Uma hipótese interdisciplinar sobre a exploração política da neofobia, do aposematismo, da sinalização, da categorização e das características cognitivas e sociais da espécie humana
1. Nenhum
mecanismo isolado explica a extrema-direita
A ascensão da extrema-direita, do fascismo ou, em
determinadas circunstâncias históricas, de formas políticas ainda mais extremas
como o nazismo, não pode ser explicada por uma causa única.
Nem a economia, isoladamente.
Nem a imigração.
Nem a propaganda.
Nem o medo.
Nem a ignorância.
Nem a neofobia.
Nem a capacidade cognitiva.
Nem a desumanização.
Nenhum destes factores, considerado isoladamente,
é suficiente para explicar a transformação de uma sociedade numa estrutura
politicamente autoritária ou a ascensão eleitoral de movimentos de
extrema-direita.
A hipótese desenvolvida neste texto é outra:
determinados fenómenos tornam-se particularmente eficazes quando diversos
mecanismos biológicos, psicológicos, cognitivos, sociais e políticos passam a
reforçar-se mutuamente.
Entre eles encontram-se a prudência perante o
desconhecido, a neofobia, o reconhecimento de sinais, a identificação de
padrões, a maior visibilidade daquilo que se afasta do padrão, a necessidade de
pertença, a procura de segurança, o medo, a simplificação cognitiva, a
intolerância à ambiguidade, a rigidez ou inflexibilidade cognitiva, a repetição
discursiva, a propaganda, a atribuição de rótulos, a categorização, a
conformidade grupal, a transferência do julgamento individual para o grupo, a
segregação, a perda progressiva da individualidade do outro e, no extremo, a
desumanização.
A hipótese central pode ser formulada de forma
simples:
os movimentos autoritários não necessitam de
criar todos os mecanismos psicológicos que exploram; podem organizar
politicamente características que já existem, em diferentes graus, na própria
espécie humana.
O perigo não reside necessariamente em cada
mecanismo. Reside na sua combinação e, sobretudo, na possibilidade de que essa
combinação seja transformada numa arquitectura política coerente.
É importante, porém, evitar um erro simétrico:
esta hipótese não permite afirmar que os eleitores da extrema-direita sejam
simplesmente «menos inteligentes». A capacidade cognitiva, a flexibilidade
mental, a tolerância da ambiguidade e a capacidade de diferenciação podem
relacionar-se com determinadas atitudes políticas, mas não constituem uma
explicação total do fenómeno.
Uma meta-análise de Emma Onraet, Alain Van
Hiel, Kristof Dhont, Gordon Hodson, Mark Schittekatte e Sarah De Pauw,
publicada em 2015 no European Journal of Personality, reuniu 67
estudos, com 84.017 participantes, e encontrou uma associação média de r
= −0,20 entre capacidade cognitiva e atitudes ideológicas de direita. Numa
segunda meta-análise, envolvendo 23 estudos e 27.011 participantes,
encontraram r = −0,19 entre capacidade cognitiva e preconceito. Os
efeitos foram particularmente fortes quando as atitudes analisadas eram autoritarismo
e etnocentrismo.
O significado desta associação deve ser formulado
com precisão.
Ela não permite afirmar que «ser de direita torna
alguém menos inteligente», nem que todo eleitor de direita possua menor
capacidade cognitiva. O que demonstra é que, nas populações estudadas,
níveis mais baixos de capacidade cognitiva estiveram associados, em média, a
uma maior adesão a determinadas atitudes de direita e a maior preconceito.
Essa diferença é importante.
Se uma pessoa dispõe de menor capacidade para
decompor uma realidade complexa, distinguir causas, avaliar probabilidades,
integrar informação contraditória e comparar hipóteses, torna-se potencialmente
mais fácil oferecer-lhe uma explicação política simplificada.
Não significa que ela seja incapaz de pensar.
Significa que o custo cognitivo de pensar até
ao fim pode ser maior e que uma narrativa que elimine etapas intermediárias
pode tornar-se mais atraente.
Mas esta não é a única possibilidade.
Uma pessoa pode ter dificuldade em julgar
porque não consegue decompor adequadamente uma realidade complexa, comparar
hipóteses, integrar informação contraditória ou suportar a ambiguidade
necessária à formação de um juízo.
Outra pode possuir capacidade suficiente para o
fazer e, contudo, ter uma vontade de não pensar até ao fim, porque a
conclusão desejada é mais importante do que a avaliação da realidade.
Pode saber que um problema é complexo e desejar
uma explicação simples.
Pode reconhecer que existem contra-exemplos e
decidir ignorá-los.
Pode encontrar informação que contradiz a sua
posição e reinterpretá-la para preservar a conclusão.
Pertença, identidade, estatuto, interesses
materiais, lealdade ao grupo ou necessidade de preservar uma convicção
previamente adoptada podem tornar cognitivamente conveniente não reabrir uma
questão.
Assim, não se trata apenas de saber quem não
consegue pensar, mas também de compreender quem pode beneficiar de que
os outros não pensem.
É nesta distinção que começa a aparecer uma
arquitectura política.
Existe ainda uma segunda dimensão particularmente
importante: a flexibilidade cognitiva.
Leor Zmigrod, Peter Jason Rentfrow e Trevor
Robbins estudaram especificamente a relação entre inflexibilidade cognitiva e
extremismo. Em dois estudos, com um total de 1.047 participantes do Reino
Unido e dos Estados Unidos, encontraram evidência de que a inflexibilidade
cognitiva objectivamente medida predizia atitudes extremistas, incluindo maior
disposição para apoiar violência em defesa do grupo. Os modelos estatísticos
explicaram, em média, 31,4% da variância na disposição para morrer pelo
grupo, depois de considerados factores demográficos.
O resultado é particularmente relevante porque
desloca a discussão da inteligência em sentido genérico para algo mais
específico: a capacidade de alterar, rever e reorganizar o próprio
processamento perante informação nova.
Uma pessoa pode possuir conhecimentos e, ainda
assim, ser cognitivamente rígida.
Pode ser instruída e ser dogmática.
Pode ser intelectualmente sofisticada e, contudo,
incapaz de abandonar uma conclusão quando ela entra em conflito com a
realidade.
A questão fundamental não é apenas quanto uma
pessoa sabe.
É quanto consegue mudar o que pensa quando
aquilo que sabe deixa de sustentar a conclusão anterior.
Existe ainda uma terceira dimensão.
Van Hiel, Onraet, Bostyn, Stadeus, Haesevoets,
Van Assche e Roets, numa meta-análise publicada em 2020, reuniram 177
amostras, num total de 47.933 participantes, e encontraram uma associação
de r = .31 entre atitudes ideológicas de direita e tendências
agressivas. A associação apareceu tanto em atitudes perante a violência como em
indicadores comportamentais, embora fosse mais forte para as primeiras.
Também aqui é necessário evitar a simplificação:
isto não significa que «os eleitores de direita são violentos». Significa que, nas
amostras estudadas, atitudes ideológicas de direita estiveram associadas a
maiores tendências agressivas.
Quando estes três resultados são colocados lado a
lado — menor capacidade cognitiva associada a determinadas atitudes de direita
e preconceito; inflexibilidade cognitiva associada a extremismo; e atitudes de
direita associadas a tendências agressivas — começa a surgir uma estrutura
empiricamente mais interessante.
Não é:
direita → menor inteligência → violência.
É antes:
menor capacidade média de processamento → maior
vulnerabilidade à simplificação;
rigidez cognitiva → maior dificuldade de revisão;
categorização rígida → maior facilidade de pensar
em termos de «nós» e «eles»;
ameaça percebida → maior probabilidade de
resposta hostil;
e determinadas estruturas ideológicas podem ligar
estes mecanismos numa narrativa política.
É nesta combinação, e não numa característica
isolada, que a hipótese ganha força.
Além disso, a noção de «estados evolutivos
anteriores» deve ser utilizada com enorme cuidado. Não é cientificamente
correcto afirmar que um eleitor de extrema-direita seja literalmente «menos
evoluído». A evolução não produz uma hierarquia moral entre seres humanos
contemporâneos.
Mas é possível formular uma hipótese diferente e
mais rigorosa:
determinadas formas de resposta política podem
depender mais fortemente de mecanismos cognitivos e emocionais ancestrais —
detecção rápida de ameaça, categorização do grupo, defesa territorial,
conformidade, agressividade perante o exterior e procura de um líder protector
— que a cultura, a educação e o pensamento abstracto procuram precisamente
moderar.
Nesse sentido, o problema não é que alguns
indivíduos pertençam a uma fase anterior da evolução.
É que podem recorrer mais intensamente a
mecanismos adaptativos muito antigos, enquanto utilizam menos os mecanismos
cognitivos que permitem submetê-los a análise, revisão e controlo.
2. O
aposematismo: a origem biológica do princípio da sinalização
Para compreender correctamente esta hipótese, é
necessário começar pelo conceito biológico de aposematismo, sem ainda o
transferir para a sociedade humana.
No reino animal existem organismos que possuem
características capazes de causar dano a potenciais predadores: podem ser
venenosos, tóxicos, perigosos, desagradáveis ao consumo, capazes de infligir
dor ou possuir outros mecanismos defensivos.
Se um predador tivesse de descobrir, através da
experiência directa, quais os organismos perigosos e quais os que não o são, o
custo dessa aprendizagem poderia ser elevado.
O aposematismo resolve parcialmente esse problema
através da sinalização. Determinadas espécies apresentam sinais particularmente
conspícuos — cores, contrastes, padrões ou outras características — que
facilitam o reconhecimento.
A lógica biológica fundamental pode ser resumida
desta forma:
um organismo perigoso apresenta um sinal
reconhecível; o receptor aprende ou reconhece esse sinal e, perante ele, adopta
prudência ou evitamento.
O sinal não é necessariamente perigoso por si. É
um indicador.
A sua função consiste em permitir que o receptor
associe determinado padrão a uma possível consequência.
É importante, por isso, distinguir a
característica real do organismo do sinal que permite reconhecê-la.
Um animal pode ser venenoso; mas o veneno não é necessariamente aquilo que o
predador vê. O sinal pode ser a coloração.
A biologia produz assim uma distinção fundamental
entre aquilo que uma coisa é e aquilo que permite que seja reconhecida.
É precisamente esta distinção, e não uma
equivalência entre animais e seres humanos, que interessa conservar.
O interesse da analogia encontra-se no princípio
da sinalização e do reconhecimento: perante informação incompleta, um
receptor pode utilizar uma característica perceptível como atalho para
antecipar uma consequência.
É uma solução adaptativa quando a análise
completa é demasiado dispendiosa.
Mas precisamente por ser um atalho, pode também
produzir erros.
3. Animais
perigosos, animais inofensivos e o problema da imitação
O fenómeno torna-se ainda mais interessante
porque nem todos os organismos que apresentam sinais semelhantes possuem
necessariamente a mesma capacidade defensiva.
Existem formas de imitação em que um organismo
inofensivo pode beneficiar por ser confundido com outro perigoso. O receptor
aprendeu a associar determinado padrão a uma consequência e responde
preventivamente, mesmo quando a característica que originalmente justificava
essa resposta não está presente.
Uma mesma lógica pode ser observada na distinção
entre aparência e comportamento. O cação e o tubarão, apesar da proximidade
morfológica e de pertencerem ao mesmo grande grupo biológico, não são
indistinguíveis nas suas características ecológicas e comportamentais. Do mesmo
modo, podem existir semelhanças fenotípicas entre determinadas populações
ciganas e determinadas populações do subcontinente indiano — uma relação que
não é surpreendente, dada a origem histórica dos povos ciganos — sem que a
aparência permita determinar a identidade étnica, e muito menos o
comportamento, de um indivíduo. Em ambos os casos, um sinal visível pode
facilitar um reconhecimento ou uma classificação inicial, mas não contém, por
si só, informação suficiente para substituir a análise da realidade que
representa. A passagem indevida do sinal para uma conclusão sobre o indivíduo é
precisamente o ponto em que um mecanismo de reconhecimento pode transformar-se
num mecanismo de erro.
O receptor pode, portanto, reagir não à realidade
completa do objecto, mas ao sinal que aprendeu a associar-lhe.
Assim se desenvolve um mecanismo de grande
simplicidade:
sinal reconhecível → associação aprendida →
antecipação de consequência → resposta.
O receptor não necessita de investigar
profundamente cada organismo. Reconhece um padrão e responde.
Esta economia cognitiva possui valor adaptativo
no mundo animal. Mas revela também um princípio mais amplo: o reconhecimento
de sinais permite respostas rápidas sem uma análise completa do objecto
concreto que está perante nós.
É aqui que se torna possível uma analogia,
necessariamente prudente, com determinados processos humanos.
Os seres humanos também utilizam sinais,
símbolos, códigos, linguagens, uniformes, estilos, referências, rótulos,
marcas, sotaques e outras características que permitem identificar rapidamente
pertenças e diferenças.
Não significa isto que os seres humanos funcionem
como predadores perante organismos venenosos. Significa apenas que o
reconhecimento de padrões constitui uma característica importante da cognição
humana.
E existe uma consequência particularmente
importante:
um mecanismo que permite decidir rapidamente
também pode permitir decidir antes de conhecer suficientemente aquilo sobre que
se decide.
Quando a resposta primária é corrigida pela
análise, o atalho cognitivo pode cumprir uma função útil.
Quando a análise é dispensada, o mesmo atalho
pode transformar-se numa fonte de erro sistemático.
A sequência cognitivamente mais complexa seria:
diferença → reacção primária → observação →
análise → ponderação → decisão.
A sequência rudimentar é outra:
diferença → aversão → ameaça → rejeição.
A existência da primeira não elimina a segunda.
E a política pode explorar precisamente o espaço
entre ambas.
4. Da biologia
à sociedade: homogeneização, sinais e reconhecimento da diferença
A passagem da biologia para a sociedade humana
não pode ser literal.
Uma cultura não é um organismo venenoso.
Uma nacionalidade não é uma espécie animal.
Uma pessoa não pode ser reduzida a um sinal.
Mas o princípio do reconhecimento permite
formular uma hipótese funcional.
As sociedades humanas produzem constantemente
sinais através do vestuário, da linguagem, do sotaque, da religião, dos
símbolos, das referências culturais, dos hábitos, dos códigos de comportamento,
das formas de apresentação, das tradições ou das identidades nacionais. Quanto
maior for a repetição e a homogeneidade percebida desses elementos, mais
facilmente pode surgir um padrão social reconhecível.
A consequência é dupla: por um lado, aumenta a
facilidade de identificação do semelhante; por outro, aumenta a visibilidade
daquele que se afasta do padrão.
Não seria cientificamente correcto afirmar que a
homogeneidade produz xenofobia. O que a homogeneidade pode produzir é uma maior
capacidade de reconhecimento da diferença.
Uma sociedade fortemente homogénea fornece um
padrão perceptivo mais definido. E quanto mais definido é um padrão, mais
facilmente se percebe aquilo que não corresponde a ele.
Assim se desenvolve a primeira ligação entre o
princípio da sinalização e a hipótese política:
homogeneidade percebida → padrão reconhecível →
diferença mais visível → maior facilidade de categorização.
O multiculturalismo torna este processo
particularmente interessante.
Uma sociedade multicultural obriga o indivíduo a
efectuar distinções que uma sociedade muito homogénea pode tornar menos
necessárias. Obriga a separar diferença de ameaça, desconhecimento de perigo,
indivíduo de grupo, comportamento individual de característica colectiva e
identidade cultural de risco político.
O multiculturalismo não exige que se goste da
diferença. Exige que se seja capaz de viver com ela sem transformar
automaticamente a diferença em ameaça.
Neste sentido, a diversidade pode funcionar como
um teste de diferenciação cognitiva.
Não porque a pessoa tenha de aceitar
indiscriminadamente qualquer comportamento ou prática, mas porque precisa de
avaliar concretamente aquilo que encontra, em vez de converter a pertença a uma
categoria numa conclusão antecipada.
É também aqui que determinados factores sociais
podem alterar a intensidade do processo.
Uma sociedade em deterioro económico, social ou
político pode experimentar maior insegurança, perda de confiança, competição
percebida por recursos, sensação de perda de estatuto ou medo do futuro.
Esses factores não criam necessariamente a
aversão à diferença.
Podem, porém, activar disposições que já
existem.
A coexistência de degradação económica e
imigração, por exemplo, não demonstra que a segunda seja a causa da primeira.
Mas oferece ao discurso político uma oportunidade para estabelecer essa
associação.
A sequência pode tornar-se:
deterioração ou insegurança → procura de
explicação → identificação de diferença → atribuição de causalidade → ameaça.
O problema real e o responsável político passam
então a ser apresentados como se fossem a mesma coisa.
5. A neofobia,
a cognição e a transformação da diferença em ameaça
É neste ponto que surge a segunda componente da
hipótese: a neofobia.
A neofobia pode ser entendida como uma resposta
de prudência, hesitação ou evitamento perante aquilo que é novo ou
desconhecido. A sua função original não é política; é adaptativa.
O novo pode ser útil, irrelevante ou perigoso.
Antes de o saber, o organismo pode adoptar prudência.
O processo completo pode desenvolver-se através
de observação, reconhecimento, avaliação e decisão.
Mas existe uma diferença fundamental entre essa
prudência e uma resposta que salta directamente da novidade para a rejeição.
A primeira admite análise:
novidade → prudência → observação →
reconhecimento → avaliação → decisão.
A segunda elimina progressivamente essa etapa:
novidade → aversão → ameaça → rejeição.
A neofobia, por si só, não contém uma conclusão
política. A passagem decisiva exige interpretação.
E é aqui que entram determinadas características
cognitivas.
A realidade social é complexa. Para a compreender
é necessário distinguir causas, níveis, indivíduos, grupos, probabilidades e
alternativas. É necessário tolerar alguma ambiguidade e aceitar que duas coisas
podem ser simultaneamente verdadeiras.
Formas de pensamento mais rígidas ou menos
flexíveis podem tornar essa tarefa mais difícil.
A investigação psicológica encontra associações
entre determinadas capacidades cognitivas, intolerância da ambiguidade, rigidez
ou inflexibilidade cognitiva e algumas formas de autoritarismo, etnocentrismo,
preconceito ou extremismo.
Isso não permite concluir que a extrema-direita
seja simplesmente produto de menor inteligência, nem que todo eleitor da
direita radical possua as mesmas características.
A relação é mais específica:
determinadas formas de processamento cognitivo
podem tornar algumas pessoas mais susceptíveis a explicações simplificadas,
categorias rígidas e respostas menos tolerantes à ambiguidade.
Mas há ainda uma segunda possibilidade.
Uma pessoa pode ser perfeitamente capaz de
efectuar distinções complexas e, mesmo assim, preferir não fazê-lo.
Pode saber que um problema é complexo e desejar
uma explicação simples.
Pode reconhecer que existem contra-exemplos e
decidir ignorá-los.
Pode encontrar informação que contradiz a sua
posição e reinterpretá-la para preservar a conclusão.
Pode possuir capacidade para julgar e, contudo,
transferir voluntariamente o julgamento para o grupo.
É por isso que incapacidade de julgar e
vontade de não julgar não devem ser confundidas.
Na primeira, existe uma limitação do
processamento.
Na segunda, existe uma interrupção voluntária ou
motivada do processamento.
A política pode explorar ambas.
6. A difusão
da narrativa: o mecanismo essencial que transforma a percepção em ameaça
Uma percepção não explica a si própria.
Uma pessoa pode sentir estranheza perante algo e
concluir simplesmente:
«É diferente.»
Pode também pensar:
«Preciso de conhecer melhor.»
Mas um discurso político pode oferecer uma
terceira interpretação:
«A tua sensação de estranheza significa que
existe uma ameaça.»
É aqui que um mecanismo inicialmente adaptativo
pode ser politicamente reorganizado.
O discurso valida a sensação, reforça-a,
atribui-lhe uma causa e identifica um responsável. Uma emoção individual passa
assim a adquirir um significado colectivo.
O processo desenvolve-se então de forma
diferente:
diferença → estranheza → discurso → significado
político → ameaça.
A propaganda pode posteriormente consolidar esta
associação através da repetição.
Determinado grupo passa a ser associado à
insegurança.
Determinada diferença passa a representar perda
de identidade.
Determinado símbolo passa a significar ameaça.
Determinado problema económico passa a ser
explicado pela presença de determinado grupo.
A repetição possui aqui uma função decisiva. Uma
associação repetida muitas vezes pode tornar-se cognitivamente disponível e
parecer evidente não porque tenha sido demonstrada, mas porque se tornou
familiar.
O discurso já não necessita de provar
permanentemente.
Pode repetir-se e, aquilo que é repetido, pode
adquirir a aparência de uma realidade auto-evidente.
A extrema-direita pode, assim, realizar uma
verdadeira compressão cognitiva da realidade:
há um problema → alguém é responsável → esse
responsável pertence a um grupo → esse grupo ameaça-nos → devemos afastá-lo.
Uma realidade complexa transforma-se numa
narrativa linear.
A força política dessa narrativa não reside
apenas na sua simplicidade. Ela fornece simultaneamente explicação, identidade,
pertença, inimigo e solução.
É neste ponto que a economia, a imigração ou o
deterioro social deixam de ser explicações suficientes do fenómeno e passam a
ser matéria-prima para uma explicação política.
A questão não é apenas aquilo que acontece.
É quem consegue definir o significado daquilo
que acontece.
7. Rótulos,
categorização, transferência do julgamento e segregação
A segregação não começa necessariamente com uma
separação física. Pode começar muito antes, através da criação de uma
categoria.
Os seres humanos classificam constantemente a
realidade. Algumas classificações são úteis e necessárias. Tornam-se
politicamente perigosas quando passam a substituir a individualidade.
Um rótulo pode transformar uma enorme diversidade
de pessoas numa categoria aparentemente homogénea.
Assim se desenvolve um processo de redução da
complexidade:
indivíduos diferentes → rótulo comum → categoria
social → aparente homogeneidade → generalização.
O rótulo permite identificar rapidamente, mas
pode simultaneamente impedir a análise.
Em vez de perguntar:
«Quem é esta pessoa?»
passa-se a perguntar:
«A que categoria pertence?»
A resposta à segunda pergunta começa então a
substituir a primeira.
A diferenciação pode transformar-se
progressivamente numa fronteira simbólica:
rótulo → identificação → diferenciação →
fronteira simbólica → separação.
Mas a categoria pode produzir outro fenómeno: a transferência
do julgamento individual para o grupo.
A pessoa pode deixar de pensar:
«Eu considero isto verdadeiro porque analisei os
argumentos.»
e passar a pensar:
«O meu grupo considera isto verdadeiro; portanto,
devo considerá-lo verdadeiro.»
A pertença torna-se cognitiva.
O processo pode assumir diferentes formas. Pode
haver confiança voluntária — «não sei, por isso confio». Pode haver
identificação — «eles são o meu grupo, portanto a sua posição merece a minha
confiança». E pode haver dogmatização — «a minha posição já é verdadeira; tudo
o que a contradiga está errado».
É a velha lógica de «Maria vai com as outras»,
mas transformada num mecanismo político de grande escala:
permeabilidade ao grupo → substituição do
julgamento próprio → decisão por conformidade.
Quando a pertença determina o pensamento, o
desacordo deixa de ser apenas uma divergência intelectual. Pode ser vivido como
ameaça à própria identidade.
É também aqui que a distinção entre incapacidade
de pensar e vontade de não pensar volta a adquirir importância.
É neste contexto que a dissonância cognitiva se
torna relevante. Quando uma pessoa encontra informação que entra em conflito
com uma crença, uma identidade ou uma conclusão já adoptada, surge uma tensão
que pode ser resolvida de duas formas: revendo a crença à luz da nova
informação ou reinterpretando, minimizando ou rejeitando a informação
contraditória para preservar a coerência anterior. A primeira exige revisão; a
segunda permite conservar a narrativa. Assim, a capacidade de receber
informação não implica necessariamente disponibilidade para a integrar. A
dissonância pode, portanto, funcionar não apenas como um obstáculo à mudança de
opinião, mas como um mecanismo através do qual uma crença se protege contra a
própria contradição.
Uma pessoa pode não possuir recursos cognitivos
suficientes para avaliar a narrativa.
Outra pode possuir esses recursos, mas considerar
que questioná-la ameaça a sua pertença, identidade ou interesses.
A primeira é vulnerável à narrativa.
A segunda pode ser vulnerável à conformidade.
E existe ainda uma terceira posição: a de quem
compreende a narrativa e sabe utilizá-la.
A grande maioria pode ser mobilizada pelo
mecanismo.
Uma minoria pode explorá-lo.
8.
Simplificação cognitiva, desindividualização, agressividade e desumanização
Uma sociedade complexa exige pensamento complexo.
Os rótulos permitem, pelo contrário, reduzir essa
complexidade.
Uma pessoa concreta possui uma história, uma
família, uma profissão, comportamentos próprios, contradições e
responsabilidades individuais.
Uma categoria elimina grande parte disso.
indivíduo → rótulo → categoria → estereótipo.
A pessoa começa a ser vista através da categoria.
É neste ponto que a desindividualização ganha
importância.
Já não interessa necessariamente aquilo que
aquele indivíduo fez. Interessa aquilo que se afirma que «eles» são.
O processo pode avançar de uma característica
individual para uma atribuição colectiva e, posteriormente, para um estereótipo
que passa a ser apresentado como característica essencial da categoria.
A essencialização é decisiva:
«não é apenas que alguns tenham feito isto; essas
pessoas são assim.»
A característica atribuída a alguns transforma-se
numa propriedade de todos.
A categoria passa a conter antecipadamente o
julgamento.
A desumanização representa uma etapa posterior e
mais grave.
O outro deixa progressivamente de ser percebido
como um indivíduo humano completo, dotado da mesma complexidade moral e
psicológica.
Torna-se problema, ameaça, número, massa,
invasor, inimigo.
A linguagem é fundamental neste processo porque
as palavras podem reduzir ou restaurar a humanidade.
Uma pessoa possui um nome.
Uma massa possui um rótulo.
É por isso que a individualização possui
importância política. Conhecer uma pessoa concreta pode destruir um
estereótipo; a categoria abstracta pode protegê-lo.
A sequência pode então avançar:
diferença → categorização → essencialização →
desindividualização → segregação → desumanização.
Nem toda a categorização conduz à desumanização.
Nem toda a segregação conduz à violência.
Mas cada etapa pode tornar a seguinte
cognitivamente mais fácil.
Quanto mais distante estiver o indivíduo
concreto, mais fácil se torna falar sobre «eles».
Quanto mais abstracto for o «eles», mais fácil se
torna atribuir-lhe características colectivas.
E quanto mais essas características forem
apresentadas como ameaçadoras, mais facilmente a exclusão pode ser apresentada
como defesa.
A investigação sobre agressividade acrescenta
aqui uma dimensão importante.
Na meta-análise de Van Hiel et al., envolvendo 177
amostras e 47.933 participantes, a associação entre atitudes ideológicas de
direita e tendências agressivas foi r = .31, com intervalo de confiança
de 95% entre .27 e .35. A relação apareceu tanto nas atitudes perante a
violência como em indicadores comportamentais; foi mais forte para atitudes do
que para comportamento agressivo crónico.
Isto não autoriza a afirmação de que os apoiantes
da AfD sejam, individualmente, «agressivos» ou «irascíveis».
Mas permite sustentar uma proposição mais
rigorosa:
determinadas atitudes de direita, sobretudo
quando associadas a autoritarismo, hostilidade intergrupal e aceitação da
violência, apresentam uma associação empírica relevante com tendências
agressivas.
Agressividade e capacidade cognitiva podem,
assim, aparecer no mesmo sistema de mobilização sem serem a mesma variável.
A menor capacidade de análise pode facilitar a
simplificação.
A rigidez pode dificultar a revisão.
A categorização pode produzir hostilidade
intergrupal.
A percepção de ameaça pode activar uma resposta
defensiva.
E a ideologia pode oferecer uma justificação
moral para essa resposta.
A sequência pode então ser:
complexidade → simplificação → categoria → ameaça
→ hostilidade → legitimação da agressividade.
A desumanização pode constituir uma etapa
posterior e mais grave.
9. Da
segregação à extrema-direita, ao fascismo e ao nazismo
Nenhuma sociedade passa automaticamente da
percepção da diferença para o fascismo.
Existem instituições, leis, direitos, educação,
experiências pessoais, contacto social e pensamento crítico capazes de
interromper esse processo.
Mas determinadas condições podem reforçá-lo:
crises económicas, declínio das condições sociais, perda de confiança nas
instituições, medo, polarização, insegurança, propaganda, criação de inimigos e
procura de autoridade.
A combinação destes factores pode transformar a
diferença numa questão política central.
O processo pode então avançar da identificação da
diferença para a estranheza, da estranheza para uma interpretação discursiva,
da interpretação para a ameaça, da ameaça para um rótulo colectivo e deste para
a segregação e a construção de um inimigo político.
A extrema-direita pode mobilizar politicamente
mecanismos que, isoladamente, não possuem necessariamente essa função.
O deterioro não cria obrigatoriamente a aversão.
Pode activá-la.
A crise não cria necessariamente o inimigo.
Pode criar a procura de um inimigo.
A propaganda não cria necessariamente o medo.
Pode fornecer ao medo uma explicação.
E a limitação cognitiva não cria necessariamente
o extremismo.
Mas pode aumentar a vulnerabilidade a narrativas
que eliminam a complexidade necessária à sua análise.
Da mesma forma, a rigidez cognitiva não produz
inevitavelmente violência.
Mas pode dificultar a revisão de uma crença e
facilitar a adesão rígida a uma identidade política.
O fascismo representa um aprofundamento.
A diferença deixa de ser apenas uma
característica.
O inimigo passa a ser necessário para a
identidade colectiva.
«Nós» existimos porque «eles» representam aquilo
que não somos.
Quando a ameaça é apresentada como existencial,
torna-se mais fácil justificar medidas excepcionais.
A sequência pode então avançar:
ameaça → emergência → necessidade de ordem →
procura de autoridade → concentração de poder.
É neste ponto que a democracia pode começar a ser
apresentada como insuficiente.
A pluralidade torna-se desordem.
A divergência torna-se traição.
A oposição torna-se inimiga.
Historicamente, o nazismo demonstrou a forma
extrema que este processo pode assumir quando categorização, segregação e
desumanização deixam de ser apenas mecanismos sociais e passam a ser
organizados pelo Estado.
O percurso não é inevitável.
Mas a história demonstra que é possível.
É precisamente por isso que não basta procurar
uma característica psicológica que explique a extrema-direita. É necessário
compreender como diferentes vulnerabilidades e mecanismos podem ser
articulados por estruturas políticas capazes de os transformar em mobilização
colectiva.
Neste quadro, também é importante reconhecer que
os eleitores de um partido como a AfD não constituem necessariamente um bloco
psicológico homogéneo.
Uma parte pode aderir por razões económicas.
Outra por imigração.
Outra por identidade nacional.
Outra por rejeição das instituições.
Outra por autoritarismo.
Outra por conformidade.
Outra por uma combinação destas razões.
E outra pode simplesmente considerar que a AfD
oferece a resposta mais adequada aos problemas que identifica.
A arquitectura proposta não pretende transformar
todos esses indivíduos numa única categoria psicológica.
Pretende explicar como uma organização
política pode construir uma narrativa capaz de reunir disposições diferentes
numa mesma direcção eleitoral.
É neste ponto que a distinção entre maioria e
minoria dirigente se torna decisiva:
a maioria pode precisar de acreditar na
narrativa; uma minoria pode precisar apenas de compreender a sua eficácia.
A maioria pergunta:
«É verdade?»
A minoria que explora o mecanismo pode perguntar:
«É eficaz?»
Esta diferença pode significar apenas que, numa
estrutura política, podem existir actores com graus muito diferentes de
consciência sobre os mecanismos através dos quais a narrativa produz adesão.
É precisamente neste espaço que Alice Weidel se
torna particularmente interessante.
10. Ainda
Weidel, a AfD e a utilização contemporânea da arquitectura cognitiva
É neste quadro que a AfD e Alice Weidel
constituem um caso particularmente interessante.
A sua ascensão eleitoral demonstra que, numa
sociedade moderna, altamente desenvolvida e institucionalmente democrática,
continuam a existir condições para a mobilização política através da
identidade, do medo, da insegurança, da diferenciação, das fronteiras entre
grupos, da procura de explicações simples e da identificação de responsáveis.
Mas o caso de Weidel acrescenta uma dimensão que
ultrapassa a simples análise da extrema-direita.
A sua figura pública e determinados elementos da
sua biografia podem produzir, para parte do público, uma aparente contradição
relativamente a alguns aspectos da imagem política do partido.
Weidel é uma mulher altamente instruída,
doutorada em Economia e com experiência internacional. É abertamente lésbica e
mantém uma relação com Sarah Bossard, sua companheira nascida no Sri Lanka, sendo
também mãe de dois filhos adoptados, residente fora da Alemanha e com uma
trajectória laboral internacional.
Esses elementos podem parecer particularmente
relevantes quando são colocados perante posições políticas associadas à AfD
sobre imigração, identidade nacional, integração ou determinados temas
relacionados com minorias.
Essa aparente contradição poderia teoricamente
produzir uma pergunta intelectualmente saudável:
«Se existe uma incompatibilidade entre
determinadas características pessoais da dirigente e determinadas
características que atribuo ao partido, devo reavaliar a minha interpretação?»
Mas existe outro mecanismo possível.
A excepção individual pode funcionar precisamente
como instrumento de redução da dissonância.
O processo pode desenvolver-se assim:
acusação política → contradição aparente → figura
excepcional → redução da dissonância → manutenção da narrativa.
O eleitor pode deixar de perguntar:
«Que políticas são defendidas e quais são os seus
efeitos?»
e passar a perguntar:
«Como pode o partido ser aquilo que dizem se
Weidel possui esta biografia?»
A identidade individual substitui então a análise
colectiva.
É precisamente por isso que Weidel é relevante
para a hipótese deste texto.
Não porque a sua biografia prove ou refute
automaticamente a natureza política da AfD, mas porque permite observar como
uma excepção individual pode funcionar como elemento psicológico de
neutralização de uma contradição.
A questão fundamental não é saber se Weidel,
individualmente, é ou não uma «boa pessoa», nem se a sua vida privada é
compatível com esta ou aquela identidade política.
A questão é outra:
pode uma característica individual de uma
dirigente ser utilizada para responder, por antecipação, a uma crítica dirigida
a uma estrutura política?
Se sim, estamos perante uma substituição do
objecto do julgamento.
A política deixa de ser julgada pelas suas
propostas, pelos seus princípios, pelos seus efeitos ou pelas pessoas que
afecta.
Passa a ser julgada pela biografia de quem a
representa.
A existência de uma dirigente lésbica não
demonstra que as políticas de um partido sejam favoráveis às pessoas LGBT.
A existência de uma companheira nascida no Sri
Lanka não demonstra que as políticas desse partido sejam favoráveis à imigração
ou à integração de estrangeiros.
Da mesma forma, a existência de qualquer
característica pessoal de um dirigente não pode, por si só, funcionar como
prova da natureza global da organização que dirige.
Uma excepção individual não invalida uma
estrutura política.
Mas pode ser utilizada para a tornar
psicologicamente mais aceitável.
Esta é talvez a dimensão mais interessante do
caso Weidel.
A sua biografia pode funcionar como uma espécie
de certificado de inocência simbólico:
«Se ela pertence a esta minoria, então o partido
não pode ser hostil a essa minoria.»
Mas esta inferência confunde duas coisas
diferentes:
a identidade de quem exerce o poder
e
as consequências das políticas do poder.
Uma dirigente pode pertencer pessoalmente a uma
categoria que determinadas políticas afectam sem que essa pertença impeça a
organização de defender essas políticas.
A identidade pessoal não neutraliza
automaticamente a estrutura política.
Mais ainda: uma excepção pode possuir
precisamente maior eficácia simbólica quando é suficientemente visível para ser
utilizada como resposta às acusações dirigidas ao grupo.
A sequência torna-se então particularmente
sofisticada:
regra percebida → acusação de incompatibilidade →
excepção visível → redução da dissonância → preservação da narrativa.
É aqui que a dissonância cognitiva pode adquirir
uma função particularmente interessante. Se alguém sustenta que determinadas
posições da AfD são incompatíveis com a aceitação de certas minorias e
encontra, no topo do partido, uma dirigente que pertence pessoalmente a uma
dessas minorias, surge uma contradição que exige explicação. Essa contradição
pode conduzir à revisão da interpretação inicial; mas também pode ser resolvida
incorporando a excepção na própria narrativa: Weidel passa a ser vista como uma
excepção individual que permite conservar a interpretação geral do partido.
A sequência seria, assim: regra percebida →
contradição → excepção visível → redução da dissonância → preservação da
narrativa. A questão não é saber se esta é necessariamente a explicação
psicológica de cada eleitor, nem afirmar que Weidel tenha conscientemente
concebido a sua posição para produzir esse efeito. O ponto é outro: uma
excepção individual pode funcionar cognitivamente como elemento de redução da
dissonância sem obrigar à reavaliação da estrutura política que originou a
contradição.
É precisamente por isso que a identidade da
pessoa não deve substituir a análise das políticas. Uma característica
individual pode ser utilizada — conscientemente ou não, pelo próprio indivíduo,
pelo partido ou pelos seus apoiantes — para neutralizar uma contradição que
deveria ser examinada ao nível das posições, dos discursos e dos efeitos
políticos.
A excepção deixa de ser apenas uma excepção.
Passa a desempenhar uma função dentro da
arquitectura da legitimação.
É importante, porém, não transformar esta
hipótese numa afirmação de intenção que não possa ser demonstrada.
Não é necessário afirmar que toda a estratégia de
Weidel tenha sido conscientemente construída com esse propósito.
Também não é necessário afirmar que todos os
eleitores da AfD utilizem a sua biografia dessa forma.
Basta reconhecer a possibilidade de um mecanismo
psicológico e político:
uma característica individual pode ser mobilizada
para neutralizar uma contradição que deveria ser analisada ao nível das
políticas e da estrutura partidária.
É aqui que a distinção entre maioria e minoria
adquire a sua forma mais nítida.
A maioria pode olhar para Weidel e encontrar nela
uma confirmação emocional de que «não existe contradição».
Uma minoria dirigente pode, independentemente de
acreditar sinceramente naquilo que defende, compreender que determinadas
características da sua figura pública possuem capacidade de neutralizar
críticas e manter a coesão narrativa.
A maioria precisa de acreditar.
A minoria que explora o mecanismo precisa
sobretudo de saber o que permite que a maioria continue a acreditar.
Weidel torna-se, assim, particularmente relevante
não como explicação da AfD, mas como exemplo de uma questão mais ampla:
como pode uma excepção individual ser integrada
numa narrativa colectiva de modo a reduzir a necessidade de reavaliar a própria
narrativa?
A resposta não está na pessoa isoladamente.
Está na relação entre pessoa, grupo, identidade e
julgamento.
É precisamente o mesmo mecanismo que aparece
noutros níveis da arquitectura cognitiva:
o indivíduo é substituído pela categoria;
a categoria é substituída pelo estereótipo;
o estereótipo é protegido contra a contradição;
e a excepção pode ser incorporada na narrativa em
vez de a destruir.
A aparente contradição deixa, assim, de ser
necessariamente uma ameaça à narrativa.
Pode tornar-se parte da sua defesa.
Conclusão: a
arquitectura cognitiva da extrema-direita
A hipótese desenvolvida neste texto não afirma
que a neofobia produz fascismo.
Não afirma que a homogeneização produz xenofobia.
Não afirma que o aposematismo animal explica a
política humana.
Não afirma que uma menor capacidade cognitiva
conduz inevitavelmente à extrema-direita.
Não afirma que toda a categorização produz
segregação.
Não afirma que toda a segregação termina em
desumanização.
E não afirma que todos os eleitores da
extrema-direita possuem o mesmo perfil psicológico.
Nenhum mecanismo isolado explica o fenómeno.
A hipótese é outra:
a extrema-direita pode tornar-se particularmente
eficaz quando diversos mecanismos humanos, que isoladamente possuem funções ou
explicações diferentes, passam a ser politicamente organizados numa única
arquitectura.
Essa arquitectura pode desenvolver-se através de
uma sequência na qual a homogeneização de sinais sociais e culturais contribui
para a formação de um padrão reconhecível; esse padrão torna a diferença mais
perceptível; a diferença pode ser sentida como novidade ou estranheza; a
prudência perante o novo pode então ser mobilizada por um discurso que lhe
atribui significado político; a repetição propagandística consolida a
associação; a simplificação reduz a complexidade; a categorização transforma
indivíduos em grupos; a pertença pode substituir o julgamento próprio; a
essencialização converte características particulares em propriedades
colectivas; a segregação mantém a distância; a desindividualização reduz a
complexidade humana; e a desumanização pode tornar psicologicamente mais fácil
a exclusão.
O princípio biológico do aposematismo ajuda,
nesta hipótese, a compreender a importância da sinalização e do
reconhecimento.
A neofobia ajuda a compreender uma possível
resposta inicial perante o novo.
A capacidade cognitiva e a flexibilidade ajudam a
compreender por que razão algumas pessoas podem ter maior dificuldade em
processar realidades ambíguas e complexas ou em rever conclusões perante
informação nova.
A vontade de não pensar ajuda a compreender por
que razão outras podem interromper deliberadamente o julgamento quando este
ameaça a sua identidade ou os seus interesses.
O discurso fornece a interpretação.
A propaganda reforça a associação.
O rótulo transforma indivíduos numa categoria.
A pertença pode transferir o julgamento para o
grupo.
A segregação protege a distância.
A desindividualização reduz a percepção da pessoa
concreta.
A desumanização torna a exclusão psicologicamente
mais fácil.
E a política pode organizar tudo isto.
Talvez seja esta a questão mais importante.
A percepção da diferença é inevitável.
As sociedades humanas sempre reconheceram
diferenças.
O problema não começa quando alguém percebe:
«Esta pessoa é diferente de mim.»
O problema começa quando uma sequência política
transforma essa informação em:
«Esta pessoa pertence a uma categoria.»
Depois:
«Essa categoria representa uma ameaça.»
Depois:
«O meu grupo tem razão em temê-la.»
E finalmente:
«Devemos proteger-nos dela.»
É nessa transformação — da percepção para o
significado político — que se encontra o verdadeiro espaço de exploração.
A extrema-direita não precisa de criar a
diferença.
Não precisa de criar a neofobia.
Não precisa de criar a necessidade de pertença.
Não precisa de criar a capacidade humana de
reconhecer sinais e padrões.
Não precisa sequer de criar todas as condições de
insegurança que utiliza.
Pode simplesmente activar, seleccionar,
organizar e amplificar elementos que já existem na experiência humana,
ligando-os através de uma narrativa que oferece simultaneamente explicação,
identidade, pertença, ameaça e solução.
E, nesse processo, a fronteira entre a maioria
mobilizada e a minoria que organiza a mobilização torna-se decisiva.
A maioria pode reagir ao mecanismo.
Uma minoria pode compreender como o mecanismo
funciona.
A maioria pode perguntar:
«É verdade?»
A minoria pode perguntar:
«Funciona?»
E a política começa precisamente quando alguém
consegue transformar uma reacção individual num comportamento colectivo.
É também por isso que Weidel merece uma análise
específica.
A sua importância para esta hipótese não está em
constituir uma prova isolada sobre a AfD, nem em permitir concluir
automaticamente qualquer coisa sobre a sua ideologia através da sua vida
privada.
Está na possibilidade de observar como uma
excepção individual pode neutralizar uma contradição colectiva, deslocando
o julgamento das políticas para a pessoa e da estrutura para a biografia.
A excepção não destrói necessariamente o
mecanismo.
Pode fornecer-lhe uma aparência de coerência.
No fundo, a questão não é a existência da
diferença.
É aquilo que fazemos cognitivamente depois de a
reconhecer.
Diferença não é ameaça.
Mas transformar automaticamente diferença em
ameaça é precisamente aquilo que um mecanismo cognitivo primário permite fazer
quando deixa de ser corrigido pelo julgamento.
E talvez seja nessa passagem — entre reconhecer
uma diferença e decidir o que essa diferença significa — que se encontre uma
das zonas mais importantes de exploração política da arquitectura cognitiva
humana.
Nota sobre a
perspectiva interdisciplinar
A hipótese aqui apresentada resulta de uma
leitura deliberadamente transversal de mecanismos que pertencem a campos
diferentes — da biologia evolutiva à psicologia cognitiva e social, da
antropologia à ciência política e ao direito — procurando observar não apenas
cada fenómeno isoladamente, mas aquilo que acontece quando esses fenómenos são
articulados numa mesma dinâmica social e política.
É também dessa perspectiva que resulta a escolha
do aposematismo como ponto de partida: não para biologizar a política, mas para
interrogar a relação entre sinalização, reconhecimento, categorização e
resposta, e perceber até onde uma lógica originalmente estudada noutro
domínio pode ajudar a iluminar, com todas as cautelas necessárias, determinados
mecanismos humanos.
Mário Pinto

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