Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita radical e uma das principais dirigentes da Alternative für Deutschland (AfD). A questão mais interessante não é saber se gosta ou não de democracia, nem se participa em eleições. Participa. A questão é que concepção de sociedade, de nação, de direitos e de pluralismo pretende levar ao poder através dessas eleições.
É aqui que a classificação de Weidel como fascista
ou neofascista se torna politologicamente defensável.
Não porque seja Hitler. Não é.
Não porque toda a política anti-imigração seja
fascista. Não é.
E muito menos porque seja uma mulher homossexual
que vive numa configuração familiar diferente daquela que o seu partido
apresenta como modelo. Isso seria um argumento infantil.
O problema está noutro lugar: na combinação
entre nacionalismo, homogeneização cultural, regeneração nacional, exclusão,
família normativa, oposição ao multiculturalismo e uma concepção da comunidade
nacional que pode colocar a pertença colectiva acima da autonomia individual.
1. O fascismo
não é um uniforme
Existe uma forma bastante cómoda de impedir
qualquer comparação histórica: definir fascismo como sendo exactamente aquilo
que Mussolini e Hitler fizeram.
Nesse caso, obviamente, quase ninguém
contemporâneo seria fascista.
Mas é precisamente por isso que a ciência
política desenvolveu definições comparativas. Roger Griffin, uma das principais
referências no estudo comparado do fascismo, identifica o núcleo fascista
através do ultranacionalismo palingenético: a ideia de uma nação
decadente que necessita de regeneração ou renascimento.
O fascismo pode, portanto, mudar de roupa.
Pode abandonar a camisa castanha, participar em
eleições, utilizar redes sociais, apresentar candidatos, defender determinadas
liberdades e falar constantemente em democracia.
O que interessa é saber que sociedade pretende
construir se conquistar o poder.
E é aqui que o AfD deixa de ser simplesmente um
partido conservador.
2. A nação
como comunidade a recuperar
A própria linguagem política de Weidel assenta
repetidamente numa ideia de ruptura: a Alemanha teria sido conduzida por elites
incompetentes para uma situação de decadência e necessita de uma mudança
radical de orientação.
O AfD apresenta-se como força de recuperação da
soberania, da identidade e da capacidade de decisão nacional.
No seu programa, defende um Estado nacional
soberano e uma Europa das pátrias, contraposta à integração supranacional.
Isto, isoladamente, não é fascismo. O
nacionalismo existe em democracias perfeitamente liberais.
O problema surge quando a nação deixa de ser
apenas uma comunidade política de cidadãos iguais e passa a ser concebida como uma
comunidade cultural que necessita de ser preservada contra elementos
considerados incompatíveis.
É aí que a análise muda.
3. Quem
pertence verdadeiramente à Alemanha?
O AfD não defende simplesmente uma política de
imigração restritiva.
Defende uma concepção muito mais abrangente de
identidade nacional.
Rejeita o multiculturalismo e afirma uma "Leitkultur"
alemã, uma cultura orientadora que considera fundamental para a coesão e
identidade nacionais.
Defende também uma política migratória
nacionalmente controlada e uma política de "remigração". O próprio
AfD procura actualmente definir oficialmente esta última de maneira restrita,
como retorno legal de estrangeiros obrigados a abandonar o país.
Essa definição oficial deve ser levada a sério.
Mas também deve ser analisado o significado
político mais amplo do projecto: quem pode entrar, quem pode permanecer,
quem pode obter pertença plena e segundo que critérios a pertença é
reconhecida.
Weidel tem defendido, por exemplo, o encerramento
das fronteiras, rejeições à entrada e deportações de estrangeiros em situação
ilegal.
Novamente: expulsar pessoas que não têm direito
legal de permanecer não é, por si só, fascismo.
A questão fascizante aparece quando isto se
integra numa concepção mais ampla segundo a qual a identidade nacional precisa
de ser protegida, regenerada e culturalmente homogeneizada.
4. E depois
aparece a família
Aqui está uma questão que o texto anterior não
desenvolveu suficientemente.
O AfD não apresenta a família tradicional
simplesmente como uma preferência privada.
O seu programa afirma que a família é constituída
por pai, mãe e filhos e apresenta esse modelo como referência social.
No programa fundamental, fala explicitamente da família
tradicional como Leitbild, ou seja, como modelo orientador, e defende
"mais crianças em vez de imigração em massa". A política familiar é
apresentada também como resposta à evolução demográfica da população alemã.
Há aqui uma questão política muito mais profunda
do que a discussão sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo.
É a utilização do Estado para promover uma
determinada concepção de família, de reprodução e de continuidade demográfica
da comunidade nacional.
O próprio AfD chegou a formular a ideia de que a
preservação do "Staatsvolk" — o povo do Estado — deveria
constituir objectivo político fundamental.
Isto aproxima-se de uma concepção organicista da
nação: a sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos livres que celebram
contratos e exercem direitos; é uma comunidade histórica que deve reproduzir-se
e preservar a sua identidade.
É precisamente este tipo de passagem — do
cidadão para o corpo nacional — que merece atenção numa análise do
fascismo.
5. E onde
entra Alice Weidel?
Aqui é necessário ser intelectualmente honesto.
Weidel é oficialmente descrita pelo Bundestag
como tendo dois filhos e vivendo em parceria registada. Tem formação
universitária avançada em economia e uma carreira internacional.
Nada disso é problema.
Pelo contrário: ela tem exactamente os mesmos
direitos que qualquer outro cidadão deve ter.
Pode viver com quem quiser.
Pode constituir família.
Pode trabalhar onde quiser.
Pode desenvolver uma carreira internacional.
Pode viver onde quiser dentro dos limites da lei.
Pode ter uma vida familiar que não corresponda ao
modelo tradicional.
Tudo isso é perfeitamente compatível com uma
sociedade liberal.
Mas então aparece a pergunta politicamente
incómoda:
esses mesmos direitos devem ser igualmente
reconhecidos a todos os outros?
Se a resposta for sim, não existe contradição
pessoal relevante.
Se a resposta for não, temos um problema de
igualdade.
E esse problema não se limita ao sexo.
Abrange família, maternidade, residência,
mobilidade, carreira profissional, origem e integração.
6. A dupla
vara
A crítica séria não é:
"Weidel é homossexual, portanto não pode
defender a família tradicional."
Isso seria absurdo.
Uma pessoa pode defender politicamente um modelo
familiar que não adopta para si.
A crítica é outra:
Se o Estado deve reconhecer e proteger a
liberdade individual de Weidel para viver fora desse modelo, com que fundamento
essa liberdade deixa de ser igualmente legítima para outros cidadãos?
A mesma lógica vale para a mobilidade.
Weidel construiu uma carreira internacional e
possui experiência profissional fora da Alemanha. O Bundestag confirma a sua
formação e percurso profissional internacional.
Isso não invalida o nacionalismo económico do
AfD.
Mas cria uma assimetria politicamente legítima de
questionar:
por que razão a circulação internacional de
capital, formação e carreira pode ser uma virtude para alguns enquanto a
circulação internacional de pessoas é apresentada como ameaça à comunidade
nacional?
A resposta pode existir: uma pessoa pode defender
liberdade económica e imigração restrita.
Não há contradição lógica automática.
Mas há uma questão de igualdade de liberdade
quando as restrições recaem sistematicamente sobre categorias de pessoas que
não pertencem ao grupo considerado plenamente nacional.
É aqui que a crítica deixa de ser pessoal e passa
a ser política.
7. Fascismo
não é simplesmente "ser contra imigrantes"
Ser contra imigração ilimitada não torna ninguém
fascista.
Defender fronteiras nacionais não torna ninguém
fascista.
Defender a família tradicional não torna ninguém
fascista.
Defender soberania nacional não torna ninguém
fascista.
Defender deportação de estrangeiros sem direito
de permanência também não.
O fascismo surge como classificação quando esses
elementos passam a integrar uma visão política mais abrangente:
nação ameaçada → decadência → identificação dos
responsáveis ou dos elementos incompatíveis → necessidade de regeneração →
reconstrução de uma comunidade nacional mais homogénea.
No AfD encontram-se vários destes componentes:
nacionalismo radical, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade
cultural alemã dominante, política demográfica orientada para a população
autóctone, restrição migratória severa e uma narrativa de ruptura e regeneração
nacional.
É esta convergência estrutural, e não uma
frase isolada, que torna legítima a classificação de fascista ou neofascista.
8. E Hitler?
Participava em eleições?
Sim.
E este ponto é fundamental porque destrói um dos
argumentos mais frágeis contra a possibilidade de um movimento eleitoral ser
fascista.
Hitler candidatou-se à Presidência em 1932.
Obteve 30,1% na primeira volta. Nas eleições legislativas de Julho de 1932, a
NSDAP obteve 37,3% e tornou-se a maior força parlamentar. Em Novembro caiu para
33,1%, mas continuou a ser o maior partido.
Hitler não foi eleito directamente chanceler.
Hindenburg nomeou-o em 30 de Janeiro de 1933, na sequência de negociações
políticas.
Depois, já no poder, os nazis destruíram
progressivamente o sistema democrático: suspensão de direitos fundamentais,
concentração de poder, eliminação da oposição, destruição dos sindicatos
independentes e proibição dos restantes partidos.
Portanto, afirmar:
"O AfD participa em eleições, logo não pode
ser fascista"
é simplesmente um argumento historicamente
inválido.
Hitler também participou em eleições.
E o problema do fascismo não era a existência de
eleições; era aquilo que o movimento pretendia fazer com o poder conquistado.
9. Fascismo e
totalitarismo não são a mesma coisa
Aqui é preciso estabelecer uma fronteira
rigorosa.
É possível classificar ideologicamente Weidel
como fascista ou neofascista sem afirmar que ela tenha instaurado um
regime totalitário.
Totalitarismo não é apenas uma ideologia. É
também uma forma de exercício do poder.
Implica uma tentativa de eliminar o pluralismo
político e de submeter amplamente a sociedade ao poder político: instituições,
comunicação, educação, cultura, organizações sociais e vida pública.
Weidel e o AfD ainda não exerceram esse poder
sobre a Alemanha federal.
Logo, não podemos afirmar empiricamente:
"Weidel governa ou governou um regime
totalitário."
Não governa.
Mas também não devemos cometer o erro inverso:
"Como ainda não instaurou uma ditadura, as
suas ideias não podem ser fascistas."
Podem.
A ideologia pode ser analisada antes da tomada do
poder; o carácter totalitário de um regime só pode ser demonstrado plenamente
através do exercício desse poder.
10. A
verdadeira questão democrática
A questão decisiva não é saber se Weidel acredita
em eleições.
Acredita.
Nem sequer é saber se o AfD utiliza mecanismos
democráticos.
Utiliza.
A questão é outra:
que direitos considera universais e que direitos
considera dependentes da pertença à comunidade nacional que pretende definir?
Porque uma democracia liberal não consiste apenas
em contar votos.
Consiste também em reconhecer que o vencedor
das eleições não recebe autorização para redefinir arbitrariamente quem é
plenamente cidadão, que famílias são socialmente legítimas, que culturas podem
pertencer ao país ou que indivíduos merecem diferentes graus de liberdade.
E aqui está o verdadeiro teste.
Se Weidel conquista poder eleitoral, mas mantém
intactos os direitos universais, o pluralismo, a igualdade perante a lei e a
autonomia individual, então a classificação totalitária não se confirma.
Se, pelo contrário, utiliza o poder para
estabelecer uma comunidade nacional hierarquizada, restringir sistematicamente
a liberdade de grupos considerados inadequados e subordinar o indivíduo a uma
concepção política de nação, então a distância entre o fascismo ideológico e o
exercício autoritário do poder começa a desaparecer.
Conclusão
A classificação mais rigorosa não é dizer que
Alice Weidel é "Hitler".
Isso seria historicamente grosseiro.
Também não é dizer que o AfD não pode ser
fascista porque participa em eleições.
Isso seria historicamente falso.
E também não é dizer que Weidel é actualmente
totalitária porque ainda não possui o poder necessário para instaurar um regime
totalitário.
Isso seria empiricamente excessivo.
A formulação mais sólida é esta:
Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita
radical cujas declarações e propostas apresentam um conjunto substancial e
coerente de características estruturais associadas ao fascismo contemporâneo.
Por isso, a classificação de fascista ou neofascista é politologicamente
defensável.
O AfD combina nacionalismo radical, regeneração
nacional, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade cultural
dominante, política demográfica orientada para a população autóctone, família
tradicional como modelo e políticas migratórias fortemente excludentes.
A classificação de totalitarista exige maior
cautela, não porque a participação eleitoral seja incompatível com o fascismo —
não é — mas porque o totalitarismo é também uma forma concreta de exercício do
poder.
E há uma última questão que não pode ser
descartada como mero detalhe biográfico:
uma dirigente política pode defender para si a
liberdade de viver, trabalhar, constituir família e circular de determinada
maneira. O que importa politicamente é saber se considera essa liberdade um
direito universal ou uma possibilidade reservada, na prática, àqueles que
pertencem à comunidade que ela própria considera legítima.
Se for universal, temos uma democracia
conservadora ou radical.
Se for selectiva, temos algo muito mais sério.
Porque a essência do problema não está em saber se Weidel quer ser livre. Está em saber quem, na sociedade que pretende construir, continuará a ter direito à mesma liberdade.
Mino - 2026


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