longe no meio de tanto lixo. Quando Moeller diz que «se trata de construir a capacidade dos nossos amigos africanos para que sejam capazes de satisfazer as suas próprias necessidades de segurança», devemos saber, instintivamente, que para a AFRICOM se trata de colar-se a África como uma sanguessuga e secar totalmente os recursos naturais mais valiosos do continente.

*Mark P. Fancher é escritor e activista político.

Este texto foi publicado em www.rebelión.org

Tradução de Pedro Guedes

domingo, junho 21, 2009

Ruy Luís Gomes


(Clica na imagem)

A revolução é hoje!

segunda-feira, junho 15, 2009

Emigrantes, imigrantes, oprimidos e amantes.



A modo de "Cayuco" Africano, similar àqueles que hoje ceifam a vida de centenas de oprimidos pela politica neocolonizadora central, esta fotografia mostra esses mesmos exploradores em tempos remotos, tentando entrar na Venezuela.

"La Elvira", era o nome Espanhol da embarcação que, em 1949, transportava 100 emigrantes "ilegais" para a Venezuela, País no qual residem hoje cerca de 126.000 imigrantes oriundos, na sua maioria, das ilhas espanholas, Canárias, e da Galiza.
Este êxodo teve como momento áureo o período entre 1948 e 1950 e, ainda que perto de 12.000 tenham regressado às origens (algo que no meu caso só acontecerá em horizontal, mesmo respirando). Aparte dos embarques no mar alto, os portos de Lisboa, Marselha, Bordéus ou Gibraltar, eram os cais escolhidos pela emigração Catalã, Andaluza, Galega, Vasca ou Canária, para empreender esse desafio

Tendo pago 4.000 pesetas, que há época era uma quantia bastante avultada, estes 106 seres humanos cruzaram o oceano desde o atraque de Guaira, nas Canárias, fugindo da fome que o regime franquista imprimia à generalidade da população, situação não muito diferente à experimentada esses dias no nosso País.

Depois de 36 dias, nos quais, alimentando-se de grão de trigo tostado ao estilo canário e turnando-se para dormir encima do companheiro, os tripulantes acordavam com o vómito do camarada agradecendo por continuar vivos, chegaram à praia, onde a fome lhes escondeu o cheiro nada agradável de um fruto que desconheciam, o mango.

Estórias foram 106, mas, como exemplo deixo uma que vem asseverar que vale realmente a pena lutar. É a história do Paco Azcona, quem depois de se tornar, à força e muitas vezes por um prato de comida, dormindo na praia e passando na maioria das jornadas essa fome com a barriga cheia de liberdade, pintor civil, criou o orfeão da cidade de Guarena, o liceu da cidade e o primeiro jornal, na companhia da sua amada Ermelinda, uma professora que hoje celebra 83 anos, vítima de alzheimer mas inseparável companheira de Paco.

A revolução é hoje!

domingo, junho 07, 2009

Aos abstencionistas

Votar nulo é, sem dúvida, uma demonstração de falta de esclarecimento politico, podendo assim mesmo interpretar-se como covardia, ignorância, e, sobretudo quando propagandeado, manipulação.
O voto em branco, pode, dependendo da constituição das mesas, facilitar a conspurcação de um acto que deve transmitir a vontade real dos cidadãos, prestando-se a ser preenchido com uma "holding" daqueles que nos roubam.
Votar nulo, branco, ou mesmo abster-se, o que representa é, invariávelmente, um apoio às forças maioritárias e, fundamentalmente, do partido com mais votos, enquanto impede registrar o inconformismo de quem perdeu a confiança na democracia.
A única forma de castigar os partidos que nos trouxeram a esta realidade é votar, votar em consciência, votar onde quiseres, votar contra quem apoia o neoliberalismo neocolonizador militarista e federalista da UE.


A revolução é hoje!

sexta-feira, junho 05, 2009

Não será o momento de ganhar coragem?

Para que não restem dúvidas sobre a realidade que vivemos, ainda não sendo um personagem da minha total simpatia, o bastonário da ordem dos advogados, uma vez mais, vem denunciar (independentemente do objetivo pessoal do mesmo) que, mais que fascizante, atravessamos um periodo similar ao vivido antes de 1974, experimentamos os métodos fascistas que habitualmente se empregavam pela PIDE, sendo que, actualmente prescinde-se de uma estructura especializada na matéria, o fascismo é real!

"«Temos em Portugal, em pleno século XXI, situações em que pessoas são torturadas, espancadas brutalmente e submetidas a sevícias corporais com dor aguda para que elas digam o que o inquisidor quer saber», frisou, acrescentando: «É a Inquisição, tudo no processo penal inquisitorial é orientado para a confirmação pelo arguido dos factos».

«Nunca nenhum [arguido] se tentou suicidar quando interrogado pelo Ministério Público ou por um juiz, como também nenhum se tentou suicidar quando interrogado pela polícia com o seu advogado ao lado», disse, em declarações citadas pela agência Lusa."

Já votei!


A revolução é hoje!

A Batalha pela Antártica

O Árctico e a Antartida são as últimas vastas reservas por explorar de recursos minerais do planeta.

Se se realizar a expansão do território da Austrália, isto levará à destabilização da operação dos mecanismos legais internacionais, que já foram seriamente afectados pela proclamação da independência do Kosovo.

Ainda pior, irá abrir a porta a uma nova divisão do mundo em larga escala. O precedente do Pólo Sul poderia ser aplicado ao Pólo Norte, o que converteria a luta pelos recursos do Árctico numa guerra global que, inevitavelmente, envolveria a Rússia.

O dia 13 de Março deste ano marcou o prazo para que os «Estados apresentassem as reivindicações dos seus direitos, o que alguns peritos descreveram como a última partilha de território marítimo na história», segundo informação da Reuters em Outubro de 2007.

Naquela ocasião, o Foreign Office (Ministério dos Estrangeiros) britânico anunciou que iria apresentar uma pedido para expandir o território antárctico da nação em um milhão de quilómetros quadrados, e que apresentaria também «outras quatro pedidos…pelo território do leito marítimo atlântico próximo das Georgias do Sul e das Ilhas Malvinas (Falkland), e também próximo da Ilha Ascensão no Atlântico Sul, perto da Baía de Viscaya no Atlântico Norte, e na cavidade Hatton-Rockall, em frente das costas da Escócia.»

Antes de 1962, o território antárctico britânico era uma dependência das Ilhas Malvinas, incluindo também as Georgias do Sul e a Sandwich do Sul.

No dia 31 de Março deste ano, a Grã-Bretanha fez uma apresentação parcial à Comissão das Nações Unidas, sobre os limites da Plataforma Continental em relação à área Hatton-Rockall, no Noroeste atlântico (Rockall é uma minúscula ilha escarpada, contudo possui uma importância estratégica fora de proporção com o seu tamanho), o que permite ao país ter a sua única pretensão ao direito da plataforma árctica que, segundo cálculos, contém um quinto do petróleo que resta no mundo e quase um terço do gás natural que resta.

Londres iniciou conversações com Islândia, Irlanda e Dinamarca (na sua qualidade de proprietária da Ilhas Faroe) com o fim de utilizar Rockall para introduzir o Árctico na iminente pugna pelos seus recursos, um tema que foi explorado extensivamente noutro estudo desta série.

Numa acção paralela, contudo muito maior, a Grã-Bretanha apresentou no dia 11 de Maio a sua reivindicação à Comissão das Nações Unidas, pelo direito sobre os limites da Plataforma Continental, de um milhão de quilómetros quadrados que cobiça no Atlântico Sul e que se estendem dentro de Oceano Atlântico.

Foi a formalização dos planos revelados inicialmente em Outubro de 2007, e descritos numa informação à comunicação social nessa altura, de um plano para «estender a soberania britânica na Antárctida», uma zona que «cobre uma vasta área do leito marítimo nas proximidades da Antárctida britânica, perto do Pólo Sul».

Imediatamente, nações muito mais próximas da Antárctida e, por isso, com mais direitos a esse território, sobretudo a Argentina, apresentaram queixa de que «o pedido britânico…está em conflito com o Tratado Antárctico de 1959, assinado pela Grã-Bretanha, que impede toda a exploração de petróleo, gás e minerais que não seja para propósitos científicos».

O alarme também ressoou por outros sítios. Pouco depois da declaração britânica o jornal chinês People’s Daily informava:
«O Pólo Sul, um mundo de gelo e neve, converteu-se num ponto álgido nos últimos anos. O Ministério dos Estrangeiros argentino declarou que os Vice-ministros dos Estrangeiros da Argentina e do Chile vão reunir-se no princípio de Dezembro, para discutir o tema do Pólo Sul, e elaborar uma estratégia conjunta para boicotar os pedidos de soberania britânica sobre a plataforma continental do Pólo Sul».

A mesma fonte forneceu os seguintes elementos:
«A imensidade da terra aparentemente árida, coberta de gelo, revela-se e expõe-se ao mundo exterior, revelando um “mar de tesouros”», com depósitos e reservas de energia incrivelmente abundantes. Existe uma capa de carvão do Período Pérmico no continente e contém 500.000 milhões de toneladas de reservas conhecidas.

«A espessa abóbada de gelo sobre a terra alberga a maior reserva de água fresca do mundo; contém aproximadamente 29,3 milhões de metros cúbicos de gelo e forma 75% do abastecimento de água fresca da terra.

«Pode dizer-se que o Pólo Sul poderia alimentar todo o mundo com os seus abundantes stocks de alimentos (peixes) e água fresca».

E avisou que «o valor do Pólo Sul, não se limita à esfera económica, também reside na sua posição estratégica».

«Há já algum tempo que a Guarda Costeira dos Estados Unidos mantém guarnições na região e a Força Aérea dos Estados Unidos é a potência número um na zona».

«O Tratado do Pólo Sul (Antárctico) especifica que o Pólo Sul só pode ser explorado e desenvolvido com objectivos pacíficos, e não pode ser um campo de batalha. De outra forma, o Pólo Sul, coberto de gelo, podia converter-se num campo de batalha de um calor atroz».

Semanas depois da declaração britânica de 2007, o Ministro da Defesa do Chile, José Goñi, e o chefe de Estado-Maior da Força Aérea, Ricardo Ortega, visitaram o Pólo Sul, e declararam que a utilização da base naval Arturo Prat seria reactivada formalmente em Março de 2008.

«Goñi declarou que a reactivação da base naval, juntamente com outras duas bases militares na região Antárctida, serviam para demonstrar a presença e soberania do Chile»…

Um jornal canadiano descreveu outro elemento da intensificada febre e luta pela Antárctida.

“Porquê sentiria alguém a necessidade de reivindicar o seu direito a um território diante das costas da Antárctida, uma ilha quase desabitada, a que só lá chegámos há cem anos? A motivação jaz nas profundezas marítimas: minerais, petróleo, gás».

Em Outubro de 2007, o Ministério dos Estrangeiros russo respondeu aos planos antárcticos da Grã-Bretanha declarando: «Por ser uma das nações que deram as maiores contribuições ao Tratado (Antárctico) de 1959 e aos estudos da Antárctida, este país tem trabalhado consequentemente contra a ideia da divisão da Antárctida na base de pedidos territoriais unilaterais e não reconheceu estas».

Um das apreciações mais directas sobre o projecto de divisão da maior área do planeta que não foi explorado veio de um jornal escocês:
«Desde a Idade de Ouro do Império, a Grã-Bretanha não havia reclamado o seu direito a uma área tão vasta da terra na cena mundial. E, embora o Império Britânico tenha desaparecido há já algum tempo, a Antárctida emergiu como o último campo de batalha para potências rivais, que competem em diversas frentes para conseguir territórios ricos em petróleo».

A autora deste artigo citado, Tanya Thomson, caracterizou o que está em jogo.

«A Grã-Bretanha prepara reivindicações territoriais sobre dezenas de milhares de quilómetros quadrados do fundo do Oceano Atlântico junto das Falkland (Malvinas) e da ilha Rockall, na esperança de anexar campos petrolíferos e de gás potencialmente lucrativos.

«A reivindicação do direito sobre as Falkland (Ilhas Malvinas) tem o maior potencial para consequências políticas, já que a Grã-Bretanha e a Argentina combateram pelas ilhas há 25 anos, e sabe-se que o valor do petróleo no fundo do mar da região é imenso. Ensaios sísmicos feitos sugerem que poderia haver 60.000 milhões de barris de petróleo no fundo do oceano».

«É inevitável que explorarão a área em busca de petróleo e gás. Vejam o que sucedeu nas Falkland (Malvinas) em 1982. Mas tratava-se de um continente desabitado e havia uma diplomacia dura e sanções se uma guerra estivesse a ponto de estalar pela Antárctida».

Com a aproximação do prazo de 13 de Maio de 2009 para apresentar reclamações sobre a Antárctida, a Rússia enviou em Janeiro à Antárctida o explorador e membro do Parlamento, Arthur Chilingarov, como representante especial do Presidente russo para a cooperação internacional no Árctico e Antárctida. Chilingarov dirigiu a expedição russa que colocou a bandeira nacional no leito marítimo do Pólo Norte em 2007.

O responsável pela expedição «Antárctida 2009», acompanhado por outros parlamentares, disse nessa altura: «Estamos a demonstrar definitivamente a todo o mundo que temos planos sérios para continuar com a investigação polar».

No que toca à Argentina, a intenção da Grã-Bretanha de formalmente atribuir a si própria uma área de um milhão de quilómetros quadrados da Antárctida, foi precedida pela concessão pelo Reino Unido de uma nova constituição para as Ilhas Malvinas em Novembro passado, concedendo-lhe um maior grau de autonomia nominal, mas confirmando o poder de Londres sobre «os negócios estrangeiros, defesa, segurança interna e justiça».

A Argentina apresentou um protesto e o seu Ministério dos Negócios Estrangeiros fez a seguinte declaração: «Esse acto unilateral britânico constitui, sobretudo, uma nova e aberta violação da Resolução 31/49 de 1976 da Assembleia-Geral da ONU, que urge que ambas as partes em disputa (Argentina e Reino Unido), se abstenham de tomar decisões unilaterais».

Buenos Aires condenou a acção britânica como uma «violação da soberania argentina e do direito internacional».

Em Janeiro deste ano, a Argentina renovou as suas preocupações pela «anacrónica situação colonial inadequada para o rumo e evolução do mundo moderno».

Perante a proximidade do 13 de Maio, a Argentina apresentou em fins de Abril uma contra-pedido baseada em doze anos de investigação, para questionar «a ilegítima ocupação britânica dos arquipélagos do Sul» e declarou que a “sua plataforma continental se estende desde o continente sul-americano e Antárctico, e desde um arquipélago de ilhas que a Grã-Bretanha também reivindica».

Ambas as pedidos devem ser examinadas e adjudicadas pela Comissão das Nações Unidas para os Limites da Plataforma Continental, sobre a base do Artigo 76 da Convenção das Nações Unidas da Lei sobre o Direito Marítimo, todavia, é indiscutível que há mais em jogo do que pormenores legais. A disputa é pelo controle de vastos recursos naturais, incluindo hidrocarbonetos, uma riqueza mineral incalculável, o maior fornecimento de água fresca do mundo e direitos de pesca, assim como posicionamento geoestratégico, incluindo objectivos militares.

O interesse intenso que mostram pela Antárctida não é só por parte da Grã-Bretanha, também é pelo seu antigo apêndice colonial, a Austrália, que examinaremos mais adiante, não é só um caso isolado de luta agressiva, se não for ilegal, por energia estratégica e interesses económicos no estrangeiro às custas dos outros – todos os outros – mas parte de um modelo acelerado das principais potências ocidentais, e dos seus postos militares avançados, para conseguir o controle dos recursos mundiais a um ritmo vertiginoso.

A mesma campanha ocidental, actuando em diversas coligações ad hoc ou antigas, mas principalmente no condomínio militar colectivo que é a OTAN, é realizado no Círculo Árctico, no Golfo Pérsico, na cavidade do Mar Cáspio e no continente africano, particularmente no Golfo da Guiné

No Oceano Atlântico, não se limita ás manobras audazes da Grã-Bretanha, que nunca teriam sido tentadas, sem a cumplicidade dos seus aliados, mas também a uma acção pouco visível e da mesma grande escala e carência de precedentes, por parte da Austrália.

Em Abril do ano passado, a Comissão da ONU sobre os Limites da Plataforma Continental – através, sabe-se lá de que combinação de docilidade perante os poucos escolhidos e da negligência internacional – concedeu à Austrália 2,5 milhões mais de quilómetros quadrados no Oceano Atlântico, de modo que o território do país, nas palavras do Ministro de Recursos, Martin Ferguson, «expandiu-se para uma área cinco vezes o tamanho da França», o que, potencialmente, poderia assegurar uma «bonanza» em reservas de petróleo e gás no fundo do mar.”

«A decisão concede à Austrália direitos ao que existe sobre e debaixo da água do mar, incluindo reservas de petróleo e gás e também recursos biológicos potencialmente lucrativos».

A expansão das fronteiras do leito marítimo da Austrália, incluiu a meseta Kerguelen, perto da Ilhas Heard e McDonald, e prolonga-se em direcção ao sul, até à Antárctida. Desta forma, a Austrália converte-se na primeira nação a que se concedem direitos de propriedade exclusiva do oceano.

Referindo-se à secessão de Kosovo da Sérvia, organizada pelo Ocidente, dois meses antes, Dmitry Yevstafyev, do Centro de Estudos Políticos em Moscovo, pronunciou esta grave advertência:
«Este precedente é muito mais perigoso do que a independência do Kosovo. Surpreende-me que as autoridades russas tenham mantido silêncio sobre isso. Têm de declarar que é uma decisão ilegal, que origina um precedente perigoso, e exigir que o Secretário-Geral da ONU explique o raciocínio por detrás desta decisão».

«Se se formaliza a expansão do território da Austrália, destabiliza-se a operação dos mecanismos legais internacionais, que já foram seriamente afectados pela proclamação da independência do Kosovo».

«Pior ainda, vai abrir-se a porta para uma nova divisão em grande escala do mundo. O precedente do Pólo Sul poderá ser aplicado ao Pólo Norte, o que fará converter a luta pelos recursos do Árctico numa guerra global que, inevitavelmente, envolverá a Rússia».

O Tratado Antárctico de 1959, estipula que: «Nenhum acto ou actividade que tenha lugar enquanto o presente Tratado esteja em vigor, constituirá uma base para afirmar, apoiar ou negar uma reivindicação de soberania territorial na Antárctida, ou criar algum direito de soberania na Antárctida».

O chefe-adjunto da expedição russa à Antárctida, Vladimir Kuchin, declarou naquela ocasião, que «O Tratado Antárctico não reconhece nenhuma reivindicação por direitos, e a ONU não possui nenhum território e, por conseguinte, não pode aprovar extensões territoriais».

Um ano depois, a Austrália deu a conhecer o seu maior crescimento militar desde a Segunda Guerra Mundial, que inclui um aumento de 72.000 milhões de dólares com despesa militar, e a aquisição de doze submarinos «hunter-killer», três novos destruidores-interceptores de mísseis, todos equipados com mísseis de cruzeiro «Tomahawk», com um alcance de 2.200 quilómetros, e 100 «F-35 Lightning Joint Strike Fighters» americanos.

Esta nova máquina bélica contará agora com mais 2,5 milhões de quilómetros quadrados para se alargar e manobrar sobre o Oceano Atlântico, que segundo estipula o Tratado Antárctico deve manter-se livre de equipamentos e armamentos militares.

O Tratado declara que «é de interesse para toda a humanidade que a Antárctida seja sempre utilizada, exclusivamente para propósitos pacíficos, e não se converta no cenário ou no objecto de discórdia internacional», e que «a Antárctida seja utilizada só para propósitos pacíficos. Ali estarão proibidas, entre outras coisas, quaisquer medidas de natureza militar, como ter bases e fortificações militares, a realização de manobras militares, assim como o ensaio de todo o tipo de armas».

A Austrália, massivamente militarizada, terá a liberdade para deambular pelo extenso e auto-proclamado Território Antárctico australiano, apenas reconhecido pela Austrália e Grã-Bretanha, França, Nova Zelândia e Noruega, entre 192 nações do mundo.

Como foi formulado por um escritor do Reino Unido há mais de ano e meio: «Os dias do imperialismo britânico poderão ter ficado para trás, contudo os críticos receiam que estejamos a forjar um novo império, com sérias implicações políticas».

E no que se refere à Grã-Bretanha aplica-se com força comparável aos seus aliados na Europa, América do Norte e Sul do Pacífico.

Com o fim da Guerra-Fria, há quase vinte anos, qualquer ponto da terra, que tivesse escapado aos 500 anos de colonialismo europeu e aos seus sucessores neo-colonialistas europeus e americanos, converte-se agora num alvo legítimo para a avareza e agressão do Ocidente. O extremo sul do mundo não é excepção.

A liquidez anula o significado de "inflação"

Os termos convencionais de inflação e deflação já não são adequados para descrever o efeito monetário geral do excesso de liquidez recentemente libertado pelo US Federal Reserve, o banco central do país, para sanar o esmagamento do crédito que já perdura há um ano.

Isto acontece porque a abordagem adoptada pelo Tesouro e pelo Fed para tratar de uma crise financeira de dívida insustentável criada pelo excesso de liquidez é injectar mais liquidez na forma tanto de nova dívida pública como de dinheiro recém-criado na economia e canalizá-lo para instituições carregadas de dívida a fim de reflacionar uma bolha de preços de activos conduzida pela dívida já estourada.

O Tesouro não tem qualquer poder para criar dinheiro novo. Ele tem de tomar emprestado no mercado de crédito, transformando portanto dívida privada em dívida pública. O Fed tem a autoridade para criar dinheiro novo. Infelizmente, o dinheiro novo do Fed não tem ido para os consumidores na forma de pleno emprego com elevação de salários a fim de restaurar a procura em queda, mas ao contrário tem ido apenas para instituições aflitas infestadas de dívida a fim de que possam desalavancar da dívida tóxica. Portanto a deflação no mercado de acções (com preços em queda) tem sido amortecida pelo dinheiro recém emitido, ao passo que o rendimento salarial agregado continua a cair e, mais uma vez, a reduzir a procura agregada.

A procura em queda deflaciona os preços das mercadorias, mas não o suficiente para restaurar a procura porque os salários agregados estão a cair mais rapidamente. Quando instituições financeiras desalavancam com o dinheiro gratuito do banco central, os credores recebem o dinheiro ao passo que o Fed assume o passivo tóxico através da expansão do seu balanço. O desalavancamento reduz custos financeiros ao mesmo tempo que aumenta o fluxo de caixa para permitir a instituições financeiras zumbis retornarem à lucratividade nominal com rendimento não ganho, enquanto despedem trabalhadores para cortar no custo operacional. Portanto temos inflação do lucro financeiro com deflação de preços numa economia em retracção.

O que teremos pela frente não é uma hiper-inflação de preços do tipo República de Weimar, mas sim uma inflação do lucro na qual instituições financeiras zumbis se tornam nominalmente lucrativas numa economia em colapso. O perigo é que este lucro financeiro nominal e não ganho seja interpretado erradamente como um sinal de recuperação económica, induzindo o público a investir o que resta da riqueza que ainda possui, só para perder mais no colapso seguinte do mercado, o qual acontecerá quando estourar a bolha do lucro.

A hiper-inflação é fatal porque a cobertura (hedging) contra ela provoca fracassos do mercado que destroem riqueza. Normalmente, quando os mercados estão a funcionar, a inflação não coberta (unhedged) favorece os devedores ao reduzir o valor dos passivos que eles devem aos credores. Ao invés de destruir riqueza, a inflação não coberta simplesmente transfere riqueza dos credores para os devedores. Mas com a intervenção do governo no mercado financeiro, tanto os devedores como os credores são os contribuintes. Em tais circunstâncias, mesmo inflação moderada destrói riqueza porque não há partes vencedoras.

Dívida denominada em moeda fiduciária é riqueza tomada emprestada para ser reembolsada posteriormente com riqueza armazenada em dinheiro protegido pela política monetária. A desalavancagem da banca com o novo dinheiro do Fed cancela dívida privada ao valor facial pleno com dinheiro que não foi ganho por ninguém, isto é, sem riqueza armazenada. Esta espécie de dinheiro é tóxica pois quanto mais valioso for (com poder de compra acrescido para comprar mais quando os preços deflacionam), mais degrada ele a riqueza porque nenhuma riqueza foi posta no dinheiro a ser armazenado, negando portanto o pré-requisito do dinheiro como armazenador de valor.

Isto não é destruição da procura porque o declínio na procura é temporariamente atrasado pelo novo dinheiro. É, ao contrário, a destruição do dinheiro como um restaurador de valor ao mesmo tempo que produz um efeito enganoso e desconcertante sobre a procura agregada.

Pensar acerca do valor de qualquer activo real (ouro, petróleo e assim por diante) em termos de dinheiro (dólar) é enganoso. O caminho correcto é pensar acerca do valor do dinheiro (dólares) em termos de activos (ouro, petróleo), porque activos (ouro, petróleo, etc) são riqueza. O Fed pode criar dinheiro, mas não pode criar riqueza.

Os banqueiros centrais são suficientemente astutos para saberem que apesar de poderem criar dinheiro, não podem criar riqueza. Para atar dinheiro a riqueza, os banqueiros centrais devem combater a inflação como se ela fosse uma praga financeira. Mas a primeira lei do crescimento económico declara que para criar riqueza através do crescimento, alguma inflação tem de ser tolerada.

A solução então é fazer com que os trabalhadores pobres paguem pelo sofrimento infligido pela inflação dando aos ricos a maior fatia da riqueza monetizada criada através da inflação, de modo a que a perda do poder de compra devida à inflação seja suportada principalmente pelos trabalhadores pobres de baixos salários e não pelos possuidores de capital, cujo valor monetário é protegido da inflação através de salários baixos. Portanto os trabalhadores pobres perdem tanto nos tempos de expansão como nos tempos de declínio.

O monetarismo considera a inflação como benigna na medida em que os salários ascendam a um ritmo mais lento do que os preços dos activos. A lei de ferro monetarista dos salários funcionou na era industrial, com o excesso de capacidade resultante absorvido pelo consumo conspícuo das classes endinheiradas, embora isto finalmente anunciasse uma era de revoluções. Mas a lei de ferro dos salários já não funciona mais na era pós-industrial na qual o crescimento só pode vir da administração da procura em massa porque a super-capacidade cresceu para além da possibilidade de o consumo conspícuo de uns poucos a absorverem numa democracia económica.

Este tem sido o problema básico da economia global durante as últimas três décadas. Salários baixos mesmo em tempos de expansão levaram o mundo ao seu actual estado lamentável de super-capacidade mascarada pela procura insustentável criada por uma bolha da dívida que finalmente implodiu em Julho de 2007. Todo o mundo está agora a produzir bens e serviços feitos por trabalhadores de baixos salários que não podem permitir-se comprar aquilo que fazem excepto assumindo dívidas que acabarão por incumprir pois os seus baixos rendimentos não permitem servi-la.

Todos os gastos de estímulo de todos os governos perpetuam esta disfuncionalidade. Não haverá recuperação deste sistema financeiro disfuncional. Só a reforma rumo ao pleno emprego com salários em ascensão salvará esta economia severamente defeituosa.

Como é que isso pode ser feito? É simples. Basta tornar o custo de aumentos salariais dedutíveis do imposto sobre o rendimento corporativo e tornar as poupanças decorrentes de lay-offs tributáveis como rendimento corporativo.