quarta-feira, setembro 09, 2026

Ainda Weidel, a AfD e a arquitectura cognitiva da extrema-direita

 

Uma hipótese interdisciplinar sobre a exploração política da neofobia, do aposematismo, da sinalização, da categorização e das características cognitivas e sociais da espécie humana

1. Nenhum mecanismo isolado explica a extrema-direita

A ascensão da extrema-direita, do fascismo ou, em determinadas circunstâncias históricas, de formas políticas ainda mais extremas como o nazismo, não pode ser explicada por uma causa única.

Nem a economia, isoladamente.

Nem a imigração.

Nem a propaganda.

Nem o medo.

Nem a ignorância.

Nem a neofobia.

Nem a capacidade cognitiva.

Nem a desumanização.

Nenhum destes factores, considerado isoladamente, é suficiente para explicar a transformação de uma sociedade numa estrutura politicamente autoritária ou a ascensão eleitoral de movimentos de extrema-direita.

A hipótese desenvolvida neste texto é outra: determinados fenómenos tornam-se particularmente eficazes quando diversos mecanismos biológicos, psicológicos, cognitivos, sociais e políticos passam a reforçar-se mutuamente.

Entre eles encontram-se a prudência perante o desconhecido, a neofobia, o reconhecimento de sinais, a identificação de padrões, a maior visibilidade daquilo que se afasta do padrão, a necessidade de pertença, a procura de segurança, o medo, a simplificação cognitiva, a intolerância à ambiguidade, a rigidez ou inflexibilidade cognitiva, a repetição discursiva, a propaganda, a atribuição de rótulos, a categorização, a conformidade grupal, a transferência do julgamento individual para o grupo, a segregação, a perda progressiva da individualidade do outro e, no extremo, a desumanização.

A hipótese central pode ser formulada de forma simples:

os movimentos autoritários não necessitam de criar todos os mecanismos psicológicos que exploram; podem organizar politicamente características que já existem, em diferentes graus, na própria espécie humana.

O perigo não reside necessariamente em cada mecanismo. Reside na sua combinação e, sobretudo, na possibilidade de que essa combinação seja transformada numa arquitectura política coerente.

É importante, porém, evitar um erro simétrico: esta hipótese não permite afirmar que os eleitores da extrema-direita sejam simplesmente «menos inteligentes». A capacidade cognitiva, a flexibilidade mental, a tolerância da ambiguidade e a capacidade de diferenciação podem relacionar-se com determinadas atitudes políticas, mas não constituem uma explicação total do fenómeno.

Uma meta-análise de Emma Onraet, Alain Van Hiel, Kristof Dhont, Gordon Hodson, Mark Schittekatte e Sarah De Pauw, publicada em 2015 no European Journal of Personality, reuniu 67 estudos, com 84.017 participantes, e encontrou uma associação média de r = −0,20 entre capacidade cognitiva e atitudes ideológicas de direita. Numa segunda meta-análise, envolvendo 23 estudos e 27.011 participantes, encontraram r = −0,19 entre capacidade cognitiva e preconceito. Os efeitos foram particularmente fortes quando as atitudes analisadas eram autoritarismo e etnocentrismo.

O significado desta associação deve ser formulado com precisão.

Ela não permite afirmar que «ser de direita torna alguém menos inteligente», nem que todo eleitor de direita possua menor capacidade cognitiva. O que demonstra é que, nas populações estudadas, níveis mais baixos de capacidade cognitiva estiveram associados, em média, a uma maior adesão a determinadas atitudes de direita e a maior preconceito.

Essa diferença é importante.

Se uma pessoa dispõe de menor capacidade para decompor uma realidade complexa, distinguir causas, avaliar probabilidades, integrar informação contraditória e comparar hipóteses, torna-se potencialmente mais fácil oferecer-lhe uma explicação política simplificada.

Não significa que ela seja incapaz de pensar.

Significa que o custo cognitivo de pensar até ao fim pode ser maior e que uma narrativa que elimine etapas intermediárias pode tornar-se mais atraente.

Mas esta não é a única possibilidade.

Uma pessoa pode ter dificuldade em julgar porque não consegue decompor adequadamente uma realidade complexa, comparar hipóteses, integrar informação contraditória ou suportar a ambiguidade necessária à formação de um juízo.

Outra pode possuir capacidade suficiente para o fazer e, contudo, ter uma vontade de não pensar até ao fim, porque a conclusão desejada é mais importante do que a avaliação da realidade.

Pode saber que um problema é complexo e desejar uma explicação simples.

Pode reconhecer que existem contra-exemplos e decidir ignorá-los.

Pode encontrar informação que contradiz a sua posição e reinterpretá-la para preservar a conclusão.

Pertença, identidade, estatuto, interesses materiais, lealdade ao grupo ou necessidade de preservar uma convicção previamente adoptada podem tornar cognitivamente conveniente não reabrir uma questão.

Assim, não se trata apenas de saber quem não consegue pensar, mas também de compreender quem pode beneficiar de que os outros não pensem.

É nesta distinção que começa a aparecer uma arquitectura política.

Existe ainda uma segunda dimensão particularmente importante: a flexibilidade cognitiva.

Leor Zmigrod, Peter Jason Rentfrow e Trevor Robbins estudaram especificamente a relação entre inflexibilidade cognitiva e extremismo. Em dois estudos, com um total de 1.047 participantes do Reino Unido e dos Estados Unidos, encontraram evidência de que a inflexibilidade cognitiva objectivamente medida predizia atitudes extremistas, incluindo maior disposição para apoiar violência em defesa do grupo. Os modelos estatísticos explicaram, em média, 31,4% da variância na disposição para morrer pelo grupo, depois de considerados factores demográficos.

O resultado é particularmente relevante porque desloca a discussão da inteligência em sentido genérico para algo mais específico: a capacidade de alterar, rever e reorganizar o próprio processamento perante informação nova.

Uma pessoa pode possuir conhecimentos e, ainda assim, ser cognitivamente rígida.

Pode ser instruída e ser dogmática.

Pode ser intelectualmente sofisticada e, contudo, incapaz de abandonar uma conclusão quando ela entra em conflito com a realidade.

A questão fundamental não é apenas quanto uma pessoa sabe.

É quanto consegue mudar o que pensa quando aquilo que sabe deixa de sustentar a conclusão anterior.

Existe ainda uma terceira dimensão.

Van Hiel, Onraet, Bostyn, Stadeus, Haesevoets, Van Assche e Roets, numa meta-análise publicada em 2020, reuniram 177 amostras, num total de 47.933 participantes, e encontraram uma associação de r = .31 entre atitudes ideológicas de direita e tendências agressivas. A associação apareceu tanto em atitudes perante a violência como em indicadores comportamentais, embora fosse mais forte para as primeiras.

Também aqui é necessário evitar a simplificação: isto não significa que «os eleitores de direita são violentos». Significa que, nas amostras estudadas, atitudes ideológicas de direita estiveram associadas a maiores tendências agressivas.

Quando estes três resultados são colocados lado a lado — menor capacidade cognitiva associada a determinadas atitudes de direita e preconceito; inflexibilidade cognitiva associada a extremismo; e atitudes de direita associadas a tendências agressivas — começa a surgir uma estrutura empiricamente mais interessante.

Não é:

direita → menor inteligência → violência.

É antes:

menor capacidade média de processamento → maior vulnerabilidade à simplificação;

rigidez cognitiva → maior dificuldade de revisão;

categorização rígida → maior facilidade de pensar em termos de «nós» e «eles»;

ameaça percebida → maior probabilidade de resposta hostil;

e determinadas estruturas ideológicas podem ligar estes mecanismos numa narrativa política.

É nesta combinação, e não numa característica isolada, que a hipótese ganha força.

Além disso, a noção de «estados evolutivos anteriores» deve ser utilizada com enorme cuidado. Não é cientificamente correcto afirmar que um eleitor de extrema-direita seja literalmente «menos evoluído». A evolução não produz uma hierarquia moral entre seres humanos contemporâneos.

Mas é possível formular uma hipótese diferente e mais rigorosa:

determinadas formas de resposta política podem depender mais fortemente de mecanismos cognitivos e emocionais ancestrais — detecção rápida de ameaça, categorização do grupo, defesa territorial, conformidade, agressividade perante o exterior e procura de um líder protector — que a cultura, a educação e o pensamento abstracto procuram precisamente moderar.

Nesse sentido, o problema não é que alguns indivíduos pertençam a uma fase anterior da evolução.

É que podem recorrer mais intensamente a mecanismos adaptativos muito antigos, enquanto utilizam menos os mecanismos cognitivos que permitem submetê-los a análise, revisão e controlo.


2. O aposematismo: a origem biológica do princípio da sinalização

Para compreender correctamente esta hipótese, é necessário começar pelo conceito biológico de aposematismo, sem ainda o transferir para a sociedade humana.

No reino animal existem organismos que possuem características capazes de causar dano a potenciais predadores: podem ser venenosos, tóxicos, perigosos, desagradáveis ao consumo, capazes de infligir dor ou possuir outros mecanismos defensivos.

Se um predador tivesse de descobrir, através da experiência directa, quais os organismos perigosos e quais os que não o são, o custo dessa aprendizagem poderia ser elevado.

O aposematismo resolve parcialmente esse problema através da sinalização. Determinadas espécies apresentam sinais particularmente conspícuos — cores, contrastes, padrões ou outras características — que facilitam o reconhecimento.

A lógica biológica fundamental pode ser resumida desta forma:

um organismo perigoso apresenta um sinal reconhecível; o receptor aprende ou reconhece esse sinal e, perante ele, adopta prudência ou evitamento.

O sinal não é necessariamente perigoso por si. É um indicador.

A sua função consiste em permitir que o receptor associe determinado padrão a uma possível consequência.

É importante, por isso, distinguir a característica real do organismo do sinal que permite reconhecê-la. Um animal pode ser venenoso; mas o veneno não é necessariamente aquilo que o predador vê. O sinal pode ser a coloração.

A biologia produz assim uma distinção fundamental entre aquilo que uma coisa é e aquilo que permite que seja reconhecida.

É precisamente esta distinção, e não uma equivalência entre animais e seres humanos, que interessa conservar.

O interesse da analogia encontra-se no princípio da sinalização e do reconhecimento: perante informação incompleta, um receptor pode utilizar uma característica perceptível como atalho para antecipar uma consequência.

É uma solução adaptativa quando a análise completa é demasiado dispendiosa.

Mas precisamente por ser um atalho, pode também produzir erros.


3. Animais perigosos, animais inofensivos e o problema da imitação

O fenómeno torna-se ainda mais interessante porque nem todos os organismos que apresentam sinais semelhantes possuem necessariamente a mesma capacidade defensiva.

Existem formas de imitação em que um organismo inofensivo pode beneficiar por ser confundido com outro perigoso. O receptor aprendeu a associar determinado padrão a uma consequência e responde preventivamente, mesmo quando a característica que originalmente justificava essa resposta não está presente.

Uma mesma lógica pode ser observada na distinção entre aparência e comportamento. O cação e o tubarão, apesar da proximidade morfológica e de pertencerem ao mesmo grande grupo biológico, não são indistinguíveis nas suas características ecológicas e comportamentais. Do mesmo modo, podem existir semelhanças fenotípicas entre determinadas populações ciganas e determinadas populações do subcontinente indiano — uma relação que não é surpreendente, dada a origem histórica dos povos ciganos — sem que a aparência permita determinar a identidade étnica, e muito menos o comportamento, de um indivíduo. Em ambos os casos, um sinal visível pode facilitar um reconhecimento ou uma classificação inicial, mas não contém, por si só, informação suficiente para substituir a análise da realidade que representa. A passagem indevida do sinal para uma conclusão sobre o indivíduo é precisamente o ponto em que um mecanismo de reconhecimento pode transformar-se num mecanismo de erro.

O receptor pode, portanto, reagir não à realidade completa do objecto, mas ao sinal que aprendeu a associar-lhe.

Assim se desenvolve um mecanismo de grande simplicidade:

sinal reconhecível → associação aprendida → antecipação de consequência → resposta.

O receptor não necessita de investigar profundamente cada organismo. Reconhece um padrão e responde.

Esta economia cognitiva possui valor adaptativo no mundo animal. Mas revela também um princípio mais amplo: o reconhecimento de sinais permite respostas rápidas sem uma análise completa do objecto concreto que está perante nós.

É aqui que se torna possível uma analogia, necessariamente prudente, com determinados processos humanos.

Os seres humanos também utilizam sinais, símbolos, códigos, linguagens, uniformes, estilos, referências, rótulos, marcas, sotaques e outras características que permitem identificar rapidamente pertenças e diferenças.

Não significa isto que os seres humanos funcionem como predadores perante organismos venenosos. Significa apenas que o reconhecimento de padrões constitui uma característica importante da cognição humana.

E existe uma consequência particularmente importante:

um mecanismo que permite decidir rapidamente também pode permitir decidir antes de conhecer suficientemente aquilo sobre que se decide.

Quando a resposta primária é corrigida pela análise, o atalho cognitivo pode cumprir uma função útil.

Quando a análise é dispensada, o mesmo atalho pode transformar-se numa fonte de erro sistemático.

A sequência cognitivamente mais complexa seria:

diferença → reacção primária → observação → análise → ponderação → decisão.

A sequência rudimentar é outra:

diferença → aversão → ameaça → rejeição.

A existência da primeira não elimina a segunda.

E a política pode explorar precisamente o espaço entre ambas.


4. Da biologia à sociedade: homogeneização, sinais e reconhecimento da diferença

A passagem da biologia para a sociedade humana não pode ser literal.

Uma cultura não é um organismo venenoso.

Uma nacionalidade não é uma espécie animal.

Uma pessoa não pode ser reduzida a um sinal.

Mas o princípio do reconhecimento permite formular uma hipótese funcional.

As sociedades humanas produzem constantemente sinais através do vestuário, da linguagem, do sotaque, da religião, dos símbolos, das referências culturais, dos hábitos, dos códigos de comportamento, das formas de apresentação, das tradições ou das identidades nacionais. Quanto maior for a repetição e a homogeneidade percebida desses elementos, mais facilmente pode surgir um padrão social reconhecível.

A consequência é dupla: por um lado, aumenta a facilidade de identificação do semelhante; por outro, aumenta a visibilidade daquele que se afasta do padrão.

Não seria cientificamente correcto afirmar que a homogeneidade produz xenofobia. O que a homogeneidade pode produzir é uma maior capacidade de reconhecimento da diferença.

Uma sociedade fortemente homogénea fornece um padrão perceptivo mais definido. E quanto mais definido é um padrão, mais facilmente se percebe aquilo que não corresponde a ele.

Assim se desenvolve a primeira ligação entre o princípio da sinalização e a hipótese política:

homogeneidade percebida → padrão reconhecível → diferença mais visível → maior facilidade de categorização.

O multiculturalismo torna este processo particularmente interessante.

Uma sociedade multicultural obriga o indivíduo a efectuar distinções que uma sociedade muito homogénea pode tornar menos necessárias. Obriga a separar diferença de ameaça, desconhecimento de perigo, indivíduo de grupo, comportamento individual de característica colectiva e identidade cultural de risco político.

O multiculturalismo não exige que se goste da diferença. Exige que se seja capaz de viver com ela sem transformar automaticamente a diferença em ameaça.

Neste sentido, a diversidade pode funcionar como um teste de diferenciação cognitiva.

Não porque a pessoa tenha de aceitar indiscriminadamente qualquer comportamento ou prática, mas porque precisa de avaliar concretamente aquilo que encontra, em vez de converter a pertença a uma categoria numa conclusão antecipada.

É também aqui que determinados factores sociais podem alterar a intensidade do processo.

Uma sociedade em deterioro económico, social ou político pode experimentar maior insegurança, perda de confiança, competição percebida por recursos, sensação de perda de estatuto ou medo do futuro.

Esses factores não criam necessariamente a aversão à diferença.

Podem, porém, activar disposições que já existem.

A coexistência de degradação económica e imigração, por exemplo, não demonstra que a segunda seja a causa da primeira. Mas oferece ao discurso político uma oportunidade para estabelecer essa associação.

A sequência pode tornar-se:

deterioração ou insegurança → procura de explicação → identificação de diferença → atribuição de causalidade → ameaça.

O problema real e o responsável político passam então a ser apresentados como se fossem a mesma coisa.


5. A neofobia, a cognição e a transformação da diferença em ameaça

É neste ponto que surge a segunda componente da hipótese: a neofobia.

A neofobia pode ser entendida como uma resposta de prudência, hesitação ou evitamento perante aquilo que é novo ou desconhecido. A sua função original não é política; é adaptativa.

O novo pode ser útil, irrelevante ou perigoso. Antes de o saber, o organismo pode adoptar prudência.

O processo completo pode desenvolver-se através de observação, reconhecimento, avaliação e decisão.

Mas existe uma diferença fundamental entre essa prudência e uma resposta que salta directamente da novidade para a rejeição.

A primeira admite análise:

novidade → prudência → observação → reconhecimento → avaliação → decisão.

A segunda elimina progressivamente essa etapa:

novidade → aversão → ameaça → rejeição.

A neofobia, por si só, não contém uma conclusão política. A passagem decisiva exige interpretação.

E é aqui que entram determinadas características cognitivas.

A realidade social é complexa. Para a compreender é necessário distinguir causas, níveis, indivíduos, grupos, probabilidades e alternativas. É necessário tolerar alguma ambiguidade e aceitar que duas coisas podem ser simultaneamente verdadeiras.

Formas de pensamento mais rígidas ou menos flexíveis podem tornar essa tarefa mais difícil.

A investigação psicológica encontra associações entre determinadas capacidades cognitivas, intolerância da ambiguidade, rigidez ou inflexibilidade cognitiva e algumas formas de autoritarismo, etnocentrismo, preconceito ou extremismo.

Isso não permite concluir que a extrema-direita seja simplesmente produto de menor inteligência, nem que todo eleitor da direita radical possua as mesmas características.

A relação é mais específica:

determinadas formas de processamento cognitivo podem tornar algumas pessoas mais susceptíveis a explicações simplificadas, categorias rígidas e respostas menos tolerantes à ambiguidade.

Mas há ainda uma segunda possibilidade.

Uma pessoa pode ser perfeitamente capaz de efectuar distinções complexas e, mesmo assim, preferir não fazê-lo.

Pode saber que um problema é complexo e desejar uma explicação simples.

Pode reconhecer que existem contra-exemplos e decidir ignorá-los.

Pode encontrar informação que contradiz a sua posição e reinterpretá-la para preservar a conclusão.

Pode possuir capacidade para julgar e, contudo, transferir voluntariamente o julgamento para o grupo.

É por isso que incapacidade de julgar e vontade de não julgar não devem ser confundidas.

Na primeira, existe uma limitação do processamento.

Na segunda, existe uma interrupção voluntária ou motivada do processamento.

A política pode explorar ambas.


6. A difusão da narrativa: o mecanismo essencial que transforma a percepção em ameaça

Uma percepção não explica a si própria.

Uma pessoa pode sentir estranheza perante algo e concluir simplesmente:

«É diferente.»

Pode também pensar:

«Preciso de conhecer melhor.»

Mas um discurso político pode oferecer uma terceira interpretação:

«A tua sensação de estranheza significa que existe uma ameaça.»

É aqui que um mecanismo inicialmente adaptativo pode ser politicamente reorganizado.

O discurso valida a sensação, reforça-a, atribui-lhe uma causa e identifica um responsável. Uma emoção individual passa assim a adquirir um significado colectivo.

O processo desenvolve-se então de forma diferente:

diferença → estranheza → discurso → significado político → ameaça.

A propaganda pode posteriormente consolidar esta associação através da repetição.

Determinado grupo passa a ser associado à insegurança.

Determinada diferença passa a representar perda de identidade.

Determinado símbolo passa a significar ameaça.

Determinado problema económico passa a ser explicado pela presença de determinado grupo.

A repetição possui aqui uma função decisiva. Uma associação repetida muitas vezes pode tornar-se cognitivamente disponível e parecer evidente não porque tenha sido demonstrada, mas porque se tornou familiar.

O discurso já não necessita de provar permanentemente.

Pode repetir-se e, aquilo que é repetido, pode adquirir a aparência de uma realidade auto-evidente.

A extrema-direita pode, assim, realizar uma verdadeira compressão cognitiva da realidade:

há um problema → alguém é responsável → esse responsável pertence a um grupo → esse grupo ameaça-nos → devemos afastá-lo.

Uma realidade complexa transforma-se numa narrativa linear.

A força política dessa narrativa não reside apenas na sua simplicidade. Ela fornece simultaneamente explicação, identidade, pertença, inimigo e solução.

É neste ponto que a economia, a imigração ou o deterioro social deixam de ser explicações suficientes do fenómeno e passam a ser matéria-prima para uma explicação política.

A questão não é apenas aquilo que acontece.

É quem consegue definir o significado daquilo que acontece.


7. Rótulos, categorização, transferência do julgamento e segregação

A segregação não começa necessariamente com uma separação física. Pode começar muito antes, através da criação de uma categoria.

Os seres humanos classificam constantemente a realidade. Algumas classificações são úteis e necessárias. Tornam-se politicamente perigosas quando passam a substituir a individualidade.

Um rótulo pode transformar uma enorme diversidade de pessoas numa categoria aparentemente homogénea.

Assim se desenvolve um processo de redução da complexidade:

indivíduos diferentes → rótulo comum → categoria social → aparente homogeneidade → generalização.

O rótulo permite identificar rapidamente, mas pode simultaneamente impedir a análise.

Em vez de perguntar:

«Quem é esta pessoa?»

passa-se a perguntar:

«A que categoria pertence?»

A resposta à segunda pergunta começa então a substituir a primeira.

A diferenciação pode transformar-se progressivamente numa fronteira simbólica:

rótulo → identificação → diferenciação → fronteira simbólica → separação.

Mas a categoria pode produzir outro fenómeno: a transferência do julgamento individual para o grupo.

A pessoa pode deixar de pensar:

«Eu considero isto verdadeiro porque analisei os argumentos.»

e passar a pensar:

«O meu grupo considera isto verdadeiro; portanto, devo considerá-lo verdadeiro.»

A pertença torna-se cognitiva.

O processo pode assumir diferentes formas. Pode haver confiança voluntária — «não sei, por isso confio». Pode haver identificação — «eles são o meu grupo, portanto a sua posição merece a minha confiança». E pode haver dogmatização — «a minha posição já é verdadeira; tudo o que a contradiga está errado».

É a velha lógica de «Maria vai com as outras», mas transformada num mecanismo político de grande escala:

permeabilidade ao grupo → substituição do julgamento próprio → decisão por conformidade.

Quando a pertença determina o pensamento, o desacordo deixa de ser apenas uma divergência intelectual. Pode ser vivido como ameaça à própria identidade.

É também aqui que a distinção entre incapacidade de pensar e vontade de não pensar volta a adquirir importância.

É neste contexto que a dissonância cognitiva se torna relevante. Quando uma pessoa encontra informação que entra em conflito com uma crença, uma identidade ou uma conclusão já adoptada, surge uma tensão que pode ser resolvida de duas formas: revendo a crença à luz da nova informação ou reinterpretando, minimizando ou rejeitando a informação contraditória para preservar a coerência anterior. A primeira exige revisão; a segunda permite conservar a narrativa. Assim, a capacidade de receber informação não implica necessariamente disponibilidade para a integrar. A dissonância pode, portanto, funcionar não apenas como um obstáculo à mudança de opinião, mas como um mecanismo através do qual uma crença se protege contra a própria contradição.

Uma pessoa pode não possuir recursos cognitivos suficientes para avaliar a narrativa.

Outra pode possuir esses recursos, mas considerar que questioná-la ameaça a sua pertença, identidade ou interesses.

A primeira é vulnerável à narrativa.

A segunda pode ser vulnerável à conformidade.

E existe ainda uma terceira posição: a de quem compreende a narrativa e sabe utilizá-la.

A grande maioria pode ser mobilizada pelo mecanismo.

Uma minoria pode explorá-lo.


8. Simplificação cognitiva, desindividualização, agressividade e desumanização

Uma sociedade complexa exige pensamento complexo.

Os rótulos permitem, pelo contrário, reduzir essa complexidade.

Uma pessoa concreta possui uma história, uma família, uma profissão, comportamentos próprios, contradições e responsabilidades individuais.

Uma categoria elimina grande parte disso.

indivíduo → rótulo → categoria → estereótipo.

A pessoa começa a ser vista através da categoria.

É neste ponto que a desindividualização ganha importância.

Já não interessa necessariamente aquilo que aquele indivíduo fez. Interessa aquilo que se afirma que «eles» são.

O processo pode avançar de uma característica individual para uma atribuição colectiva e, posteriormente, para um estereótipo que passa a ser apresentado como característica essencial da categoria.

A essencialização é decisiva:

«não é apenas que alguns tenham feito isto; essas pessoas são assim.»

A característica atribuída a alguns transforma-se numa propriedade de todos.

A categoria passa a conter antecipadamente o julgamento.

A desumanização representa uma etapa posterior e mais grave.

O outro deixa progressivamente de ser percebido como um indivíduo humano completo, dotado da mesma complexidade moral e psicológica.

Torna-se problema, ameaça, número, massa, invasor, inimigo.

A linguagem é fundamental neste processo porque as palavras podem reduzir ou restaurar a humanidade.

Uma pessoa possui um nome.

Uma massa possui um rótulo.

É por isso que a individualização possui importância política. Conhecer uma pessoa concreta pode destruir um estereótipo; a categoria abstracta pode protegê-lo.

A sequência pode então avançar:

diferença → categorização → essencialização → desindividualização → segregação → desumanização.

Nem toda a categorização conduz à desumanização.

Nem toda a segregação conduz à violência.

Mas cada etapa pode tornar a seguinte cognitivamente mais fácil.

Quanto mais distante estiver o indivíduo concreto, mais fácil se torna falar sobre «eles».

Quanto mais abstracto for o «eles», mais fácil se torna atribuir-lhe características colectivas.

E quanto mais essas características forem apresentadas como ameaçadoras, mais facilmente a exclusão pode ser apresentada como defesa.

A investigação sobre agressividade acrescenta aqui uma dimensão importante.

Na meta-análise de Van Hiel et al., envolvendo 177 amostras e 47.933 participantes, a associação entre atitudes ideológicas de direita e tendências agressivas foi r = .31, com intervalo de confiança de 95% entre .27 e .35. A relação apareceu tanto nas atitudes perante a violência como em indicadores comportamentais; foi mais forte para atitudes do que para comportamento agressivo crónico.

Isto não autoriza a afirmação de que os apoiantes da AfD sejam, individualmente, «agressivos» ou «irascíveis».

Mas permite sustentar uma proposição mais rigorosa:

determinadas atitudes de direita, sobretudo quando associadas a autoritarismo, hostilidade intergrupal e aceitação da violência, apresentam uma associação empírica relevante com tendências agressivas.

Agressividade e capacidade cognitiva podem, assim, aparecer no mesmo sistema de mobilização sem serem a mesma variável.

A menor capacidade de análise pode facilitar a simplificação.

A rigidez pode dificultar a revisão.

A categorização pode produzir hostilidade intergrupal.

A percepção de ameaça pode activar uma resposta defensiva.

E a ideologia pode oferecer uma justificação moral para essa resposta.

A sequência pode então ser:

complexidade → simplificação → categoria → ameaça → hostilidade → legitimação da agressividade.

A desumanização pode constituir uma etapa posterior e mais grave.


9. Da segregação à extrema-direita, ao fascismo e ao nazismo

Nenhuma sociedade passa automaticamente da percepção da diferença para o fascismo.

Existem instituições, leis, direitos, educação, experiências pessoais, contacto social e pensamento crítico capazes de interromper esse processo.

Mas determinadas condições podem reforçá-lo: crises económicas, declínio das condições sociais, perda de confiança nas instituições, medo, polarização, insegurança, propaganda, criação de inimigos e procura de autoridade.

A combinação destes factores pode transformar a diferença numa questão política central.

O processo pode então avançar da identificação da diferença para a estranheza, da estranheza para uma interpretação discursiva, da interpretação para a ameaça, da ameaça para um rótulo colectivo e deste para a segregação e a construção de um inimigo político.

A extrema-direita pode mobilizar politicamente mecanismos que, isoladamente, não possuem necessariamente essa função.

O deterioro não cria obrigatoriamente a aversão.

Pode activá-la.

A crise não cria necessariamente o inimigo.

Pode criar a procura de um inimigo.

A propaganda não cria necessariamente o medo.

Pode fornecer ao medo uma explicação.

E a limitação cognitiva não cria necessariamente o extremismo.

Mas pode aumentar a vulnerabilidade a narrativas que eliminam a complexidade necessária à sua análise.

Da mesma forma, a rigidez cognitiva não produz inevitavelmente violência.

Mas pode dificultar a revisão de uma crença e facilitar a adesão rígida a uma identidade política.

O fascismo representa um aprofundamento.

A diferença deixa de ser apenas uma característica.

O inimigo passa a ser necessário para a identidade colectiva.

«Nós» existimos porque «eles» representam aquilo que não somos.

Quando a ameaça é apresentada como existencial, torna-se mais fácil justificar medidas excepcionais.

A sequência pode então avançar:

ameaça → emergência → necessidade de ordem → procura de autoridade → concentração de poder.

É neste ponto que a democracia pode começar a ser apresentada como insuficiente.

A pluralidade torna-se desordem.

A divergência torna-se traição.

A oposição torna-se inimiga.

Historicamente, o nazismo demonstrou a forma extrema que este processo pode assumir quando categorização, segregação e desumanização deixam de ser apenas mecanismos sociais e passam a ser organizados pelo Estado.

O percurso não é inevitável.

Mas a história demonstra que é possível.

É precisamente por isso que não basta procurar uma característica psicológica que explique a extrema-direita. É necessário compreender como diferentes vulnerabilidades e mecanismos podem ser articulados por estruturas políticas capazes de os transformar em mobilização colectiva.

Neste quadro, também é importante reconhecer que os eleitores de um partido como a AfD não constituem necessariamente um bloco psicológico homogéneo.

Uma parte pode aderir por razões económicas.

Outra por imigração.

Outra por identidade nacional.

Outra por rejeição das instituições.

Outra por autoritarismo.

Outra por conformidade.

Outra por uma combinação destas razões.

E outra pode simplesmente considerar que a AfD oferece a resposta mais adequada aos problemas que identifica.

A arquitectura proposta não pretende transformar todos esses indivíduos numa única categoria psicológica.

Pretende explicar como uma organização política pode construir uma narrativa capaz de reunir disposições diferentes numa mesma direcção eleitoral.

É neste ponto que a distinção entre maioria e minoria dirigente se torna decisiva:

a maioria pode precisar de acreditar na narrativa; uma minoria pode precisar apenas de compreender a sua eficácia.

A maioria pergunta:

«É verdade?»

A minoria que explora o mecanismo pode perguntar:

«É eficaz?»

Esta diferença pode significar apenas que, numa estrutura política, podem existir actores com graus muito diferentes de consciência sobre os mecanismos através dos quais a narrativa produz adesão.

É precisamente neste espaço que Alice Weidel se torna particularmente interessante.


10. Ainda Weidel, a AfD e a utilização contemporânea da arquitectura cognitiva

É neste quadro que a AfD e Alice Weidel constituem um caso particularmente interessante.

A sua ascensão eleitoral demonstra que, numa sociedade moderna, altamente desenvolvida e institucionalmente democrática, continuam a existir condições para a mobilização política através da identidade, do medo, da insegurança, da diferenciação, das fronteiras entre grupos, da procura de explicações simples e da identificação de responsáveis.

Mas o caso de Weidel acrescenta uma dimensão que ultrapassa a simples análise da extrema-direita.

A sua figura pública e determinados elementos da sua biografia podem produzir, para parte do público, uma aparente contradição relativamente a alguns aspectos da imagem política do partido.

Weidel é uma mulher altamente instruída, doutorada em Economia e com experiência internacional. É abertamente lésbica e mantém uma relação com Sarah Bossard, sua companheira nascida no Sri Lanka, sendo também mãe de dois filhos adoptados, residente fora da Alemanha e com uma trajectória laboral internacional.

Esses elementos podem parecer particularmente relevantes quando são colocados perante posições políticas associadas à AfD sobre imigração, identidade nacional, integração ou determinados temas relacionados com minorias.

Essa aparente contradição poderia teoricamente produzir uma pergunta intelectualmente saudável:

«Se existe uma incompatibilidade entre determinadas características pessoais da dirigente e determinadas características que atribuo ao partido, devo reavaliar a minha interpretação?»

Mas existe outro mecanismo possível.

A excepção individual pode funcionar precisamente como instrumento de redução da dissonância.

O processo pode desenvolver-se assim:

acusação política → contradição aparente → figura excepcional → redução da dissonância → manutenção da narrativa.

O eleitor pode deixar de perguntar:

«Que políticas são defendidas e quais são os seus efeitos?»

e passar a perguntar:

«Como pode o partido ser aquilo que dizem se Weidel possui esta biografia?»

A identidade individual substitui então a análise colectiva.

É precisamente por isso que Weidel é relevante para a hipótese deste texto.

Não porque a sua biografia prove ou refute automaticamente a natureza política da AfD, mas porque permite observar como uma excepção individual pode funcionar como elemento psicológico de neutralização de uma contradição.

A questão fundamental não é saber se Weidel, individualmente, é ou não uma «boa pessoa», nem se a sua vida privada é compatível com esta ou aquela identidade política.

A questão é outra:

pode uma característica individual de uma dirigente ser utilizada para responder, por antecipação, a uma crítica dirigida a uma estrutura política?

Se sim, estamos perante uma substituição do objecto do julgamento.

A política deixa de ser julgada pelas suas propostas, pelos seus princípios, pelos seus efeitos ou pelas pessoas que afecta.

Passa a ser julgada pela biografia de quem a representa.

A existência de uma dirigente lésbica não demonstra que as políticas de um partido sejam favoráveis às pessoas LGBT.

A existência de uma companheira nascida no Sri Lanka não demonstra que as políticas desse partido sejam favoráveis à imigração ou à integração de estrangeiros.

Da mesma forma, a existência de qualquer característica pessoal de um dirigente não pode, por si só, funcionar como prova da natureza global da organização que dirige.

Uma excepção individual não invalida uma estrutura política.

Mas pode ser utilizada para a tornar psicologicamente mais aceitável.

Esta é talvez a dimensão mais interessante do caso Weidel.

A sua biografia pode funcionar como uma espécie de certificado de inocência simbólico:

«Se ela pertence a esta minoria, então o partido não pode ser hostil a essa minoria.»

Mas esta inferência confunde duas coisas diferentes:

a identidade de quem exerce o poder

e

as consequências das políticas do poder.

Uma dirigente pode pertencer pessoalmente a uma categoria que determinadas políticas afectam sem que essa pertença impeça a organização de defender essas políticas.

A identidade pessoal não neutraliza automaticamente a estrutura política.

Mais ainda: uma excepção pode possuir precisamente maior eficácia simbólica quando é suficientemente visível para ser utilizada como resposta às acusações dirigidas ao grupo.

A sequência torna-se então particularmente sofisticada:

regra percebida → acusação de incompatibilidade → excepção visível → redução da dissonância → preservação da narrativa.

É aqui que a dissonância cognitiva pode adquirir uma função particularmente interessante. Se alguém sustenta que determinadas posições da AfD são incompatíveis com a aceitação de certas minorias e encontra, no topo do partido, uma dirigente que pertence pessoalmente a uma dessas minorias, surge uma contradição que exige explicação. Essa contradição pode conduzir à revisão da interpretação inicial; mas também pode ser resolvida incorporando a excepção na própria narrativa: Weidel passa a ser vista como uma excepção individual que permite conservar a interpretação geral do partido.

A sequência seria, assim: regra percebida → contradição → excepção visível → redução da dissonância → preservação da narrativa. A questão não é saber se esta é necessariamente a explicação psicológica de cada eleitor, nem afirmar que Weidel tenha conscientemente concebido a sua posição para produzir esse efeito. O ponto é outro: uma excepção individual pode funcionar cognitivamente como elemento de redução da dissonância sem obrigar à reavaliação da estrutura política que originou a contradição.

É precisamente por isso que a identidade da pessoa não deve substituir a análise das políticas. Uma característica individual pode ser utilizada — conscientemente ou não, pelo próprio indivíduo, pelo partido ou pelos seus apoiantes — para neutralizar uma contradição que deveria ser examinada ao nível das posições, dos discursos e dos efeitos políticos.

A excepção deixa de ser apenas uma excepção.

Passa a desempenhar uma função dentro da arquitectura da legitimação.

É importante, porém, não transformar esta hipótese numa afirmação de intenção que não possa ser demonstrada.

Não é necessário afirmar que toda a estratégia de Weidel tenha sido conscientemente construída com esse propósito.

Também não é necessário afirmar que todos os eleitores da AfD utilizem a sua biografia dessa forma.

Basta reconhecer a possibilidade de um mecanismo psicológico e político:

uma característica individual pode ser mobilizada para neutralizar uma contradição que deveria ser analisada ao nível das políticas e da estrutura partidária.

É aqui que a distinção entre maioria e minoria adquire a sua forma mais nítida.

A maioria pode olhar para Weidel e encontrar nela uma confirmação emocional de que «não existe contradição».

Uma minoria dirigente pode, independentemente de acreditar sinceramente naquilo que defende, compreender que determinadas características da sua figura pública possuem capacidade de neutralizar críticas e manter a coesão narrativa.

A maioria precisa de acreditar.

A minoria que explora o mecanismo precisa sobretudo de saber o que permite que a maioria continue a acreditar.

Weidel torna-se, assim, particularmente relevante não como explicação da AfD, mas como exemplo de uma questão mais ampla:

como pode uma excepção individual ser integrada numa narrativa colectiva de modo a reduzir a necessidade de reavaliar a própria narrativa?

A resposta não está na pessoa isoladamente.

Está na relação entre pessoa, grupo, identidade e julgamento.

É precisamente o mesmo mecanismo que aparece noutros níveis da arquitectura cognitiva:

o indivíduo é substituído pela categoria;

a categoria é substituída pelo estereótipo;

o estereótipo é protegido contra a contradição;

e a excepção pode ser incorporada na narrativa em vez de a destruir.

A aparente contradição deixa, assim, de ser necessariamente uma ameaça à narrativa.

Pode tornar-se parte da sua defesa.


Conclusão: a arquitectura cognitiva da extrema-direita

A hipótese desenvolvida neste texto não afirma que a neofobia produz fascismo.

Não afirma que a homogeneização produz xenofobia.

Não afirma que o aposematismo animal explica a política humana.

Não afirma que uma menor capacidade cognitiva conduz inevitavelmente à extrema-direita.

Não afirma que toda a categorização produz segregação.

Não afirma que toda a segregação termina em desumanização.

E não afirma que todos os eleitores da extrema-direita possuem o mesmo perfil psicológico.

Nenhum mecanismo isolado explica o fenómeno.

A hipótese é outra:

a extrema-direita pode tornar-se particularmente eficaz quando diversos mecanismos humanos, que isoladamente possuem funções ou explicações diferentes, passam a ser politicamente organizados numa única arquitectura.

Essa arquitectura pode desenvolver-se através de uma sequência na qual a homogeneização de sinais sociais e culturais contribui para a formação de um padrão reconhecível; esse padrão torna a diferença mais perceptível; a diferença pode ser sentida como novidade ou estranheza; a prudência perante o novo pode então ser mobilizada por um discurso que lhe atribui significado político; a repetição propagandística consolida a associação; a simplificação reduz a complexidade; a categorização transforma indivíduos em grupos; a pertença pode substituir o julgamento próprio; a essencialização converte características particulares em propriedades colectivas; a segregação mantém a distância; a desindividualização reduz a complexidade humana; e a desumanização pode tornar psicologicamente mais fácil a exclusão.

O princípio biológico do aposematismo ajuda, nesta hipótese, a compreender a importância da sinalização e do reconhecimento.

A neofobia ajuda a compreender uma possível resposta inicial perante o novo.

A capacidade cognitiva e a flexibilidade ajudam a compreender por que razão algumas pessoas podem ter maior dificuldade em processar realidades ambíguas e complexas ou em rever conclusões perante informação nova.

A vontade de não pensar ajuda a compreender por que razão outras podem interromper deliberadamente o julgamento quando este ameaça a sua identidade ou os seus interesses.

O discurso fornece a interpretação.

A propaganda reforça a associação.

O rótulo transforma indivíduos numa categoria.

A pertença pode transferir o julgamento para o grupo.

A segregação protege a distância.

A desindividualização reduz a percepção da pessoa concreta.

A desumanização torna a exclusão psicologicamente mais fácil.

E a política pode organizar tudo isto.

Talvez seja esta a questão mais importante.

A percepção da diferença é inevitável.

As sociedades humanas sempre reconheceram diferenças.

O problema não começa quando alguém percebe:

«Esta pessoa é diferente de mim.»

O problema começa quando uma sequência política transforma essa informação em:

«Esta pessoa pertence a uma categoria.»

Depois:

«Essa categoria representa uma ameaça.»

Depois:

«O meu grupo tem razão em temê-la.»

E finalmente:

«Devemos proteger-nos dela.»

É nessa transformação — da percepção para o significado político — que se encontra o verdadeiro espaço de exploração.

A extrema-direita não precisa de criar a diferença.

Não precisa de criar a neofobia.

Não precisa de criar a necessidade de pertença.

Não precisa de criar a capacidade humana de reconhecer sinais e padrões.

Não precisa sequer de criar todas as condições de insegurança que utiliza.

Pode simplesmente activar, seleccionar, organizar e amplificar elementos que já existem na experiência humana, ligando-os através de uma narrativa que oferece simultaneamente explicação, identidade, pertença, ameaça e solução.

E, nesse processo, a fronteira entre a maioria mobilizada e a minoria que organiza a mobilização torna-se decisiva.

A maioria pode reagir ao mecanismo.

Uma minoria pode compreender como o mecanismo funciona.

A maioria pode perguntar:

«É verdade?»

A minoria pode perguntar:

«Funciona?»

E a política começa precisamente quando alguém consegue transformar uma reacção individual num comportamento colectivo.

É também por isso que Weidel merece uma análise específica.

A sua importância para esta hipótese não está em constituir uma prova isolada sobre a AfD, nem em permitir concluir automaticamente qualquer coisa sobre a sua ideologia através da sua vida privada.

Está na possibilidade de observar como uma excepção individual pode neutralizar uma contradição colectiva, deslocando o julgamento das políticas para a pessoa e da estrutura para a biografia.

A excepção não destrói necessariamente o mecanismo.

Pode fornecer-lhe uma aparência de coerência.

No fundo, a questão não é a existência da diferença.

É aquilo que fazemos cognitivamente depois de a reconhecer.

Diferença não é ameaça.

Mas transformar automaticamente diferença em ameaça é precisamente aquilo que um mecanismo cognitivo primário permite fazer quando deixa de ser corrigido pelo julgamento.

E talvez seja nessa passagem — entre reconhecer uma diferença e decidir o que essa diferença significa — que se encontre uma das zonas mais importantes de exploração política da arquitectura cognitiva humana.


Nota sobre a perspectiva interdisciplinar

A hipótese aqui apresentada resulta de uma leitura deliberadamente transversal de mecanismos que pertencem a campos diferentes — da biologia evolutiva à psicologia cognitiva e social, da antropologia à ciência política e ao direito — procurando observar não apenas cada fenómeno isoladamente, mas aquilo que acontece quando esses fenómenos são articulados numa mesma dinâmica social e política.

É também dessa perspectiva que resulta a escolha do aposematismo como ponto de partida: não para biologizar a política, mas para interrogar a relação entre sinalização, reconhecimento, categorização e resposta, e perceber até onde uma lógica originalmente estudada noutro domínio pode ajudar a iluminar, com todas as cautelas necessárias, determinados mecanismos humanos.

Mário Pinto



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