Todas as manhãs, o uniforme.
Ninguém lhe chama disfarce.
Chamam-lhe vestir-se,
chamam-lhe ser.
Poderia vesti-lo.
Caberia na submersão massiva,
deixaria de ser excepção.
Já durmo uma parte da vida,
a totalidade desapareceria se disfarçado.
Fazer disso ofício,
profissional circense: não resolve.
Já ninguém parece ser outra coisa,
muitas vezes sem dar por isso,
ou sem que ali signifique o mesmo.
São tantas as dimensões
quantos paridos.
Vale a pena esta forma
que se supõe aceite,
expor-se à crítica dual da plateia
ou do próprio elenco,
tantas vezes com um único papel,
o do manual de instruções?
Este despudorado capricho do universo
quase explicado pela física
deveria ser mais que a primária aflição
por não possuir o que se não tem,
deveria ser melhor que o que resulta
de tornar o olhar um tribunal.
Carece de sentido, mas
encontra-o o narciso,
encontra-o o inocente, até que cede.
Resistir a atribuir-lho
pode custar a vida.
Rejeito-o.
Mino, Madrid, 2026


Sem comentários:
Enviar um comentário