quinta-feira, agosto 21, 2008

Apostar pela "Inferência"?

O Obscurantismo é um hábito absolutamente anti-ético de ocultar factos e argumentos que possam denunciar ou contradizer, actos, opiniões, argumentos e afirmações de certos grupos que se arvoram donos da verdade. O obscurantismo é uma actitude, política, religião ou doutrina que se opõe a difusão dos conhecimentos científicos entre as classes populares. Obscurantismo, é um estado de espírito oposto à razão e ao progresso intelectual e material; um desejo de não instrução, um estado de completa ignorância; doutrina contrária ao progresso.
Por outra parte, a ética tem sido aplicada na economia, política e ciência política, conduzindo a muitos distintos e não-relacionados campos de ética aplicada, incluindo: ética nos negócios e Marxismo.
Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, pode não ser bom para a gazela, e, o que é bom para a gazela, fatalmente não será bom para a leoa. Este é um dilema ético típico.
Moral e ética não devem ser confundidos: enquanto a moral é normativa, a ética é teórica, e buscando explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns.
Em ética a liberdade costuma ser considerada um pressuposto para a responsabilidade do agente, para o desenvolvimento de seu ambiente, de suas estruturas para conseguir, no final, satisfação para o meio.
Em filosofia, "liberdade" designa, de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, liberdade é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários.
A liberdade humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade. O homem só não é livre para não ser livre, está condenado a fazer escolhas e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva que surgem escapatórias através das actitudes e paradigmas de má-fé, onde o homem se alheia da sua própria liberdade, mentindo para si mesmo através de conductas e ideologias que o isentem da responsabilidade sobre as suas próprias decisões.
A palavra alienação tem várias definições: cessão de bens, transferência de domínio de algo, perturbação mental - na qual se registra uma anulação da personalidade individual-, arrombamento de espírito, loucura. A partir desses significados traçam algumas directrizes para melhor analizar o que é a alienação, e assim buscar alguns motivos pelos quais as pessoas se alienam. Ainda assim, os processos alienantes da vida humana foram tratados de maneira atemporal, defraudada, abstraída do processo sócio-econômico concreto.
A alienação trata-se do mistério de ser ou não ser, pois uma pessoa alienada carece de si mesma, tornando-se a sua própria negação.
Karl Marx, filósofo alemão, se preocupava muito com a questão da alienação do homem, principalmente em duas de suas obras, “Os “Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844” e “Elementos para a Crítica da Economia Política” (1857-58)”, nos quais procurava demonstrar a injustiça social que havia no capitalismo, afirmando que se tratava de um regime econômico de exploração, sendo a mais-valia uma grande arma do sistema. Assim, a alienação manifesta-se a partir do momento que o objecto fabricado se torna alheio ao sujeito criador, ou seja, ao criar algo fora de si, o funcionário se nega no objecto criado. As indústrias utilizam de força de trabalho, sendo que os funcionários não necessitam ter o conhecimento do funcionamento da indústria inteira, a produção é totalmente colectivizada, necessitando de vários funcionários na obtenção de um produto mas nenhum deles dominando todo o processo - individualização.
Por isso, a alienação no trabalho é gerada na sociedade devido à mercadoria, que são os produtos confeccionados pelos trabalhadores explorados, e o lucro, que vem a ser a usurpação do trabalhador para que mais mercadorias sejam produzidas e vendidas acima do preço investido no trabalhador, assim rompendo o homem de si mesmo. "A actividade produtiva é, portanto, a fonte da consciência e, a ‘consciência alienada’ é o reflexo da actividade alienada ou da alienação da actividade, isto é, da auto-alienação do trabalho."
No entanto, a produção depende do consumo e vice-versa. Sendo que, o consumo produz a produção, e, sem o consumo, o trabalhador não produz. A produção consome a força de trabalho, também sustentando o consumo, pois cada mercadoria consumida transforma-se uma mercadoria a ser produzida. Por conseguinte, ao se consumir um produto que não é por si produzido fecha-se o ciclo de alienação. Considerando que, quando um produto é comprado estará alimentando pessoas por um lado e por outro colaborando com sua alienação e sua respectiva exploração.
Por outra parte, há também a questão de alimentar a alienação, sendo outro aspecto prejudicial em relação ao consumo, referindo-nos à propaganda dos produtos, ajudando a manipular os homens, tendo como objectivo relacionar o produto com o consumidor e seu entorno, apropriando-se da sua vontade e atingindo seu propósito a partir do momento que o produto é consumido, provocando uma sensação de humanização aquando da sua aquisição.
Em síntese, para melhor compreender o problema da alienação é importante observar duas paradoxas: Por um lado, ocorre a ruptura do indivíduo com o seu próprio critério e acontece uma síntese de ruptura que apresenta novas possibilidades de diminuir dita alienação. Noutro sentido, apresenta-se como uma contradição externa, sendo que, o capitalismo, ao inibir o individuo de usufruir em pleno das suas características humanas, leva-o a lutar pela reapropriação da sua condição.
Após confrontar a economia política, lançando pela primeira vez o termo “alienação no trabalho” e suas conseqüências no cotidiano das pessoas, Marx expõe pela primeira vez a alienação da sociedade burguesa – fetichismo, que é o facto da pessoa idolatrar certos objetos (automóveis, jóias, etc). O importante deixam de ser os sentimentos, a consciência, os pensamentos, mas sim o que a pessoa tem. Sendo o dinheiro o maior fetiche desta cultura, tornando os bens materiais no verdadeiro semi-deus Aristotélico, elevando o estatuto dos elementos do seu grupo a deuses, aqueles que lhe permitem fazer parte da tribu que é o entorno socio-cultural no qual se insere.
Muito importante também, é destacar que a alienação se estende por todos os lados, todos os dias, mas que não se trata de produto da consciência coletiva. A alienação somente constrói uma consciência fragmentada, que vem a ser a visão que a maioria das pessoas tem de um determinado assunto, algumas alienadas sem saber e outras que, amedrontadas, não esboçam nenhum posicionamento.

“O maior dos castigos é ser-se governado por quem é pior do que nós, quando renunciamos a governarmo-nos nós mesmos.”
Um ser humano que, por assumir-se como tal, com um gesto, desvirtúa o discurso obscurantista fascista.
Mas, a situação não é, hoje, - ainda que maquilhada pela demagogia - similar?

Os criadores de arte necessitam abstrair-se, derivado dessa necessidade, o resultado é descubrir uma realidade que está mesmo aí, debaixo do tapete.


(Excertos de alguns textos e traduções em Português do Brasil, corrigidos e complementados)

6 comentários:

Ana Camarra disse...

CRN

Ainda bem que continuas, apesar dos pesares...
Ainda bem que alertas, questionas, acordas, sacodes...
(Ainda bem que colocaste AQUELA música dos REM, tu não sabias mas adoro)

Pois estou perguiçosa com as férias mas deixo aqui:

O Grande Capital
Composição: Sérgio Godinho

Pois é, o grande capital
É o tal do gostinho especial
Gosto a limão
Gosto a cereja
Gosto a opressão
Numa bandeja.
Gosto a opressão
Numa bendeja.

O grande capital
Está vivo em Portugal
E quem não o combate
É que dele faz parte

O grande capital é fino
Ou pisa a terra ou faz o pino
Ou mostra o dente
Ou é discreto
Uma pla frente
Outra plo recto
Uma pla frente
Outra plo recto.

O grande capital
Está vivo em Portugal
E quem não o combate
É que dele faz parte.

Dizem que o ódio é baboseira
E que a raiva é má conselheira
Mas nós com o grande capital
Damo-nos mesmo muito mal
Damo-nos mesmo muito mal.

O grande capital
Está vivo em Portugal
E quem não o combate
É que dele faz parte.


Beijões

CRN disse...

Olá Ana,
Está vivo em Portugal e quem não o combate faz parte dele, quem faz demagogia, defende-o, quem cria um espaço para atenuar a critica ao mesmo, faz parte dele, quem se erege como critico dos seus verdadeiros criticos ou quer um lugar ao sol ou se considera, no fundo, seu filho.
Ainda bem que restam seres humanos, como tu, e partidos como o nosso, que esse teu reencontro sirva para continuares.

Cumprimentos.

poesianopopular disse...

É uma luta desleal, contra um adversário, que não olha a meios, para eles vale tudo, desde o explorar até matar, e ainda conseguem alienar gente, que devia combater do nosso lado, por vezes sinto alguma dificuldade em compreender o ser humano, mas depois vêjo tantos camaradas cuja garra é exemplar, é quando eu penso, que o nosso exemplo vai ter mais seguidores, à medida que o tempo passa, as pessos começam a acreditar que é possível, deixar-mos de ser domesticados, e passarmos a ser livres, donos do nosso querer e da nossa vontade.
O teu exemplo, é um grande contributo, bem hajas por isso.
Abraço

Zorze disse...

" O surdo-mudo tem capacidades extraordinárias de compreender os outros e até à distância, através da leitura dos lábios - sentido teórico. Mas quando sai à rua não ouve a simples buzina de um carro - sentido práctico. "

Caro CRN, concordo quase na totalidade com o teu post, que está bastante abrangente do ponto de vista qualitativo e quanto à desperticidade consciencial.

Queria só acrescentar que a moral antes de ser normativa é um costume e que a ética antes de ser teórica deveria ser um princípio.
O mundo evolui, quando falas do grande capital, hoje existe um refinamento do conceito e com muitas variantes subtis. Algumas delas quase invisíveis mesmo ao mais perspicaz. Tens rótulos diferentes que eu uso, mas, a clarividência é próxima. A diferença é que eu apenas constato e interpreto o presente em que vivemos sem definições de terceiros que viveram outras mesologias.

Gostei de rever o vídeo da Sra. Odete, mulher por quem tenho admiração pessoal. O vídeo de Chaplin está muito bom, num humor directo deixa uma mensagem subliminar que muitos não atingem.

Abraço,
Zorze

CRN disse...

Olá Poesianopopular,
A minha aportação é apenas uma gota de água num imenso oceano, se não houvesse pessoas que me oferecessem o beneficio da duvida, seguramente, de pouco valeria.
Fundamental é formar um rio de gotas que nos lave a cara e nos permita acordar.

Cumprimentos.

CRN disse...

Olá Zorze,
Sempre que exista consciência, a proximidade é inerênte a essa particularidade comum, cada vez mais rara.
"Terceiros de outras mesologías", os meus pais, sem que tal signifique o perpetuar da sua filosofia, foram um livro que estudei desde outra realidade e que, em determinados âmbitos, continua a valer como o tratado práctico essencial de relação. No meu caso, o código de processamento interno, a comunicação sináptica, pode condicionar - só por diferente, como o de cada um de nós - a compreênsão da mensagem que pretendo transmitir, levando-me dessa forma a desenvolver o discurso com base em lugares comuns à maioria dos seres humanos que compartem (desde um ponto de vista antropológico) a mesma realidade sócio-cultural.

Cumprimentos.