terça-feira, setembro 08, 2026

Alice Weidel, AfD, dois pesos e duas medidas: fascismo, democracia e poder

 


Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita radical e uma das principais dirigentes da Alternative für Deutschland (AfD). A questão mais interessante não é saber se gosta ou não de democracia, nem se participa em eleições. Participa. A questão é que concepção de sociedade, de nação, de direitos e de pluralismo pretende levar ao poder através dessas eleições.

É aqui que a classificação de Weidel como fascista ou neofascista se torna politologicamente defensável.

Não porque seja Hitler. Não é.

Não porque toda a política anti-imigração seja fascista. Não é.

E muito menos porque seja uma mulher homossexual que vive numa configuração familiar diferente daquela que o seu partido apresenta como modelo. Isso seria um argumento infantil.

O problema está noutro lugar: na combinação entre nacionalismo, homogeneização cultural, regeneração nacional, exclusão, família normativa, oposição ao multiculturalismo e uma concepção da comunidade nacional que pode colocar a pertença colectiva acima da autonomia individual.


1. O fascismo não é um uniforme

Existe uma forma bastante cómoda de impedir qualquer comparação histórica: definir fascismo como sendo exactamente aquilo que Mussolini e Hitler fizeram.

Nesse caso, obviamente, quase ninguém contemporâneo seria fascista.

Mas é precisamente por isso que a ciência política desenvolveu definições comparativas. Roger Griffin, uma das principais referências no estudo comparado do fascismo, identifica o núcleo fascista através do ultranacionalismo palingenético: a ideia de uma nação decadente que necessita de regeneração ou renascimento.

O fascismo pode, portanto, mudar de roupa.

Pode abandonar a camisa castanha, participar em eleições, utilizar redes sociais, apresentar candidatos, defender determinadas liberdades e falar constantemente em democracia.

O que interessa é saber que sociedade pretende construir se conquistar o poder.

E é aqui que o AfD deixa de ser simplesmente um partido conservador.


2. A nação como comunidade a recuperar

A própria linguagem política de Weidel assenta repetidamente numa ideia de ruptura: a Alemanha teria sido conduzida por elites incompetentes para uma situação de decadência e necessita de uma mudança radical de orientação.

O AfD apresenta-se como força de recuperação da soberania, da identidade e da capacidade de decisão nacional.

No seu programa, defende um Estado nacional soberano e uma Europa das pátrias, contraposta à integração supranacional.

Isto, isoladamente, não é fascismo. O nacionalismo existe em democracias perfeitamente liberais.

O problema surge quando a nação deixa de ser apenas uma comunidade política de cidadãos iguais e passa a ser concebida como uma comunidade cultural que necessita de ser preservada contra elementos considerados incompatíveis.

É aí que a análise muda.


3. Quem pertence verdadeiramente à Alemanha?

O AfD não defende simplesmente uma política de imigração restritiva.

Defende uma concepção muito mais abrangente de identidade nacional.

Rejeita o multiculturalismo e afirma uma "Leitkultur" alemã, uma cultura orientadora que considera fundamental para a coesão e identidade nacionais.

Defende também uma política migratória nacionalmente controlada e uma política de "remigração". O próprio AfD procura actualmente definir oficialmente esta última de maneira restrita, como retorno legal de estrangeiros obrigados a abandonar o país.

Essa definição oficial deve ser levada a sério.

Mas também deve ser analisado o significado político mais amplo do projecto: quem pode entrar, quem pode permanecer, quem pode obter pertença plena e segundo que critérios a pertença é reconhecida.

Weidel tem defendido, por exemplo, o encerramento das fronteiras, rejeições à entrada e deportações de estrangeiros em situação ilegal.

Novamente: expulsar pessoas que não têm direito legal de permanecer não é, por si só, fascismo.

A questão fascizante aparece quando isto se integra numa concepção mais ampla segundo a qual a identidade nacional precisa de ser protegida, regenerada e culturalmente homogeneizada.


4. E depois aparece a família

Aqui está uma questão que o texto anterior não desenvolveu suficientemente.

O AfD não apresenta a família tradicional simplesmente como uma preferência privada.

O seu programa afirma que a família é constituída por pai, mãe e filhos e apresenta esse modelo como referência social.

No programa fundamental, fala explicitamente da família tradicional como Leitbild, ou seja, como modelo orientador, e defende "mais crianças em vez de imigração em massa". A política familiar é apresentada também como resposta à evolução demográfica da população alemã.

Há aqui uma questão política muito mais profunda do que a discussão sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É a utilização do Estado para promover uma determinada concepção de família, de reprodução e de continuidade demográfica da comunidade nacional.

O próprio AfD chegou a formular a ideia de que a preservação do "Staatsvolk" — o povo do Estado — deveria constituir objectivo político fundamental.

Isto aproxima-se de uma concepção organicista da nação: a sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos livres que celebram contratos e exercem direitos; é uma comunidade histórica que deve reproduzir-se e preservar a sua identidade.

É precisamente este tipo de passagem — do cidadão para o corpo nacional — que merece atenção numa análise do fascismo.


5. E onde entra Alice Weidel?

Aqui é necessário ser intelectualmente honesto.

Weidel é oficialmente descrita pelo Bundestag como tendo dois filhos e vivendo em parceria registada. Tem formação universitária avançada em economia e uma carreira internacional.

Nada disso é problema.

Pelo contrário: ela tem exactamente os mesmos direitos que qualquer outro cidadão deve ter.

Pode viver com quem quiser.

Pode constituir família.

Pode trabalhar onde quiser.

Pode desenvolver uma carreira internacional.

Pode viver onde quiser dentro dos limites da lei.

Pode ter uma vida familiar que não corresponda ao modelo tradicional.

Tudo isso é perfeitamente compatível com uma sociedade liberal.

Mas então aparece a pergunta politicamente incómoda:

esses mesmos direitos devem ser igualmente reconhecidos a todos os outros?

Se a resposta for sim, não existe contradição pessoal relevante.

Se a resposta for não, temos um problema de igualdade.

E esse problema não se limita ao sexo.

Abrange família, maternidade, residência, mobilidade, carreira profissional, origem e integração.


6. A dupla vara

A crítica séria não é:

"Weidel é homossexual, portanto não pode defender a família tradicional."

Isso seria absurdo.

Uma pessoa pode defender politicamente um modelo familiar que não adopta para si.

A crítica é outra:

Se o Estado deve reconhecer e proteger a liberdade individual de Weidel para viver fora desse modelo, com que fundamento essa liberdade deixa de ser igualmente legítima para outros cidadãos?

A mesma lógica vale para a mobilidade.

Weidel construiu uma carreira internacional e possui experiência profissional fora da Alemanha. O Bundestag confirma a sua formação e percurso profissional internacional.

Isso não invalida o nacionalismo económico do AfD.

Mas cria uma assimetria politicamente legítima de questionar:

por que razão a circulação internacional de capital, formação e carreira pode ser uma virtude para alguns enquanto a circulação internacional de pessoas é apresentada como ameaça à comunidade nacional?

A resposta pode existir: uma pessoa pode defender liberdade económica e imigração restrita.

Não há contradição lógica automática.

Mas há uma questão de igualdade de liberdade quando as restrições recaem sistematicamente sobre categorias de pessoas que não pertencem ao grupo considerado plenamente nacional.

É aqui que a crítica deixa de ser pessoal e passa a ser política.


7. Fascismo não é simplesmente "ser contra imigrantes"

Ser contra imigração ilimitada não torna ninguém fascista.

Defender fronteiras nacionais não torna ninguém fascista.

Defender a família tradicional não torna ninguém fascista.

Defender soberania nacional não torna ninguém fascista.

Defender deportação de estrangeiros sem direito de permanência também não.

O fascismo surge como classificação quando esses elementos passam a integrar uma visão política mais abrangente:

nação ameaçada → decadência → identificação dos responsáveis ou dos elementos incompatíveis → necessidade de regeneração → reconstrução de uma comunidade nacional mais homogénea.

No AfD encontram-se vários destes componentes: nacionalismo radical, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade cultural alemã dominante, política demográfica orientada para a população autóctone, restrição migratória severa e uma narrativa de ruptura e regeneração nacional.

É esta convergência estrutural, e não uma frase isolada, que torna legítima a classificação de fascista ou neofascista.


8. E Hitler? Participava em eleições?

Sim.

E este ponto é fundamental porque destrói um dos argumentos mais frágeis contra a possibilidade de um movimento eleitoral ser fascista.

Hitler candidatou-se à Presidência em 1932. Obteve 30,1% na primeira volta. Nas eleições legislativas de Julho de 1932, a NSDAP obteve 37,3% e tornou-se a maior força parlamentar. Em Novembro caiu para 33,1%, mas continuou a ser o maior partido.

Hitler não foi eleito directamente chanceler. Hindenburg nomeou-o em 30 de Janeiro de 1933, na sequência de negociações políticas.

Depois, já no poder, os nazis destruíram progressivamente o sistema democrático: suspensão de direitos fundamentais, concentração de poder, eliminação da oposição, destruição dos sindicatos independentes e proibição dos restantes partidos.

Portanto, afirmar:

"O AfD participa em eleições, logo não pode ser fascista"

é simplesmente um argumento historicamente inválido.

Hitler também participou em eleições.

E o problema do fascismo não era a existência de eleições; era aquilo que o movimento pretendia fazer com o poder conquistado.


9. Fascismo e totalitarismo não são a mesma coisa

Aqui é preciso estabelecer uma fronteira rigorosa.

É possível classificar ideologicamente Weidel como fascista ou neofascista sem afirmar que ela tenha instaurado um regime totalitário.

Totalitarismo não é apenas uma ideologia. É também uma forma de exercício do poder.

Implica uma tentativa de eliminar o pluralismo político e de submeter amplamente a sociedade ao poder político: instituições, comunicação, educação, cultura, organizações sociais e vida pública.

Weidel e o AfD ainda não exerceram esse poder sobre a Alemanha federal.

Logo, não podemos afirmar empiricamente:

"Weidel governa ou governou um regime totalitário."

Não governa.

Mas também não devemos cometer o erro inverso:

"Como ainda não instaurou uma ditadura, as suas ideias não podem ser fascistas."

Podem.

A ideologia pode ser analisada antes da tomada do poder; o carácter totalitário de um regime só pode ser demonstrado plenamente através do exercício desse poder.


10. A verdadeira questão democrática

A questão decisiva não é saber se Weidel acredita em eleições.

Acredita.

Nem sequer é saber se o AfD utiliza mecanismos democráticos.

Utiliza.

A questão é outra:

que direitos considera universais e que direitos considera dependentes da pertença à comunidade nacional que pretende definir?

Porque uma democracia liberal não consiste apenas em contar votos.

Consiste também em reconhecer que o vencedor das eleições não recebe autorização para redefinir arbitrariamente quem é plenamente cidadão, que famílias são socialmente legítimas, que culturas podem pertencer ao país ou que indivíduos merecem diferentes graus de liberdade.

E aqui está o verdadeiro teste.

Se Weidel conquista poder eleitoral, mas mantém intactos os direitos universais, o pluralismo, a igualdade perante a lei e a autonomia individual, então a classificação totalitária não se confirma.

Se, pelo contrário, utiliza o poder para estabelecer uma comunidade nacional hierarquizada, restringir sistematicamente a liberdade de grupos considerados inadequados e subordinar o indivíduo a uma concepção política de nação, então a distância entre o fascismo ideológico e o exercício autoritário do poder começa a desaparecer.


Conclusão

A classificação mais rigorosa não é dizer que Alice Weidel é "Hitler".

Isso seria historicamente grosseiro.

Também não é dizer que o AfD não pode ser fascista porque participa em eleições.

Isso seria historicamente falso.

E também não é dizer que Weidel é actualmente totalitária porque ainda não possui o poder necessário para instaurar um regime totalitário.

Isso seria empiricamente excessivo.

A formulação mais sólida é esta:

Alice Weidel é uma dirigente da extrema-direita radical cujas declarações e propostas apresentam um conjunto substancial e coerente de características estruturais associadas ao fascismo contemporâneo. Por isso, a classificação de fascista ou neofascista é politologicamente defensável.

O AfD combina nacionalismo radical, regeneração nacional, oposição ao multiculturalismo, defesa de uma identidade cultural dominante, política demográfica orientada para a população autóctone, família tradicional como modelo e políticas migratórias fortemente excludentes.

A classificação de totalitarista exige maior cautela, não porque a participação eleitoral seja incompatível com o fascismo — não é — mas porque o totalitarismo é também uma forma concreta de exercício do poder.

E há uma última questão que não pode ser descartada como mero detalhe biográfico:

uma dirigente política pode defender para si a liberdade de viver, trabalhar, constituir família e circular de determinada maneira. O que importa politicamente é saber se considera essa liberdade um direito universal ou uma possibilidade reservada, na prática, àqueles que pertencem à comunidade que ela própria considera legítima.

Se for universal, temos uma democracia conservadora ou radical.

Se for selectiva, temos algo muito mais sério.

Porque a essência do problema não está em saber se Weidel quer ser livre. Está em saber quem, na sociedade que pretende construir, continuará a ter direito à mesma liberdade. 

Mino - 2026

 


domingo, setembro 06, 2026

Tens médico?

  


Agora vão lá votar no Chega e, depois das próximas eleições, conseguirão finalmente ver o SNS fechado de uma vez por todas.

 À pala de uma população pejada de bacôcos, que sobre tudo opinam sem saber fazer um «O» com um canudo, comem os portugueses mais uma sessão de esbulho — à qual, aliás, parecem já estar habituados. Porque é isso que acontece cada vez que a direita pisa o poleiro, apesar de o fazer com tão poucos votos.

 Desde o estéril Botas, passando pelo espumado Cavaco, foram-se o olival, a pesca, a agricultura, o SNS, a educação, a justiça que quase existiu, os direitos laborais e sociais. Foi-se grande parte das liberdades conquistadas.

 E, entretanto, a generalidade da bófia — republicana ou não — intimida a população, enquanto cumpre, tantas vezes, o papel de sabujo do mandante, aproveitando para descarregar sobre quem está abaixo a frustração de só ter servido para aquilo mesmo.

 Mas, seguramente, lá virá o bacôco:

«Ah, mas agora temos uma grande rede viária.»

Pois temos.

 Autoestradas que a população, na sua grande maioria, não pode pagar; combustível quase intocável; e uma ferrovia que até tem servido, sim — mas para aquecer muita casinha, enquanto as travessas são levantadas em trajetos desativados.

 Foram-se os comunistas. Foram-se os socialistas. E, se não abrem a pestana, até a social-democracia desaparece.

 Saiam das redes sociais e levantem a voz na rua. Saiam do sofá e vão para as manifestações. Vão votar. Façam alguma coisa, além de lamentar, com a serenidade de quem foi ensinado que não vale a pena.

 Porque, de outra forma, quando derem por ela já não haverá SNS, direitos ou liberdades para lamentar no aconchego — já não do sofá, mas das janelas fechadas.



Semsol



quarta-feira, setembro 02, 2026

E se fosse o Adriano?

               

                     Adriano talvez a cantasse, 

            se alguém desse forma em Portugal 

                à reflexão que urgia condensar, 

            para tornar mais sãos os dias de hoje.

 

 Semsol

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

2023 - À métrica avesso, que pretendem ética e estética, mas que, longe do burgesso, gesso, nunca poética.

 Mais um ano, 

inusitadas constatações, 

a carga, cada vez mais, 

bagagem. 


A tristeza é uma killer,

a esperança uma faca,

afiada

nos dentes.

Do not laugh, mandatory!


Passar os dias na certeza,

reages apenas nessa dimensão 

que me sobeja,

incapaz do mero 

e reflexivo conspurco.


Na vida, 

aqui crescem, 

escutam,

percebem-se, 

também fora de si.


Jamais me pensei

de tão estéril criatividade,

agora ébrio, por esta 

inimaginável beleza,

capaz de transformar todo o tempo

num momento,

intenso,

sempre breve, 

sempre ansiado.


Vivam 2023!

Mino

segunda-feira, janeiro 11, 2021

16 anos

 Aqui permaneço, no atravessar de uma pandemia sobre a qual muito se falou, muitos se aproveitaram, mas, mais importante, durante a qual tantos nos foram e vão deixando. Contudo, o consolo de saber que quem amo permanece e cresce atenua a angústia que a vida numa realidade severamente condicionada provoca.

Assim, sendo que o atrás descrito constitui apenas um dos aspectos mais relevantes destes últimos 12 meses, um elemento ao qual não estava habituado a prestar demasiada atenção, a saúde do vizinho, diferente acicate me leva a escrever estas linhas: aquele exercício anual de gravar na memória pública as impressões e resultados do trajecto de dito período.

Continuo a tentar estudar. Não obstante, torna-se cada vez mais distante o culminar da carreira de Antropologia. Este ano, pela primeira vez, notei certa quebra na vontade de me construir e não será ao amparo daqueles por quem justifico a vida que a reforçarei. Desde o âmbito profissional ao político, e mesmo no pessoal, entendo que procurar razões que me permitam acreditar não encontra compensação, sobretudo pela dimensão cada vez maior da tarefa.

Ainda assim, quase como o ar que respiro, está, por outra parte, o compromisso, que foi comigo e com a vida, numa primeira fase, mas que, hoje, se traduz essencialmente naquele com as vidas que nesta bola coloquei.

Há 16 anos, havia construído o que a luta de quem não sabia impossível e tentava conseguiu. Agora sei, pelo menos, que não há humano naturalmente capaz de respirar submergido.

Em conclusão (espero que apenas por agora), a felicidade, que considerei estimulada por amar o próximo, tentado, quem sabe, por uma certamente inconscientemente ansiada reciprocidade, deixa apressuradamente de ser convicção; resta ainda como dúvida motivada, uma pergunta da qual, temeroso pela resposta, encontro prematuro deixar de fazer.

Venha 2021!

 

sexta-feira, janeiro 31, 2020

15º Aniversário

Não quería deixar passar Janeiro sem por aquí fazer prova de vida, afinal já passaram 15 anos.
Sem saber que virá depois, continúo a trabalhar, tentando cuidar dos meus com aquelas que considero melhores soluções.
Estudar, aprender, sempre. Não sei quando deixarei de estudar formalmente, suponho que sempre dependerá das circunstâncias. Celebro também, este ano, quarenta (40) anos de trabalho, ainda faltam dezasseis (16) para olhar para o espelho demoradamente.
Aos 17, ao largo da Guiné-Bissau, imenso atlântico, escutava reiteradamente o albúm em baixo:

sábado, novembro 03, 2018

Helicoidal

O azimute que observo inerente à historia, não apenas da sociedade em geral, mas, pessoal, também ou possivelmente porque parte do todo.
Voltar a utilizar este espaço como registo de conclusões preliminares sobre matérias de estudo não deixou nunca de ser opção. Porém, se algo não se previa tangível era a possibilidade de voltar a iniciar um curso superior ou tornar a apostar numa área formativa distinta àquela à qual dediquei a prática totalidade da última década.
Não obstante, considerando a manifesta apetência pela Antropologia, curso frequentado no passado sem consecução, bem como as actuais circunstâncias, necessidades e possibilidades, começo agora uma nova etapa, impondo-me a assunção do desafio que constitui dedicar quatro (4) anos, dos cada vez menos restantes, à aquisição de conhecimento, neste caso o mais multidisciplinar até hoje.
Assim, seguramente voltarei a depositar aqui dúvidas, conclusões equivocadas ou "verdes" e, claro, conhecimento, que é do que se trata essencialmente, mas não só.
Concluindo, a humildade que nos toca à porta quando iniciamos qualquer experiencia sem conhecimento prévio não deixa de ser acicate, estímulo, da coragem que extrapolamos ao quotidiano, ainda que por "inércia", e que, subjaz naturalmente à decisão. Dito aporte motivacional, se consciente (não afirmo que de outra forma não aconteça), contribui para o equilíbrio homeostático e até para o reforço das defesas do organismo, mas, fundamentalmente, reduz a permeabilidade.  
  

segunda-feira, julho 09, 2018

Intelligentia et Immunitas

Sem forma de sequer imaginar prosseguir e culminar a investigação sobre a matéria que dá título a este inusitado texto, apenas como hipótese, essa sim passível de constituir génese para uma tese que reconheceria como corajosa devido ao potencial para suscitar a crítica generalizada e para que conste quanto antes no acervo da elucubração que aquí, de forma mais ou menos acertada, se reserva lugar. Não pretendendo, por outra parte, tomar sentido na poética resposta de Juvenal: "Mens sana in corpore sano" ainda que provavelmente, e uma vez mais, sustentado também no legado de Darwin, considero:

 A capacidade cognitiva parece resultar directamente proporcional à resistência do sistema imunitário.


Mário Pinto

sexta-feira, janeiro 05, 2018

13º aniversário

Um ano passado numa frequência inaudita para os sentidos, chegamos ao 13º aniversário deste bloco de notas que, pela proliferação de diferentes plataformas sociais e afazeres que poderiam levar um adulto a rever-se numa criança (que não concretamente os próprios filos), tem vindo a perder parte da sua preponderância enquanto suporte terapéutico, para este que aquí escreve, mas, seguramente para uma massiva percentagem de utilizadores deste meio. Por tal, assumo a obrigação de, depois deste tempo, reclamar o lugar específico e necessário que o Blog conserva na chamada caixa de ferramentas da homeostase.

 

Venham muitos mais!

sexta-feira, outubro 13, 2017

Confabular

 Sobre a realidade em que pensam viver os portugueses, ou sobre aquela que, através dos mais diferentes meios de manipulação procura o interesse económico acreditem protagonizar, escrevo a modo de terapia este texto.
 Sem escusar lembrar ser português, resido porém, desde há muito (mesmo muito), na diáspora, circunstancia que pode resultar interessante para quem desconhece dita condição ou para outros aos quais a motivação residiu e se mantem, essencialmente no factor material. Aspectos positivos poder-se-iam efectivamente destacar, da mesma forma que tantos negativos mas habitualmente reservados há esfera pessoal do indivíduo emigrante.
 Não obstante, é sobre a perspectiva pessoal que pretendo desenvolver a opinião, sem poder, mesmo atendendo ao escrito acima, afirmar se é ou não positivo opinar sobre um paradigma que, somado à impossibilidade de o experimentar, gera ou provoca emoções ambivalentes.
 Em Portugal, depois de aproximadamente cinquenta (50) anos de ditadura e justamente no seu terminus nasci - em 1970 -, cresci numa sociedade vítima durante mais de duas (2) gerações de um imposto e criminoso obscurantismo, esclavagismo; entre sobreviventes da clivagem económica ou do escamote cultural sofridos e infligidos pelos próprios vizinhos, todos amedrontados. Meio século de mordaça, demasiado tempo sem discutir, demasiado tempo sem dúvidas, e, demasiadas certezas hoje, de quem afirma impossível sequer uma subtil modificação do ADN, do ARN se quiserem, provocada pela repressão nacional salazarista.

 Porém, este meu quadro, é isso mesmo, o meu quadro. Assim, tenho observado como Portugal se publicita diariamente nos meios de comunicação internacionais, que toda ou quase toda dita propaganda, além do procurado impacto global, repercute na mente dos residentes portugueses em Portugal de forma aparentemente bastante positiva, sem deixar de mencionar os, tão inusitados quanto repetidos, êxitos nos mais diversos âmbitos, que desde o desporto à ciência, passando pelo turismo, pelo património, pela política ou, evitando estender-me, pela economia ou o emprego, resultam tão estimulantes quanto um recapturador de serotonina (tão sorridentes em suma quanto despreocupados), quem sabe pela inconsciente procura de identificação, característica própria desta condição de "exilado", encontro inúmeros elementos comuns entre qualquer campanha de marketing empresarial e a forma adoptada para, ao parecer, vender um país como "colónia" balnear low-cost.
 Senão vejamos:

 Excelentes praias, muito sol, circuito mundial de surf, bom vinho e melhor comida.

 Fado, Cante e outros patrimónios como a Xávega.

 Campeões de diferentes modalidades, em confronto directo com as primeiras potencias mundiais.

 Resultados económicos exemplares.

 Grande parte do território queimado.

 Ordenados vergonhosos.

 Custo de vida reduzido, atendendo apenas aos vizinhos europeus.

 Baixo grau de formação.

 Garantias sociais praticamente inexistentes.

 Conjuntamente com estes atractivos factos, mais parece agora que, resgatada qual Ferreira Leite da inacção da 3ª idade, temos como agente comercial uma consagrada artista como a Madonna, quem mexe desde a ministra às redes sociais para conseguir a sua residencia no nosso país (mesmo que uma alegre casinha), mostrando ao mundo o quão convencida está dos beneficios de viver em Portugal. Ainda assim, não quero deixar de considerar o tipo de público que esta senhora granjeou durante a sua carreira e o impacto cultural que pode trazer a sua eleição.
 Mais ao pormenor, vejo também como depois de um histórico de prevaricadores à frente de diferentes governos portugueses, uma esquerda trotskista "social democrata" que pretende substituir-se à natureza permitindo a mudança de sexo aos dezasseis (16) anos quando a essa idade não existe ainda qualquer decisão consciente tomada por Humano algum, que pretende que um paciente terminal e invariavelmente deprimido decida sobre a sua morte; com um partido comunista que obriga os trabalhadores dos museus a trabalhar ao domingo e simultaneamente impede a ampliação do horario ao sábado de uma das maiores fábricas no nosso tecido industrial; a perpétua  defesa do corrupto partido social demócrata, seguramente atendendo à composição de alguns telhados, torna-se quase impossivel olhar para o Portugal futuro sem que nesse quadro apareçam mulheres e homens formados, dobrados, calados, a sorrir, famélicos, todos sãos e impedidos de procriar por ser quase impossível pagar o aluguer de uma habitação com um (1) quarto ou alimentar adequadamente uma terceira boca.
 
 Será apenas a saudade que me leva a esta confabulação ou é esta fábula, transvestida de híper realidade, que me traz este azedume?

P.S. - Penso que aquí começou: http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2014-11-27-Cavaco-Silva-desafia-arabes-a-visitarem-Portugal

                   

domingo, outubro 08, 2017

Era necessário.


Inusitada vontade, esta, a de escrever, de novo, utilizando um meio aparentemente tão impessoal, mas, claro, essa consideração dependerá sempre de cada um de nós, por isso aparente.

 Inesperada a vontade, contudo, sinal claro da pouca atenção aos alarmes que o inconsciente sempre nos envia, quem sabe devido à necessidade de priorizar a tomada de decisões estimulada pelo incontornável pragmatismo a que os dias me obrigam. Porém, é também parte da (ainda) bagagem outra das razões pelas quais surgiu esta necessidade, o carácter que, em permanente transformação, mais que impedir uma análise ajustada da realidade procura, atento aos perigos que ainda sem experimentar determinam os meus heurísticos como evitáveis, adaptar o casco a este imenso e convulso rio ao qual a sociedade chama vida, respeitando o azimute que ratifico a cada ano que passa.

Assim, acredito ser necessário deixar claro neste ponto que, concretamente devido à minha personalidade e à forma e grau em que a trabalhei para minimamente permanecer homeostáticamente estável, não se deve ao abandono de um determinado partido (que não princípios sociopolíticos) ou à mudança para uma nova área de interesse académico que deixei seguramente pelo caminho o membro “Mensa”, aquele que priorizava de forma tão pueril o enriquecimento intelectual.

Em 2013, interdito hoje de me arrepender, tomei em Madrid a estrada que estriba na Praia em que cresci, procurando com a assunção desse desafio desenvolver-me num âmbito em que pudesse recuperar o sorriso que tinha desaparecido como característica daquele que queria conservar. Curiosamente, deparei-me, na sua grande maioria, com homens e mulheres em fraldas, defensores do medo que evita riscos como consequência de qualquer tomada de posição, como toda a tentativa de ser. Ora a conclusão foi fácil e rápida, ou insistia e, mais que ajustar o casco, me deixava levar nessa corrente que a todos parecia resultar cómoda ou, pelo contrario, lutava contra essa percepção da realidade procurando provar as ferramentas que havia utilizado durante a vida e a sua utilidade real à época. Certo foi que, como a qualquer de nós acontece, descartei muito poucas das soluções que trazia experimentadas, adoptei algumas outras (muito poucas) que se exigiam formuladas pelas circunstâncias, mas, em realidade, reneguei ainda mais os factores premiados pela sociedade e que até então conhecia sem preocupação de os exaltar na conduta.

Em conclusão, depois de nestes cinco (5) anos caminhar trilhos jamais imaginados mas quase sempre identificados antes de os encetar, descartadas que estão as drogas prescritas pelos especialistas da mente, a preocupação que manejo agora é o arraigo, elemento que se tornou fundamental para voltar a partir, já não fisicamente; geograficamente, senão em busca do Mário capaz de criar nos seus filhos a memoria que considero lhe interesse quando já não estiver. Assumindo-me bastante menos intransigente (constatação que constitui só por si uma alegría) e menos jovem, sei que difícilmente obrigarei os meus filhos a lutar contra muitos dos meus fantasmas, hoje mantive a primeira conversa sobre a realidade com a minha filha.

quinta-feira, agosto 31, 2017

Arando

 Depois de voltar da aventura existencial mais egoísta e carente por vontade própria de prévia e profunda análise que alguma vez assumira, trato estes días de retomar a piolet o azimute que mais grato considera hoje este que aqui se estende.
 Nesse âmbito, no passado, um dos elementos centrais no Gestalt pessoal foi a aplicação de uma máxima leninista: "-Aprender, aprender sempre!", característica que, de impossibilitado usufruir chega a provocar certo desequilíbrio homeostático, nada extraordinário mas incómodo. Por outro lado, atendendo à realidade global, diria porém que, não seria nunca este mal que à civilização inquietara, com total legitimidade.
 Assim, situado que está o texto no contexto da plataforma e no tempo, quero deixar registo, hoje, que voltei a estudar aos quarenta e sete anos (47) e alguns meses. Por si, a decisão de voltar à faculdade, apesar de apenas reiterar o supracitado, merece que a assinale por levar em si o reflexo das transformações, assumidas (outras nem por isso), que a viagem preconizou na forma eleita para construir o caminho. Apaixonado pela psicologia, é também no pragmatismo que dita ciência defende que justifico o abandono desta área académica para enveredar pelo estudo do direito, das leis e, em essência, também do Homem.  
 Concluindo, espero não encontrar doravante muitos mais escolhos ou grandes adversidades capazes de criar um ser algo frustrado dentro de alguns anos. Contudo, o gozo que já proporciona assumir este tipo de risco, sem dúvida que o justifica.

quarta-feira, julho 05, 2017

Do tempo

Preocupante constatação, o resultado da análise de população por faixa etária entre 1911 e 2011. A juventude envelheceu; entre os 25 e os 64 anos concentra-se o grosso dos humanos na demarcação lusitana (mercadoria para locação dentro do período de caducidade), os idosos mostram agora figuras directamente inversas àquelas alvitradas pelos menores de 25 a principios do século passado.
Por outra parte, a erosão do tecido social em municipios litorais, com menos de 18.000 habitantes, revela claramente que a emigração é uma necessidade em que aqueles por tantos votados colocaram os portugueses. Porém, revela ainda outras muitas realidades em que não abundarei numa plataforma com estas características, apenas dois ou três apontamentos sobre alguma que outra que excepcionais: A eutanásia, crime infantil, exacto, crime infantilóide, e a reforma, aos 70, factores essenciais para que a prática totalidade da espécie exista somente enquanto produtor.
"As cheap as we can"


domingo, janeiro 08, 2017

12º Aniversário

Este ano foi curto, muito curto, o objectivo é imenso, maior que uma onda da Nazaré, quase do tamanho da vida. Porém, a paternidade é o acicate primário do empenho colocado na progressão constante mas da permanente preocupação na recolha de elementos úteis que o caminho nos ofereça, aceitando que a utilidade é sempre subjectiva, como o tempo.

sábado, janeiro 07, 2017

O mais representativo

É de facto mais uma referencia da minha realidade que desaparece, não apenas no aspecto político, mas, essencialmente. Não querendo constituir-me arauto da defesa de decisões de outros, devo porém assumir que o cenário governativo actual no meu país revela uma elasticidade democrática da população sufragista que coloca o raciocinio colectivo dos meus conterráneos na vanguarda da realidade da sua área de influencia. Quando criança, frente ao externato em que estudava existía um restaurante no primeiro andar no qual o meu pai almoçava com certa frequencia, tinha janelas para a Prior do Crato (Colégio) e outra varanda virada para o jardím onde brincavamos os putos da "Praça da Armada", do qual também usufruiam a casa em que nasci e o quartel da Armada onde finalmente assentei praça. Em referido restaurante, almoçava também um personagem que nos chamava a atenção pelo Citrôen "Boca de Sapo" negro que então nos parecía extraordinário, era o Mário Soares, que então assumia responsabilidades no Palácio das Necessidades, em cuja igreja foi baptizado o meu filho, anos depois da minha breve passagem pelos Escuteiros que ali se sediavam. Anos mais tarde, mesmo depois de assistir ao afastamento do meu pai da actividade política militante, pude entender o que aquilo era e soube então das suas reuniões em diferentes locais de Lisboa, de modo reiterativo no "Retiro do Quebra-Bilhas", socialistas todos, partilhando a vontade de um Portugal de outra dimensão. Assim, não tendo o meu Pai aludido a qualquer proximidade com o falecido Soares mais que a supra relatada, que não obstante comungavam na inquietação e solução sociais e políticas, poderia afirmar que faleceu o publicamente mais representativo constructor da actual democracia portuguesa. Ainda não tenho a certeza se é realmente "preferível um a mau acordo a nenhum acordo", sei que o nosso país não está tão mal quanto há quarenta e três (43) anos.

domingo, maio 17, 2015

Na Lisboa de onde venho.


Sem que as imagens sugeridas na música abaixo reproduzam qualquer experiência pessoal, antes a percepção de comportamentos interpretada de maneira similar, aquelas que colhí esta manhã no jardim onde crescí reiteram motivações dispersas pela necessidade ou equívoco.  
 
Vejo a fotografia do cenário da minha infância, na secular perspectiva transcendentalista e noutra, mais pessoal, que também lá está, com mais luz.

 
Vejo, estimulado, que a Árvore à qual subia em menino, apesar de amputada de alguns braços em que me apoiei, rebentou a moldura de pedra na que a tentaram enclausurar e cresce!

 
 Lamentável é a água do tanque estar tão suja.
 
 

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