terça-feira, setembro 08, 2026

Alice Weidel, AfD, dois pesos e duas medidas: fascismo, democracia e poder

 


Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita radical e uma das principais dirigentes da Alternative für Deutschland (AfD). A questão mais interessante não é saber se gosta ou não de democracia, nem se participa em eleições. Participa. A questão é que concepção de sociedade, de nação, de direitos e de pluralismo pretende levar ao poder através dessas eleições.

É aqui que a classificação de Weidel como fascista ou neofascista se torna politologicamente defensável.

Não porque seja Hitler. Não é.

Não porque toda a política anti-imigração seja fascista. Não é.

E muito menos porque seja uma mulher homossexual que vive numa configuração familiar diferente daquela que o seu partido apresenta como modelo. Isso seria um argumento infantil.

O problema está noutro lugar: na combinação entre nacionalismo, homogeneização cultural, regeneração nacional, exclusão, família normativa, oposição ao multiculturalismo e uma concepção da comunidade nacional que pode colocar a pertença colectiva acima da autonomia individual.


1. O fascismo não é um uniforme

Existe uma forma bastante cómoda de impedir qualquer comparação histórica: definir fascismo como sendo exactamente aquilo que Mussolini e Hitler fizeram.

Nesse caso, obviamente, quase ninguém contemporâneo seria fascista.

Mas é precisamente por isso que a ciência política desenvolveu definições comparativas. Roger Griffin, uma das principais referências no estudo comparado do fascismo, identifica o núcleo fascista através do ultranacionalismo palingenético: a ideia de uma nação decadente que necessita de regeneração ou renascimento.

O fascismo pode, portanto, mudar de roupa.

Pode abandonar a camisa castanha, participar em eleições, utilizar redes sociais, apresentar candidatos, defender determinadas liberdades e falar constantemente em democracia.

O que interessa é saber que sociedade pretende construir se conquistar o poder.

E é aqui que o AfD deixa de ser simplesmente um partido conservador.


2. A nação como comunidade a recuperar

A própria linguagem política de Weidel assenta repetidamente numa ideia de ruptura: a Alemanha teria sido conduzida por elites incompetentes para uma situação de decadência e necessita de uma mudança radical de orientação.

O AfD apresenta-se como força de recuperação da soberania, da identidade e da capacidade de decisão nacional.

No seu programa, defende um Estado nacional soberano e uma Europa das pátrias, contraposta à integração supranacional.

Isto, isoladamente, não é fascismo. O nacionalismo existe em democracias perfeitamente liberais.

O problema surge quando a nação deixa de ser apenas uma comunidade política de cidadãos iguais e passa a ser concebida como uma comunidade cultural que necessita de ser preservada contra elementos considerados incompatíveis.

É aí que a análise muda.


3. Quem pertence verdadeiramente à Alemanha?

O AfD não defende simplesmente uma política de imigração restritiva.

Defende uma concepção muito mais abrangente de identidade nacional.

Rejeita o multiculturalismo e afirma uma "Leitkultur" alemã, uma cultura orientadora que considera fundamental para a coesão e identidade nacionais.

Defende também uma política migratória nacionalmente controlada e uma política de "remigração". O próprio AfD procura actualmente definir oficialmente esta última de maneira restrita, como retorno legal de estrangeiros obrigados a abandonar o país.

Essa definição oficial deve ser levada a sério.

Mas também deve ser analisado o significado político mais amplo do projecto: quem pode entrar, quem pode permanecer, quem pode obter pertença plena e segundo que critérios a pertença é reconhecida.

Weidel tem defendido, por exemplo, o encerramento das fronteiras, rejeições à entrada e deportações de estrangeiros em situação ilegal.

Novamente: expulsar pessoas que não têm direito legal de permanecer não é, por si só, fascismo.

A questão fascizante aparece quando isto se integra numa concepção mais ampla segundo a qual a identidade nacional precisa de ser protegida, regenerada e culturalmente homogeneizada.


4. E depois aparece a família

Aqui está uma questão que o texto anterior não desenvolveu suficientemente.

O AfD não apresenta a família tradicional simplesmente como uma preferência privada.

O seu programa afirma que a família é constituída por pai, mãe e filhos e apresenta esse modelo como referência social.

No programa fundamental, fala explicitamente da família tradicional como Leitbild, ou seja, como modelo orientador, e defende "mais crianças em vez de imigração em massa". A política familiar é apresentada também como resposta à evolução demográfica da população alemã.

Há aqui uma questão política muito mais profunda do que a discussão sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É a utilização do Estado para promover uma determinada concepção de família, de reprodução e de continuidade demográfica da comunidade nacional.

O próprio AfD chegou a formular a ideia de que a preservação do "Staatsvolk" — o povo do Estado — deveria constituir objectivo político fundamental.

Isto aproxima-se de uma concepção organicista da nação: a sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos livres que celebram contratos e exercem direitos; é uma comunidade histórica que deve reproduzir-se e preservar a sua identidade.

É precisamente este tipo de passagem — do cidadão para o corpo nacional — que merece atenção numa análise do fascismo.


5. E onde entra Alice Weidel?

Aqui é necessário ser intelectualmente honesto.

Weidel é oficialmente descrita pelo Bundestag como tendo dois filhos e vivendo em parceria registada. Tem formação universitária avançada em economia e uma carreira internacional.

Nada disso é problema.

Pelo contrário: ela tem exactamente os mesmos direitos que qualquer outro cidadão deve ter.

Pode viver com quem quiser.

Pode constituir família.

Pode trabalhar onde quiser.

Pode desenvolver uma carreira internacional.

Pode viver onde quiser dentro dos limites da lei.

Pode ter uma vida familiar que não corresponda ao modelo tradicional.

Tudo isso é perfeitamente compatível com uma sociedade liberal.

Mas então aparece a pergunta politicamente incómoda:

esses mesmos direitos devem ser igualmente reconhecidos a todos os outros?

Se a resposta for sim, não existe contradição pessoal relevante.

Se a resposta for não, temos um problema de igualdade.

E esse problema não se limita ao sexo.

Abrange família, maternidade, residência, mobilidade, carreira profissional, origem e integração.


6. A dupla vara

A crítica séria não é:

"Weidel é homossexual, portanto não pode defender a família tradicional."

Isso seria absurdo.

Uma pessoa pode defender politicamente um modelo familiar que não adopta para si.

A crítica é outra:

Se o Estado deve reconhecer e proteger a liberdade individual de Weidel para viver fora desse modelo, com que fundamento essa liberdade deixa de ser igualmente legítima para outros cidadãos?

A mesma lógica vale para a mobilidade.

Weidel construiu uma carreira internacional e possui experiência profissional fora da Alemanha. O Bundestag confirma a sua formação e percurso profissional internacional.

Isso não invalida o nacionalismo económico do AfD.

Mas cria uma assimetria politicamente legítima de questionar:

por que razão a circulação internacional de capital, formação e carreira pode ser uma virtude para alguns enquanto a circulação internacional de pessoas é apresentada como ameaça à comunidade nacional?

A resposta pode existir: uma pessoa pode defender liberdade económica e imigração restrita.

Não há contradição lógica automática.

Mas há uma questão de igualdade de liberdade quando as restrições recaem sistematicamente sobre categorias de pessoas que não pertencem ao grupo considerado plenamente nacional.

É aqui que a crítica deixa de ser pessoal e passa a ser política.


7. Fascismo não é simplesmente "ser contra imigrantes"

Ser contra imigração ilimitada não torna ninguém fascista.

Defender fronteiras nacionais não torna ninguém fascista.

Defender a família tradicional não torna ninguém fascista.

Defender soberania nacional não torna ninguém fascista.

Defender deportação de estrangeiros sem direito de permanência também não.

O fascismo surge como classificação quando esses elementos passam a integrar uma visão política mais abrangente:

nação ameaçada → decadência → identificação dos responsáveis ou dos elementos incompatíveis → necessidade de regeneração → reconstrução de uma comunidade nacional mais homogénea.

No AfD encontram-se vários destes componentes: nacionalismo radical, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade cultural alemã dominante, política demográfica orientada para a população autóctone, restrição migratória severa e uma narrativa de ruptura e regeneração nacional.

É esta convergência estrutural, e não uma frase isolada, que torna legítima a classificação de fascista ou neofascista.


8. E Hitler? Participava em eleições?

Sim.

E este ponto é fundamental porque destrói um dos argumentos mais frágeis contra a possibilidade de um movimento eleitoral ser fascista.

Hitler candidatou-se à Presidência em 1932. Obteve 30,1% na primeira volta. Nas eleições legislativas de Julho de 1932, a NSDAP obteve 37,3% e tornou-se a maior força parlamentar. Em Novembro caiu para 33,1%, mas continuou a ser o maior partido.

Hitler não foi eleito directamente chanceler. Hindenburg nomeou-o em 30 de Janeiro de 1933, na sequência de negociações políticas.

Depois, já no poder, os nazis destruíram progressivamente o sistema democrático: suspensão de direitos fundamentais, concentração de poder, eliminação da oposição, destruição dos sindicatos independentes e proibição dos restantes partidos.

Portanto, afirmar:

"O AfD participa em eleições, logo não pode ser fascista"

é simplesmente um argumento historicamente inválido.

Hitler também participou em eleições.

E o problema do fascismo não era a existência de eleições; era aquilo que o movimento pretendia fazer com o poder conquistado.


9. Fascismo e totalitarismo não são a mesma coisa

Aqui é preciso estabelecer uma fronteira rigorosa.

É possível classificar ideologicamente Weidel como fascista ou neofascista sem afirmar que ela tenha instaurado um regime totalitário.

Totalitarismo não é apenas uma ideologia. É também uma forma de exercício do poder.

Implica uma tentativa de eliminar o pluralismo político e de submeter amplamente a sociedade ao poder político: instituições, comunicação, educação, cultura, organizações sociais e vida pública.

Weidel e o AfD ainda não exerceram esse poder sobre a Alemanha federal.

Logo, não podemos afirmar empiricamente:

"Weidel governa ou governou um regime totalitário."

Não governa.

Mas também não devemos cometer o erro inverso:

"Como ainda não instaurou uma ditadura, as suas ideias não podem ser fascistas."

Podem.

A ideologia pode ser analisada antes da tomada do poder; o carácter totalitário de um regime só pode ser demonstrado plenamente através do exercício desse poder.


10. A verdadeira questão democrática

A questão decisiva não é saber se Weidel acredita em eleições.

Acredita.

Nem sequer é saber se o AfD utiliza mecanismos democráticos.

Utiliza.

A questão é outra:

que direitos considera universais e que direitos considera dependentes da pertença à comunidade nacional que pretende definir?

Porque uma democracia liberal não consiste apenas em contar votos.

Consiste também em reconhecer que o vencedor das eleições não recebe autorização para redefinir arbitrariamente quem é plenamente cidadão, que famílias são socialmente legítimas, que culturas podem pertencer ao país ou que indivíduos merecem diferentes graus de liberdade.

E aqui está o verdadeiro teste.

Se Weidel conquista poder eleitoral, mas mantém intactos os direitos universais, o pluralismo, a igualdade perante a lei e a autonomia individual, então a classificação totalitária não se confirma.

Se, pelo contrário, utiliza o poder para estabelecer uma comunidade nacional hierarquizada, restringir sistematicamente a liberdade de grupos considerados inadequados e subordinar o indivíduo a uma concepção política de nação, então a distância entre o fascismo ideológico e o exercício autoritário do poder começa a desaparecer.


Conclusão

A classificação mais rigorosa não é dizer que Alice Weidel é "Hitler".

Isso seria historicamente grosseiro.

Também não é dizer que o AfD não pode ser fascista porque participa em eleições.

Isso seria historicamente falso.

E também não é dizer que Weidel é actualmente totalitária porque ainda não possui o poder necessário para instaurar um regime totalitário.

Isso seria empiricamente excessivo.

A formulação mais sólida é esta:

Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita radical cujas declarações e propostas apresentam um conjunto substancial e coerente de características estruturais associadas ao fascismo contemporâneo. Por isso, a classificação de fascista ou neofascista é politologicamente defensável.

O AfD combina nacionalismo radical, regeneração nacional, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade cultural dominante, política demográfica orientada para a população autóctone, família tradicional como modelo e políticas migratórias fortemente excludentes.

A classificação de totalitarista exige maior cautela, não porque a participação eleitoral seja incompatível com o fascismo — não é — mas porque o totalitarismo é também uma forma concreta de exercício do poder.

E há uma última questão que não pode ser descartada como mero detalhe biográfico:

uma dirigente política pode defender para si a liberdade de viver, trabalhar, constituir família e circular de determinada maneira. O que importa politicamente é saber se considera essa liberdade um direito universal ou uma possibilidade reservada, na prática, àqueles que pertencem à comunidade que ela própria considera legítima.

Se for universal, temos uma democracia conservadora ou radical.

Se for selectiva, temos algo muito mais sério.

Porque a essência do problema não está em saber se Weidel quer ser livre. Está em saber quem, na sociedade que pretende construir, continuará a ter direito à mesma liberdade. 

Mino - 2026

 


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